Arquivos Mensais: julho \31\UTC 2010

A DESCOBERTA DE BLAKE por hamilton alves – ilha de santa catarina

Para mim, a descoberta de Blake foi a mais importante que até ágora o homem conseguiu realizar. Maior que a de Galileu ou de Copérnico ou que a de Newton ou de Tomaz Edson, que inventou a luz com o tungstênio, produzindo o vácuo dentro da lâmpada para impedir a combustão ou mesmo até do que a de Alexander Fleming, que isolou, em seu laboratório, o vírus do bacilo de Koch num tubo de ensaio, e depois de tempos constatou que o bolor havia destruído o bacilo, abrindo, assim, caminho à maior descoberta da ciência médica até os dias hoje, vencendo-se, a partir daí, quase todas as doenças infecciosas até então existentes, que haviam matado milhares de pessoas.

A descoberta de William Blake, um poeta, e poeta não muda a face da ciência, podendo, quando muito, alterar a sensibilidade ou o espírito das pessoas (ou até mesmo seu nível cultural) é, no entanto, de maior valor, a meu ver, que qualquer outra.

Que descobriu, afinal, para ser considerado num nível de tão grande importância?

Teria descoberto mais que Einstein quanto à teoria da relatividade ou quanto à física quântica, a cujo conhecimento deu início, praticamente?

A descoberta de Blake não tem nada a ver com a ciência física nem com qualquer outro tipo de ciência.

Não houve até hoje quem lhe desse importância, apesar de ser igualmente grandiosa como as demais. Ou talvez até, em certo sentido, de maior significado para a raça humana.

Até hoje, não tem tido muita repercussão. As universidades não a registram como coisa de valor. Ou de se levar em linha de conta.

Pouco se sabe sobre os desdobramentos que teve mesmo para a filosofia, tanto é que os filósofos pouco valor lhe atribuiram.

Até hoje, o fato tem se passado sem maior repercussão, como se se tratasse do tema mais banal, não obstante reconhecer-se nele alguma coisa inusitada ou em condições de mudar o rumo de nossa vida ou até mesmo de nosso pensamento.

Quando Blake o revelou nada se alterou na ordem das coisas.

Que teria descoberto Blake assim tão relevante para a humanidade?

Tal descoberta o marcou até os dias que correm. Os resenhistas de literatura de quando em quando voltam a lhe fazer referência. Tanta gente teve, certamente, oportunidade de constatá-lo, mas coube a Blake, em certo momento, percebê-la.

Nada de misterioso. Tudo muito claro  para seu grau de cosmovisão.

Descobriu (suspense!) que num grão de areia se contém o eterno.

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BARBARA KIRCHNER convida para o dia 3 de agosto de 2010:

PERDÃO, NETINHOS ! -por alceu sperança – cascavel.pr

Uma das imagens mais revolucionárias já vistas no cinema foi a famosa sequência de Stanley Kubrick em 2001: Odisséia Espacial (1968), filme composto num delicioso livrinho-roteirão de Arthur C. Clarke: a passagem de tempo em que o osso polido pelo troglodita se transforma em alta tecnologia.

O tempo que transcorre entre o homem das cavernas e a moderna tecnologia é uma grande e constante revolução, mesmo que isso horrorize os conservadores e seu ódio (ou folha de pagamento de alguma Companhia) às mudanças.

Hoje é fácil considerar tolas e completamente estúpidas algumas declarações feitas inclusive pelos gênios em um passado não muito distante. Eis algumas:

“O homem nunca será capaz de libertar o poder do átomo” – Robert Andrews Millikan (1868–1953), Prêmio Nobel de Física de 1923.

“Não há esperança para a fantasia de chegar à lua. As barreiras da gravidade terrestre são intransponíveis” – F.R. Moulton, astrônomo, Universidade de Chicago, 1932.

“Fabricar televisores pode ser tecnicamente possível; mas comercialmente, seria uma incongruidade. Não devemos perder tempo em quimeras” – Lee de Forest, 1926.

“O cinema não tem futuro comercial” – Auguste Lumière (1862–1954), ao lado do irmão Louis Lumière (1864–1948), um dos inventores do cinema, declaração de 1895.

Dentro de cem anos nossos descendentes ficarão horrorizados ao ler na história que nós permitimos ao capitalismo infelicitar pessoas e arruinar o meio ambiente (a única e verdadeira herança que poderíamos lhes deixar).

Capitalismo que em sua presente fase neoliberal, aprofundando as etapas anteriores, faz alguns poucos viver como nababos enquanto milhões sofrem e ao sofrer disseminam doenças e mais sofrimento, através da violenta cobrança de uma dívida social imensa, em busca de uma Justiça que nunca chega.

Neste momento estamos sufocados por uma campanha eleitoral que não vai mudar absolutamente nada. Os candidatos que disputarão o segundo turno das eleições, onde isso ocorrer, repetirão o que vem acontecendo em vários pontos do mundo, amplamente dominados pelo pensamento único, neoliberal: será a escolha entre o nada e coisa alguma, entre a engabelação e a fantasia, entre irmãos (vide Polônia dos gêmeos e os Dias no Paraná).

PT e PDSB, que o balaio da ideologia reinante faz dividirem o cenário eleitoral no país, são as duas faces da mesma moeda neoliberal. Nem os gêmeos poloneses seriam mais semelhantes.

Mas essa mesmice geral quer dizer esgotamento. São sinais de um mundo que se dissolve no vazio de sua desumanidade e um dia será superado pela dinâmica do desenvolvimento social.

Já dizia o velho Marx que a sociedade “muito longe de ser um cristal sólido, é um organismo susceptível de mudança e em permanente processo de transformação”.

O ruim da coisa é que nossos netos terão uma enorme vergonha da gente por concordamos com isso que aí está e por irmos bovinamente às urnas votar nos mesmos neoliberais de sempre.

Rumorejando (Com o inverno curitibano penando). – por juca (josé zokner) – curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Como o prezado leitor já deve ter de há muito depreendido, a coluna, jamais em tempo algum poderia ter uma seção do tipo “Você pergunta e nós respondemos”. Afinal, basta ver a grande quantidade de dúvidas cruciais que Rumorejando também possui.

Constatação II

Tá na hora de eliminar bem mais reversões à esquerda em Curitiba, conforme Rumorejando vem delonga data preconizando e apregoando.

Constatação III

Tá na hora de começar a educar a população deste país. O prezado leitor já se deu conta o número de crimes que ocorrem no Brasil todo o fim de semana, tomando como exemplo apenas esse grave aspecto como parâmetro de baixo nível ?

Constatação IV

Tá na hora de parar de dizer que nós somos um país do 1º. Mundo porque essa afirmação é uma deslavada mentira.

Constatação V (Segundo o jornal Gazeta do Povo do dia 27 de julho de 2010 “Patrimônio de deputados cresce em média 150% em quatro anos. Dos 72 parlamentares federais e estaduais paranaenses que disputarão as eleições ao Legislativo, 55 enriqueceram desde 2006. Em um caso, aumento foi de 3.250%).

Tá na hora dos governantes brasileiros deixarem de lado a empáfia, a vaidade, a veleidade, etc. etc. e começar a tratar de governar para o povo e não apenas para si próprios).

Constatação VI

Não se deve confundir citação com situação, muito embora, dependendo da citação que o sujeito receba, ele fica numa péssimasituação.

Constatação VII

E não se deve confundir, também, jaz com jus, muito embora, às vezes, você acha que ali onde está escrito “Aqui jaz Fulano de Tal”, você, face a tudo aquilo que o mortal – que, aliás, se julgava imortal – realizou, ele, tardiamente, fez jus ao infausto desfecho, ainda que, em princípio, você não deseje a morte de ninguém…

Constatação VIII

E, ainda, não se deve confundir estranhas com entranhas, muito embora, alguma vez ou outra, a pessoa apaixonada e não correspondida e/ou compreendida sinta dores profundas nas entranhas da alma e, logo em seguida, comece a sentir sensaçõesestranhas no pobre do coração.

Constatação IX

Sem ser inteligente,

A gente logo depreende

Que pela gravidade do acidente

O “az” do volante nunca aprende.

Constatação X

Vamos parar, de uma vez por todas, de falar mal do atual governo. Afinal, ele nada mais é do que a continuação dos anteriores.

Constatação XI (Brasil ainda é um dos mais desiguais, apesar de progresso, diz ONU).

Em 2009, o Produto Interno Bruto cresceu em relação ao ano anterior, segundo o IBGE. Se a situação de mortes por violência, por fome, doenças, falta de atendimento médico, migração para outros países, etc. etc. continuar no atual ritmo, a população diminuirá e, consequentemente, o nosso PIB per capita aumentará. Quanto menos gente, maior o PIB per capita. Inversamente proporcional, portanto. E morra “nóis”, digo, viva “nóis”.

Constatação XII (De uma dúvida)

Essa briga entre o senador José Sarney x outros senadores que pediram sua saída da presidência do Senado e outras mais entre Judiciário x Legislativo x Executivo dá a combinação de três elementos, tomados dois a dois. Matemáticas a parte, na sua modesta opinião, caro leitor, ainda bem que, de vez em quando, eles brigam entre eles e, por raros momentos eles não se encontram, como de praxe, unidos contra nós ?

Constatação XIII

O septuagenário fica lucubrando, diante das tristes realidades do que lhe sucede pelo fato de estar na assim chamada 3ª Idade:

-Vontade de tomar chuveiro sentado;

-Virar a direção devagarzinho, levando-a de uma mão para outra sem cruzar os braços;

-Se ver as voltas com uma indefectível barriguinha ou barrigona;

-Paquerar tudo que mulher, inclusive cometendo a gafe de paquerar a do amigo ou conhecido, a quem já foi apresentado muitas vezes e cada vez ter dito: “Muito prazer em conhecê-la”.

-Passar para 2ª marcha do carro ao invés da 4ª e vice-versa. Ou a 1ª ao invés da 3ª; ligar o limpador de pára-brisa ao invés da seta indicadora de direção; querer abrir a porta do carro com a chave da casa ou vice-versa e coisas assim.

-Bebendo ou não, ter dificuldade de fazer um “quatro” sem se apoiar. Ter que sentar para vestir as calças ou também ter que se apoiar, mesmo que o pé não seja grande e a boca da calça não seja estreita.

-Dar marcha à ré, sem voltar a cabeça, bem devagarinho, até o pára-choque bater no outro pára-choque, parede, etc.

-Usar freqüentemente as frases: “Naquele tempo”, “No meu tempo”, “Ah, se eu agora tivesse menos 40 anos…” “O que é que eu estava dizendo mesmo ?” “Os jovens de hoje não são como nós éramos” “Essa gente quer ganhar tudo de bandeja, sem fazer força”, etc.

-Não ser mais aceito, se está procurando emprego, sob qualquer alegação menos a verdadeira da idade provecta. Idem, idem para fazer seguro de vida e convênio com algum plano de doença, digo, de saúde.

-Começar a se interessar por ceroulas, depois de havê-las repudiado durante toda a vida, sob a alegação que ficaria ridículo, que nenhuma mulher deveria ou quer fazer amor com quem usa ceroulas e coisas desse jaez.

-Não pode comer mais isso, não pode mais comer aquilo que faz mal; não pode mais fazer isso, não pode mais fazer aquilo, principalmente, aquilo.

-Mesmo que dê pulinhos e sacuda infinitamente certa parte do seu corpo, os últimos 382 pingos, depois que a tal parte for devidamente recolhida, vão para certa parte de seu vestuário, ao contrário de quando era jovem que, como é sobejamente sabido, apenas, o indefectível último pingo é que deveria ir para o tal mencionado vestuário (Perdão, leitores).

-Dar uma baixada numa gata e receber como resposta “o senhor…”, “tio”, “o vovô”, etc.

-Ficar na fila, no banco, dos idosos e gestantes; ter direito a entrar, gratuitamente, nos cinemas da Prefeitura Municipal de Curitiba; nos bailes, no Operário, também em Curitiba.

-Dar uma passada de olhos na sessão do necrológio do jornal para ver se a média da idade dos óbitos é próximo da sua, ou, ainda, se tem algum conhecido “do seu tempo”.

-Ter uns arroubos de jojoca incontroláveis, estando em casa ou em lugares públicos.

-Procurar adoidado os óculos, com o mesmo na testa;

-Usar boné para proteger a cuca do frio e, dessa maneira, quando está dirigindo, fatalmente, irá assustar os demais motoristas que temem condutor de veículos, “chapeludo”, independente do tipo de chapéu que estiver usando;

-Se ver diante da terrível dúvida crucial: “Puxa vida, aonde mesmo que eu estacionei o meu carro ?” (A expressão “puxa vida”, desde que seja um sujeito educado…).

-Sair da festa, esquecendo a mulher, os filhos e netos e depois voltar somente por achar que havia esquecido o guarda-chuva. Pegar o dito cujo e ir embora, deixando, novamente abandonados a sua própria sorte, ao Deus dará, os seus tão caros familiares;

-Trocar o nome das pessoas e/ou confundi-las com outras que não têm nada a ver;

-Ao invés de dizer “gata”, diz “brotinho”; ao invés de dizer “coroa” diz “balzaqueana”; “vosmecê” no lugar de você; ao invés de escrever “farmácia”, escreve “pharmacia”, etc.

-Chegar ao supermercado e se perguntar: “O que foi mesmo que a mulher queria que eu comprasse ?”

-Se está participando de um jogo de volei, os companheiros não lhe servem a bola, pois sabem que não adianta porque os reflexos foram para as cucuias. Já, os adversários, vá bola em cima do pobre mortal…

-Pelada, para participar, só se for no gol.

-Não conseguir fazer xixi em horários que não os do meio da noite e quando faz o retro-mencionado, o faz em todas as direções, inclusive no lugar correto da bacia sanitária (Perdão, leitores).

-Esquecer o nome da mulher do chefe (menos mal que não o da sua própria…);

-Esquecer do que vive esquecendo;

-Dar uma cuspida pela janela do carro, sem ter verificado antes se havia baixado o vidro (Perdão, leitores);

-Descobrir a diferença entre medo e pavor*…

-Ser convidado para as festas, ginástica, bailinho, excursões, caminhadas, etc. da eufemística Idade de Ouro, Idade da Sabedoria, Idade da Maturidade, etc.;

-Esquecer quem fez a primeira, no jogo de truco (fato muito grave e imperdoável, diga-se de passagem);

-Viver tropeçando, inclusive até na própria sombra.

-Andar com a braguilha aberta e abotoar o paletó completamente errado.

-Ficar sentado em frente à televisão, assistindo o noticiário e, fatalmente, puxar um ronco, acordando, dentro em pouco, assustado.

-Pedir para alguém encontrar um número de telefone na lista telefônica por não conseguir ler “essas malditas letras pequenas”.

-Entrar na fase das muitas letras, como por exemplo, as da letra “pê”: paquera paca e pifa; pega problema na próstata, além depipalgia (dor na nádega) e pigarro; ou as da letra “a”, pois aparece artrite, artrose, arritmia, arteriosclerose, anda arcado, etc. e da letra erre, dentre outros sintomas, rouquidão, reumatismo, resfriado, rinite; da letra cê, dentre tantos coriza, catarata, o ciático (ah, o ciático)e assim por diante até o total do alfabeto inclusive com as letras “k”, “w” e “y”.

-Abrir os tarros por qualquer motivo, inclusive por coisas e fatos piegas.

-Ter que tomar algum tipo de medicamento antes, durante ou depois das refeições.

-Sentir cãibras e pontadas nas piores ou melhores situações e nos lugares mais esdrúxulos, inclusive até nos cabelos.

*A diferença entre medo e pavor, para quem ainda não sabe, é a seguinte: Medo,é tudo aquilo que o sujeito sente, pela primeira vez, quando não consegue dar a segunda; pavor, é tudo aquilo que o sujeito sente, pela segunda vez, quando não consegue dar a primeira…

Moral de tudo isso, relacionado acima, embora não seja bem uma fábula, pelo menos daquelas indignas do guru Millôr:Não é só a inveja que é uma eme…

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I

A seleção do Mano Menezes parece ser a antípoda da seleção do Dunga?

Dúvida II

Ele estava em dúvida – crucial ou não – se pagava a dívida, achando que não era devida nem uma questão de vida ou morte ?

Dúvida III

A Raimunda,

Aquela

Que ouço falar

Que ela

Também é

Boa de bun, digo, pé,

Profunda

Magoa

Sentiu

Quando,

Em lugar

De cerveja,

Ora, veja!

O garçom,

Com pecha de bom,

De legal

Serviu

Água

Torneiral ?

Dúvida IV

A cartomante,

Nem por um instante

Não viu

Nem previu

Que o seu marido,

Que andava tão arredio

E com ares de compungido

Ia sumir, como de fato,

Sem nenhum espalhafato,

Sumiu,

Com uma amante ?

Dúvida V

O prezado leitor é do tempo, como deste assim chamado escriba, em que a última linha da dúvida anterior era escrita assim: “Com u’a amante” ? Minh’alma ? E de pharmacia ? E de 10 bananas por um tostão ? E…E…E… ?

Dúvida VI

Meu bem! Meu doce bombom! O bem-bom não estava bom ?

Dúvida VII

Agora que os cientistas conseguiram reduzir a velocidade da luz, conforme a mídia andou divulgando, será que, de acordo com a teoria da relatividade de Einstein, vai dar para voltar ao passado ? (Cartas à redação. Obrigado).

Dúvida VIII

Não restou ninguém para contar ? Todos, do pelotão de fuzilamento, se suicidaram ? Tem certeza ?

Dúvida IX

Cadê a devolução do excedente nas contas de luz cobradas que até hoje não nos devolveram ?

Dúvida X

A “Dúvida IX” é de quem ainda acredita ou não acredita em Papai Noel ?

MÚSICO ANDRÉ MAIA, CONVIDA: dia 29/07/10 as 21 hs no COISAS DE MARIA JOÃO/ sambaqui.ilha de santa catarina

Coisas de Maria João apresenta Café Pequeno:

show intimista  por conta do compositor e contrabaixista André Maia e seus convidados.

Para confraternizar e comemorar seu aniversário em grande estilo, André Maia inova e surpreende trazendo para o público e amigos as suas artes.

Além da música, nesta noite haverá exibição de fotografias de sua autoria e também uma jam session pra finalizar.
Café Pequeno, pra quem ainda não sabe, propõe shows intimistas para pequenos grupos: o número de lugares é limitado.
Adiante-se e faça sua reserva ligando para 9107 4457 ou por e-mail mediante confirmação:
coisasdemariajoao@gmail.com
21h /R$10,00

SERRA ACEITA VICE DOS DEMOS PARA FAZER A SUJEIRA / rio de janeiro

Índio da Costa agora insinua ligação do PT com o Comando Vermelho

Não bastou a confusão criada com a acusação de que o PT tem ligação com as Farc e o narcotráfico internacional. Agora, o vice de José Serra (PSDB), Índio da Costa (DEM), resolveu deixar a coisa um pouco mais explícita. Ontem ele insinuou que os petistas também são ligados ao Comando Vermelho.

GP.

==

Indio da Costa é dos DEMOS, portanto já sabemos que não pode ser boa coisa, azar do Serra, vai ter que engolir campanha a dentro a presença do trapalhão e escolhido pela coordenação para assumir  A SUJEIRA da campanha demotucana. Aí está ele dizendo mais uma “sacada genial”. Eles continuam achando que o povo brasileiro é imbecil. Que bom! facilitam as coisas. AGORA dê uma olhadinha, com todo o cuidado, na carinha do vice do Zé e responda: inspira credibilidade para governar o país?…pois é…os demos são assim….até a vitória$$$$$$$$$$$$$$$$  !!!!!

é o sufoco das pesquisas !! apelam para tudo, porque o caráter já perderam há muito tempo !

tentam enganar a população com essas mentiras grotescas ! deveriam ter denunciado há mais tempo ! são coniventes no tráfico da droga!! querem traficar, agora, o zé e o índio (overdose de drogas) para o centro do poder, como se os brasileiros não soubessem quem são!!! o BRASIL NÃO VOLTA ATRÁS !!

SONETO I de bocage

Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores ;
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade;
Que elas buscam piedade, e não louvores;

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores ;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração dos seus favores ;

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.

CLAUDIA REGINA TELLES – poemas / itajaí.sc

O vazio do ventre vítreo

Vazio espaço do ritmo

Saúda a malandragem

Salve o querubim Pixinguinha

Inventou moda a seu modo

aligeirou o ritmo e o compasso

choro no espaço vazio de um gole

Bebe o vazio delirante

Chora choro

Campanheiro das madrugadas

Fumaça no ar

chorão na praça e no portão

Captura a noite com a ponta dos dedos

Contempla a noite através da redoma

E bebe o ultimo gole da cachaça

.

Lentes turvadas

Lentas observações da madrugada

Perambula pelas ruelas do desconhecido

Vazio transparente

A lua chora nos acordes do violão

Choro dolente

Mente o que sente o poeta

Vida vadia

Vazia

Vidrada mentira colore o dia

Ilude

Mergulha

Dorme embriagada no altar

Vigiada por anjos de gesso


A OBRA POÉTICA DE MANOEL DE ANDRADE ANALISADA NO JALLA 2010 de 2 a 6 de agosto no Rio de Janeiro.


Na próxima semana o poeta catarinense Manoel de Andrade, colaborador deste site e atualmente radicado em Curitiba estará participando, em Niterói, do Congresso “Jornadas Andinas de Literatura Latino-Americana”.

Em vista do conteúdo histórico-político de seu livro “Poemas para a liberdade” nas quatro edições que teve na América, na década de 70, seu lançamento em edição bilingue o ano passado no Brasil e a repercussão de sua poesia na atualidade, a obra poética de Manoel de Andrade será apresentada ao Congresso JALLA 2010 por Suely Reis Pinheiro, Doutora em Literatura Espanhola e Hispano-americana, Professora da UFF, UERG e UNIGRANDERIO, e diretorra da Revista Hispanista. Seu tema será: A POESIA DE MANOEL DE ANDRADE: UM CANTO DE AMOR E LIBERDADE NA AMÉRICA LATINA. Na oportunidade o poeta participará com a leitura de seus poemas.

Considerado como um dos mais importantes encontros literários da América Latina, o JALLA 2010, se realizará de 02 a 06 de agosto, no Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense. O primeiro congresso do JALLA aconteceu em La Paz em 1997, e desde então vem se convertendo num disputado espaço de integração e interlocução entre prosadores, poetas e pesquisadores da literatura do Continente. O Congresso, com realização a cada dois anos, já foi sediado em cidades como: San Miguel de Tucuman (Argentina), Quito (Equador), Cuzco (Peru), Lima (Peru), Bogotá (Colômbia), Santiago (Chile) e o Congresso de 2010 será o primeiro a ser realizado no Brasil, fora da América Hispânica e do mundo andino que lhe empresta o nome.

