Arquivos Diários: 20 junho, 2010

O ANO DA MORTE DE SARAMAGO por hamilton alves / ilha de santa catarina

Não imagino como possa ter sido o diálogo travado entre Saramago e São Pedro, quando passou pelas cercanias do céu sem pretender ter-lhe acesso, dado seu ateísmo irremovível.

Suponho que deva ter sido mais ou menos o seguinte:

– Você por estas bandas? – disse-lhe São Pedro.

– Estou chegando um pouco tarde por estes páramos para conhecê-los de perto, já que na Terra é-nos impossível fazer uma ideia perfeita de tudo isso.

– Como fez a travessia?

– Meio aos trambolhões, como era esperado; enfim, mal ou bem, aqui estou – e, pior, sem opção ou sem rumo ainda definido. Os caminhos se bifurcam, como no memorável conto de Borges.

– Você continua aferrado a seu ateísmo?

– Como crer em Deus no mundo de que vim, com toda aquela atroz injustiça, com uma desigualdade desmedida, com ódios atrozes e invencíveis, conflitos entre nações. Como admitir que Deus o teria criado?

– Mas Deus nunca pretendeu o mundo assim. Os homens é que livremente o escolheram tal qual é.

– Temos que convir que é uma obra imperfeita, a admitir-se que foi de autoria de Deus.

Os dois silenciaram, o santo sentou-se numa banqueta, sem querer aprofundar o tema (sabedor que tudo deveria ser como é dentro do conjunto dos fenômenos gerais), Saramago continuou de pé.

– Que caminho pretende seguir?

– Quantos caminhos existem?

– Dois, como sabe.

– Não há uma terceira alternativa?

– Não.

Saramago mostrou-se um pouco contrafeito de se deparar com apenas duas opções.

Entregou-se a uma profunda reflexão, enquanto o santo o olhava com certa piedade, no desejo de guiá-lo a escolher o melhor.

– Para um ateu não tem saída. É como se diz lá embaixo: preferem-se o céu pelo bom clima e o inferno pelas boas companhias. No céu, não tenho esperança de encontrar gente no meu estilo ou com quem me afine. Só com santos…

– Você pode escolher uma zona neutra, nem lá nem cá.

Saramago mostrava-se exausto de uma longa viagem, quando deu, à porta do inferno, com os dizeres tétricos, que lhe fizeram estremecer no mais fundo de si:

“Vós que entrais perdei toda a esperança”.

– Que fazer? – perguntou-se.

– Deus é magnânimo, José; basta um ato de arrependimento para merecer o céu.

Anoitecia. O céu e arredores iam se aprofundando na escuridão

– Tem pelo menos uma cama para descansar por aí?

– Não faça cerimônia; é o que tem de sobra.

Não foi uma escolha nem pelo céu nem pelo inferno, mas por um dormitório nas vizinhanças.

VERA LÚCIA KALAARI e sua poesia / portugal

Não.

Não poderei fazer de ti

Um só poema.

Não poderei jamais cantar

Este desejo,

Este anseio que tenho por ti.

Desvendar-te tudo qu’escondo

E obter de ti,

Palavras de plenitude e d’esperança.

Porque p’ra ti,

Seria como trair um bem

Seria  matar essa imagem

Que não vive no teu corpo

Mas só no teu coração.

Seria desejar… e não amar…

Seria enganar tanta imensidão…

Seria dar corpo a uma alma

E tirar a vida à própria vida.

Ah… Como desejava que  quedasses à minha espera,

Logo, ao cair da noite,

Não com a fé de quem espera uma miragem

Mas com a ânsia férrea dum macho qu’espera a sua fêmea

Para juntos rolarem pelos espaços infinitos

Corpos unidos, lábios colados,

Na agonia lenta que explode num turbilhão d’estrelas.

Por isso, amor, não…

Não poderei escrever de ti um só poema…



.

Senhor:

Embora não creia que m’escutes,

Embora não entenda a tua voz,

Embora te procure e não t’encontre,

És ainda a palavra escutada de menina,

Que invoco, que invoquei,

E volto a repetir agora.

Senhor:

Qu’eu seja um campo virente

Coberto de erva e flores viçosas…

Ou vento uivante…Ou aragem que corre mansamente.

