Arquivos Diários: 26 junho, 2010

Estudos simbólicos sobre o público – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr


A multidão é a mesma,

mas o poeta  fala sem amplificação

para um exército de  nucas indiferentes,

enquanto o ídolo está de frente para os rostos e aplausos.

Saiba, os pedantes são os alicerces econômicos da cultura.

Cruza o inferno até uma editora,

o impostor com a mesma gravata púrpura dos demônios,

quem pode pagar anjos mercenários com seu cartão de crédito,

o movimento com Sarissas:Um novo inseticidas

com um novo príncipe ativo.

Ou um Virgílio,

mas Virgílios são tão raros como Dantes

Cantores abóiam,

já os escritores tem que dissolver a manada

e fazer que cada vaca encontre um canto e leia seu livro.É uma tarefa mais árdua.

A platéia é aviário de águias recém-nascidas,

ávidas por engolir  cobras e lagartos

jogadas por alguns rebeldes.

Já de uma ovelha no palco, só aceita doces.

Como morsas,

nas livrarias e bibliotecas, os livros dos vivos lutam contra os poderosos mortos

pelo feio harém de intelectuais.

Geralmente os jovens livros dos vivos são expulsos. I’ll be back.

Lembra,a inteligência santifica a inteligência,

criar é uma insinuação para o eterno.

ESSE HOMEM de vera lúcia kalaari / portugal

Queria esse homem escondido em ti mesmo,

Esse homem  de que tu és apenas uma sombra…

Queria os teus silêncios e os teus sonhos

E essa melancolia que t’envolve como um véu…

Queria o gesto vago que fizeste

Como quem afugenta uma lembrança amarga…

Queria o afago indiferente dos teus dedos

Desfolhando um livro ou escrevendo um poema…

E os pensamentos que às vezes passam um instante

Nos teus olhos, fazendo-te, medroso, cerra-los um pouco

Para que não escape nada

Queria tudo de silencioso e íntimo, de impreciso e distante

Que ocultas, avaro, em tua grave solidão,

Essa solidão que mesmo nos instantes mais livres

E mais despreocupados, é a atmosfera que respiras,

A nuvem em que t’escondes,

Tua agreste e invisa solidão.

Queria as palavras que não dizes, que não vêm aos teus lábios,

Mais do que num leve e breve sorriso meio triste…

Queria um beijo da tua boca, em tua boca.

Um beijo em que estivesses fremente e palpitante,

Com os teus anseios e os teus mistérios revelados,

E teu corpo ardente estremecendo

De amor intenso, de entrega absoluta,

Na ânsia de revelar-se, de dar-se, de doar-se completamente…

Queria esse homem escondido em ti mesmo.

JOGO de CONSELHEIROS por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

No meio da torcida lusitana, que ocupava mais da metade do estádio, o poeta Fernando Pessoa tirou uma pestana. Atraído pelo que deveria ser um dos melhores jogos da 19ª Copa do Mundo, o escritor se arrependeu de trocar o passeio à beira-mar e pelos recantos de sua juventude em Durban por aquele joguinho sem-vergonha, em que nenhuma das duas equipas queria ganhar.

Jogavam, como se diz atualmente, “com o regulamento debaixo do braço”, cometendo um claro ato de estelionato contra o torcedor que pagou ingresso. Os trepidantes “repórteres de pista”, alheios à mediocridade que desfilou em campo, desinteressaram-se de entrevistar os jogadores. Pediram a opinião do poeta:

– E aí, Pessoa, o que achaste do jogo?

– Tudo vale a pena se a bola não é pequena. Já havia dito, em meu poema Navegar É Preciso, que viver talvez não fosse necessário. Mas criar, sim, sempre foi preciso. Será que aquele homem do cabelo espetado não sabe disto?

Foi o jogo dos “professores”. Ou dos “conselheiros”, tão medíocres quanto o conselheiro Acácio. Os técnicos Dunga e Carlos Queirós entraram em campo para “não jogar”, ao som das moscas tse-tsé e embalados pelas vuvuzelas.

Não fora uma bola que triscou a trave, no primeiro tempo, em conclusão da cabeceada pelo rápido Nilmar, e uma única defesa de Júlio César, o jogo poderia ter sido disputado sem goleiros e sem balizas. Os conselheiros armaram-se cada qual atrás das suas fortalezas – e poderiam estar jogando até agora, que não teriam feito nenhum gol.

Consumou-se, então, o medonho resultado que é o 0 a 0 – a fraude do jogo que “não houve”. Tão abominável é o empate que Nelson Rodrigues lhe dedicou um verdadeiro libelo:

– O empate é um resultado mais depressivo do que o próprio revés. A derrota tem um dramatismo que a salva, que a viriliza. Ela desperta no vencido o élan da revanche. Já o empate suscita uma sensação desesperadora de impotência.

Impotência. Esta foi a sensação da torcida brasileira ao assistir um técnico obtuso deixar o tempo se esvair sem substituir Júlio Baptista e Michel Bastos, dois fantasmas ausentes do jogo.

O “substituto” de Kaká era, na verdade, o melhor jogador luso, armando contra-ataques com seus erros de passe. Um horror. Agora sabemos: Kaká, machucado, e de muletas, “precisa” estar em campo. Com Júlio Baptista, jogamos com 10.

Os “conselheiros” protagonizaram um jogo covarde, um pacto de não agressão, um armistício bem próximo do cambalacho de outras Copas – em que os dois times, satisfeitos com o empate, combinaram “ensebar” o jogo para fabricar o resultado.

Zagueiros e volantes brasileiros, errando passes de meio metro, bem que se esforçaram para que o conselheiro Acácio repetisse aquele velho bordão do futebol:

– Quem não faz, leva…

Mas até isso negaram ao conselheiro: ninguém queria fazer, ninguém queria levar, ninguém queria criar. Não vou exagerar: foi o pior jogo da Copa. Um jogo medonho, anestésico, hediondo.

Um jogo asinino. À beira do gramado, via-se o técnico Dunga “ralhar” com seus pupilos, gritando acima dos decibéis das vuvuzelas. Como exigir futebol de quem não tem? Sai Júlio Baptista (meu Deus, o que é “aquilo”?) entra Ramires. A bola continua rolando apenas para os lados. O campo deveria ter suas duas balizas mudadas para as laterais.

Todos os passes saíram errados, todos os escanteios foram batidos à meia altura, todos os chutes foram parar na arquibancada. Portugueses e brasileiros saíram satisfeitos com o “não jogo”, com o antijogo. Só então se fez ouvir a voz do conselheiro Acácio, que dera uma “escapadinha” do Primo Basílio:

– O jogo não chegou a ser “dos melhores”, mas conseguimos alcançar os nossos objetivos…

Desconfio que Dunga pretende ganhar esta Copa depois da prorrogação, nos pênaltis. Torcendo para que Lionel Messi chute o seu pênalti para fora.