O evento, ao longo dos anos, vem ampliando sua temática e transformando-se num espaço de amplo diálogo cultural latino-americano, expandindo a imagem da regionalidade que marcou sua origem, para estabeceler relações de cultura que integrem todo o Continente. Neste sentido está de parabéns o Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense, integrando-se ao JALLA com a intenção de abraçar culturalmente a nossa dupla latinidade, não só buscando a fraterna comunhão das línguas ibéricas, mas propondo temas de interação para o pensar latino-americano. Para isso propôs temas com objetivos bem mais inclusivos abrindo o diálogo entre a América Hispânica, o Caribe e o Brasil e buscando um discurso que incorpore estas diferentes áreas culturais numa geografia cultural que integre nossa historicidade, nossas diferenças antropológicas e nossos idiomas.

Com 1110 inscritos, entre escritores, professores de literatura, pesquisadores e assistentes de várias áreas culturais, as plenárias e os debates versarão sobre os seguintes temas:
1. América Hispânica e  Brasil: diálogos culturais e literários
2. O Caribe como área cultural  Latino-Americana
3. Afro-Indo-Latino América: interlocuções
4. Tradução como mediação cultural
5. Subalternidades, resistências e alternativas na cidade globalizada da América Latina
6. O entre-lugar do intelectual latino-americano
7. Os bicentenários das independências dos países latino-americanos

CADERNOS de regis fernandes / ilha de santa catarina


Estradas molhadas

Servem de meditações

Para o barco transitar nas

Fronteiras da consciência

No céu

Nuvens sonoras abrigadas no ir e vir

Imenso pavimento verde

Todo sonho é uma esmeralda

Esquecimento de si

Oh! embarcações do instante

Deixe o coração do pescador

Apertado ao jogar sua rede

Num borbulhar suave

Ao toque do fantasma

Primitivo que

Entende português

E navega

Até ilhas

Como minhas idéias

OTTO NUL e sua poesia VI / ilha de santa catarina

A COISA

Entre coisa e coisa

Há outra coisa

.

A coisa é inerte

Ou salta

.

Ou se move

Ou segue

.

Vem e vai

Num movimento

.

Constante e torto

Sem saber-se

.

A coisa vem de dentro

E vem de fora

.

A coisa é uma coisa

Infinita e absurda


.

UMA FOLHA

Uma folha seca

Caiu da árvore

.

Soprada pelo vento

Foi levada adiante

.

Rolando sobre si mesma

Com destino incerto

.

Bem seca como

Seca nunca vi igual

.

Até que exposta à rua

Um carro passou sobre ela

.

E ali estrebuchando

Agonizou até o fim

.

PALAVRAS AO VENTO

Persigo tuas palavras

Soltas ao vento

.

Sem meio de retê-las

Ou absorvê-las

.

São como o sopro

De uma música

.

Que evola num ritmo

Alucinante e inusitado

.

Sonho por isso acordado

Ao enlevo de seus acordes

.

Que ora soam fracos

Ora fortes

.

O sopro de uma música

Que sugere o eterno

MARIO QUINTANA por joão de deus NETTO / curitiba

TEMA PARA UM DRAMA NÔ – por jorge lescano / são paulo

Para a Mestra Eico Suzuki

.


Ah! Viracocha,

Senhor de toda luz nascente,

Criador,

Quem és Tu? Onde estás?

Oração Inca

Paul Claudel deu uma definição, hoje famosa, sobre a Arte (esta a denominação correta, pois a tradução literal do japonês é atuação). Diz ele que no teatro ocidental algo acontece, no teatro, alguém chega. Discordo desta opinião. Em um palco vazio, desprovido de qualquer cenografia, o fato de alguém chegar é um grande acontecimento, especialmente quando esta chegada é parte estrutural da obra. De fato, a peça se inicia quando o waki (personagem que introduz os temas da obra, narra os antecedentes e situa o espectador no tempo e lugar da mesma) entra pela passarela localizada ao fundo, à esquerda do palco propriamente dito. A diferença, então, é outra. Parafraseando, diria que se no teatro europeu, dito ocidental, algo acontece, na Arte algo é narrado. Creio que o relato a seguir se presta a uma encenação dentro dos padrões da estética da Arte Nô, por se tratar de um teatro narrativo, de pouquíssima e codificada movimentação. Os fatos apresentados são reais, registrados nos anais da conquista da América; com os devidos ajustes corresponderia ao tipo de peça masculina ou guerreira – não há equivalência ou semelhança de gêneros entre o teatro europeu e a Arte Nô. O termo drama do título tem o sentido genérico de ação teatral.

Numa tarde de 1550 agoniza o último grande sacerdote do culto de Viracocha, deus supremo do panteão inca, ao seu lado vela o humilde padre Cristóbal Molina, o Cuzquenho, – filho do conquistador Francisco Molina e de uma princesa inca –, pregador do evangelho entre os índios do hospital de Cuzco. O moribundo, índio de estirpe nobre, sabe que com ele morrerão os deuses de sua nação. Cabe a ele salvar o cosmo dos seus ancestrais. Com um gesto convoca o pároco, este aproxima o ouvido da boca do velho. A voz fraca, pausada, chega como de outro mundo. Na sala miserável revela segredos do céu e do inferno de um povo do qual o outro – podemos supor – se sente distante, estranho, no entanto, apressadamente, anota as palavras sagradas.

O índio morreu deixando frases inconclusas, talvez promessas de redenção. Dezessete anos antes Atahualpa, último Imperador Inca, estava certo de que seus deuses lutavam por ele, porém, morreria no inicio da catequização na América e nas mãos dos estrangeiros que chegavam para salvar os bárbaros e lhes ensinar a verdadeira religião. Na mística inca o retorno era certo, sempre que o corpo não fosse consumido pelo fogo.

No momento da chegada dos espanhóis, Atahualpa, filho bastardo do recentemente falecido Senhor Huaina Cápac, acabava de vencer seu meio-irmão Huáscar na luta pelo poder supremo do Império. Não por outro motivo se encontrava o novo Imperador em Cajamarca, descansando. Mais tarde, já prisioneiro nessa mesma localidade, manda matar Huáscar, que até ali havia sido preservado do extermínio do seu clã graças a sua origem divina. As desavenças e a morte de um dos adversários determinaram a sorte do Império Inca. Tivessem desembarcado os estrangeiros um ano mais tarde e Atahualpa estaria em Quito, nova sede do Império, e a história do continente seria outra. A distância entre Túmbez, local do desembarque espanhol, e a nova capital, seria intransponível para o pequeno grupo de invasores que desconhecia os obstáculos dessa terra. Os planos dos estrangeiros pareciam favorecidos pelas circunstâncias políticas do país. E podem ter sido interpretadas por eles, mais tarde, pois as ignoravam ao chegar, prova da determinação divina, aumentando a sua confiança.

Segundo alguns autores, o Inca foi condenado à morte por uma questão de dinheiro.

Capturado Atahualpa durante a visita de cortesia que fazia aos espanhóis acampados nos banhos de Cajamarca, todo o ouro e a prata que chegassem serviriam para pagar seu resgate: havia prometido encher de prata duas salas, e de ouro outra sala até a altura de um homem com os braços levantados (o próprio Imperador serviu de padrão e ali se traçou uma linha vermelha). Diego de Almagro, sócio do seu capturador Francisco Pizarro, ausentara-se na hora do seqüestro procurando novos territórios a ser explorados, por tal razão ele e os seus homens não teriam direito ao butim. Ao seu regresso, Almagro sentiu-se traído. Concluiu que era necessário que desaparecesse a causa do acordo entre o Imperador e seu conterrâneo, só assim se poderia voltar às relações no ponto em que se encontravam antes de sua partida e da captura do Inca. Atahualpa devia morrer para que os negócios na Nova Castela não se deteriorassem. Esta reles questão financeira selou o destino de um dos homens mais poderosos do mundo.

(É possível que os acontecimentos não se dessem exatamente assim. Houve partilha antes da morte de Atahualpa, da qual Almagro e seus homens não foram excluídos. Creio que a minha memória arranja os acontecimentos segundo a conveniência ficcional, é o que diferencia a literatura da história.)

Condenado Atahualpa, os generosos conquistadores ofereceram ao prisioneiro os benefícios da religião do verdadeiro Deus, caso não os aceitasse iria para a fogueira como herege. No patíbulo o Imperador abjurou de suas crenças e beijou a cruz para não perder a alma, ganhou então o direito de ser submetido ao torniquete dos malfeitores. Há quem diga que no batismo assumiu o nome do seu algoz: Francisco. Antes de morrer pediu a Pizarro que tomasse conta dos seus filhos, o espanhol teria aceitado o encargo enviando os príncipes para a matriz, não há notícias do destino deles na Espanha.

Mais importante que as conjeturas sobre a execução de Atahualpa são as conseqüências do ato arbitrário.

Após a execução, durante o ofício religioso oferecido ao corpo do Imperador, chegaram à igreja algumas mulheres de Atahualpa solicitando aos espanhóis que os funerais fossem realizados em local maior, pois era costume que quando um grande senhor morria, todos aqueles que o queriam bem fossem enterrados vivos com ele. Os estrangeiros responderam que ele havia morrido como cristão, o que proibia o cumprimento daquele costume bárbaro. As solicitantes se retiraram aos seus lares e ali se enforcaram. Apenas duas delas sobreviveram e percorriam o lugar com brados lamentosos ao som de tambores, contavam as façanhas do seu marido.

Quando os espanhóis deixaram Cajamarca, os súditos do Inca penetraram na capela em que fora depositado o cadáver do seu Senhor, embalsamaram-no segundo o costume e o sepultaram, porém o túmulo jamais foi encontrado. É provável que o corpo do Inca tenha sido transportado para Quito, sua cidade natal.

A morte do Imperador não acalmou os ânimos dos invasores. Os desentendimentos entre os espanhóis se agravaram e Almagro e Pizarro, que haviam assinado a sentença contra Atahualpa, receberam o castigo imposto pelos seus compatriotas. Vencido em combate pelas forças de Pizarro, Almagro foi julgado, condenado e decapitado. Pizarro era acompanhado por quatro dos seus irmãos, todos eles tiveram morte violenta nos anos que se seguiram, oito anos depois da execução do Inca, Francisco Pizarro é assassinado e sepultado às escondidas, feito um criminoso. Se os dois capitães da conquista estavam mortos, não suas ambições, provocando novas lutas entre seus partidários. É de notar que durante o ano em que Atahualpa esteve preso apenas um espanhol morreu, vitimado numa partida de baralho, ou dados, entre patrícios.

Naquele crepúsculo de 1550 em Cuzco, o último sacerdote de Viracocha transmitiu ao representante de outra crença os segredos de sua doutrina para que o mundo não acabasse com ele. (Mais de quatrocentos anos mais tarde um erudito, Dr. Rafael Aguilar, transcreverá no dialeto de Castela as palavras sagradas ditadas em língua quíchua.) Em 1566, em Madri, frei Bartolomé de las Casas morre pedindo clemência por ter estimulado a escravidão, acreditou por algum tempo que a importação de negros teria aliviado o sofrimento dos índios. Apesar dos seus pecados sorri e agradece a ventura de ter vivido.

Estes são, resumidos, alguns dos lances do enredo. O verdadeiramente importante, todavia, não pode nem deve ser revelado, a Arte Nô é feita de sugestão, não de afirmações. Contudo, eu me pergunto quê sentiu o cristão naquele momento em que a cosmogonia dos seus ancestrais desmoronava. Que abismos terá vislumbrado? Se a transcrição das palavras sagradas não era compaixão, vã curiosidade ou mero exercício literário, que mistérios acrescentaram à sua alma dividida? Eu, por demais ocupado com a sobrevivência cotidiana, sou incapaz de embrenhar-me em tais segredos.

CARTA A UM AMIGO por hamilton alves / ilha de santa catarina

Prezado Walter,

Quando há dias lhe propus a compra de meu livro “O cão noturno”, de poesia, com só duzentos exemplares (obviamente, que não dá para pensar em enriquecer com a venda do livro nem mesmo para juntar alguns tostões para empreender nem que seja uma pequena viagem (ao Rio, por exemplo, onde não vou faz um bocado de anos), fiquei meio acanhado com essa atividade meio estranha para mim de vendedor de coisas. Nunca dei para esse honrado ofício. Sempre fui mal em matéria de negócios. Mas envolvendo um livro e um amigo, quis com a proposta da compra conseguir-lhe um juízo crítico de sua qualidade, inobstante saber que não é exatamente o leitor que aprecie poesia ou lhe dê primazia nas suas escolhas de leituras.

Mas poderia lhe falar sobre meu livro, a qualidade que possam ter alguns poucos poemas, sem faltar à modéstia. Não gosto (até detesto) de falar de mim mesmo, porque podem me tomar por essa coisa terrível: cabotino.

Que lhe direi de meu livro ou de meus poemas?

Costumo dizer que um único poema salva um livro da ruindade absoluta ou de um fracasso total, assim como pode salvar uma cidade ou um país, pode nos salvar de qualquer desventura ou qualquer outra coisa que possamos imaginar.

Há bem pouco, um amigo poeta me disse na lata que eu deixasse dessa tolice de me considerar poeta, quando muito sei dar conta de uma página e meia de prosa, e muito mal (no dizer dele).

Não me entristeço com tal crítica.

Afinal, cada um tem o sagrado direito de exercer a crítica.

Acho que poetas somos todos, cada um a sua maneira. Há poetas sem versos escritos ou publicados. Como dizia um filósofo, se não me engano foi Georges Steiner, “bemaventurado o poeta sem versos”. Esse é, sem dúvida, o poeta mais puro. Porque é poeta para ele, nas suas horas mais silenciosas e recolhidas, em que diz para si mesmo seus secretos poemas.

Que lhe posso dizer (repito) de meus poemas? Haverá um único que valha a pena, que possa ter alcançado essa condição preciosa de poema?

Posso lhe garantir que, no meu livro, você poderá encontrar, sim, esse único poema.

Não vou lhe revelar qual seja. Isso é tarefa que lhe compete.

Se você achá-lo, ó grande compensação, como dizia Emily Dickinson, quando salvou um pássaro de morrer, não terei vivido em vão.

x x x

PS – “O cão noturno”, para quem interessar, está à venda nas livrarias Saraiva (Shopping Beira Mar) e na Livros & Livros, à rua Jerônimo Coelho, nesta capital).

A EXCOMUNHÃO DA VÍTIMA – de miguezim de princesa / paraíba

Peço à musa do improviso

Que me dê inspiração,

Ciência e sabedoria,

Inteligência e razão,

Peço que Deus que me proteja

Para falar de uma igreja

Que comete aberração.

.

Pelas fogueiras que arderam

No tempo da Inquisição,

Pelas mulheres queimadas

Sem apelo ou compaixão,

Pensava que o Vaticano

Tinha mudado de plano,

Abolido a excomunhão.

.

Mas o bispo Dom José,

Um homem conservador,

Tratou com impiedade

A vítima de um estuprador,

Massacrada e abusada,

Sofrida e violentada,

Sem futuro e sem amor.

.

Depois que houve o estupro,

A menina engravidou.

Ela só tem nove anos,

A Justiça autorizou

Que a criança abortasse

Antes que a vida brotasse

Um fruto do desamor.

.

O aborto, já previsto

Na nossa legislação,

Teve o apoio declarado

Do ministro Temporão,

Que é médico bom e zeloso,

E mostrou ser corajoso

Ao enfrentar a questão.

.

Além de excomungar

O ministro Temporão,

Dom José excomungou

Da menina, sem razão,

A mãe, a vó e a tia

E se brincar puniria

Até a quarta geração.

.

É esquisito que a igreja,

Que tanto prega o perdão,

Resolva excomungar médicos

Que cumpriram sua missão

E num beco sem saída

Livraram uma pobre vida

Do fel da desilusão.

.

Mas o mundo está virado

E cheio de desatinos:

Missa virou presepada,

Tem dança até do pepino,

Padre que usa bermuda,

Deixando mulher buchuda

E bolindo com os meninos.

.

Milhões morrendo de Aids:

É grande a devastação,

Mas a igreja acha bom

Furunfar sem proteção

E o padre prega na missa

Que camisinha na linguiça

É uma coisa do Cão.

.

E esta quem me contou

Foi Lima do Camarão:

Dom José excomungou

A equipe de plantão,

A família da menina

E o ministro Temporão,

Mas para o estuprador,

Que por certo perdoou,

O arcebispo reservou

A vaga de sacristão.

.

*Miguel Lucena, poeta, cordelista, jornalista, bacharel em direito e delegado de polícia.

Desta vez, não é só o rei. O menino também está nu – por alceu sperança / cascavel.pr

A essa altura dos acontecimentos, já deve ter ficado claro que o governo Lula é um espetáculo de balé formado por um duplo pas de deux. De um lado, a dupla PT-PMDB e sua tucanice marcos-valeriana. De outro, a dupla PSDB-Dem e seu petismo à base da “indignação”.

Os quatro dançam uma ópera composta e regida por banqueiros, empreiteiras e o capital nacional acumpliciado com as transnacionais, sob a batuta dos maestros FMI e Banco Mundial, tendo por “música” os ruídos de balas perdidas, freadas bruscas, atropelamentos e gritos matreiramente indignados.

O brado “fora Lula carreirista”, agora “Fora Dilma inexperiente”, é um chamado aos que já torturaram antes. Tanto quanto o brado “Fora FHC”, “Fora Serra”, é um chamado a estes que aí estão, torturando o País com sua irresponsabilidade, repetindo a mesma fórmula dos Fernandos, Collor e Henrique.

Enquanto esse balé terrível seguia dominando a cena nacional, no Paraná os municípios foram disputados a tapa em 2008 pelos esquemões da (e do) capital que se preparavam para o embate entre os mesmos de sempre neste 2010.

Para tais esquemas, o que importa é, na eleição municipal, conquistar os grandes e médios municípios, nos quais pretendem ter cabos eleitorais de luxo – pagos por nós – a seu serviço.

A receita é simples. Tome tudo aquilo que já se prometeu antes mas não se cumpriu e atire num panelão. Tempere com a ingenuidade e a falta de memória do eleitor. Adicione os atual e ex-prefeitos e seus respectivos aspones, aderentes, familiares, puxas e luas-pretas. Refogue com marketing eleitoral. Chame para provar e adicionar seu toque pessoal os atuais e ex-deputados. Aí é só servir no primeiro turno de outubro, em último caso requentando a mesma gororoba insossa para o segundo.

Todos esses “cozinheiros” e “dançarinos” estão e já estiveram antes no poder. Não souberam fazer as coisas ou agiram mal de propósito. Se agissem bem e fossem eficientes, o Paraná (e os demais estados, vamos generalizar, ora!) não estaria dominado pelo banditismo (o dos pobres e o dos ricos), grande parte de seu povo sofrendo horrores na doença e na ignorância, pagando caríssimo por tudo.

Nenhum problema realmente sério e elementar do Estado e do País será resolvido com uma eleição burguesa – traduzindo, uma eleição controlada pelo dinheiro, pelo poder econômico.

Uma Frente de Esquerda, única saída responsável para um povo digno de vencer, teria que mostrar o rei nu. Não fizeram a Frente: além do rei, todos estão nus, até o menino que no passado apontava a nudez exclusiva do rei.

O rei federal, o rei estadual e o rei municipal são meros títeres de um bem vestido manipulador invisível. Será preciso, hoje e sempre, participação real da população organizada nas decisões, o fortalecimento do sindicalismo classista e de luta e a emergência de um movimento popular de comunidades com desconfiômetro capaz de evitar as armadilhas caça-pardal dos neoliberais.

Em suma, será necessária uma Frente para combater o capitalismo. Sem isso, segue o mesmo de sempre: crise nos EUA hoje, na Grécia amanhã, sangue derramado na Faixa de Gaza, meio ambiente destruído pela ganância do lucro e scripts correlatos.

Compram deputados, prefeitos, vereadores, “pastores”, “bispos” e líderes de bairro para montar currais de eleitores fiéis, bairro a bairro, distrito a distrito, município a município.

Com a ideologia pairando sobre todos, a manipulação dos meios de comunicação, o uso da máquina oficial, caixa 2 e compra de votos, levam adiante seu domínio e seu rançoso “projetão”. Mas não haverá nenhum desenvolvimento real para o Brasil com tais títeres locais manipulados habilmente pela ideologia dos verdadeiros donos do poder aqui e no mundo.

A VELHA MÍDIA FINGE QUE O PAÍS NÃO MUDOU – por venício lima / são paulo


O país realmente mudou. A velha mídia, todavia, insiste em “fazer de conta” que tudo continua como antes e seu poder permanece o mesmo de 1989. Aparentemente, ainda não se convenceu de que os tempos são outros.


Apesar de não haver consenso entre aqueles que estudaram o processo eleitoral de 1989 – as primeiras eleições diretas para presidente da República depois dos longos anos de regime autoritário –, é inegável que a grande mídia, sobretudo a televisão, desempenhou um papel por muitos considerado decisivo na eleição de Fernando Collor de Mello. O jovem e, até então, desconhecido governador de Alagoas emergiu no cenário político nacional como o “caçador de marajás” e contou com o apoio explícito, sobretudo, da Editora Abril e das Organizações Globo.

No final da década de 80 do século passado, o poder da grande mídia na construção daquilo que chamei de CR-P, cenário de representação da política, era formidável. A mídia tinha condições de construir um “cenário” – no jornalismo e no entretenimento – onde a política e os políticos eram representados e qualquer candidato que não se ajustasse ao CR-P dominante corria grande risco de perder as eleições. Existiam, por óbvio, CR-Ps alternativos, mas as condições de competição no “mercado” das representações simbólicas eram totalmente assimétricas.

Foi o que ocorreu, primeiro com Brizola e, depois, com Lula. Collor, ao contrário, foi ele próprio se tornando uma figura pública e projetando uma imagem nacional “ajustada” ao CR-P dominante que, por sua vez, era construído na grande mídia paralelamente a uma maciça e inteligente campanha de marketing político, com o objetivo de garantir sua vitória eleitoral [cf. Mídia: teoria e política, Perseu Abramo, 2ª. edição, 1ª. reimpressão, 2007].

2010 não é 1989

Em 2010 o país é outro, os níveis de escolaridade e renda da população são outros e, sobretudo, cerca de 65 milhões de brasileiros têm acesso à internet. A grande mídia, claro, continua a construir seu CR-P, mas ele não tem mais a dominância que alcançava 20 anos atrás. Hoje existe uma incipiente, mas sólida, mídia alternativa que se expressa, não só, mas sobretudo, na internet. E – mais importante – o eleitor brasileiro de 2010 é muito diferente daquele de 1989, que buscava informação política quase que exclusivamente na televisão.

Apesar de tudo isso, a velha mídia finge que o país não mudou.