Que seja chuva caindo nos beirais

Ou nuvem correndo pelo céu…

Que seja rio cantando sem destino,

Ou barco vogando

Que seja um raio rasgando a escuridão,

Que seja tudo ou nada

Tudo o que se veja

Ou tudo o que não se veja.

Que seja terra ou seja ar,

Que seja alegria ou seja dor

Que seja ódio ou seja amor

Que seja tudo, tudo, tudo,

O que tu quiseres

Por muito humilde que seja.

Mas não me deixes ser fraca nas minhas convicções

Não me deixes deixar de acreditar naquilo em que acredito

Deixa-me continuar a ser eu, sempre, eu mesma…

Rumorejando (A frase do publicitário Carlito Maia,” Brasil, fraude explica”, rememorando) – por juca (josé zokner) / curitiba


PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (De diálogos complementares, aparentemente com dúvida crucial).

-“Homem tem que ser durão!”
– “Tem que ser. E estar, não ?”…

Constatação II

Não se deve confundir bê-a-bá com bafafá, até porque, mesmo que o governo não proporcione escolas para todos,visando alfabetizar a população, não acontece absolutamente nada, muito menos um impensável bafafá

Constatação III (Repetitiva).

Se a situação continuar assim, a curto prazo, o nosso dinheiro ficará assim-assim, quer dizer, mais curto…

Constatação IV

Disse a carente mulher pro marido marxista: “O teu mentor, o teu grande guru, a quem você não pára nunca de citar, disse: ‘A cada um de acordo com sua necessidade; de cada um de acordo com sua possibilidade’. Então tome logo essas coisas, chamadas viagra, cialis, ou levitra, inventadas pelos teus desafetos capitalistas, pra podermos ir pra cama duma vez”.

Constatação V

A globalização é uma “espécie de ajuda mútua e recíproca” que desajuda os que mais necessitam de ajuda e ajuda os que menos necessitam de ajuda. Tenho dito!

Constatação VI

Depois que a namorada lhe deu o fora, o cara estava se sentindo um lixo com tal intensidade, mas com tão grande intensidade que cuidava, ao colocar o lixo doméstico na calçada, que não coincidisse quando o caminhão da limpeza pública passava com medo que o levassem também.

Constatação VII (Tuteando, como gaúchos e catarinenses).
Querida! O teu aspecto
Meditativo, sentada no trono,
É tão circunspecto
Que até pareces um mono.

Constatação VIII

Tocava tão mal, tão mal, mas tão mal que aquilo já não era martelar o piano, era surrar mesmo.

Constatação IX

Não se deve confundir FMI – Fundo Monetário Internacional com FBI – Federal Bureau Investigation, muito embora certos países, que têm que recorrer ao primeiro para conseguir um empréstimo, mereceriam ser investigados pelo segundo, ou assemelhados, para detectar e aclarar como foi que chegaram a um nível de endividamento e situação tais em que se encontram que os levou a recorrer ao primeiro.

Constatação X

Rico solve seus altos compromissos na promoção do crediário; pobre, gagueja na prestação.

Constatação XI (Teoria da Relatividade para principiantes).

Para quem é um destrambelhado, a pessoa que é ordeira é neurótica.

Constatação XII

Salvo maior engano, a situação está ficando “salve-se quem puder”.

Constatação XIII

“A odontologia é uma profissão que exige, dos que a ela se dedicam, o senso estético de um Artista, a destreza manual de um Cirurgião, os conhecimentos científicos de um Médico e a paciência de um Monge”. Papa Pio XII.
“O aposentado é uma condição que exige, dos que se aposentaram pelo INSS, o senso estético da Amélia que ‘achava bonito não ter o que comer’, a destreza manual para fazer ‘Das Tripas Coração’, conhecimentos científicos para sobreviver como um ‘Perdido no Deserto’ e a paciência de quem crê que ‘Devagar Se Vai Ao Longe’”. Leigo José Zokner (Juca).

Constatação XIV (De conselhos úteis).

E nunca esqueçam, prezados leitores, que sempre, a toda hora, a todo o momento, haverá, em algum lugar, alguém que, pela própria irremediável condição humana, te estará pichando. Diante dessa terrível obviedade, limite-se, apenas, a menear os ombros. De nada !

