Arquivos Diários: 28 junho, 2010

Lucrécia e Beatriz – por barbosa lessa / porto alegre

Depois de um período de digressão versando sobre conceitos da Sociedade e Cultura, volto hoje à temática que me foi inicialmente proposta: Imagens do Passado. E faço-o recuando três séculos, chegando a um tempo em que ainda não havia o Rio Grande do Sul. Havia apenas esparsas tribos de carijós – pescando à beira-mar –, guaranis – plantando mandioca e milho – e minuanos – caçando bois espraiados das estâncias dos jesuítas das Missões. Pelo oceano não podiam arribar navios ibéricos, por causa da saída da Lagoa dos Patos ainda atulhada de areias movediças e com fama de “barra diabólica”. Marcos históricos daquela época foram o Tratado de Saragoça – tentando definir limites entre as possessões de Espanha e Portugal –, e a criação do Bispado do Rio de Janeiro e – em território hoje uruguaio, defronte à cidadela hispânica de Buenos Aires – a fundação da lusitana Colônia do Sacramento.

Então, obedecendo a ordens da Corte de Lisboa, o governador da Capitania de São Paulo estabeleceu no desabitado litoral catarinense, uma aldeia que valeria como posto avançado na desejada conquista das terras do Sul: Santo Antônio dos Anjos de Laguna. De São Vicente, Paranaguá, Guaratinguetá e outras vilas da Capitania descem para ali os primeiros povoadores, logo acrescidos de emigrados da Madeira e outras ilhas lusitanas. Homens e mulheres atirados ao isolamento de um verdadeiro fim-de-mundo, mas com a chama da esperança a lhes animar o coração..

Dentre tais pioneiros, uma senhora de Guaratinguetá, pertencente à linhagem dos Lemes paulistas: Dona Lucrécia Leme Barbosa. Casada com o madeirense Jerônimo de Ornellas e mãe de três pequerruchas: Fabiana, Rita e Antônia. Em Laguna, ela dá à luz uma quarta menina: Maria. E vê chegar, para lhe fazer valiosa companhia, sua irmã mais moça, Dona Beatriz, há pouco tempo casada com o jovem português Dionísio Mendes e, por enquanto, ainda sem cria nenhuma.

De Laguna parte uma temerária expedição, da qual faz parte Dionísio, e consegue abrir uma primeira rota – sob o comando de João de Magalhães – até a Colônia de Sacramento. Ele volta contando maravilhas acerca das verdes planícies, sem fim, que seus olhos haviam contemplado durante a longa jornada.

Mas o interesse do Rei vai além desse mero palmilhar de desertos: ele quer ver gente estanciando, estacionando, plantando casa, fincando raízes, criando famílias e riquezas. Quem efetivamente comprovar ter tomado posse da terra, povoando-a, então receberá por recompensa o respectivo título de propriedade ou “carta de sesmaria”.

Então Jerônimo de Ornellas, mais o concunhdo Dionísio Mendes e um companheiro de nome Sebastião Chaves, partem para o Sul, com suas famílias, e terminam assentando casa e fazenda à bonita beira do Guaíba. Um acidente geográfico ficou para sempre lembrando o nome do marido de Beatriz: Ponta do Dionísio. E o ancoradouro que por ali se fez foi inicialmente chamado de Porto do Dornelles – corruptela de D’Ornellas – até ser denominado Porto de Viamão e, por fim, Porto Alegre.

Nenhum topônimo, porém, para recordar Lucrécia ou Beatriz. Admiráveis mães, admiráveis esposas, admiráveis donas-de-casa. Heroínas da solidão. Guardiãs da indefinida fronteira. Daí a pouco, inabaláveis companheiras das filhas e netas na expansão do território lusitano e na formação do Continente do Rio Grande. Na próxima crônica vamos acompanhar seus passos e logo entenderemos porque mereceriam ser lembradas e louvadas como estampas da Coragem, da Perseverança e do Amor.

O ÚLTIMO SALTO por bruna luizi coletti / santa catarina

Ela fechou os olhos e ergueu os braços para o céu cinza, esperando a chuva chegar. Ficou daquele jeito por exatamente 3 minutos até sentir a primeira gota, e sorriu. Continuou sorrindo enquanto as gotas finas engrossavam, ensopando os cachos leves de seu cabelo e seu vestido azul. Tentou abrir os olhos, mas as gotas de chuva escorriam pelo seu rosto e caiam salgadas nos olhos, fazendo arder. Abaixou os braços para limpar o sal das gotas. Quando abriu os olhos, parecia que o céu tinha decido até ali junto com a chuva. Olhou pra baixo e fitou as ondas agitadas. Ela também estava agitada. Era tudo cinza e pesado a sua volta. O céu estava cinza e pesado, a chuva começava a ficar pesada, assim como seus cabelos encharcados e seu vestido azul. Pensou ter ouvido alguém gritar seu nome na tempestade, mas sabia que não. Ninguém poderia ter seguido ela até ali. Aspirou o ar bem fundo até inundar seus pulmões de ar. O cheiro da água salgada e chuva era delicioso. Soltou o ar e aspirou novamente. Ia sentir falta do cheiro salobre de mar. Soltou e aspirou mais uma vez, na esperança de prender aquele cheiro lá dentro.


Ouviu seu nome no vento mais uma vez. Não era sua imaginação. Olhou para trás e viu um borrão de luz em meio a torrente de água que caia do céu. Talvez alguém a tivesse seguido. O vento rugia em seus ouvidos, e a confusão de sons era grande.

Aspirou uma última vez, o máximo que pode, e saltou. Foi contra o impulso de fechar os olhos. Queria assistir os 20 metros da queda.

Segurou as barras do vestido que teimavam em subir com o vento.

A pele ficou dormente quando mergulhou nas águas geladas do oceano. Pelo frio e pela força do impacto. Com o choque acabou aspirando muita água salgada que ardeu na garganta. Já não via muita coisa lá em baixo. A água espumava ao seu redor, e os olhos também ardiam. No último segundo sentiu medo. Quis nadar de volta à superfície, quis viver.

Uma onda desavisada a arremessou contra o penhasco, e ela não viu mais nada.

Em questão de segundos a chuva lá em cima cessou, o ventou parou de rugir e as ondas se acalmaram. A natureza do penhasco fez seu minuto de silencio.

Lá de cima se via apenas o vestido azul entre as ondas vermelhas de sangue.

Então o vento voltou a soprar e as ondas se agitaram novamente. E as nuvens cinzas de chuva se distraíram por apenas um segundo, quando o sol aproveitou para lançar um raio de luz para iluminar as lágrimas de quem fora deixado para trás.