O CR-P do pós-Lula

Instigante artigo publicado na Carta Maior por João Sicsú, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do IPEA e professor do Instituto de Economia da UFRJ, embora não seja este seu principal foco, chama a atenção para a tentativa da grande mídia de construir, no processo eleitoral de 2010, um CR-P que pode ser chamado de “pós-Lula”.

Ele parte da constatação de que dois projetos para o Brasil estiveram em disputa nos últimos 20 anos: o estagnacionista, que acentuou vulnerabilidades sociais e econômicas, aplicado no período 1995-2002, e o desenvolvimentista redistributivista, em andamento. Segundo Sicsú, há líderes, aliados e bases sociais que expressam essa disputa. “De um lado, estão o presidente Lula, o PT, o PC do B, alguns outros partidos políticos, intelectuais e os movimentos sociais. Do outro, estão o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), o PSDB, o DEM, o PPS, o PV, organismos multilaterais (o Banco Mundial e o FMI), divulgadores midiáticos de opiniões conservadoras e quase toda a mídia dirigida por megacorporações”.

O que está em disputa nas eleições deste ano, portanto, são projetos já testados, que significam continuidade ou mudança. Este seria o verdadeiro CR-P da disputa eleitoral para presidente da República.

A grande mídia, no entanto, tenta construir um CR-P do “pós-Lula”. Nele, “o que estaria aberto para a escolha seria apenas o nome do ‘administrador do condomínio Brasil’. Seria como se o ‘ônibus Brasil’ tivesse trajeto conhecido, mas seria preciso saber apenas quem seria o melhor, mais eficiente, ‘motorista’. No CR-P pós-Lula, o presidente Lula governou, acertou e errou. Mas o mais importante seria que o governo acabou e o presidente Lula não é candidato. Agora, estaríamos caminhando para uma nova fase em que não há sentido estabelecer comparações e posições (…); não caberia avaliar o governo Lula comparando-o com os seus antecessores e, também, nenhum candidato deveria (ser de) oposição ou situação (…); projetos aplicados e testados se tornam abstrações e o suposto preparo dos candidatos para ocupar o cargo de presidente se transforma em critério objetivo”.

Sicsú comenta que a tentativa da grande mídia de construir esse CR-P se revela, dentre outras, na maneira como os principais candidatos à Presidência são tratados na cobertura política. Diz ele: “a candidata Dilma é apresentada como: ‘a ex-ministra Dilma Rousseff, candidata à Presidência’. Ou ‘a candidata do PT Dilma Rousseff’. Jamais (…) Dilma (é apresentada) como a candidata do governo (…)”. Por outro lado, “Serra e Marina não são apresentados como candidatos da oposição, mas sim como candidatos dos seus respectivos partidos políticos. Curioso é que esses mesmos veículos de comunicação, quando tratam, por exemplo, das eleições na Colômbia, se referem a candidatos do governo e da oposição”.

Novos tempos

Muita água ainda vai rolar antes do dia das eleições. Sempre haverá uma importante margem de imprevisibilidade em qualquer processo eleitoral. Se levarmos em conta, no entanto, o que aconteceu nas eleições de 2006, o poder que a grande mídia tradicional tem hoje de construir um CR-P dominante não chega nem perto daquele que teve há 20 anos. E, claro, um tal CR-P não significaria a eleição garantida de nenhum candidato (a).

O país realmente mudou. A velha mídia, todavia, insiste em “fazer de conta” que tudo continua como antes e seu poder permanece o mesmo de 1989. Aparentemente, ainda não se convenceu de que os tempos são outros.

*Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.

FEIJOADA NO QUIOSQUE DA BRAHMA COM “GINGA DO MANÉ” / sábado. floripa

BELA NOITE (Silêncio) – por lucas paolo / são paulo


Embalados em sábado à noite, dois jovens torrenciavam pelas vielas madrugadas da noite paulistana. Baso, o escalafobético da noite, pensaria. Sonembriagavam-se de tédio: desvaneciam: as mulheres, as bebidas, o turbilhão. Gondoleava-se a gandaia rumo ao Hades, ao outro jovem a hipertrofia do supracotidiano. Amanhã a missa do galo, agora, silêncio.

Languidosseiam alguns bemóis surrupiados da promessa aurórea: Clair de Lune. Música-doce-Música! Regozijar-se-ia Baso: o tumulto definha ante a pureza do som. Ouvia a onipotência de um suave murmurar que se onipresentearia nas fugidias lembranças de um enfadonho programa noturno. Meu umbigo ubíquo!

Outra coisa que não música: grude-desgrude cerveja-sapato, olhos-azuis de lábios-carnudos de nariz-empinado, pensamento pisca-piscante, gira-gira-roda-roda-pé-pé-caranguejo-umpeixinhoforad’água: como falta poesia neste mundo!

Libava a libidinosa musa que lhe lambia os ouvidos. Gélido o ar matutinal perpassava-se em reconfortante abraço de mãe. Música: aplumada, envolvente.

Sentir-se-ia catártico.

Paralelepipedizararm-se as ruas e Baso sentiram-se boêmios. Um panamá cresceu esbranquiçado por seus alvos cabelos. Alvéolos envelheciam numa brisa luarenta. Poderia morrer em consonância com o universo. Baso: uma dissonância perdida no século XXI!

Baso sentir-ser-ia epifânico.

E, longínqua, ela ainda soava. Baso olhava para o lado e via seu amigo que ia se deixando existir, passando, baladeando pela vida. Sentia pena. Sabia da simplicidade dele. Gostaria de poder dividir aquelas sensações. Impingia-lhe a obrigação de compartilhar aqueles pensamentos, aquelas idéias, tantas sensações! Ao mesmo tempo, remorso, solidão. Ah! Queria gramofonizar o mundo com aquela sublime melodia! Sentiu-se impotente, único, serenizou. Olhou paro o lado e o brilho nos olhos do outro o paralisou.

Baso vislumbra uma lua refletida.

HIBERNAL de ewaldo schleder / ilha de santa catarina.solidão

hibernal

.

na praia da solidão

o galo todo prosa

anuncia ao mundo novo

a sua velha cantilena

.

como platéia alvoroçada

o mar ecoa entre os morros

pré-histórico solo das ondas

em ressacas infindáveis

.

o vento na vila da praia

lambe as frestas do arvoredo

deixa sua marca nas folhas

e silencia os passarinhos

.

quando as nuvens desabam

a cachoeira faz a festa

água doce em largo abraço

bate na porta das casas

.

já a sorte do pescador

não se lê em mãos vazias

a miragem está no sal

num cardume de tainha

Guerra anunciada na ABL: João Ubaldo Ribeiro x FHC – por leandro fortes / BRASILIA



Guardei, por 12 anos, em meio à minha papelada imunda de recortes de jornais e revistas velhas, numa caixa de papelão em frangalhos, um artigo de João Ubaldo Ribeiro datado de 25 de outubro de 1998, porque esperava justamente esse momento: a hora em que Fernando Henrique Cardoso, alijado da político e na iminência de cair no esquecimento público, se candidatasse a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. O artigo, intitulado “Senhor Presidente”, foi escrito logo depois da vitória de FHC, no primeiro turno das eleições de 1998, graças ao Plano Real e à aprovação, no Congresso Nacional, da Emenda Constitucional da reeleição, conseguida à custa de um escandaloso esquema de compra de votos. O texto é pau puro e, surpreendentemente, foi escrito numa época em que a mídia nacional era, praticamente, uma assessoria de imprensa do consórcio PSDB/PFL. Não por ou tra razão, foi inicialmente censurado em “O Estado de S.Paulo”, para onde o cronista escrevia, embora o jornal tenha sido obrigado a publicá-lo, uma semana depois, para evitar se envolver em um escândalo de censura justo com um dos mais respeitados escritores do país. Num tempo de internet incipiente, a repercussão do artigo foi mínima, ficando restrita às redações e ao meio intelectual, de resto, também acovardado pela força do pensamento único imposto à sociedade pela imprensa e pelo governo de então.

Esse retalho jornalístico ficou comigo tanto tempo porque, no fundo, eu tinha certeza que a vaidade intelectual de FHC iria levá-lo, em algum momento, a pleitear uma vaga na ABL, como agora se noticia em notas discretas de colunas de jornal, certo de que se trata de uma confraria historicamente vulnerável a influências políticas, quando não à bajulação pura e simples, como qualquer um pode constatar, embora abrigue grandes escritores, como o próprio João Ubaldo Ribeiro. Contudo, lá também estão escribas do calibre de José Sarney e do cirurgião plástico Ivo Pitanguy. No passado, também circulavam entre os imortais o general Aurélio de Lira Tavares (codinome “Adelita), eleito em 1970, com o apoio do ditador Emílio Médici, e Roberto Marinho, das Organizações Globo. A presença de FHC, que pelo menos escreveu uns livros de sociologia não seria, portanto, um escândalo em si. O problema é o artigo de João Ubaldo.

No texto, o escritor baiano, entre outras considerações, refere-se assim a Fernando Henrique Cardoso: “(…) o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico”. Mais adiante, relembra um dos piores momentos da vida de FHC: “(…) o senhor, que já passou pelo ridículo de sentar-se na cadeira do prefeito de São Paulo, na convicção de que já estava eleito, hoje pensa que é um político competente e, possivelmente, tem Maquiavel na cabeceira da cama. O senhor não é uma coisa nem outra, o buraco é bem mais embaixo”.

E por aí vai, até se lembrar, a certa altura do texto, que FHC, em algum momento da vida, poderia se interessar pela vida imortal da ABL. João Ubaldo, então, cospe uma fogueira de brasas para cima de Fernando Henrique: “(…) E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais”.

Eu posso estar errado, já se passou mais de uma década, a ira de João Ubaldo pode ter se perdido na poeira do tempo, mas a julgar pelo teor do imortal artigo do escritor e jornalista baiano, FHC vai ter que pensar duas vezes antes de se candidatar a uma vaga na ABL. Ou considerar o fato de que só vai entrar lá por cima do cadáver de João Ubaldo Ribeiro. A conferir.

Abaixo o artigo completo, para quem quiser se deleitar:

Senhor Presidente – João Ubaldo Ribeiro

25 de outubro de 1998

Senhor Presidente,

Antes de mais nada, quero tornar a parabenizá-lo pela sua vitória estrondosa nas urnas. Eu não gostei do resultado, como, aliás, não gosto do senhor, embora afirme isto com respeito. Explicito este meu respeito em dois motivos, por ordem de importância. O primeiro deles é que, como qualquer semelhante nosso, inclusive os milhões de miseráveis que o senhor volta a presidir, o senhor merece intrinsecamente o meu respeito. O segundo motivo é que o senhor incorpora uma instituição basilar de nosso sistema político, que é a Presidência da República, e eu devo respeito a essa instituição e jamais a insultaria, fosse o senhor ou qualquer outro seu ocupante legítimo. Talvez o senhor nem leia o que agora escrevo e, certamente, estará se lixando para um besta de um assim chamado intelectual, mero autor de uns pares de livros e de uns milhares de crônicas que jamais lhe causarão mossa. Mas eu quero dar meu recadinho.

Respeito também o senhor porque sei que meu respeito, ainda que talvez seja relutante privadamente, me é retribuído e não o faria abdicar de alguns compromissos com que, justiça seja feita, o senhor há mantido em sua vida pública – o mais importante dos quais é com a liberdade de expressão e opinião. O senhor, contudo, em quem antes votei, me traiu, assim como traiu muitos outros como eu. Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico. Mas, como dizia antigo personagem de Jô Soares, eu acreditei.

O senhor entrou para a História não só como nosso presidente, como o primeiro a ser reeleito. Parabéns, outra vez, mas o senhor nos traiu. O senhor era admirado por gente como eu, em função de uma postura ética e política que o levou ao exílio e ao sofrimento em nome de causas em que acreditávamos, ou pelo menos nós pensávamos que o senhor acreditava, da mesma forma que hoje acha mais conveniente professar crença em Deus do que negá-la, como antes. Em determinados momentos de seu governo, o senhor chegou a fazer críticas, às vezes acirradas, a seu próprio governo, como se não fosse o senhor seu mandatário principal. O senhor, que já passou pelo ridículo de sentar-se na cadeira do prefeito de São Paulo, na convicção de que já estava eleito, hoje pensa que é um político competente e, possivelmente, t em Maquiavel na cabeceira da cama. O senhor não é uma coisa nem outra, o buraco é bem mais embaixo. Político competente é Antônio Carlos Magalhães, que manda no Brasil e, como já disse aqui, se ele fosse candidato, votaria nele e lhe continuaria a fazer oposição, mas pelo menos ele seria um presidente bem mais macho que o senhor.

Não gosto do senhor, mas não tenho ódio, é apenas uma divergência histórico-glandular. O senhor assumiu o governo em cima de um plano financeiro que o senhor sabe que não é seu, até porque lhe falta competência até para entendê-lo em sua inteireza e hoje, levado em grande parte por esse plano, nos governa novamente. Como já disse na semana passada, não lhe quero mal, desejo até grande sucesso para o senhor em sua próxima gestão, não, claro, por sua causa, mas por causa do povo brasileiro, pelo qual tenho tanto amor que agora mesmo, enquanto escrevo, estou chorando.

Eu ouso lembrar ao senhor, que tanto brilha, ao falar francês ou espanhol (inglês eu falo melhor, pode crer) em suas idas e vindas pelo mundo, à nossa custa, que o senhor é o presidente de um povo miserável, com umas das mais iníquas distribuições de renda do planeta. Ouso lembrar que um dos feitos mais memoráveis de seu governo, que ora se passa para que outro se inicie, foi o socorro, igualmente a nossa custa, a bancos ladrões, cujos responsáveis permanecem e permanecerão impunes. Ouso dizer que o senhor não fez nada que o engrandeça junto aos corações de muitos compatriotas, como eu. Ouso recordar que o senhor, numa demonstração inacreditável de insensibilidade, aconselhou a todos os brasileiros que fizessem check-ups médicos regulares. Ouso rememorar o senhor chamando os aposentados brasileiros de vag abundos. Claro, o senhor foi consagrado nas urnas pelo povo e não serei eu que terei a arrogância de dizer que estou certo e o povo está errado. Como já pedi na semana passada, Deus o assista, presidente. Paradoxal como pareça, eu torço pelo senhor, porque torço pelo povo de famintos, esfarrapados, humilhados, injustiçados e desgraçados, com o qual o senhor, em seu palácio, não convive, mas eu, que inclusive sou nordestino, conheço muito bem. E ouso recear que, depois de novamente empossado, o senhor minta outra vez e traga tantas ou mais desditas à classe média do que seu antecessor que hoje vive em Miami.

Já trocamos duas ou três palavras, quando nos vimos em solenidades da Academia Brasileira de Letras. Se o senhor, ao por acaso estar lá outra vez, dignar-se a me estender a mão, eu a apertarei deferentemente, pois não desacato o presidente de meu país. Mas não é necessário que o senhor passe por esse constrangimento, pois, do mesmo jeito que o senhor pode fingir que não me vê, a mesma coisa posso eu fazer. E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais.


CM/21/07/2010 14:04:03

CHAMAMENTO por vera lúcia kalaari / portugal

O ”Chamamento”, está a cada momento presente ao nosso olhar: Está naquele último raio de sol no poente…Aquele que ficou um só minuto efémero e luminoso… Está no voo distante e sereno duma gaivota que passa no concavo da tarde, quiçá para ignoradas e longínquas paragens, talvez para regiões inexistentes… Está no murmúrio da água sussurrante, o murmúrio leve, perdido, no silêncio da paisagem…Está numa nuvem na penumbra da tarde, leve , macia, como um gesto de ternura… Está até na pétala que tombou, silenciosa . no jardim, sob o luar…Que tombou com a leveza de um perfume que se evola…De um som que se cala… Eu considero todas estas pequenas maravilhas o ”Chamamento”… E quem tiver olhos para ver tudo isto, terá também a capacidade de se aperceber que nada poderá deixar morrer estes pequenos milagres que acontecem todos os dias e que teremos que, forçosamente, deixar como herança aos nossos filhos. Porque é neles que sentimos a realidade da Existência desse Ser Supremo. São os pequenos/grandes sinais de amor que o homem teima em ignorar, na sua profunda cegueira, na sua solidão, na sua apatia, na sua ignorância, que o levará a fechar, no final da sua vida, o seu livro, com as suas mil páginas em branco.

DESCOBERTA ESTRELA COM MASSA 265 VEZES MAIOR QUE A DO SOL !

Descoberta estrela com maior massa no universo

Cientistas calculam que ‘R136a1’ tem atualmente 265 vezes a massa do Sol.
Sua luminosidade é 10 milhões de vezes maior.


Imagem divulgada por observatório europeu mostra três estrelas que tem massa maior que a do sol. A que tem mais massa, conhecida como R136a1e localizada no centro da imagem, tem hoje o equivalente a 265 vezes a massa do Sol, mas cientistas calculam que na época de seu nascimento esse número pode ter chegado a 320 vezes. (Foto: AP)

Ela também tem grande luminosidade, cerca de dez milhões de vezes maior que a do Sol (Foto: AP)

A. PRESS.

RETRATO FALADO de um VELHO JAPONÊS de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Seus olhos são baços e pequeninos

delicadamente colocados

sobre a renda das rugas.

Mas seu olhar tem uma imensidão que

lembra o mar.

O ar de oitenta anos de sorrisos

desgastaram seus dentes

como o vento, uma rocha.

Ele tem um chuvisco com

arco-íris cada vez que fala contra o sol

e suas palavras rodam

nos cérebros como

folhas de outono

quando entram pela janela dos ouvidos.

DO AVESSO de zuleika dos reis / são paulo



O mundo do avesso do avesso do avesso do avesso

do avesso do avesso do avesso do avesso do avesso

do avesso

dez vezes como se este número

assim redondo

repusesse o direito

do mundo

repusesse

o mundo do lado direito.

AFINAL:

DE QUE LADO DO AVESSO FICAMOS?

JOSÉ ANTONIO DE LIMA abre exposição no CENTRO CULTURAL CORREIOS / RIO DE JANEIRO

Julho, 2010

Rio recebe instalação “Tramas” de artista plástico do Paraná

O Centro Cultural Correios, no Centro do Rio, abre no dia 28 de julho, às 19 horas, a exposição individual do artista plástico paranaense José Antonio de Lima. Sob o título “Traquitramas”, a mostra é composta por objetos de produção recente, que gravitam em torno da instalação “Tramas”, confeccionada por tecidos costurados com cordas e fios de nylon, estruturadas com ferro. O conjunto permanece em exibição até o dia 5 de setembro.

“Tramas” já foi apresentada em espaços internacionais como o Hyogo Prefectual Museum of Art, da cidade de Kobe, capital da província de Hyogo, no Japão, em 2008, em uma parceria com o Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba, PR. Foi exposta ainda em Estocolmo, Suécia (2007) e na Finlândia (2010); além de ter tomado o espaço do Memorial de Curitiba e do Museu de Arte Contemporânea, de Joinville (SC), em 2007.

O artista explica que o ponto de partida para as Tramas, agora apresentadas no Rio de Janeiro, são obras anteriores, iniciadas no período de 2001-2002, chamadas de Catedrais Espaciais, realizadas a partir de estruturas de metal retorcido, de forma mais ou menos circular, recobertas por pedaços de tecido cru, amarrado e esticado. “As Catedrais ainda tinham o caráter de uma escultura tradicional, no sentido de constituírem um núcleo estrutural ao redor do qual o espectador transitava para descobrir seus vários ângulos e formas. Nas Tramas este núcleo desapareceu; a obra, então, cresceu em todas as direções, sendo formada por várias peças construídas apenas com corda e tecido esticados, ligadas entre si e à estrutura do espaço em que se inserem”, descreve.

Para o crítico de arte e professor da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Fabrício Vaz Nunes, “a obra de José Antonio é marcada pela evocação da ação humana e da passagem do tempo sobre materiais crus e rudes, em que elementos como texturas, cores, densidades e resistências tornam-se pontos de partida para a sua poética”. Ele destaca que “ação do artista cria, a partir da matéria bruta, objetos que parecem querer retornar ao estado de natureza, envelhecidos e degradados ou mesmo semelhantes aos objetos naturais; mas trata-se, sempre, de uma construção cenográfica, ilusória”

Vaz Nunes, que foi curador da exibição de “Tramas” em mais de uma ocasião, acrescenta que trata-se de uma obra que se realiza em direta articulação com o ambiente arquitetônico, qualificando-o como um espaço fictício e ilusório, tornado parte de uma obra que é feita para ser vivida, percorrida pelo olhar e também pelo corpo do espectador. A multiplicidade dos módulos e as várias possibilidades de articulação entre as peças criam assim uma obra “mole”, em que cada montagem é diferente da anterior: as Tramas são como um organismo que se adapta de forma diversa a cada ambiente, gerando, propriamente, todo um espaço configurado pela ação artística”. Assim, a instalação aumenta, diminui, cresce ou encolhe em altura e largura, de acordo com o espaço onde é apresentada.

Os objetos, ou “traquitanas”, que complementam a exposição dos Correios, passaram a se denominar “traquitramas”, por serem variantes e giraram em torno da instalação “Tramas”, completando a proposta.

JOSÉ ANTONIO DE LIMA tem uma página exclusiva neste site. CLIQUE AQUI.

Divulgação Institucional

Centro Cultural Correios

Maria José Cardoso

(21)2219-5323/5301-9761-2630

Contato com o artista

José Antonio de Lima

(41) 9193 2754 ou (41) 9227- 6025

jose@joseantoniodelima.com.br

Site:www.joseantoniodelima.com.br

Serviço

Centro Cultural Correios

José Antonio de Lima “Traquitramas”

Abertura: 28 de julho, às 19 horas

Exposição: de 29 de julho a 5 de setembro

De terça feira a domingo, das 12h às 19 h

Local: Rua Visconde de Itaboraí, 20

Centro – Corredor Cultural

CEP 200-10976

Fone: (21) 2253 1580

Patrocínio: Ministério da Cultura

Lei de Incentivo à Cultura

Objetos: chamados Traquitramas e as tramas.

Objetos construídos com tecido, metal e ferro.

UM ANIVERSÁRIO PARA SER COMEMEMORADO – por tonicato miranda ( pelos palavreiros da hora.)

Estivesse vivo Vladímir Vladímirovitch Maiakovski estaria hoje completando 117 anos. É muito? Pelo menos nos tempos modernos, não. O brasileiro mais ilustre, Oscar Niemeyer, completou ainda este ano 101 anos. A “nossa” brasileira mais idosa faleceu no início de Julho com 130 anos. A longevidade tanto é o tempo cronológico, mas também aquela que dura nos corações e na gente do povo e na memória da cultura humana. Ao povo russo, ao menos ao longo de duas décadas após 1930, Maiakovski permaneceu vivo, ainda que a muitos do governo revolucionário russo sua genial poesia parecesse obscura e inatingível às massas populares do seu país.