Constatação XV

Quem superestima sua suposta inteligência é um burro.

Constatação XVI

E já que falamos no assunto, em certos países, há os que têm inteligência superior, mas, por uma série de condições, ela acaba se finando; há os que não têm inteligência superior, mas têm condições, principalmente financeira, o que dá para ir tranqüilamente levando; outros mais, têm condições financeiras e inteligência superior só que a televisão vai solapando. E por aqui, no fim desta constatação, vamos ficando…

Constatação XVII

Paquerou o mulherão do açougueiro. A carne é fraca…

Constatação XVIII

Quando este assim chamado escriba frequentava os jogos de futebol e o goleiro deixava passar uma bola fácil, a torcida gritava o substantivo ou adjetivo “frangueiro” e a mídia se reportava que “o goleiro comeu ou engoliu um frango”; Mais tarde, os cronistas passaram a dizer “tomou um frango”; Nos primeiros jogos da presente Copa, a mídia assinalou: “Goleiro da Inglaterra franga”. Como vimos de substantivo e adjetivo evoluiu para um verbo, o verbo frangar que se conjugado seria algo assim: Eu frango, tu frangas, ele franga, nós frangamos, vós frangais, eles frangam. Frangamente, digo francamente, essa turma já não tem mais o que inventar. Cáspite!

Constatação XIX

A Sociedade, está segmentada em compartimentos. As elites dirigentes se constituem em feudos, embora já não vivamos num regime feudal. Aqueles que não fazem parte das elites dirigentes são os “feudidos”.

Constatação XX

As raças negra e amarela e, também, os índios não envelhecem. Militar, os que fazem a carreira, tampouco.

Constatação XXI (De diálogos conjugais).

“Eu fico desesperado(a) quando o meu calcanhar começa a engrossar”.
“E eu fico desesperada(o) quando você começa a engrossar”.

Constatação XXII

Primeiro o curitibano marcava encontro para antes ou depois da chuva; agora, é depois que o nível da água da enchente baixa.

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I

Diz-que-diz
E celeuma causou
Na nação
O presidente
De certo país
Quando falou,
Que o seu parente
Da administração
Não participou.
Porém
Será que alguém
Nele acreditou ?

Dúvida II

Alguém tem dúvida, crucial ou não, que o Dia Internacional da Mulher foi proposto por um machista ? E alguém tem dúvida que o dia foi criado para levá-las na conversa, já que as barbaridades que são feitas contra elas em nenhum momento deixaram de acontecer, obrigando, até, a criação de uma delegacia específica para apresentação das suas queixas, como é o caso da Delegacia da Mulher ?

Dúvida III (Via pseudo-haicai).

Quando alguém grita
Você, de raiva,
Fica verde caturrita ?

Dúvida IV

Diamante,
Não é à-toa que rima
Com amante ?
Ou é amante
Que, não de graça,
Rima com diamante ?

Dúvida V

Homem feliz é aquele para o qual ninguém vem contar uma fofoca ?

Dúvida VI

Hoje em dia, os agradecimentos, pedidos de desculpas, de licença ficaram implícitos e não precisam mais ser expressos ?

Dúvida VII

Foi a dália que falou da camélia pra boca-de-leão: “Ela não é flor que se cheire” ?

Dúvida VIII

Deu nos jornais: “Governo tira um imenso montante da área social”. Alguém aí tinha alguma dúvida ou ingenuamente achava que iriam cortar os salários dos deputados e senadores ?

Dúvida IX

Foi a centopéia que foi ao pedicuro a fim de fazer os pés e ainda teve a ousadia de pedir um desconto ?

Dúvida X

Lágrimas de crocodilo
Ela derramou
Quando reparou
Nos jornais
Que a rival,
Que jamais
Tivera igual,
Aumentou
Muito mais
Que um quilo ?

Dúvida XI

A confidência a Deus, via confissão, será que chega ao seu destino ?

Dúvida XII (Via pseudo-haicai).

A tosse comprida
Encurtou seu beijo
À prometida ?

Dúvida XIII

Levou uma finta
E caiu estatelado,
Em cima do apitador,
No gramado,
O jogador
Com muita pinta ?