Mas tudo isto tem importância menor. Devemos agora render uma homenagem a este grande homem. E ele foi grandioso duas vezes. Na estatura, com quase 1,90m, e na grandeza da sua literatura, a maior parte dela: poemas. Pois neste dia especial a Equipe dos Palavreiros quer lembrar um pouco da vida e obra deste magnífico artífice da palavra.

Maiakovski nasceu em Bagdadi, ou Baghdati, segundo o Google, na Geórgia, em 7 de Julho de 1893, 19 de Julho pelo calendário ocidental. Naquela época a Geórgia era russa, e Maiakovski, teve seu início de envolvimento com a poesia e com a revolução quando foi preso, em 29 de Março de 1908. A tipografia onde habitualmente passava horas da sua juventude e que pregava os ideais revolucionários foi fechada e o bardo que se locomovia próximo ao local foi revistado, sendo com ele encontrada caderneta com importantes nomes de ativistas contrários ao regime imperial vigente. Ficou preso por dois anos, saindo da prisão aos 16 anos. Falando do seu tempo de prisão deixou escrito:

Eu, no entanto,

aprendi a amar no cárcere

…………………………………….

me enamorei da janelinha da cela 103

da “oficina de pompas fúnebres”

……………………………………..

então

por um raiozinho de sol amarelo

dançando em minha parede

teria dado todo um mundo.

Na prisão escreveu poemas e textos diversos, tendo organizado um conjunto de poemas que pretendia ver transformado em livro, mas os originais foram apreendidos quando ganhou a “liberdade”. Aspeamos a palavra porque saiu da prisão para cumprir um período de degredo, que somente não se materializou por influência de amigos e companheiros apaziguados pelo sistema.

Matriculou-se na Escola de Belas-Artes, conviveu com o Príncipe Lvov, que tentou mudar sua vontade de “crítica e agitação”. Conselho não seguido, evidentemente, dado seu espírito irrequieto e ideais fortemente arraigados, inclusive em sua poesia. Ao seguir nos estudos, se opõe à linguagem acadêmica de muitos professores, aos quais chamava de decadentes e simbolistas. Costumava dizer sobre os conservadores e seguidores dos clássicos na literatura da sua época: eles “continuam a atirar ananases ao céu”.

Chegou a afirmar:

“…Que posso opor às estéticas antiquadas que me rodeiam? Por acaso a revolução não exigirá de mim que passe por uma escola séria? Fui visitar um camarada, Medvédev, que era então para mim um camarada do Partido. “Quero fazer uma arte socialista”. Meu amigo se pôs a rir às gargalhadas: “Tens os olhos maiores que a barriga”. Interrompi o trabalho de militante e me pus a estudar.”

Procurou depois completar sua instrução, de forma independente, com outros mestres, tendo se tornado amigo íntimo de Gorki. Logo funda o grupo futurista e busca, através de publicações regulares colocar suas posições e a de companheiros sobre a arte, a literatura e as ideias partidárias, sempre atacando a literatura conservadora.

Por não pretendermos repetir aqui toda a sua trajetória, contida na excelente tradução e estudo biográfico realizado por Emílio C. Guerra, 2ª  Edição, 1983, da Editora Max Limonad, a Equipe dos Palavreiros vai apenas pontuar poucas passagens constantes no livro citado e colocar seu mais conhecido poema. Vale dizer, entretanto, que nenhum antes dele, e mesmo depois, levou a poesia engajada às lutas operárias e à vontade de melhores dias dos cidadãos simples do povo e do campesinato. Esta sua ação aguda não tem paralelo na história cultural da humanidade.

Maiakovski além da poesia, dos textos para teatro e artigos voltados à propaganda do partido da revolução. realizou inúmeras palestras e conferências. Ficou conhecido o seu sarcasmo que ele dizia ele ser uma das suas armas mais certeiras e eficientes. Tinha mania de colecionar bilhetes e perguntas escritas por pessoas das platéias que lotavam para assisti-lo, nas diversas cidades em que visitava. Mas muitas vezes respondia as perguntas após a conferência, onde os poemas declamados sempre ficavam para o final. Foi grande declamador, com uma capacidade de improviso na resposta sem igual.

Certa feita, foi questionado por alguém na platéia que lhe disse:

__ Maiakovski, suas piadas não atingem meu entendimento.

__ É que você é uma girafa! – exclamou o poeta. – Somente uma girafa pode molhar os pés na segunda-feira e só ficar resfriada no domingo.

Na mesma sessão um jovem mais atrevido o desafiou:

__ Maiakovski, você nos toma a todos como idiotas, não?

__ Bem, bem… – responde Maiakovski – Por que a todos? Por enquanto só vejo um diante de mim.

Assim era o bardo. Não sabemos dizer – e os estudiosos da sua vida e obra até hoje não sabem dizer, as razões do seu suicídio. Mas certamente muito teve a ver com seus amores (ele um apaixonado, tendo convivido com três grandes amores), e com o desgosto de ver muitos dos seus ideais serem apartados das lutas e campanhas partidária após a morte de Lênin, por quem nutria grande admiração.

Os palavreiros recomendam a leitura do livro Maiacovski (esta a grafia colocada pelo autor), da importante tradução realizada por Emílio C. Guerra e, também, a tradução realizada por Haroldo de Campos, da Record.


A plenos pulmões

Vladímir Maiakóvski

Primeira introdução ao Poema

Caros

camaradas

futuros!

Revolvendo

a merca fóssil

de agora,

perscrutando

estes dias escuros,

talvez

perguntareis

por mim. Ora,

começará

vosso homem de ciência,

afogando os porquês

num banho de sabença,

conta-se

que outrora

um férvido cantor

a água sem fervura

combateu com fervor. (1)

Professor,

jogue fora

as lentes-bicicleta!

A mim cabe falar

de mim

de minha era.

Eu — incinerador,

eu — sanitarista,

a revolução

me convoca e me alista.

Troco pelo “front”

a horticultura airosa

da poesia —

fêmea caprichosa.

Ela ajardina o jardim

virgem

vargem

sombra

alfrombra.

“É assim o jardim de jasmim,

o jardim de jasmim do alfenim”.

Este verte versos feito regador,

aquele os baba,

boca em babador, —

bonifrates encapelados,

descabelados vates —

entendê-los,

ao diabo!,

quem há-de…

Quarentena é inútil contra eles —

mandolinam por detrás das paredes:

“Ta-ran-ten-n-n…”

Triste honra,

se de tais rosas

minha estátua se erigisse:

na praça

escarra a tuberculose;

putas e rufiões

numa ronda de sífilis.

Também a mim

a propaganda

cansa,

é tão fácil

alinhavar

romanças, —

Mas eu

me dominava

entretanto

e pisava

a garganta do meu canto.

Escutai,

camaradas futuros,

o agitador,

o cáustico caudilho,

o extintor

dos melífluos enxurros:

por cima

dos opúsculos líricos,

eu vos falo

como um vivo aos vivos.

Chego a vós,

à Comuna distante,

não como Iessiênin,

guitarriarcaico.

Mas através

dos séculos em arco

sobre os poetas

e sobre os governantes.

Meu verso chegará,

não como a seta

lírico-amável,

que persegue a caça.

Nem como

ao numismata

a moeda gasta,

nem como a luz

das estrelas decrépitas.

Meu verso

com labor

rompe a mole dos anos,

e assoma

a olho nu,

palpável,

bruto,

como a nossos dias

chega o aqueduto

levantado

por escravos romanos.

No túmulo dos livros,

versos como ossos,

Se estas estrofes de aço

Acaso descobrirdes,

vós as respeitareis,

como quem vê destroços

de um arsenal antigo,

mas terrível.

Ao ouvido

não diz

blandícias

minha voz;

lóbulos de donzelas

de cachos e bandos

não faço enrubescer

com lascivos rondós.

Desdobro minhas páginas

— tropas em parada,

E passo em revista

o “front” das palavras.

Estrofes estacam

chumbo-severas,

Prontas para o triunfo

ou para a morte.

Poemas-canhões,

rígida corte,

apontando

as maiúsculas

abertas.

Ei-la,

a cavalaria do sarcasmo,

minha arma favorita,

alerta para a luta.

Rimas em riste,

sofreando o entusiasmo,

eriça

suas lanças agudas.

E todo

este exército aguerrido,

vinte anos de combates,

não batido,

eu vos dôo,

proletários do planeta,

cada folha

até a última letra.

O inimigo

da colossal

classe obreira,

é também

meu inimigo figadal.

Anos

de servidão e de miséria

comandavam

nossa bandeira vermelha.

Nós abríamos Marx

volume após volume,

janelas

de nossa casa

abertas amplamente,

mas ainda sem ler

saberíamos o rumo!

onde combater,

de que lado,

em que frente.

Dialética, não aprendemos com Hegel. Invadiu-nos os versos

Ao fragor das batalhas,

Quando,

sob o nosso projétil,

debandava o burguês

que antes nos debandara.

Que essa viúva desolada,

— glória —

se arraste

após os gênios,

merencória.

Morre,

meu verso,

como um soldado

anônimo

na lufada do assalto.

Cuspo

Sobre o bronze pesadíssimo,

cuspo

sobre o mármore, viscoso.

Partilhemos a glória, —

entre nós todos, —

o comum monumento:

o socialismo,

forjado

na refrega

e no fogo.

Vindouros,

Varejai vossos léxicos:

do Letes

brotam letras como lixo —

“tuberculose”,

“bloqueio”,

“meretrício”

Por vós, geração de saudáveis, —

um poeta,

com a língua dos cartazes,

lambeu

os escarros da tísis.

A cauda dos anos

faz-me agora

um monstro,

fossilcoleante.

Camarada vida,

vamos,

para diante,

galopemos

pelo qüinqüênio afora. (2)

Os versos

para mim

não deram rublos,

nem mobílias

de madeiras caras.

Uma camisa

Lavada e clara,

e basta, —

para mim é tudo.

Ao

Comitê Central

do futuro

ofuscante,

sobre a malta

dos vates

velhacos e falsários,

apresento

em lugar

do registro partidário

todos

os cem tomos

dos meus livros militantes.

[Dezembro, 1929/janeiro, 1930]


dê UM clique no centro do vídeo.

Notas

1 — Maiakóvski escreveu versos de propaganda sanitária.

2 — Alusão aos Planos Quinquenais soviéticos.

Este é um dos poemas mais conhecidos do poeta.

A tradução é de Haroldo de Campos.

Veja também:

http://www.xenia.com.br/jornal/maiakovski.htm

http://www.revistabula.com/posts/livros/revolucao-russa-de-stalin-devorou-maiakovski

A FRASE DERRADEIRA por hamilton alves / ilha de santa catarina

José Saramago, quando estava mais pra lá do que pra cá, em certo momento, proferiu a seguinte singela sentença, para cuja formulação não precisaria ser um escritor, um sábio, um filósofo ou qualquer outra coisa desse tipo, qualquer ser humano a diria em circunstâncias semelhantes ou até diferentes:

“A vida é bonita”.

Um homem (no caso um novelista, prêmio Nobel de literatura) transita pela vida até o fim de seus dias e chega a essa rematada conclusão.

Tal declaração traz consigo toda a verdade sobre a vida, inegavelmente.

Ninguém a recusa.

É tão palpável seu sentido, tão verdadeiro, que nenhum sábio teria motivo de contestá-la ou de afirmar o contrário. Ela se impõe à razão por seus próprios termos simples.

Como se num dia de chuva alguém afirmasse: “chove”. Ou num dia que fizesse sol dissesse: “faz sol”.

Tal obviedade dispensaria maiores aprofundamentos metafísicos. Qualquer néscio percebe, ao primeiro exame, que “a vida é indubitavelmente bonita”.

Tal fato resulta de um senso comum das coisas. Ou se infere da própria natureza da vida, que, na verdade, é limpidamente bela. Nada se pode dizer em contrário a tal assertiva.

Quem o dissesse certamente cairia em erro ou no ridículo, pois é dessas verdades incontrastáveis.

Por que Saramago a disse ou a proferiu?

Há coisas que se dizem sem se medir o que, no fundo, podem significar. Ou a extensão do que contêm ou significam.

Um escritor de seu gabarito afirmar uma coisa banalíssima dessas suscita desde logo uma espécie de (como direi?) perplexidade.

Porque a teria dito?

Com que propósito a disse?

Em que se inspirou para dizê-la?

De que sentimento profundo estaria sendo acometido quando foi levado a proferi-la?

Muitas formulações dessa natureza podem-se fazer para ir ao fundo da questão. Saramago não a diria em vão ou sem estar possuído de um arroubo especial que o levasse a dizê-la. Algo o moveu, no fundo de si mesmo, a fazê-lo. Mas o que?

Bem, pouco importa saber por que o fez.

Fê-lo porque quí-lo (seria a explicação óbvia).

Ou deixando-se levar por um desabafo de uma simples criatura humana, independentemente de qualquer outra razão ou contingência, para perceber com toda a clareza do espírito que, afinal de contas, a vida é bonita.

E tudo considerado pode-se sair por ai proclamando esta verdade indubitável em forma até de um hai-cai:

” a vida é bonita

a vida é bonita

a vida é bonita”.

Tal tese, a de que a vida é bonita, suplanta outro qualquer questionamento sobre a existência.

O FIM DO “JORNAL DO BRASIL” IMPRESSO e o PAPEL DO JORNALISMO PÚBLICO. – por beto almeida / rio de janeiro

O jornalismo de mercado, com o fim do JB impresso, revela, uma vez mais, sua incapacidade de dar solução para o problema da dívida informativo-cultural e para permitir, finalmente, que o povo brasileiro tenha acesso a uma tecnologia do século XVI, a imprensa de Guttemberg. Se estamos a caminho de superar a miséria absoluta, também é chegada a hora – sem confrontar com as modalidades de informação na internet, mas complementando-as – de também superarmos a indigência na leitura de jornal, a miséria informativo-cultural.


“A minha cama é uma folha de jornal”
Noel Rosa

Primeiro foi o fechamento da Tribuna da Imprensa, logo seguido pelo fechamento da Gazeta Mercantil. Agora, o curso de agonia da imprensa comercial anuncia o fim do Jornal do Brasil em sua versão impressa. Junto dele está a vertiginosa queda de tiragem dos jornais que resistem, evidentemente acompanhada da clamorosa queda de sua credibilidade. Este talvez seja mais um alerta e mais uma oportunidade para discutir os limites quase que intransponíveis para o jornalismo no modelo comercial e a necessidade de insistir e estimular a conscientização e as iniciativas para a construção de um jornalismo público.. Indo direto ao tema: é bem provável que o presidente Lula tenha um papel histórico também para romper os tabus e preconceitos que impedem os brasileiros de ter um jornal de missão pública, nacionalista, popular.

Um jornal centenário, sonho de uma geração de jornalistas, inovador em forma e conteúdo, o Jornal do Brasil, que já vinha definhando, como muitos outros diários, agora anuncia que deixará as bancas. Não estará mais nas praias, nos botequins, nos escritórios, nos ônibus, nas universidades, nem mesmo nas feiras para embrulhar peixe.

Durante anos registrou dificuldades financeiras. Arrastou-se endividado em bancos públicos, muito embora sua linha editorial, como de resto de toda a mídia, hostil ao papel do estado na economia. Mas, não quando os recursos públicos salvam a crise.

A dívida informativo-cultural

Até quando vamos assistir este definhamento sem abrir um grande debate nacional sobre o futuro da imprensa no Brasil, sobre a dívida informativo-cultural acumulada, sobre a proibição, na prática, da leitura de jornal no Brasil pelo o povo? Até quando os jornalistas vão superar a discussão estreita que vem fazendo acerca da titularidade e diploma desvinculada da extinção concreta e incontornável de postos de trabalho e da proibição da leitura de jornal pelo povo? Multiplicaram-se as faculdades de jornalismo e reduzem-se os jornais e os postos de trabalho. Paradoxo! Tínhamos um exército de desempregados diplomados. Mesmo que o diploma volte a ser obrigatório, teremos ainda mais desempregados e menos lugar para trabalhar. E o povo sem ler jornal!

Enquanto a Argentina tem o jornal Página 12, o México tem o La Jornada, a Bolívia tem o jornal Cambio – criado há apenas 8 meses e já é líder de vendas – a Venezuela tem o Correio do Orenoco, todos fazendo o contraponto da linha editorial da imprensa oligárquica, teleguiada pelos interesses estrangeiros, no Brasil temos o domínio completo de uma imprensa anti-nacionalista e anti-popular. Não por acaso, com hostilidade unânime à candidata de Lula. São estes jornais e revistas contra a nacionalização do petróleo, criticam a reconstrução da indústria naval, exasperam-se com a valorização do salário mínimo, insistem na tese conservadora da disciplina fiscal, da austeridade, do corte de gastos, quando, evidentemente, o país precisa aumentar decididamente os investimentos públicos para dar sustentação ao crescimento econômico, que lhe permita reduzir as disparidades internas e as vulnerabilidades externas. Esta imprensa chega ao ponto de publicar documentação falsificada sobre uma candidata à presidência, a colocá-la em uma charge como personagem da prostituição (nenhuma ofensa deste escriba às trabalhadoras do sexo), mas, no seu discurso de falsa ética e moral, esta imprensa esquece que em suas páginas de classificados divulga, portanto associa-se comercialmente, deprimente atividade do comércio de sexo.

Última Hora e Le Monde

É hora de recorrer mais uma vez à história para repararmos como nascem e como morrem os jornais. Aqui vemos o JB definhar depois de passar a ser controlado por empresários favorecidos pela privatização. Estão perdendo leitores, mesmo quando há avidez para a leitura. Na França, o Le Mondenasceu após a Segunda Guerra estimulado por De Gaule, como parte de uma visão nacional.. Aqui no Brasil, percebendo a hostilidade unânime de uma imprensa movida por uma cruzada anti-nacional, o Presidente Getúlio Vargas também estimulou o nascimento do jornal Última Hora, popular, nacionalista, que informava sobre os temas de interesse da classe trabalhadora, criando um paradigma jornalístico.

Como praticamente todos os órgãos de imprensa, o Última Hora também recebeu créditos de bancos públicos. Por acaso o Jornal do Brasil nunca os recebeu? Ou O Globo? Ou a TV Globo, que nasceu de modo irregular, a partir de operação ilegal denunciada vastamente na CPI do Grupo Time-Life, também não recebeu? Por quantos anos a TV Globo foi favorecida por taxa subsidiada da Embratel para uso de satélites????

Deixemos de hipocrisia: os grandes grupos de mídia só se transformaram em gigantescos conglomerados em razão de inescrupuloso favorecimento creditício estatal e não em função de sua competência empresarial. Para monopolizar audiência a TV Globo chegou a atrasar em 9 anos a introdução do aparelho de controle remoto no Brasil, conforme denúncia do ex-Ministro das Comunicações, Euclides Quandt de Oliveira.

Fundação para o Jornalismo Público

Sustentamos que é chegada a hora para que seja levada ao presidente Lula – esta é afinal uma discussão estratégica de nação, não de mercado – numa proposta de criação de uma Fundação para o Jornalismo Público, destinada a tornar a leitura de jornal no Brasil um hábito democrático, popular, acessível, viabilizando a pluralidade e a diversidade informativas, cada vez mais ameaçadas quanto mais se fecham jornais. E para sustentá-la muitas alternativas podem ser discutidas, entre elas aquela mais utilizada pelos grupos de mídia que são sustentados em boa medida pelas verbas publicitárias do Estado ao qual tanto agridem. Ou contando com a participação de Fundos de empresas públicas, muitos deles com altíssima rentabilidade, que bem poderiam ter uma participação ativa nesta Fundação de natureza pública, destinada a cumprir aquilo que embora expresso na Constituição, está muito longe de tornar-se realidade no Brasil: a informação é um direito de todos os cidadãos.

O fim do JB no papel e o papel de Lula

O presidente Lula já criou a Empresa Brasil de Comunicação, cumprindo com disposto constitucional que, no seu artigo 223, estabelece que a comunicação deve ser complementar entre os sistemas público, estatal e privado. A TV Brasil vem fazendo esforços importantes para adquirir visibilidade nacional, audiência e qualidade informativo-cultural. E tem surpreendido positivamente, muito embora haja muito por fazer ainda.

Mas, na área do jornalismo, o que se nota é redução assustadora do número de jornais, da tiragem de jornais, de sua credibilidade, ao lado de uma incompreensível multiplicação de faculdades de jornalismo, uma verdadeira indústria de canudos, sem que se possa garantir aos formados, algum dia, a oportunidade de trabalhar naquilo em que estudaram. Propaganda enganosa?

O jornalismo de mercado, com o fim do JB impresso, revela, uma vez mais, sua incapacidade de dar solução para o problema da dívida informativo-cultural e para permitir, finalmente, que o povo brasileiro tenha acesso a uma tecnologia do século XVI, a imprensa de Guttemberg. Se estamos a caminho de superar a miséria absoluta, também é chegada a hora – sem confrontar com as modalidades de informação na internet, mas complementando-as – de também superarmos a indigência na leitura de jornal, a miséria informativo-cultural.

E o presidente Lula, por sua trajetória, pelas tantas chicotadas que tomou das mais maledicentes formas de preconceitos desta imprensa oligárquica, é o mais credenciado para encorajar e estimular, não uma revanche, mas uma solução democrática para que os brasileiros possam, finalmente, não apenas alimentar-se com regularidade, como crescentemente ocorre, mas também ter acesso a jornal para a leitura cidadã e não apenas para forrar o chão, como na música de Noel .

(*) Beto Almeida é Diretor da Telesur

CM.

Curso rápido de como lesar viúvas e órfãos – por alceu sperança / cascavel.pr

Nossos bons colunistas políticos têm se esmerado em trazer diariamente novas informações sobre a movimentação frenética dos partidos. Cada qual aporta novos elementos ao panorama, permitindo que o cidadão trace mentalmente um quadro da realidade.

Esse quadro, que já se faz bem visível, traz lições de como engabelar a população e tirar vantagem dela. É um quadro com cores muito nítidas e fáceis de identificar se alguém realmente pretende analisar sua natureza morta.

A primeira cor que saltou aos olhos na leitura das colunas políticas foi, no período pré-convencional, a formação do tal do “grupo”. Uma tamanha conchavaria para montar o dito “grupo” que se imagina o frade de pedra com as bochechas coradas.

Não se dá a mínima para princípios políticos e os programas administrativos são encomendados e pagos a quilo – os grupos não querem mudar nada, pois o que lhes interessa é a coisa do jeito que está. Danem-se as necessidades da população.

Primeiro se pensa em selecionar “quem” será o títere da vez a ser manipulado pelas forças que realmente governam este mundo e este País: FMI, Banco Mundial e demais bancos, empreiteiras e grandes grupos econômicos nacionais e transnacionais.

As elitezinhas que temos aqui no Paraná fazem parte de um mesmo esquema de poder capitalista que pode ser rastreado até as barbas do imperador d. Pedro  II, com o Barão de Antonina e Jesuíno Marcondes, e de lá vem até aqui seguindo o mesmo fio.