Dúvida XIV

Quando o grande cantor lírico proferiu a frase: “Não se canta com a garganta. Se canta, com a cabeça”, qual seria, afinal, o tipo de cantar a que ele estava se referindo ?

Dúvida XV

Os prezados leitores já imaginaram se a Coréia do Norte tivesse feito o seu gol no começo da partida e não no fim contra o Brasil?

Dúvida XVI

Corre pela Internet “que não se deve abrir um e-mail onde aparece a candidata Dilma nua porque pode ser verdade”. Nesse raciocínio, nós brasileiros não teríamos, além da rivalidade, um motivo a mais para torcer contra a Argentina, tendo em vista a promessa do Maradona de ficar nu se os hermanos forem os campeões?

ATIRE NO MORENINHO ENGRAÇADO – por alceu sperança / cascavel.pr


Como a Europa ficou rica? Pilhando outros povos, inclusive o daqui.

Em 1493, o papa Alexandre VI deu o que não era seu à rainha Isabel e ao rei Fernando de Espanha, com a “Bula da Doação”: todos os territórios “descobertos e ainda por descobrir, cem léguas a Oeste e ao Sul dos Açores em direção à Índia”, ainda não controlados por qualquer rei ou príncipe cristão até o Natal de 1492.

Na corrida entre Espanha e Portugal, este quintal ficou com os portugueses, cujas minas e demais riquezas foram emseguida, depois de negócios ruinosos do trono lusitano, transferidas à Inglaterra. Desde então somos dominados pelo Norte do mundo, seus bancos e suas transnacionais.

Os europeus roubaram à larga as riquezas daqui. Construíram seus palácios e catedrais, sustentaram o luxo de seus soberanos e nobres, industriais e financistas. Por fim, ao fechar o século XIX, exportaram seus pobres para cá.

Hoje, brasileiros obrigados a fazer pousos de escala na Espanha são maltratados e ofendidos. O moreninho é confundido com terrorista ou cão sarnento. Nenhum reconhecimento por todas as maravilhas que construíram com as riquezas pilhadas na América Latina.

Seu rei manda um latino-americano eleito pelo povo calar a boca. Seus compatriotas, assim como também ingleses, franceses etc, humilham os latinos, insultam e barram africanos e asiáticos.

Seu mundo está ameaçado por uma crise que seu sistema criou, mas eles a atribuem aos pobres dos demais continentes. Seus valores desabam, suas falsas noções de espiritualidade, humanismo e democracia despencam ladeira abaixo. Culpa do moreninho que fala engraçado.

A história é pródiga em exemplos de civilizações arruinadas por seus próprios erros e contradições. No auge da acumulação de riquezas, depois de tanto pilhar, matar, oprimir e humilhar, os impérios da antiguidade – gregos, romanos e bizantinos – sucumbiram frente às invasões dos escurinhos de fala engraçada: bárbaros orientais, hunos, mongóis, turcos.

Os novos bárbaros, como dizia Jean-Christophe Rufin, nada querem, a não ser usufruir a “democracia” e a “liberdade” tão festejadas por eles.

Para financiar essa “democracia” e essa “liberdade”, liquidaram as populações da América: os mais de 70 milhões em 1492 se reduziram a cerca de 4 milhões alguns séculos mais tarde.

Depois de impor a globalização, endividar os países sulinos, enfraquecendo-os e lhes impondo ditaduras sangrentas e cúmplices, impõem-lhes barreiras para sustentar uma agricultura fracassada.

Marx já dizia, há mais de 150 anos: “As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio, a escravização das populações indígenas, forçadas a trabalhar no interior das minas, o início da conquista e pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada comercial de negros são os acontecimentos que marcam os albores da era da produção capitalista”.

Então criaram a “fronteira móvel”. Invadem um país e desgraçam seu povo se entendem que os interesses em torno de petróleo, minérios e água valem mais que as falsas noções de democracia e liberdade.

Mas quando os novos bárbaros resolvem movimentar em direção a eles a “fronteira humana”, a resposta é o chauvinismo, o nacionalismo irracional, o desprezo e o rancor aos moreninhos de fala engraçada.