Esse “quem”, deliberaram essas elitezinhas, encabeça, ao menos para efeitos de visibilidade externa, um “grupo”. E para a montagem desse grupo foi preciso “costurar” uma aliança de partidos.

Não para apresentar um projeto inovador, mas para somar segundos a um programete de campanha, no qual o marketing eleitoral tentará dourar a pílula e vender o cabeça do “grupo” como a solução fantástica e milagrosa para todos os problemas.

Os métodos empregados para a montagem dos “grupos” não ficam a dever nada aos arranjos com os quais as quadrilhas são montadas. O financiador da campanha vai cobrar, mais lá na frente, o que aplicou, na forma de poder e drenagem dos parcos recursos do erário para seus bolsos em troca de serviços, geralmente sofríveis e caros, prestados ao Estado. É esse o objetivo do “grupo”: ter poder para levar vantagem.

Essa é uma leitura superficial das informações que lemos diariamente nas páginas de política de nossa imprensa. O que não lemos, pois os políticos dos “grupos” não estão nem aí para a gente que sofre, é que não se move um dedo no rumo da politização.

Em Cuba, todos têm arma em casa para defender a Revolução, e por isso a criminalidade é baixíssima. Isso é politização. Aqui, todos querem ter arma para se defender do outro, do vizinho, do parente, do amigo, do sócio, e com isso a criminalidade é altíssima e crescente. Isso é despolitização.

Desesperados na luta pela sobrevivência, nossos irmãos enfrentam enormes dificuldades. Com baixos salários, pagam caro por tudo o que consomem enquanto alguns enriquecem. Não venham os tucanos, DEMs e luliberais dizer que a cesta básica é barata, pois 1 real de agora quer dizer 2.750 cruzeiros de antes. Era caro antes e está mais caro agora.

Os aluguéis aumentam e o ritmo da construção de casas populares anda devagar, praticamente parado, nem se pode considerar em crescimento vegetativo. A doenças tomam conta, a qualificação para o trabalho inexiste e até qualificados estão sobrando. A cura mais fácil é a morte, a perspectiva de renda mais fácil é resvalar para o crime: corrupção, contrabando, tráficos.

Além dos que trabalham e sofrem, há os marginalizados, os detentos, as famílias dos que perderam o emprego, a liberdade e a vida. Matam-se diariamente jovens que poderiam estar contribuindo para o desenvolvimento real de seu país.

E esses irmãos todos, a maioria sem condições de ler as entrelinhas das colunas políticas, a cada dois anos são obrigados a comparecer às seções eleitorais para votar num cabeça de “grupo” escolhido nessa conchavaria pseudopolítica.

Seria preciso democratizar de fato a sociedade, viabilizando uma democracia que seja realmente expressão e participação da maioria. Uma democracia socialista.

Mas muito cuidado com quem se diz “socialista” ou “comunista”: a prática é critério da verdade. Dizer-se “socialista” e apoiar capitalistas é brincadeira de mau gosto.

Sem mudanças profundas na sociedade, as eleições apenas servirão para que você escolha qual “grupo” vai desviar os recursos públicos das viúvas e dos órfãos para os bolsos de seus artífices e financiadores.

DANTE MENDONÇA é escolhido para ocupar a cadeira número 1 da ACADEMIA PARANAENSE DE LETRAS.

o chargista e cronista  DANTE MENDONÇA em manhã de autógrafos no PASSEIO PÚBLICO em Curitiba.


O jornalista e chargista Dante Mendonça, cronista de O Estado e daTribuna do Paraná, foi eleito ontem (15/7/10)  por unanimidade para ocupar a cadeira de número 1 da Academia Paranaense de Letras. A mesma foi fundada pelo professor e historiador José Francisco da Rocha Pombo (1857-1933) e está vaga desde 2006, quando faleceu seu antigo ocupante, o poeta e advogado Valfrido Pilotto, que tinha 103 anos de idade.

Dante deve assumir a cadeira no final deste ano. “Vai ser uma grande honra, principalmente porque a Academia tem apenas quarenta cadeiras”, diz. “A eleição representa uma consideração muito grande para qualquer escritor. A Academia tem um papel de muita importância na preservação do nome dos escritores e da literatura paranaense”.

Além das crônicas diárias que escreve para O Estado e Tribuna, Dante é autor de seis livros. O primeiro deles é Álbum de figurinhas e figurões, lançado em 1986, como uma coletânea de charges publicadas no jornal. O mais recente é Serra acima, serra abaixo: o Paraná de trás pra frente, que foi colocado à disposição do público no último mês de março.

Bastante ativo, o jornalista conta que deve começar a se dedicar a uma nova obra no final do ano, mas ainda não revela o assunto da mesma. Na Academia, ele conta que vai trabalhar para melhor divulgar e valorizar a literatura paranaense. “Soube da indicação à cadeira de número 1 há quinze dias. Ainda não sei ao certo quais vão ser minhas funções, mas quero trabalhar bastante para fazer crescer e incentivar a literatura do Paraná”, comenta.

Dante Mendonça começou a assinar a charge editorial de O Estado em 1974. Cidadão Honorário de Curitiba e do Paraná, nasceu emNova Trento (SC), estando radicado em Curitiba desde 1970. Além de chargista e jornalista, trabalhou por muitos anos em teatro, como ator, diretor e cenógrafo. Também passou pela televisão, fazendo um quadro diário de humor em telejornal. Foi o fundador da Banda Polaca, o maior bloco carnavalesco de Curitiba, e, em 1981, presidente da Comissão de Carnaval de Curitiba.

Entre outras exposições, participou do Salão de Humor de Piracicaba (SP) e da mostra especial de cartunistas brasileiros e estrangeiros no Salão Carioca de Humor, no Rio de Janeiro. Ganhou página no livroO Paraná e a caricatura, de Newton Carneiro, e consta da Antologia Brasileira de Humor.

Cintia Végas/Daniel Caron.

OEP.

Apanhados de uma carta encontrada num antigo livro. Ou esboço para um longo poema de amor. – por régis fernandes / ilha de santa catarina


Seu corpo levantou da cama. Permaneci deitado, não conseguia dormir, tentei por uns quarenta minutos. Ela estava se arrumando. Precisava de quinze minutos com ela e tudo estaria resolvido.

Foi para porta, se despediram e saiu. Levantei, não disse nada, fui atrás. Ela percebeu e não fez comentários. Descia as escadas. Atravessou o saguão do prédio e comentou a esmo que estava atrasada, não sei se foi para mim ou para o porteiro sempre estável na mesma atitude que dá nome a sua profissão. Nada o incomodava, nem pessoas e seus cachorros, síndicos ou pequenos aposentados. Alugueis atrasados ou entra e sai de gente estranha.

Viu duas figuras de olhos fundos, carregando ou sendo carregados pelo fim da brisa noturna. Seus semblantes cadavéricos. Revelava o peso da noite mal dormida, a esperança continua de mais um papel, mais uma dose. Era esse o motivo do entra e sai? Pequenos traficantes, aproveitadores, artistas, desocupados, amigos e não amigos, uma fauna vazia. Destruições magnéticas, rondas sinistras. Cercando a cabeça dos pequenos suicídios.

No estacionamento, entrou no carro pela porta do motorista, abriu a porta do passageiro. Entrei, entramos. Teve um leve sorriso de ambos.                                                                                                                          Iniciar uma conversa? Mas sem resultado fiquei quieto. Manhã sonolenta, a luz é como um tiro de máuser atravessando meus ânimos. Um nó na garganta fazia o gosto amargo circular. Queria esquecer que existia.

As vísceras do dia surgiam como chumbo pendurado. Precisava dizer, faltava coragem. Tão cedo, um congestionamento centopéia, invadia a cidade, suas ruas entrando em pessoas mal humoradas, gentilezas  banais. Ela ali do meu lado, pouco importava se tudo ia mal. Ela ali do lado, não sabia como dizer, nem mesmo conseguia desviar minha atenção daquele rosto púrpura.

“E o que vamos fazer?” perguntei com voz trêmula. Comecei mal, devia continuar? Olhou-me com olhos verdadeiros e negros. Eram tão fortes que faziam  meu estômago urrar, suspenso no abismo. Segurei  sua mão. Uma despedida?  Quase chorei, sem álcool, nem cocaína. Seu olhar, aquele que sempre quis receber, sincero.  Mãos juntas, até trocar de marcha. “O que vamos fazer?” Perguntei com firmeza. “O que você vai fazer?” Retrucou ainda séria. “É cedo, estou indo para um emprego de merda, não quero falar sobre isso agora.” Acelerou mais, olhou para frente. Como fazem as pessoas decididas. Com a mão deitou o cabelo para trás, trocou a marcha e procurou a minha. Pediu desculpas, aceitei.

Lá fora, um frio danado, dentro também. Queria ir embora.

Pessoas com pressa atravessavam as ruas, o sol não chegou. Estava atrasado, provavelmente não viria, tudo escuro. “Vem comigo, vamos embora agora, vamos ficar juntos, vem?” Era isso que queria dizer, fazia três semanas, só pensava nisso, dia e noite. Ela toda, só isso, juntos. Podia aceitar, podíamos ir embora, a cidade não me queria mais.

Fez uma curva, entrou na avenida. “Você ficou maluco acha que posso ir assim? Abandonar tudo e ir? Não consigo entender a cabeça de vocês. Acho que devemos ficar um tempo sem se ver. É melhor darmos um tempo.” Fingi que não escutava, não era real, a sua resposta rasgava.

Não era brincadeira. Segurava minha mão em seguida soltava para trocar a porra da marcha. Enquanto falava, não voltou a segurar. “Sabe que não podemos ficar juntos é melhor terminar com isso.” Tentei concertar, disse que não precisávamos fugir, mas continuaríamos juntos. Quem sabe moramos juntos os três? Riu e me pediu para não ficar chateado. Mas não dava mais.

Parou o carro, descemos, falei que ia esperar voltar.

“Entenda. Acabou não precisa me esperar. Não quero, é melhor ir embora!” Realmente brava. Com as mãos no bolso, esqueci o que fazia ali, fui para outro lugar, queria voltar para casa. Dormir um pouco, descansar.

Com um sorriso, pediu desculpas. “Deu as costas e foi embora.” Não! Espera!”gritei, voltou à cabeça. Acenei e ela voltou com o olhar me dizia adeus, seu corpo todo dizia adeus. “Vamos pensar melhor, te amo e nada de mal vai acontecer, em outro lugar podemos ficar juntos. Vem comigo?”

Do outro lado da rua, uma velha seguia para seu emprego, lépida, contagiada por milhões de enterros. Na minha frente, respirou fundo, queria se livrar daquela situação. “Não posso ir com você e sabe muito bem porque, não agüento mais isso. Nem minha vida e muito menos essa cidade. Mas não posso desistir de tudo agora. Se nada der certo na minha vida como já está acontecendo vou embora da cidade, do país, ou melhor, do mundo, vou sozinha. Desculpa fazer isso, mas preciso ir embora, quero que vá também, ou depois conversamos, estou atrasada. Fica bem, até!” Me deu um beijo e foi.

Usava saia preta bem justa, não andava bem de salto. Foi sem olhar para trás, uma única vez.

Na calçada, do lado do carro. Perdido, entre postes e seus fios, queria a palavra exata, queria que me batesse na cabeça. Olhei novamente e desapareceu.

As ruas e suas pessoas. Seus empregos. Esperava eles jogarem terra, para não ter mais que fingir. Isso não aconteceu? Levantei. Minhas unhas sujas, roupas em trapos. Fui para o centro. Caminhando pela Paulista.

A última visão, do lugar. Onde andei todo esse tempo? Uma voz gritava ao meu ouvido. No meu crânio milhões de velas, não reconhecia a voz. Isso já não importava apenas uma idéia, era o bastante.

Conduzi ou conduzido, na longa caminhada. Sonho hermético que não se realiza, campo urbano, perdido em eixos imaginários, circulava meu eterno adeus. Porém não terminava. Sete dias e a serpente encontrou o rabo.

A cidade cantou meu testamento, escutei os versos, parado em uma esquina, seu adeus.

O farol indo do verde para o vermelho. Faixas com pedestres. E a rua é um cemitério pavimentado. Na linha da minha mão, o metrô seguiu uma enorme sala de estar vazia. Nenhuma pequena humanidade, um palco vivo sem acontecimentos.

De cima do viaduto do Chá, vi pequenos desenhos dos ladrilhos, lá em baixo. Queria esquecer Ana,  precisava ir embora. Para onde? Foi quando encontrei… (aqui termina a carta).

O CERCO AO VOTO por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Começou. Nos 100 metros rasos da disputa pelo voto, os candidatos comprovam que política é a arte da representação.

Sobram rimas pobres, ideias parcas, promessas vãs, tipos bizarros, cabeças ocas e – o que é pior – “candidatos-bandidos”.

No Rio de Janeiro (et pour cause…), meia centena de candidatos estarão registrados, apesar de responderem a processo criminal por homicídio. Só falta o goleiro Bruno se candidatar a deputado – e requerer o direito de ser votado na cadeia.

O que espanta, mesmo, não é a facilidade com que facínoras se candidatam. Afinal, o Brasil criou uma jurisprudência de impunidade inédita no planeta. O tal “trânsito em julgado” é uma sentença “terminativa”, empurra qualquer punição com a barriga nesta terra dos “recursos”, embargos e despachos interlocutórios.

O que espanta é o novelo legal que favorece a impunidade. As sentenças nunca chegam aos “finalmente” e ao “irrecorrível”. Um bandido pode “recorrer” a vida inteira – e, assim, candidatar-se até à Presidência da República.

A “Ficha Limpa” é uma esperança, mas já começa a ser “desconstruída” pelo “juridiquês” insensato, que acaba zelando pela prevalência do crime sobre o ideal de justiça.

A não ser por ocasião dos debates – nas majoritárias para governador – e assim mesmo quando o número de candidatos não exorbitar de três ou quatro, que utilidade terá a sigla partidária no horário dito “eleitoral”? Alguém saberia diferenciar o programa substantivo de uma ou de outra “sopa de letrinhas”?

Para deputado “ideal”, arrisco um conselho:

– Vote só em quem você conhece desde criancinha.

Não aceite votar em desconhecidos, em gente que não tem a menor ideia da cidade em que vive ou da missão-cidadã da qual deve se investir um verdadeiro candidato.

“De políticos oportunistas, tudo se espera”. Eis um axioma tão real quanto tenra e frágil é a nossa democracia .

“A verdade é a primeira baixa nas guerras” – admitem os generais. Imaginem só na política, que não deixa de ser uma continuação “democrática” da guerra:

– Na guerra, mentira como terra – diz o adágio bélico.

– E nas campanhas, mentiras como balas perdidas… – poderia completar algum eleitor-sobrevivente, entre aqueles que testemunham tiroteios nas “guerras não declaradas” das cidades médias do Brasil.

Quantos candidatos ao governo você já ouviu falar de segurança pública em seu Estado?

Qual deles já ofereceu um plano coerente e plausível para combater o “Estado Paralelo” do tráfico de drogas que, aos poucos, vai minando e deteriorando a vida das famílias brasileiras?

“Segurança” é o tema número um no Brasil de hoje. E matéria de interesse “municipal”. Não raro, contudo, prefeitos e vereadores acham que o assunto pertence, apenas, às secretarias de Segurança dos estados, ou à Secretaria Nacional da Presidência da República – ficções jurídicas que não têm nada a ver com a cidade.

Parece que a “peta”, mãe de todos os vícios, já venceu as eleições no Brasil. Os candidatos já não dizem “Eu não minto!” ou “Eu só digo a verdade!” Preferem dizer:

– Eu minto menos!

Num país em que o verbo “roubar” ganhou semântica de uma coisa “comum”, “normal”, ou gradações meramente veniais, mentir é um pecado menor.

Essa nova ética, autorizada pela participação de um condenado-símbolo (o inefável Paulo Maluf), habilita qualquer candidato a aderir a esse novo tipo de sinceridade:

– Votem em mim! Eu afano menos, mas reaplico o dinheiro aqui mesmo!

COPA 2014: É PRECISO MUDAR A SEGURANÇA NO BRASIL

GIL CLEBER, sua crítica ao “OS DEMÔNIOS” de DOSTOIEVSKI

A recente releitura de Os Demônios, de Dostoievski, foi menos uma releitura do que uma redescoberta do romance.

Apesar da existência de uma versão para o cinema, penso que este seja o menos conhecido de seus quatro romances principais: Crime e Castigo, O Idiota, Os Demônios e Os Irmãos Karamazov.[1]

A redescoberta do romance se deve não só ao fato de já terem transcorridos vários anos desde a primeira leitura, mas também à natural dificuldade que a maioria dos leitores encontram ao se defrontarem com a obra do grande escritor russo, não sendo tarefa simples acompanhá-lo em suas viagens ao “submundo” da consciência humana — mesmo para quem já havia lido Crime e Castigo, O Idiota, Humilhados e Ofendidos, a novela O Jogador, Os Irmãos Karamazov (nessa ordem), além de diversos contos e outras narrativas, pois Os Demônios é, dentre todos esses, o de ação mais lenta, aparentemente aquele no qual o autor parece “demorar mais para entrar de fato na história” — juízo não apenas apressado mas de todo incorreto, pois é certo que o autor “entra na história” de imediato.

De que trata o livro? Quem são, afinal, os “demônios” de que fala o título?

Responderei a esta última pergunta no fim, ou melhor, estarei comentando a questão durante todo o texto que se segue, deixando para o fim que um dos personagens maiores do romance a responda.

Os Demônios (que chegou a ser traduzido, segundo Roberto Alvim Corrêa, em diversos países com o título “Os Possessos”, tradução inadequada resultante talvez do fato de a própria língua ter como sinônimos palavras como “criminoso” e “infeliz”, e por associação ao pensamento de Dostoievski, que considerava o criminoso uma vítima do diabo), romance publicado em 1871, conta a história de um pequeno grupo de revoltosos socialistas (conhecidos como “os nossos”) numa certa província da Rússia (província não referida, restando a impressão de que se trata de uma região interiorana), os quais têm em mente levar adiante o movimento até que ele alcance todo o vasto território russo — aliás, os membros desse pequeno grupo crêem na existência de ramificações do seu movimento por toda parte — e com isso ponha por terra o estado constituído a fim de substituí-lo por uma sociedade justa e ideal.

Está visto que o sonho acalentado pelos “nossos”, utópico e, por que não dizer, singelo, veio com efeito a realizar-se com a revolução de 1918 e as desastrosas conseqüências que a História relata.

Os integrantes desse grupo destacam-se por seu niilismo generalizado (tanto a religião quanto as demais instituições — como a família, p. ex. — são, a seu ver, decadentes e já não faz mais sentido mantê-las), e isso fica patente até mesmo na discussão entre dois personagens insignificantes do livro no sétimo capítulo da segunda parte, “A reunião dos ‘nossos’”, uma estudante atéia e seu tio — a quem não vê havia muito tempo e não obstante despreza —, discussão na qual a estudante nega com veemência a existência de Deus: após baterem boca algum tempo o tio, por fim, protesta “andei com ela ao colo; quando tinha dez anos, dançava mazurca com ela. Hoje chega e, naturalmente, acorro para lhe dar um beijo; pois imediatamente ela me diz que Deus não existe”.

Integravam “os nossos”, entre outros: Chatov, que, insatisfeito, pretende abandonar os companheiros, e por isso pagará caro; Virgüinski, em cuja casa ocorrem as reuniões; Liputin, homem tido publicamente como ateu; Liamchin, um judeu brincalhão e debochado; Erkel, um jovem tenentecapaz de levar adiante um crime perpetrado embora não tenha, em absoluto, qualquer ressentimento contra a vítima, fazendo-o unicamente para preservar a “causa”; Tolkatchenko, homem que afirmava conhecer muito bem o povo, principalmente criminosos, “freqüentador assíduo dos botequins (…) e [que] se orgulhava do traje grosseiro que vestia (…), do seu ar astuto e da linguagem rústica”; Chigaliov, autor de um sistema político-social que, partindo da liberdade ilimitada, chegava ao despotismo ilimitado, conferindo a um décimo da humanidade total liberdade, sendo os nove décimos restantes seus escravos, sistema que ele afirma ser o único possível.

Serão esses, portanto, os “demônios”? Até certo ponto a resposta seria sim, porém Chigaliov à última hora declara que o crime perpetrado pelo grupo é desnecessário e vai embora antes da chegada da vítima. Quanto aos outros, será a fraqueza de Virgüinski (que numa demonstração de arrependimento após cometerem o crime exclama “não era isso, não era isso, absolutamente”) e de Liamchin (que tem um acesso de nervosismo e desata numa gritaria desvairada até ser contido pelos demais) que fará com que o crime seja descoberto e quase todos os envolvidos presos.

Contudo, afirmar que o romance conta apenas a história das ações desse pequeno grupo de conspiradores não permite uma visão do plano do romance em sua real dimensão.

Tomemos como exemplo o romance A Mãe, de Máximo Gorki (mau romance, por sinal). Este também trata das ações de um grupo de socialistas que lutam pela “causa”, com uma descrição minuciosa dos riscos e dificuldades enfrentadas por seus membros em seu dia-a-dia, além de “panfletar” sobre a “grandiosidade de seus ideais”, abordando ainda de forma melodramática a própria ação da mãe de um dos integrantes do grupo, mostrada com uma heroína da causa e que por ela se sacrifica. O romance de Gorki não passa de um “panfleto” sobre o comunismo, interessa-lhe apenas o aspecto político do assunto, conta uma história que talvez tivesse importância diante do contexto histórico da época em que foi escrita, mas não vai além.

No romance de Dostoievski o aspecto político é apenas secundário, pode-se mesmo dizer casual, pois o que lhe interessa são as conseqüências das idéias esposadas pelos “nossos”, e não apenas as idéias políticas: nesse sentido, Os Demônios nos apresenta uma antevisão profética da monstruosidade que foi a revolução de 1918 e suas decorrências (que Dostoievski não veria, pois morre em 1881 aos cinqüenta e nove anos).

A construção dos personagens é minuciosa e de grande riqueza: começa apresentando “alguns traços biográficos do ilustríssimo Stephan Trophimovitch”, homem de cinqüenta e três anos, estudioso das ciências, ex-professor superior que se orgulhava de ter sido perseguido na juventude e viver sob suspeição do governo (coisa que existia apenas em sua cabeça); que se casara no exterior e enviuvara pouco depois, ficando com um filho que prefere não criar mas entregar a umas parentas distantes e a quem não vê mais; e que por fim, aposentado, vivia em uma casa na propriedade da generala Várvara Petrovna Stavroguina, e às suas expensas, de cujo filho Nicolai Stavroguin fora preceptor na infância. Como veremos, Stephan Trophimovitch será a contrapartida das idéias niilistas daquele grupo de insurretos, ao qual não se ligou diretamente.

Destacam-se no romance outros personagens emblemáticos.

Kirílov é um deles: completamente ateu, decidiu sucidar-se e afirma que assim que o faça, torna-se Deus. Kirílov, na altura em que é apresentado ao leitor, está escrevendo um artigo sobre o número de suicídios na Rússia, assunto que lhe interessa de perto, como se percebe, e é também um partidário da revolução, uma revolução que faria “rolar a cabeça de milhões”, mas a princípio nega-o perante seus interlocutores. Em outra passagem do livro afirma que “tudo está bem”, e quando alguém lhe pergunta: “E se se morre de fome, se a gente magoa uma menina, se a gente a desonra, também está bem?”, afirma que ainda assim tudo está bem. Vemos em Kirílov a imagem do homem dividido entre a necessidade de crer em Deus (o seu lado místico) e a de negá-lo (a racionalidade) — e é essa divisão que fará com que ele chegue ao gesto definitivo.

Referido apenas en passant, o filho que Stephan Trophimovitch não mais viu desde a infância, e que a princípio parece ser uma referência apenas circunstancial, súbito aparece na cidade já adulto e é ele — Peter Stephanovitch — o líder dos “nossos”. É dele é a mente ardilosa que tudo planeja: arquiteta e executa o crime praticado pelo grupo e se vale do assassino foragido Fedka para cometer outros assassinatos, mas não é alcançado pela Lei pois foge a tempo, indo refugiar-se no estrangeiro.

É hora, porém, de introduzir nestes breves comentários aquele que vem a ser o mais sombrio dos personagens de Dostoievski: Nicolai Stavroguin. Nenhum outro nos trás uma visão tão assombrosa da psiquê humana: Raskholnikov (Crime e Castigo) mata a velha usurária por amor a uma idéia de grandeza, mas é um jovem apenas e é redimido pelo arrependimento; Ivan Karamazov (Os Irmãos Karamazov) afirma que se Deus não existe, então tudo é permitido, levando seu meio irmão epilético Smerdiakov a assassinar o pai, mas Ivan é apenas um livre-pensador, assim como Kirílov; Peter Sepanovitch é um burocrata do crime, que não passa em suas mãos de um instrumento para atender ao seus interesses; Fedka mais não é que um criminoso foragido cujas ações são dirigidas por este, e com isso será um dos demônios; perverso, sim, inescrupuloso, mas — assim como “os nossos” — apenas um demônio menor; porém Stavroguin vai além de todos eles.

Stavroguin, instruído na infância por Stephan Trophimovitch, parte da casa da mãe aos dezesseis anos para estudar na Capital e retorna homem feito aos vinte e cinco. Nesse meio tempo, entre as diversas notícias inquietantes que chegam a seu respeito, havia a de dois duelos em que participara, matando um dos adversários, além do que dizia-se dele um sujeito arrogante e violento. Mas Stavroguin permanece pouco tempo, provoca um escândalo ao ofender um membro honorável da sociedade, e logo parte para uma viagem ao estrangeiro, retornando quatro anos depois como um dos líderes dos “nossos”, porém de atuação menor que a de Peter Stephanovitch. Stavroguin não demonstra ser o que os comentários a seu respeito faziam crer: é um homem de inteligência superior, tranqüilo, e que chega com o firme propósito de tornar público seu casamento com Maria Timopheievna, uma mulher coxa e meio louca, a quem trata com cortesia e mesmo carinho. Esse casamento, contudo, não passara — como vamos saber no decorrer da narrativa — de uma aposta após uma noite de bebedeira, sem que Stavroguin tenha se importado com o fato de Maria Timopheievna amá-lo de verdade, casamento aliás que não chegou a ser consumado.

São Maria Timopheievna e seu irmão bêbado, o capitão Lebiadkin, a vítimas de Fedka, crime com o qual Peter Stephanovitch pretende cair nas graças de Stavroguin, livrando-o de uma esposa indesejável para que ele possa casar-se com uma jovem e rica aristocrata. Stavroguin sabe que o crime será cometido mas nada faz para evitá-lo, e moralmente julga-se responsável por ele. A esse respeito é memorável a cena de um encontro entre ele e Fedka numa certa noite, em que o assassino faz insinuações que, mais tarde, Stavroguin referirá abertamente como uma proposta para que se assassinassem sua esposa e o cunhado.

Uma das páginas, contudo, mais impressionantes da obra de Dostoievski é a “Confissão de Stavroguin”, que figura na segunda parte do livro, capítulo inicialmente censurado quando da primeira publicação do romance no ano de 1871.

Essa “confissão”, Dostoievski leu-a então para alguns amigos, que concordaram com a censura por a considerarem muito forte: ali Stavroguin desnuda sua alma, falando de sua tendência para o crime como algo não apenas necessário como também prazeroso, e relata como deixou que uma menina de onze anos fosse espancada pela mãe, mesmo inocente do furto de que é acusada, e como abusa da criança dias depois, deixando friamente que ela, aterrorizada pelo ato praticado — inicialmente com seu próprio consentimento — e roída de remorsos, se enforque. Felizmente Dostoievski não se desfez do texto, pois tinha a intenção de inseri-lo num outro romance, A Vida de Um Grande Pecador, que não chegou a ser escrito. Mais tarde essa “confissão de Stavroguin” passou a figurar como o capítulo VIII-a da segunda parte do romance.[2]

Por fim, após todas essas tragédias e crimes, temos a contrapartida do ateísmo destruidor que perpassa toda a história nas últimas palavras de Stephan Trophimovitch, que, já doente e em seu leito de morte, comenta a passagem do Evangelho de São Lucas que refere a expulsão dos demônios que atormentavam um homem, os quais pedem a Jesus que lhes permita entrar nuns porcos que passavam por ali:

“Minha amiga, disse Stephan Trophimovitch comovidíssimo, savez-vous, essa passagem admirável e… e extraordinária sempre foi para mim uma pedra no meio do caminho… dans ce livre… e por isso a guardei de memória desde a infância. Mas uma idéia me ocorreu, une comparaison. Ocorrem-me muitas idéias agora. Veja, é exatamente como nossa Rússia. Esses demônios que saem do doente para entarem nos porcos são todas as chagas, todos os miasmas, todas as imundícies, todos os demônios pequenos e grandes que no decorrer dos séculos se acumularam na nossa querida e imensa doente, na nossa Rússia! Oui, cette Russie que j’amais toujours. Mas um pensamento sublime, uma sublime vontade lá de cima descerão sobre ela, como desceram sobre esse endemoniado. E ela se desembaraçará de todas as impurezas, de todas as podridões — que espontaneamente hão de pedir moradas no porcos. Talvez já neles hajam entrado. Somos nós — nós e eles —, e Petruchka [Peter Stephanovitch]… et les autres avec lui, — e eu talvez em primeiro lugar, eu talvez à frente. Como loucos furiosos atirar-nos-emos do alto do rochedo até o mar, e pereceremos todos. Melhor, porque só servimos para isso. O doente, porém, será curado, e ‘assentar-se-á aos pés de Jesus…’ e todos o encararão com espanto… Minha cara, vous comprendez aprés… Nous comprendrons ensemble.”

A História que, contudo, parece ter desmentido as previsões de Stephan Trophimovitch, parece ter copiado as do genial escritor russo em Os Demônios, reproduzindo-as no que foi a revolução de 1918 com todas as suas terríveis conseqüências.



[1] Apenas como adendo, outros romances de Dostoievski — além das numerosas narrativas menores e contos — são: Humilhados e Ofendidos, O Eterno Marido, Nietotchka, A Aldeia Stepantchikovo e seus Moradores, e O Adolescente.

[2] Em algumas edições, é inserido como apêndice, mas na edição que li foi incluído após o cap. VIII da segunda parte.

O JARDIM SECRETO DA PALAVRA por omar de la roca / são paulo

Houve um tempo em que eu acreditava em palavras. A frase me ocorreu quando eu colocava a mão no bolso, procurando pela chave do portão do jardim. E perdi alguns segundos com a mão parada no bolso do colete, pensando na frase. E o pensamento continuou sozinho, como se não dependesse de mim para ter vida. Palavras não ditas, disfarçadas, escondidas. Querendo dizer uma coisa e dizendo outra. Palavras que não se explicam,  confundem e confundem os outros. Palavras que aguardam outras palavras, palavras mudas, caladas. Entrei no jardim meio confuso, já que ele precisava de atenção e eu mantinha a chave na mão inconsciente do ato. Houve um tempo em que o jardim me afogava em flores imensas de longas hastes. Como palavras que fossem crescendo em seus significados e associações, tomando todo o lugar. Agora, embora não houvesse mato, as flores eram poucas. Prefiro assim. Se for necessário que tenha flores, que sejam selvagens. Nascidas expontaneamente, sem serem plantadas. Sem os inúmeros cuidados e expectativas. Apenas flores. Pousei a bolsa de couro na grama e tentei evitar uma poça de água que iria m,olhar o meu pé e acabei pisando na lama.Mas estava quase seca e não produziu grande dano.Olhei a sola do pé descalço.Apenas uma sujeirinha que certamente estaria limpa antes de pisar no tapete.Houve um tempo em que as palavras me procuravam e me puxavam pela manga da camisa. Quantas palavras desperdiçadas e porque ? Sem resposta. Quem sabe se as palavras fossem mais específicas não deixando que torcessemos seu sentido a nosso bel prazer. Quem sabe se se inspirassem nas flores. Afinal,uma rosa amarela,é so uma rosa amarela.Não pode ser descrita como azul ou verde. Fui podando as roseiras bem baixo que era época. Mais por habito do que por vontade de vê-las crescer e florescer. Com o canto do olho percebi na fronteira do muro com a terra, algumas margaridas selvagens. Pensei em sua humildade e pequenez. Não se destacavam no jardim quando as outras flores estavam altas, sorrindo ao sol e quase me afogando. Mas agora as margaridas me pareciam ainda mais belas que as outras. Eram quase como monossílabos, exatos e sem aspirações. Não precisavam de tantos cuidados, cresciam o ano todo. E, se não tinham nada de muito superlativo, se comparadas as outras, me faziam companhia neste dia frio. Que importância pode ter uma palavra, se pode ser alterada ou entendida de forma de melhor atenda ao que queremos na hora? Quase com raiva, fui podando as plantas. Quase querendo mata-las. E elas pareciam gostar. Mas eu sabia que precisava parar, e parei enquanto ainda estavam vivas. As palavras, não tinha como poda-las. Ajeitei as pedras grandes nos canteiros. Tirei algumas ervas que insistiam em crescer e joguei num canto. Aos pés das margaridas selvagens. Devia ter feito isso mesmo com as palavras que se seguravam nas bordas da folha de papel, lutando para participar de um texto. Ansiosas para brilhar ao sol. As rosas eram muito belas, mas davam muito trabalho. Era um prazer vir ao jardim e admira-las e mostra-las aos outros. E os outros olhavam, mas não pensavam no trabalho que eu tinha tido, ou quanto as minhas mãos estavam doendo dos espinhos. Eu não tinha sequer certeza de que eles as  estavam vendo. E eu tinha a ilusão de que se importavam com o jardim, comigo. Mas logo que podiam, voltavam a seus próprios jardins vazios, rochosos ou luxuriantes. E eu achava que sabia por que estavam ali. Agora quero um jardim mais simples. Que resista as tempestades. Que eu não tenha que sair correndo a amparar as pétalas se ventar forte como eu fazia com um verso que me vinha a mente e eu corria para coloca-lo no papel. Com o ancinho acomodei os pedriscos que palmilhavam o caminho entre os canteiros. Pedras brancas. O tempo havia se encarregado de desbotar as cores. Preciso pedir a alguém que retire os cacos de vidro de cima dos muros. Borboletas e pássaros serão sempre bem vindos. Mas não terei mais rosas vermelhas. Os últimos pés secaram por falta de atenção. Se houver rosas, que seja, aquelas selvagens como as margaridas. Que crescem aos montes sem precisar atenção. Como as rimas que me perseguiam sem eu pedir. Mas rosas vermelhas não.  E nem pensem em pedir ao rouxinol no jardim branco. Quem sabe um pé de jasmim. Branco como a página que eu ia enchendo com prazer. Fechei os olhos e respirei o perfume dos jasmins lavados. Não, não agora. Reguei as plantas com cuidado. As minhas e as dos outros. Devia ter perguntado se eles queriam. Sem exageros, para não afoga-las. Reguei como o fiz com as palavras que se penduravam nas arvores durante o verão, para refresca-las. Peguei a chave do bolso e sacudi uma letra que veio junto, sem ver qual era. Voltei para a entrada e me virei para ver como estava o jardim. Caminhos limpos como parágrafos perdidos. As grandes pedras no lugar, como vírgulas e pontos. As pequenas também, como os bebes palavras que eu adorava segurar. Os restos de plantas e folhas secas, como tremas de bengala, recolhidos e embrulhados a meus pés. Havia recolhido também as ervas que jogara para as margaridas. As palavras que não usara ou escondera com medo da descoberta. Na hora não percebi. Mas acho que elas me olharam meio espantadas ao receber este pouquinho de carinho. E olhei de novo para elas e passei os dedos nas pétalas que se curvavam coradas como métricas perfeitas.  As roseiras pareciam magoadas. Mas eu sabia que estavam bem. Não tinha certeza de que iriam dar flores tão cedo, e não me importava. Eu tinha as margaridas. Com certeza as borboletas amarelas continuariam vindo. Um pouco de colorido não me fará mal. Palavras jogadas ao vento, talvez retornem algum dia. E espero que os pássaros também. De agora em diante, se bem que ainda goste de flores, manterei o jardim mais simples. Como margaridas selvagens. Como palavras que se olham no espelho e tem certeza do que querem dizer. Ou não querem, mesmo querendo. Ou não podem. Palavras desesperançadas. Perdendo as pétalas aos poucos. Se agarrando ao fio da folha de papel sulfite par não cair no esquecimento. O céu estava azul, quando fechei o portão. Dei um último aceno para as margaridas, prometendo voltar logo. Segurei o chapéu, que o vento estava para brincadeiras. E sorri irônico, pensando por quanto tempo iria conseguir manter o jardim assim.

SERENIDADE… por rosa DeSouza / ilha de santa catarina

O vento varre sonhos sem tempo,
Desvela certezas com desalento,
Expulsando a torrente do tormento.

O vento dança entontecido
Em rajadas cruéis estarrecido,
Balançando cortinas negras…

O vento cá dentro como fora,
A vaga estilhaça em mil fantasmas
Secando o puro ar, criando asmas…

O vento desatento ao amor,
Pisa e repisa almas – assustador
Recriando a engrenagem do desamor…

Vento, vento sem alma e cego,
Expulso-te e mesmo da brisa abnego,
Minha utópica nuvem branca navego…

Longe de tudo o que lembre agitações,
Ciclones, procelas ou tufões,
Me desacerto no ideal da coerência…

Troco o passo, vôo, corro, salto, escorrego,
para longe desse inferno vem uma vontade pugnaz…
Recolho-me serena na gruta da paz.

PROBLEMA CONJUGAL por hamilton alves / ilha de santa catarina

Maria e José se encontraram um dia em circunstâncias que nunca souberam se explicar. Pouco tempo depois se casavam.

Ele era jornalista, ela professora.

Tudo ia  bem no início com o casal. Até que um dia…

Na vida de um casal, seja qual for, há sempre um dia.

Esse dia não demorou muito.

José era homem prático, sem protocolos nem formalismos. Ao contrário de Maria, que era amante dos detalhes (aliás, como a grande maioria das mulheres).

Num certo dia, José entrou porta adentro informando a Maria que no dia seguinte, à noite, compareceriam a um jantar na casa do editor do jornal em que trabalhava. Se topava o convite.

Maria gostava de umas festinhas desse tipo para encontrar as amigas, algumas delas colegas de trabalho do marido.

No dia seguinte, antes de sair para a redação, José lembrou à esposa que tinham o compromisso do jantar. Deixou-lhe dinheiro para que comprasse um bom presente para o casal anfitrião.

José retornou cedo, fora de seus hábitos, à casa.

Sabendo que Maria levava tempo para se arrumar, enfiou-se primeiro no banheiro, dando todo o tempo para ela.

Quando foi a vez de Maria, demorou-se no banho. Quando deu com José na sala, estava de terno, gravata, lendo o jornal daquele dia, pronto para sair. Só à espera que Maria se arrumasse.

– Só agora que você saiu do banho? – perguntou, vendo-a embrulhada na toalha. – Vamos nos atrasar.

– Me arrumo rápido. Um instante só.

José já tinha lido todo o jornal. Até a seção de palavras cruzadas tinha resolvido quase toda.

– Mariaaaaaaaa! São quase nove horas!

– Não se apresse, meu bem. Há tempo para tudo na vida.

– Não podemos dar o vexame de chegarmos atrasados. É uma indelicadeza. Além do mais…

– …você é muito nervoso, espere um pouco… o mundo não vai se acabar por um pequeno atraso.

– Já pensou no congestionamento, na distância que tem de nossa casa até à do Demerval (nome do editor chefe)?

– Levou mais uma meia hora para dar-se por pronta.

Quando deu com José, estava de pijama, chinelo, lendo o mesmo jornal, tendo concluido as palavras cruzadas.

– Estás pronto? – perguntou-lhe.

– Estou, vamos pra cama!

Maria saiu porta afora, não sem antes arrancar a aliança do dedo e jogar na cara do marido. Pegou um taxi e foi dormir aquela noite na casa dos pais.

José, sem saída, foi resolver  palavras cruzadas.

SENHORES CORRETAMENTE VESTIDOS por jorge lescano / são paulo

SENHORES CORRETAMENTE VESTIDOS

(Fila de um homem só)

Projeto Descritivo da Coreografia

Duração do espetáculo: 30 minutos.

Técnica utilizada: Klaus Viana.

Música: Som ambiente das ruas e texto anexo em off.

Cenário: Rua(s) do centro da cidade.

Figurino: Roupas de passeio.

Adereços: Nenhum.

Senhores Corretamente Vestidos é uma pesquisa de aplicação da técnica Klaus Viana de Consciência Corporal à representação de situações dramáticas.

O corpo do bailarino-ator desenvolve, em momentos sucessivos, os movimentos básicos da dança: Projeção e Translação. O tema da obra foi retirado do cotidiano da cidade de São Paulo: uma fila, espécie de instituição informal brasileira. A expressão corporal dramatiza os personagens representando o figurino (ausente) mencionado no título, que vai se modificando a medida em que chegam outras personagens para se integrarem à fila-dança.

Do ponto de vista da seqüência de movimentos (coreografia), o projeto inova o conceito de dança. Aqui, o movimento não é “ilustrativo” da música, antes, contracena com o ruído das ruas – gravado quando apresentado em teatro –  e obedece às indicações do texto, que funciona como rubrica .

O bailarino constrói a figura indicada pelo texto, permanece estático por alguns instantes, permitindo que o espectador tome consciência da presença do personagem. Depois constrói a personagem seguinte deslocando-se para o lugar que lhe é designado. O vidro no qual se reflete a figura integra o ambiente – urbano: pedestres e veículos se encenado na rua; no caso de apresentação em teatro, o fundo do palco terá como cobertura espelhos ou outro material que permita a reprodução visual do intérprete e a inclusão da platéia no espetáculo. O efeito final da obra deverá sugerir uma seqüência de fotogramas, ou um friso em alto-relevo, observados da esquerda para a direita, segundo a ordem de nossa leitura. Na seqüência, sem interrupção, a “fila” é desfeita. O bailarino desconstrói as figuras em sentido inverso, da direita para a esquerda, como num espelho, retornando ao local da partida (princípio da fila) representando o personagem inicial.

Para a Ficha técnica

Texto: Jorge Lescano

Intérprete (Voz e dança): Jorge Balbyns

(sem título I)

señora primera la de lado al posta se ,vestida correctamente tan no ,señora otra ,señor primer del ,mire se según, atrás o lado al posta se ,vestida correctamente ,señora uma ;vidrio de puerta de la delante posta se vestido correctamente señor un:um senhor corretamente vestido se posta diante da porta de vidro; uma senhora, corretamente vestida, se posta ao lado ou atrás, segundo se olhe, do primeiro senhor; outra senhora, não tão corretamente vestida, se posta ao lado da primeira senhora; outro senhor, não tão corretamente vestido quanto o primeiro, se posta atrás ou ao lado, depende da escolha do observador, da segunda senhora; um jovem, meticulosamente desalinhado, se posta ao lado do segundo senhor, não tão corretamente vestido quanto o primeiro, como já foi dito; uma jovem, ligeiramente desalinhada, se posta atrás do jovem meticulosamente desalinhado, um cavalheiro, ao qual não é possível chamar de desalinhado, porém tampouco de corretamente vestido, se posta ao lado da jovem ligeiramente desalinhada; uma dama, sobriamente vestida, se posta atrás do cavalheiro ao qual não é possível chamar de desalinhado nem de corretamente vestido; um ancião aparentemente ébrio e mal-trajado e surdo, a julgar pelo modo de inclinar a cabeça, se posta ao lado da dama sobriamente vestida, a qual, por contraste simultâneo, começa a parecer  elegante e fora de lugar, o que provoca os protestos de algumas das figuras mencionada, que pretendem ter postergadas suas prerrogativas. No vidro fumê se reflete o tênue estremecimento dos presentes: os primeiros senhores corretamente vestidos cedem suas vagas às senhoras corretamente vestidas, ficando eles em segundo lugar; por motivos de equilíbrio, as damas sobriamente vestidas ocupam a terceira vaga, que antes pertencia às senhoras não tão corretamente vestidas e estas passam a ocupar o lugar que ocupavam os senhores não tão corretamente vestidos; para variar, o espaço que era ocupado pelos senhores não tão corretamente vestidos, agora pertence aos jovens meticulosamente desalinhados, e a seguir, por razões de coerência interna, as jovens ligeiramente desalinhadas continuam próximas dos jovens meticulosamente desalinhados. Aqui, porém, surge um garoto desacompanhado e ligeiramente desalinhado à par de uma garota desacompanhada e meticulosamente desalinhada. Ambos duvidam do lugar que lhes cabe. Se o garoto estivesse corretamente vestido, poderia ficar depois do jovem meticulosamente desalinhado, servir-lhe-ia de apoio ou contraste, ainda que pertencendo ao mesmo gênero, deste modo, a garota meticulosamente desalinhada, apesar de reiterar o sexo, deveria ficar antes da jovem ligeiramente desalinhada, de quem seria uma espécie de amostra ou redução, no que diz respeito à idade, e, simultaneamente, sua proto-síntese, do ponto de vista da indumentária. No entanto, também poder-se-ia trocar este arranjo e, entre outras alternativas, o garoto ligeiramente desalinhado ficaria depois da jovem ligeiramente desalinhada, a diferença de sexos compensaria a identidade do atributo; então a garota meticulosamente desalinhada deveria ficar antes do jovem em igualdade adverbial e adjetiva, ganhando ambos o contraste de gêneros. Trata-se de uma questão que deve ser sanada imediatamente, pois os cavalheiros aos quais não é possível chamar de desalinhados porém tampouco de corretamente vestidos, sentem-se como perdidos ao ignorarem os valores da nova escala, enquanto os senhores não tão corretamente vestidos continuam esperando, e a esta altura quase não é possível diferenciá-los dos cavalheiros aos quais não se pode chamar de desalinhados porém tampouco de corretamente vestidos, e mais além, quase avulsos, vê-se os anciães surdos e presumivelmente ébrios e mal-trajados. Instintivamente, a garota desacompanhada e meticulosamente desalinhada, se posta entre o jovem meticulosamente desalinhado e a jovem ligeiramente idem, criando assim a

ilusão de não mais estar desacompanhada. Como o observador poderia prever, o garoto desacompanhado se

posta entre a garota acompanhada e meticulosamente desalinhada e a jovem ligeiramente desalinhada, resolvendo o impasse da seguinte forma: um jovem meticulosamente desalinhado, uma garota meticulosamente desalinhada, um garoto ligeiramente desalinhado, uma jovem ligeiramente desalinhada. A reciprocidade do advérbio dá um certo ar de família aos quatro elementos em foco e decide aos cavalheiros aos quais não é possível chamar de desalinhados, porém tampouco de corretamente vestidos, a se postarem ao lado das jovens ligeiramente desalinhadas; a seguir, os senhores não tão corretamente vestidos deslocam os anciães surdos e presumivelmente ébrios e positivamente mal-trajados para a curva, fora do alcance deste vidro. Ainda assim, os supracitados anciãos, atraindo o olhar do observador, se postam ao lado dos senhores não tão corretamente vestidos, fazendo com que este pareça corretamente vestido do seu lado e ambiguamente vestidos na transversal, uma vez que vizinhos dos cavalheiros aos quais, o que significa, para o observador, outra evidente violação da norma pré-estabelecida e que exige uma reordenação imediata. Para que as violações apontadas não fossem incorporadas à rotina pelos participantes do evento, tornar-se-ia necessário, em prol da simetria original, que o observador se postasse no vértice do ângulo formado pelos senhores não tão corretamente vestidos e o ancião surdo e presumivelmente e positivamente, e que uma senhora idosa e de figurino oposto ao do ancião, para compensar a ausência de reflexo, se postasse ao seu lado, antes do sol reproduzir a imagem dele no vidro fumê da lateral. Contudo, a anciã corretamente vestida não pode surgir pelo simples desejo do observador. Assim sendo, este, na impossibilidade de esperar, sob pena de que um senhor portador de guarda-chuva ou uma senhora de xale bordado, corretamente vestido ou mal-trajada (os), entravem o andamento, e para não interromper a seqüência, opta por  iniciar a série seguinte:  seguinte série a iniciar para opta ,seqüência a interromper não para e ,andamento o entravem ,(os) mal-trajada ou vestido corretamente ,bordado xale de  senhora uma ou chuva-guarda de portador  senhor um que de pena sob ,esperar de  impossibilidade na ,este ,se

POBRE CAMARADA ! por alceu sperança / cascavel.pr

“Que vantagem o camarada da periferia leva?”

Essa questão revolucionária foi formulada pelo então ainda vice-governador do Paraná, o engenheiro Mário Pereira, às vésperas da tensa votação que liquidou a possibilidade de criar o Estado do Iguaçu, em 1992. Ele depois assumiria o governo do Paraná.

Hoje, quando está de volta o enganoso discurso “desenvolvimentista” e anuncia-se aos quatro ventos que em pelo menos um trimestre o Brasil bateu próximo ao fantástico índice chinês de crescimento, lá vem ela de volta, a impertinente questão formulada então pelo nosso Mário Pereira: no que o crescimento que essa gente tanto festeja ajuda o “camarada da periferia”?

Há no Brasil lugares que crescem tanto quanto a atual campeã mundial em crescimento – a China. Vejamos o caso do Pará. Se você visitar Belém, contava esses tempos o jornalista Chico Santos, verá o charmoso centro cultural-gastronômico da Estação das Docas, o moderno estádio Mangueirão e largas avenidas, mas tudo circundado por muitos quilômetros de bairros pobres e favelas.

O Pará cresce acima da média nacional desde 1998. Até 2003 seu PIB acumulou aumento de 32%, contra escassos 13% do país. Na indústria, o Estado mantém o ritmo chinês: cresceu 12% contra 2,9% da média nacional nos primeiros quatro meses deste ano.

Mas a dinâmica desse crescimento é cada vez mais comandada pela indústria extrativa mineral para exportação, segmento que atrai muita mão-de-obra na implantação do projeto, mas emprega pouco na operação e não tem vocação distributiva. Faz eco à nossa suicida monocultura exportadora de soja in natura.

É como crescer às custas daquela monstruosa mancha de óleo da British Petroleum.

Sigo os dados de Chico, na falta de mais atuais. O PIB per capita paraense, em 1994, era de R$ 1.509 e em 2003 foi a R$ 4.367, mas entre os Estados brasileiros mais ameaçados pela fome, a primeira pesquisa do IBGE sobre segurança alimentar mostrou o Pará como o sétimo Estado com maior insegurança (54,3% dos domicílios), pior que Acre e Roraima. Toda essa riqueza e esse crescimento “chinês” não beneficiaram o “camarada” da periferia, portanto.

Que tipo de espetáculo é a economia crescer e o camaradinha continuar sofrendo e sem perspectivas? É o mesmo tipo de espetáculo que destruiu nossas florestas, poluiu as águas, semeou a desigualdades e a violência, enriqueceu meia dúzia e deixou um povo inteiro ao deus-dará.

ENTREVISTA com FRANZ KAFKA.

aqui  o  “JORNALISTA” cria uma entrevista com Franz Kafka, depois de sua morte, nos dias presentes. ele utiliza críticas da época e  partes de  textos de livros de Kafka para fazer as perguntas  e que  serão as respostas.

jornalista Vamos iniciar nossa conversa falando do anti-herói que você foi. Isto é, vamos falar desse homem que revelou para todos nós a falta de significação e de sentido do mundo, desse homem agitado e tenso lutando contra tudo e contra todos, se cagando de medo sem mesmo saber do quê, do homo-absurdus que você nos revelou.

Kafka – Nunca me preocupei em ser o primeiro da fila. Nada de heroísmos comigo. Minha intenção foi sempre encontrar um buraco onde eu pudesse me enfiar e ficar longe desse horror que a vida oferta a cada um de nós. Eu via como as coisas aconteciam, como os outros se debatiam em seus quartinhos escuros e isso me repugnava. Eles queriam achar um sentido e comportavam-se de modo mais insensato que possa haver. Não era para se ficar petrificado?

jornalistaDe certa forma, por uma ironia perversa e inevitável, agora vivemos todos submersos em teus pesadelos. Quer dizer, o que para ti era literatura, é para nós realidade. O universo kafkiano agora é real.

Kafka – De certa maneira eu possuía a consciência que havia me perdido em algum lugar tenebroso do futuro. Sabia que quanto mais longe me adiantasse tanto mais terrível seria, no fim, o resultado. Entretanto, eu pensava: ‘um pesadelo é também um sonho!’, e continuava afundando.

jornalista Apesar de agora você ser o mundo, você sempre esteve só, se fodeu sozinho o tempo inteiro.

Kafka – Não fiz mal a ninguém e ninguém me fez mal; mas ninguém tão pouco me quis ajudar, absolutamente ninguém.

jornalista Alguns acusam sua obra de sufocante, pessimista. Declaram que o clima de angústia é tanto que não conseguem passar da terceira página.

Kafka – Parece-me que deveríamos apenas ler livros que nos mordam e espicacem. Se a obra que lemos não nos desperta como um golpe de punho sobre o crânio, qual a vantagem de a ler? Para que nos torne felizes? Meu Deus, seríamos da mesma forma felizes se não tivéssemos livros. E os livros que nos deixam felizes, a rigor, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Em contrapartida, precisamos de livros que sobre nós atuem de modo igual a uma desgraça; que nos façam sofrer muito, como a morte de quem amássemos mais do que a nós mesmos; como um suicídio. Um livro deve ser o machado que rompe o mar gelado existente em cada um de nós.

jornalistaChegamos nessa encruzilhada onde tudo é ilusão. A vida como uma miragem cruél e o mundo um espelho que nos reflete e atormenta.

Kafka – De fato, tudo é fantasia: a família, o escritório, os amigos, a rua, tudo é fantasia. A verdade, bem próxima, é que tu bates com a cabeça contra a parede de uma prisão sem porta nem janela. Na verdade, tudo no mundo humano é imagem que adquiriu vida.

jornalista Amanhecer é sempre uma tarefa difícil. O Bukowski dizia: “Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo Poderoso, o que mais agora?” E você, como enfrentava o sol palhaço de cada dia?

Kafka – O desespero apoderava-se de mim quase todas as manhãs, um desespero que, por uma característica mais forte e mais conseqüente que as minhas, bastaria para ocasionar um suicídio bem sucedido.

jornalistaHá esse impulso, esse mergulho em águas turvas que todo verdadeiro escritor se afunda. Você também mergulhou nesse abismo de associações líquidas?

Kafka – Foi um mergulho sem volta. As ondas que me levam são de águas sombrias, turvas, pesadas, avanço lentamente e acontece-me também de entrar em pane.

jornalistaA estranheza do mundo te pegou e não largou. Como isso se deu?

Kafka – Para mim, o escritório – como o foram a escola primária, o ginásio, a universidade, a família, tudo – é um ente humano me observando com seus olhos cheios de inocência, onde quer que eu me encontre. Um ser ao qual estou ligado de maneira misteriosa, embora seja mais estranho para mim do que as pessoas nos automóveis que neste momento escuto passar na praça. Acontece que eu sentia pelas coisas terrenas um amor não terreno que tornava impossível viver vida humana entre os humanos.

jornalista Em você existiu esse conflito mortal: aderir a vida normal de todos (casar, ter filhos, emprego, aposentadoria, os vermezinhos do tédio familiar dependurados no saco) ou o grande salto, a Literatura e a vertiginosa Viagem ao Fim da Noite. Você nunca conseguiu se decidir.

Kafka – Duas pessoas em mim, a que deseja viajar e a que não se atreve a isso, constituindo cada uma parte do meu ser, e ambas, sem dúvida desonestas, lutam em meu interior.

jornalista Por detrás da burocracia, há o poder. É assim como a letra inelegível dos médicos, ou o latim dos padres: signos do poder, da estúpida autoridade que procura se legitimar através da intimidação. Você se rebelou ferozmente contra essa palhaçada deste o início.

Kafka – O fato é que a alma sufoca nestes aposentos estreitos. E qual o objetivo desta grande organização? Consiste em prender inocentes, promover-lhes um processo insensato e, na maioria das vezes, como no meu caso, absolutamente falho de resultados. Porém, esse poder provém de fontes que nós já não identificamos; por isso, apesar de todo o meu impulso de lutar contra eles, só passarei pelas brechas para cuja localização tenho faro especial.

jornalista Apesar das situações absurdas dos textos, todos os seus relatos são baseados em experiências vividas por você. O real, o mundo, sempre foi sua matéria prima.

Kafka – Saber utilizar a experiência vivida era exatamente o que representava o máximo para mim. Fazer as contas no ar nunca foi o meu forte; sempre acreditei ser o mundo mais genial do que eu.

jornalista Há uma busca constante em seus escritos. Personagens presos e perdidos em angustiantes labirintos burocráticos, indagações, perguntas sem respostas por todos os lados. Uma aflição.

Kafka – Eram coisas que eu não compreenderia ainda que me explicassem. Mas, sinceramente, o que se consegue formulando indagações? Nada obtive com elas; talvez meus companheiros sejam mais inteligentes e usem meios mais eficazes para suportar a existência, meio que – assim me parece – possam ajudá-los em sua angústia, acalmá-los, adormecê-los, mudar-lhes a índole, porém no fundo tão impotentes quando os meus. Além do mais eu sabia que quase ninguém pode nos ajudar; cada momento e cada lugar da terra criam novos problemas.

jornalista Falemos de literatura. É necessários mesmo ter bom senso para escrever?

Kafka – Não sei, apenas escrevo ao contrário do que falo, falo ao contrário do que penso, penso ao contrário do que devia pensar, prosseguindo assim até o fim, ao fundo da escuridão. No entanto, quando nos sentamos pacatamente para escrever alguma coisa bem burguesa, fica-se cômodo. Porém ai de ti, se te agitas e teu corpo treme um pouco. As pontas penetram infalivelmente nos teus joelhos, e a coisa vai mal! Eu poderia te mostrar minhas marcas azuladas.

jornalista E as palavras?

Kafka – As palavras são duras, caminho sobre elas como por cima de um mau calçamento. Mas sempre as persegui sem floreios, nem véus, nem grãos de beleza.

jornalista O que era esse teu impulso para a escrita?

Kafka – Um violento desejo de extravasar toda a angústia no papel; escrevê-la no fundo do papel, da mesma forma como surge do fundo de mim mesmo. Eu sabia que era só escrevendo que eu me mantinha vivo.

jornalistaComo você definiria a criação literária?

Kafka – A criação literária carece de independência; subordina-se à criada que faz o fogo, ao gato que se esquenta perto da lareira, a este pobre velho que se aquece. Tudo isso corresponde a funções autônomas, com leis próprias; somente a literatura não encontra em si nenhum socorro, não vive nela mesmo, é simultaneamente jogo e desespero.

jornalista Mas se a literatura era tão vital assim por que você pediu que destruíssem todos os seus escritos após sua morte? Você realmente não queria deixar rastros?
Kafka – Talvez para alguns o ato de escrever seja apenas mais uma maneira de se maquiarem, de se mostrarem sensíveis e inteligentes. Para mim a coisa era outra. Era um mergulho no que havia de mais terrível e assustador de mim mesmo. Mas logo entendi que todos os obstáculos me vencem, tudo em que toco se desfaz em ruínas. Sim, eu precisava me livrar de mim mesmo, ser completamente esquecido para quem sabe poder descansar em paz.
jornalista Arriscaria uma auto-definição?

Kafka – Isso é difícil porque mal tenho alguma coisa de comum comigo mesmo; deveria conservar-me bem quieto num canto, feliz de poder respirar. Na verdade, sinto-me de pedra, como se fosse meu próprio monumento sepulcral, sem o menor interstício para a dúvida ou para a fé, para o amor ou para o ódio, para coragem ou para o medo; somente persiste vaga esperança, mas não melhor do que as inscrições nas lapides fúnebres. De qualquer maneira, eu poderia dizer que sou, não apenas por fatores externos, mas acima de tudo pela minha própria essência, uma pessoa circunspecta, calada, pouco sociável, insatisfeita.

jornalistaAgora, morto, você pode nos dizer se a vida é realmente uma viagem sem volta?

Kafka – Estou aqui, é apenas o que sei, nada posso fazer. Minha embarcação não tem leme, viaja com o vento que sopra nas regiões inferiores da morte. De qualquer maneira, confesso que muito, muito poucas vezes consegui ultrapassar essa fronteira entre a solidão e a sociedade.

jornalista Uma palavra para os que desejam se transformar num Artista da Fome.

Kafka – És livre e, por conseguinte, estás perdido.

MADURÊZ de marilda confortin / curitiba


o apuro do vinho

se dá sozinho

em escuros

repousos

reclusos

recusas

A MULHER QUE VIROU ROSA por joão batista do lago / são luis

Nem sempre a vida fora assim! Nem sempre, para ela. Todas as manhãs de março, sob chuva ou sol escaldante, lá estava ela plantando flores e rosas nos canteiros das avenidas, entre os carros velozes que conduziam as gentes da cidade para seus trabalhos ou para suas casas, ou, até quem sabe (!), para os motéis onde se traia mutuamente a burguesa sociedade dos casais são-luisenses. Mas, foi exatamente numa dessas manhãs de março que ela resolvera plantar-se na principal rotatória que dá acesso às principais praias de São Luis, situada ao final da Avenida Castelo Branco, no bairro do São Francisco. Foi, então, nesse dia, e apenas nesse dia, que ela passara a ser notada por todos os transeuntes e passageiros e motoristas dos carros de luxo que por ali passavam diariamente, sem notá-la, sequer, por um instante. De repente, aquela mulher queimada pelo sol ardente começara a despir-se literalmente e vagarosamente… Era como se ela estivesse no banheiro de sua casa. Lentamente ela foi tirando peça por peça que encobria seu corpo de pele dourada… Uma a uma. Pausadamente. Era como se estivesse dançando um balé no palco do Arthur Azevedo. Depois de totalmente nua ela tomou a pá e começou a cavar… a cavar… a cavar… a cavar e a cavar silenciosamente sem perceber que a essas alturas a avenida já se houvera transformada num caos pois todos os carros começaram a parar para assistir aquele espetáculo; todos os transeuntes ocupavam os principais lugares das ruas e avenidas. O burburinho era intenso. Diziam uns: “De onde surgiu essa louca?!”. Outros resmungavam: “O que passa pela cabeça dela para fazer tamanho desatino!”. Mais à frente dois homens falavam do seu corpo escultural: “Que desperdício, tão bonita e tão sensual”. O outro: “Se a tivesse visto antes… teria convidado para um passeio noturno pela praias de São Luis.” Mais à frente uma senhora de meia idade salientava: “Isso é pura falta de vergonha. Safadeza. Essa gente perdeu o caminho de Deus e por isso anda a cometer esse tipo de vadiação”. Do outro lado da rotatória uma moça por volta dos seus 21 anos, franzina como saracura-do-brejo, grunhia frases incompreensíveis aos outros vizinhos: “Que corpo! Quem me dera ter esse corpo. Não mais estaria aqui, com certeza. Estaria fazendo sucessos lá pelas ‘oropas’ sendo uma modelo e ganhando muito dinheiro”. Enquanto isso lá estava ela cavando… e cavando… e cavando… e cavando… e cavando. Não olhava para ninguém. Estava magnificamente só e solitariamente só. Cada pá de terra que tirava era como se estivesse fazendo uma oração; ia colocando uma a uma à volta do buraco que fazia. Essa sua atitude intrigava a todos que a viam naquela situação e todos se perguntavam silenciosamente o que ela pretendia significar com tudo aquilo, porém, ninguém arriscava um palpite; todos, já ali plantados, não conseguiam arredar os pés, pois, não mais era só o corpo da mulher, mas as suas atitudes que intrigavam. As avenidas e ruas viraram um pandemônio. Jornalistas de todos os jornais queriam chegar o mais próximo possível para fotografar e, possivelmente, entrevistar aquela mulher. E só não chegaram muito perto mesmo porque, ao tentarem, receberam como resposta o olhar ferino daquela mulher. Nenhum jornalista atreveu-se a desafiar seu olhar ferino. Aliás, único momento em que ela levantara os olhos para olhar a multidão que a rodeava. A essas alturas, meio corpo já se encontrava dentro do buraco. A essas alturas via-se, tão-somente, a parte superior do seu corpo… o busto ostentando seios de Vênus – a deusa do amor e da beleza, na antiga Roma – e seu rosto de faces arredondadas como a lua cheia e lábios carnudos e olhos verdes como esmeraldas e seus lindos e ondulados cabelos que esvoaçavam quando qualquer nesga de vento bandeava para seu lado espalhando e (já) misturando seus cabelos cor de juçara à terra. A polícia, que fora intimada a dar cabo àquela sinagoga, também não conseguia aproximar-se dela, nem por terra, nem pelo ar. E lá estava ela. Mas, como se fora uma pantera – e era! – ela saltara para fora do buraco. Todos que ali estavam ficaram atônitos. Todos, ao mesmo tempo, pensaram interrogativamente: “O que ela irá fazer agora?!”. E ela, vagarosamente e carinhosamente começara a espalhar a terra pelo corpo, esfregando-a convulsivamente, como se estivera passando sabonete ao corpo. Em seguida e depois de já se ter enterrada completamente, pulou para dentro do buraco… E, lentamente, carinhosamente, calculadamente, fora arrastando para dentro do buraco toda a terra que dele tirara. Metade do seu corpo já se encontrara coberto quando ela parou… Aí sim, pediu para os jornalistas se aproximarem e solicitou que lhes cobrissem com terra o resto do corpo. Houve dúvidas em todos. Ao perceber o inconveniente ela falara-lhos: “Por que vocês têm medo de plantar uma rosa?”.

3 brindes para celebrar a memória de leminski – de julio saraiva / são paulo

“Viver de noite
Me fez senhor do fogo.
A vocês eu deixo o sono.
O sonho, não.
Esse eu mesmo carrego.”

– Paulo Leminski –

1.


deve ser mesmo o fim
: bebi a estrela da manhã
com muito gelo e gim

2.

de cartola e fraque
uma rã mergulha num
tanque de conhaque

3.

1 litro de saquê
: bashô baixou em mim
ou terá sido você?

Glauco Valença e Fidel Piñero no Café Pequeno em 09 de julho /ilha de santa catarina

O duo, formado por Glauco Valença na guitarra e Fidel Piñero no trompete, interpretam temas instrumentais que vem de suas influências, como Miles Dives, Dizzy Gillespie, Paquito D’Rivera, Dilermando Reis, Baden Powell, BB King, Joe Pass, Rafael Rabello, Toquinho, Heraldo do Monte,Tom Jobim.

GLAUCO VALENÇA Iniciou sua carreira como musico, acompanhando a professora de canto lírico Tereza Simas Aguiar. Já trabalhou em diversas formações de grupo, dividindo o palco com músicos e cantores como: Marcelo Mello, Severo Cruz, Marcelo Frias, Tomka, Júlio Ribeiro, Fidel Piñero, Marco Aurélio, Ney Platt, Felipe Moritz, Verônica Kimura, Luiz Falcão, Edson Moura, Daniel Vasco, Mazinho do Trombone, entre outros. Atualmente, dedica-se a música instrumental com o trompetista Fidel Piñero, onde fazem uma releitura de musicas nacionais e internacionais.

FIDEL PIÑERO Natural do Uruguay, onde iniciou sua vivência musical. Em 1981 estabelece residência em Florianópolis S.C. Atua no mercado de trabalho florianopolitano em diversas áreas, como gravações, bailes, big bands, orquestras, bares e shows. É também bastante solicitado como arranjador, atuando na área de estudios de gravação (produção de CDs) e shows. Músico de grande repercussão no meio jazzístico catarinense. Participou do 1° Floripa in Jazz . . Ja tocou com artistas de renome nacional como o bluesman Nuno Mendelis e a cantora Elza Soares .Atualmente faz parte da Banda El Combo (salsa) , trabalha em trio com Edson Moura, Denise de Castro e Quarteto Bossanossa , a Banda Quebra com Jeito ,Glauco Valença, Chico Alencar, e o Projeto Trumpet House com DJ Thon.

Café Pequeno é o projeto do Coisas de Maria João que propõe, numa programação noturna, shows acústicos intimistas para pequenos grupos com duração determinada.
O Espaço cria , então, um clima de
Teatro com serviço e comida de Boteco.
Para tanto é necessário fazer sua reserva antecipadamente para
garantir seu lugar.
É também recomendado chegar até às 21h para escolher o melhor lugar e fazer seu pedido antes do show começar. Bom Espetáculo!

Sexta-feira, 09 de julho de 2010

21h

Local: Coisas de Maria João, o seu café com cultura!´

Rod Gilson da Costa Xavier, 1172 (Estrada geral para Sambaqui) Sambaqui- Florianópolis

Garanta seu lugar reservando antecipadamente no local ou ligue para 48 9107 4457

Café Pequeno é para poucas pessoas.

Capacidade para aproximadamente 30 pessoas.

Couvert Artístico: R$ 5,00

VOCÊ PARTIU… de tonicato miranda / curitiba


para aquela que partiu ontem

plim, plim

os meus sins

vão caindo assim

caindo de mim

como um nariz pingando

como um sim falando

dizendo a você,

ao seu amor,

que para ele vim

sim, eu vim

vim ver a dor doer

vim para perto

do seu sofrer,

mas você não está mais a fim,

mesmo assim, sozinho vim

para lhe rever

.

plim, plim

são notas do piano

pingando

e eu,

sou a poça d’ água

aparando todos os pingos

no final do cano

recebendo uma a uma

estas notas musicais

para dispô-las numa ruma

de círculos naturais

formando pequeno lago,

o meu próprio cais

nesta poça somente minha

onde o amor ancorou

para tomar um trago

mas você não está mais a fim,

mesmo assim, sozinho vim

e da poça meu amor eu brado

.

plim, plim

cai em mim o trompete do Chet

junto com o piano e a bateria,

cavalgando discretos na charrete

atravessam minha poça de agonia

cheia do óleo da morte sem nexo

do vazamento do Golfo do México

.

plim, plim

o mundo agoniza

mas eu ainda tenho amor

e você com sua voz de brisa

e este sorriso sem som

vai caindo em mim

como música de um só tom,

mas minha poça é tão frágil como louça,

e nela há reflexos compridos

é o Sol da meia noite sobre a moça

com grandes brincos nos ouvidos

ela que é você presa na memória

no tempo quando ouvíamos calados

músicas de outras poças e glória

de outros amores mal largados

mas você não está mais a fim,

mesmo assim sozinho vim

lembrar nossos sons amados

.

Você partiu…

‘Vovós do tricô’ arrancam a roupa para calendário / washington

Quarteto quer arrecadar dinheiro para tratamento de netos autistas.
Turma posou coberta apenas por peças tricotadas.

Marsha Cunningham, 63, Debby Sims, 57, Barbara Weber, 76, e Lavonne Northcutt, 48, posam para calendário (Foto: AP)

.

As agulhas e novelos de lã de um grupo de vovós americanas foram deixados de lado nos últimos tempos. Quatro senhoras de Tacoma, no estado de Washington (EUA), tiraram a roupa para arrecadar fundos para uma boa causa.

Dinheiro da venda dos calendários ajudará no cuidado de crianças autistas (Foto: AP)

.

Marsha Cunningham, 63, Debby Sims, 57, Barbara Weber, 76, e Lavonne Northcutt, 48, fazem parte de um grupo de tricô, mas se sensibilizaram com a história dos netos de Marsha, que são autistas e precisam de constante tratamento.

Amigas, elas posaram nuas para um calendário que será vendido na região em benefício dos netos gêmeos de Marsha e outras crianças que sofrem com o mesmo problema. Para não esquecerem de sua atividade preferida, as distintas senhoras ainda exibem no ensaio algumas peças tricotadas pelo grupo.

G1.

VERA LÚCIA KALAARI e sua crônica / portugal

Cada homem já foi menino. Já teve um cavalo de fogo, galopando pelos céus, até paragens sem nome. Um cavalo de sol, sem arreios, sem crinas, galopando, hoje, para o sul, amanhã para o norte, numa ânsia louca de aventuras, numa busca esperançosa de algo. De quê? E com o decorrer dos anos, em cada galopada, qualquer coisa ficava pelo caminho. O corcel das nuvens, viajando sem destino, era os sonhos, o terrífico sabor da procura do desconhecido.

Mas o menino foi crescendo. E o cavalo de fogo, passou a ser um simples cavalo de pau, de olhos desbotados de cartão e crinas desfiadas…Era o fim da sua história. O ‘nunca mais’ de cada infância. Porque cada menino que cresce, chama-se homem. E embora todos os homens tivessem sido meninos, tivessem galopado em cavalinhos de pau, esquecem-se de tudo isso. Perdem todas as recordações. Delas nada fica: nem um cheiro, um ruído, uma cor, um sonho. Separam-se como folhas secas soltas ao vento. Seguem, errantes e indiferentes, sem olhos para ver o sol ou a lua, sem mãos para se estenderem a quem passa, imersos numa névoa que os separa.

Porém para lá da bruma, que ficará? Crinas desfraldadas em galopadas sem direcção? Corridas por valados e banhos em ribeiras escondidas? Que importa, afinal, sabê-lo?

Porque na hora de o sabermos, já os homens têm as mãos feridas pelos espinhos, já seguiram separados, levando na alma cicatrizes que lhes ficaram pelos caminhos andados.

É pena que o menino cresça. E como um vento furioso, a vida sacuda as raízes da sua alma, da alma onde outrora morava um cavalo de fogo. Um cavalo magoado que foi morrendo, como um lírio de paixão, negro como um céu sem estrelas. O cavalo de todos os meninos, o cavalo das ilusões.

MELODRAMA NA ÁFRICA DO SUL por jorge lescano / são paulo

No jogo entre as seleções de Uruguai e Gana nas quartas de final, aos 4 minutos do primeiro tempo, Mutari, jogador do Internazionale, de Milão, marca para os africanos; Forlán, do Atlético de Madrid, empata numa cobrança de falta perfeita aos 10 minutos do segundo tempo.

O empate leva à disputa de mais 30 minutos de prorrogação em dois tempos de 15 minutos cada um, porém, as duas equipes jogam para ganhar nos 90 minutos regulamentares. Aos 14 do segundo tempo, depois de um intenso e breve bate-rebate na pequena área celeste, Luís Suárez, artilheiro uruguaio nesta copa, assume a função do goleiro Muslera, perdido nas ondas desse tsunami; sem recurso legal e para evitar que a bola penetre no seu gol a espalma entre as traves, salvando momentaneamente o time. O juiz viu e marcou pênalti. A seguir, cartão vermelho para o jogador, que simulou ignorar o porquê da expulsão, mas sem nenhuma convicção, apenas praxe deste esporte onde a picardia faz parte do repertório técnico. Suárez atravessou a linha lateral cobrindo o rosto com a camisa, feito criminoso.

Se para os sul-americanos a casa cai, para os africanos é a certeza da classificação para a fase seguinte. A alegria toma conta das arquibancadas da torcida africana engrossada por muitos simpatizantes de outras origens. É de acreditar que fora do estádio, espalhada pelo mundo, uma onda de afeto acompanhe os acontecimentos, pois a força de Gana conquistou os amantes do futebol. Os uruguaios, bi-campeões mundiais (1930/1950, cunhando nesta última data o termo maracanaço ao vencer o Brasil: 2 x 1), já lamentam a volta para casa sem superar os 40 anos de frustração em Copas do Mundo.

Devem calar as vuvuzelas para não atrapalhar a concentração, Asamoah Gyan, goleador de Gana, cobrará a penalidade. Nos seus pés o destino de um país e a esperança de um continente. Pela primeira vez um time africano poderá chegar à semifinal. Ao depositar a bola sobre o círculo de cal, o jogador se investe de grande sacerdote a celebrar a cerimônia principal do rito. Respeitoso silêncio de mais de 84 mil pessoas no estádio. Gyan chuta com potência e acerta o travessão, milhares de mãos apertam cabeças africanas. Em complemento do ritual, Muslera homenageia a trave depositando nela um beijo com a ponta dos dedos. O caprichoso deus do futebol frustrara o gol previsível. Apito e fim de partida. Suarez, ex-vilão, exulta à beira do campo, é abraçado pelos seus companheiros e o jogo volta à estaca zero. Segundo o regulamento deverão ser cobrados, alternadamente, cinco pênaltis para cada lado. Para ambos times é a primeira decisão por pênaltis em copas do mundo. Agora dois goleiros irregulares, na opinião dos entendidos, terão nas mãos a sorte dos seus países.

Curioso este aspecto da liturgia: enquanto o goleiro é sempre o mesmo, os cobradores se revezam, são escolhidos previamente pelos capitães das respectivas esquadras e a lista é apresentada ao árbitro, que opera de Supremo Comandante e valida ou veta o resultado da participação de cada um dos efetivos na execução.

O primeiro a cobrar é Diego Forlán; sempre preciso, com calma desloca o goleiro Kingson e acerta o alvo: Uruguai 1 X 0.

Gyan, fuzileiro azarado do último minuto, será o primeiro a testar o goleiro uruguaio. Chuta alto, com perigo de acertar a trave novamente; a bola desta vez balança as redes: 1 X 1.

Victorino chuta corretamente e gol: 2 X 1.

Appiah cobra e Muslera toca a bola com a ponta dos dedos, contato insuficiente para evitar que ela penetre no reduto. 2 X 2.

Scoti, para o Uruguai, quase acerta o pé do goleiro ganense: 3 X 2.

Agora é a vez de o capitão Mensah cobrar para Gana. Chute fraco no meio do gol, Muslera defende. Os africanos abaixam a cabeça, os uruguaios pulam levantando os punhos. Continua 3 X 2 com um chute a menos para Gana.

Pereyra desperdiça sua oportunidade atirando a bola para as tribunas.  Ainda 3X 2.

Adiyah cobra e Muslera defende, continua 3 X 2.

O momento é crucial, a próxima cobrança pode decidir o resultado por antecipação. Sebastián Loco Abreu, camisa 13, com perigosa cavadinha coloca a bola no fundo da rede. A sorte está lançada sem remissão: Uruguai 4 Gana 2.

Os técnicos e jogadores invadem o campo para abraçar os recém consagrados próceres uruguaios.

Enquanto Suárez tem sua cota de glória na lateral do gramado, que não abandonara, violando as regras, Gyan chora desconsoladamente, o herói africano da competição torna-se vilão.

Pareceria que o relato acima esgota os lances comoventes de uma partida de futebol, ao menos para um espectador não especializado como eu, mas a vontade dos deuses é incognoscível e sua imaginação farta, mesmo quando repete as situações. No dia seguinte a esta partida, Oscar Cardozo será o Gyan paraguaio em partida contra a Espanha.

No segundo tempo, depois de um soporífero primeiro, com um gol legal do paraguaio Valdés anulado como único destaque, os times decidiram entrar em campo para jogar. Se uma ironia suprema rege o futebol – isto explicaria as zebras – é de acreditar que ela pretendesse compensar os torcedores pelo período inicial. Aos 12 minutos o juiz marca um pênalti a favor dos paraguaios. Cardozo chuta e Casillas, do Real Madrid, defende. Segue-se um contra-ataque com falta dentro da área paraguaia e o árbitro decreta a penalidade máxima. No lapso de dois minutos aconteceram dois pênaltis, um para cada lado; Xabi Alonso cobra, faz e o juiz anula porque houve invasão de área. Nova cobrança e agora Villar, goleiro do Valladolid, evita o gol. O pênalti espanhol foi cobrado por antecipação, pois o árbitro apontou una falta duvidosa, no entanto, no rebote, o goleiro de fato segurou a perna de Fábregas, do Arsenal, dentro da pequena área. A disputa se torna acirrada. David Villa marca para os europeus aos 38 minutos. Este gol teve sua dose de suspense: Pedro chutou e a bola bateu no poste direito rente ao chão, o rebote sobrou para Villa que chutou cruzado, a bola bateu no poste esquerdo, quicou na linha do gol por trás de um paraguaio, bateu no poste direito e finalmente entrou. O Paraguai não se entrega, ainda acredita que é possível empatar e levar o jogo para a prorrogação. Para os sul-americanos os minutos são de ouro. Os espanhóis prendem toda posse de bola. Apito e fim de jogo. Fim da esperança paraguaia de chegar à semifinal numa Copa do Mundo. Primeira semifinal da história espanhola.

A seqüência tem visos de reprise: Cardozo, como Gyan, é focalizado pelas câmeras. Seu rosto está banhado de lágrimas, como se costuma dizer, chora copiosamente. Sem dúvidas sente-se responsável pela desclassificação do time, seu país. O sentimento de culpa é tanto que alguns adversários se aproximam para confortá-lo. Nessa hora não há técnica nem tática que resolva, o sentimento invade tudo, contamina o gramado e as arquibancadas, minúsculo universo deste drama. Então o jogo recupera algo de sua origem em campos improvisados nas ruas, praticado por garotos pobres como passatempo com regras próprias, época em que transações milionárias entre times-empresas sequer eram sonhadas e se jogava por amor ao esporte.

Acredito que a partida entre Uruguai e Gana venha a ser a mais sofrida desta Copa. Ainda faltam vários jogos para a final, poderá haver futebol de mais qualidade nesses confrontos, mas dificilmente qualquer um deles superará a emoção deste. Nos quatro times participantes falta a identificação com a grande massa de espectadores disseminada pelo planeta, nos estádios, suas torcidas são insignificantes se comparadas com a de todo um continente. Os lances surpreendentes, dolorosos, foram esgotados neste encontro.

O Paraguai é mais um time americano que retorna sem conseguir seu objetivo.

Fica o sabor acre de toda derrota esportiva, também a satisfação de saber que no futebol vitórias e derrotas são efêmeras. Prova disto é a festiva recepção da seleção argentina nas ruas de Buenos Aires. Como se tivessem conquistado o título, milhares de torcedores ovacionaram o técnico e os jogadores surpreendendo a delegação eliminada pela Alemanha com uma goleada fragorosa: 4 X 0. A taciturna população rio-platense deu uma lição de otimismo, afinal, em menos de três anos começam os jogos de classificação para a Copa 2014. Talvez então aconteça o tão desejado confronto Brasil Argentina pelo título mundial, poderia ser a causa de o mundo parar por um dia.

Post scriptum. 10 de julho 2010: Em disputa com Alemanha pela terceira posição, Diego Forlán, aos 6 minutos do segundo tempo, virou o jogo com um golaço antológico. Aos 44 o Uruguai perde por 3 X 2. Forlán se prepara para cobrar uma falta na entrada da grande área, é a possibilidade de levar a partida para a prorrogação, mas o deus do futebol, irônico ou vingativo, surge na barreira: com a mesma potência do chute de Asamoah Gyan, o uruguaio acerta o travessão em cheio. Ainda espremia a decepção do rosto encharcado pela chuva torrencial e o juiz encerrava a partida. Desta vez não houve lágrimas. Como saldo desta Copa, o Uruguai acrescenta mais quatro anos às décadas de frustração e esperança da gloriosa celeste disputar a final. Poderá ser em 2014 no Brasil contra os donos da casa?

O octópode de Berlim que oficiou de oráculo nos jogos da Alemanha no certame havia hesitado ao escolher a bandeira do vencedor no encontro. Segundo avaliada opinião de vários técnicos em diversos esoterismos, ele previu também a virada uruguaia com o gol já referido. Procedente ou não, o polvo ganhou uma réplica da Taça Jules Rimet depois de acertar o ganhador da grande final: Espanha 1 X 0 Holanda. Por motivos não revelados, o proprietário do restaurante onde ele se desempenha anunciou que vai aposentá-lo: vaticínios políticos ou esportivos, disse torvo, nunca mais!

A REVOLTA POÉTICA DE UMA ALMA COMPLEXA- por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

Ariel – Sylvia Plath

Edição restaurada e bilíngüe, com

os manuscritos originais.

Prefácio de Frieda Hughes.

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

e Maria Cristina Lenz de Macedo

Verus Editora (2007)

210 Pags.

Em Sylvia Plath poeta. Agente de seu destino. Ou em Ariel o livro de poemas. Produto de uma vida convulsa. Confissão, imagismo e ficção poética se completam com extrema eficiência. Uma vida que se conta pelos poemas e traz mnemônicas imagens de submissão e rebelião. Aos trinta anos (em 1963) a poeta norte-americana totalizava seu existencial e se despedia da vida, mas não da poesia, produzindo ecos nas gerações posteriores, conquistando adeptos e leitores nos mais diversos países.

Complexa como sua alma, a poesia dessa artista ainda provoca dúvidas sobre o seu fazer poético: “confissão” ou “conficção”, “imagismo plathológico” ou “poema-performance”? Creio que todos ao mesmo tempo e mais alguns que serão pouco a pouco destilados nas exegeses de cunho acadêmico, marginal ou diletante. Qualifico minha análise, neste micro-ensaio, de marginal-poética, portanto haurida de visão pessoal e leitura recente. A tradução de Ariel, feita pelo poeta Rodrigo Garcia Lopes e pela estudiosa Maria Cristina Lenz de Machado, fidedigna ao original, valoriza o livro de Plath, sem quaisquer perdas e antes dos cortes do marido (o poeta Ted Hughes) feitos na edição de 1965. Rigorosa apreensão do pathos poético da autora, transferindo-o pra nossa língua. Vale lembrar que traduzir importa em transcriar: exercício dos sentidos de tomada do espírito do autor no seu essencial poético transpondo-o para outro idioma.

Importante salientar o trabalho anteriormente realizado por Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça na tradução pioneira de Poemas, que saiu pela Iluminuras em 1990, onde se pode apreender dois ensaios escritos ao final pelos tradutores (respectivamente “Sylvia Plath: delírio lapidado” e “Sylvia Plath: técnica e máscara da tragédia”) o retrato existencial e de artista dessa poeta extraordinária.

Não há como se evitar, em análise-relâmpago, a força de poemas como ”Ariel”, que dá título ao livro, e cavalo oculto galopa apuros técnicos extremados. O “cavalo” que o poema induz/ser, pode também metaforizar a própria vida da poeta, flexa atirada, suicida, “contra o olho vermelho, caldeirão da manhã”. A vida, frágil e breve, lançada à existência — e, por conseqüência, à morte —  pelo suicídio. De outro ângulo: um cavaleiro, e só um cavaleiro, é capaz de sentir o que sentiu a poeta, de num galope cancha reta, lançar-se ao anoitecer aos espaços, rumo a um horizonte indefinido, compondo com o animal, o bólido musculado de intensa força. Há urgência em tudo. Urgência em delatar poeticamente. Urgência em viver e morrer.

“Me arrasta pelos ares/Coxas, pêlos;/Escamas de meus calcanhares”. “Ariel” é composto de dez tercetos, com a finalização apoteótica do verso: “Vermelho, caldeirão da manhã”. Esplêndido poema que, à primeira vista, nos parece enigmático.

Nos demais poemas que compõem o poemário certos símbolos reincidem: a lua, o sangue (negro), árvores (teixo, olmo, entre outras), bebês, peitos, remédio, enfermeira, médico, vermes, morte, abelhas, bonecas, crianças, gazes de curativos. Em “Purdah” se percebe da mulher melancólica, enigmática, de visão naturalista ou patológica, pantotal, mortal, neurótica, confessional, recorrente à infância e seus bebês recusados. “De um verde Adão, eu/Sorrio, de pernas cruzadas,/Enigmática”. Vou anotando assim o que senti em alguns poemas, sem o rigor acadêmico, mas no prazer do leitor/poeta, livre. Em Amnésico: vê-se bebês/brinquedo, enfermeira/vermes/médico, tocar seios/corpo/irmã e bebidas que se transubstanciam, queimando e espumando. Os signos hibridizam uma visão real/fática e o fantasmagórico da construção mental. Essa a grande arte de Sylvia Plath: transformar um real opressor, de um nada poético, em elevada poesia.

Claro que pra fazer isso, ela dispunha de técnica/domínio lingüístico e imaginação criadora, aplicada aos seus limites. Há sim, limites e deslimites na visão poética, que um fato (uma acontescência existencial) instala no agente criador. Além do que, a poeta joga incansavelmente com os extremos, de imagens contrárias, chocantes nos significados. E nunca recuando dos núcleos de significação, tematizados ao rigor dos mestres. “Talidomida”, tem versos crus, como: “Âmnio sangrento das ausências. / Toda noite eu teço”. Ou esses outros: “Da indiferença! / Os frutos escuros giram e caem. / O vidro se espatifa, / A imagem / Foge e aborta como gotas de mercúrio”. Sempre, algo de trágico, de rompimento e morte, delatando o irreversível, o que foi, não volta mais como ameaça de opressão e desamor.

No poema “Papai” assistimos, como em “Lady Lazarus”, “40 Graus de Febre” e outros, a reconstrução da mulher ferida, filha dileta da opressão. “Papai” é uma aula de exorcismo poético. “Com cola foram me refazer. / E então soube o que fazer. / Fiz um modelo de você, / Um homem de preto com um quê de Meinkampf”. A vítima arquetípica (Plath na pele de uma mulher judia) e o duro rebate ao pai e o acerto de contas, na última estrofe do longo poema: “Papai, papai, seu puto, eu acabei”. Em “O  Candidato”, a mulher-objeto (“uma boneca de carne”) é descrita por metonímias: peitos de borracha, ataduras, suturas. Poema cínico, uma resposta à altura pela crescente transformação da mulher em objeto, coisa, imagem a ser explorada, objeto de consumo.

Presente em vários poemas está a experiência da maternidade, de hospitais: como em “Canção da Manhã”,  poema que abre o volume, dedicado ao nascimento da filha, Frieda: o símbolo bebê pode representar a vida em estágio inicial, ante a avalanche de perigos, e a seta mortífera do opressor, repetido poema a poema. O frágil, frente ao monstruoso e desconhecido: “Num museu arejado, ……”. Importante notar que, nos poemas de Sylvia Plath, as metáforas nunca se escancaram em significação ao leitor, mas sinalizam caminhos, visões, denúncias, urgências. Pistas.

Como raros poetas, Sylvia Plath soube servir-se das imagens de sua breve vida para compor uma obra forte, brutal até, no seu conteúdo (vide poemas como “O Carcereiro”). Agressiva, pela linguagem quase-clássica, sem invenções provocadas.  Como uma química de fundo de quintal que, bolindo seus apetrechos e substâncias naturais, vai compondo óleos, suspensões, cápsulas, comprimidos e ungüentos milagrosos, a poeta aproveita o tudo de sua vida, convertendo-o com maestria em poemas. Certíssimo que essa seleção consciente e inconsciente dos símbolos prestigia o essencial, tanto de um viver as coisas, como de imaginá-las, transpô-las ao mundo das linguagens. É disso que se faz a grande poesia. Desse amontoado de símbolos, que entornam e fazem parte da vida e do imaginário do poeta. Cada qual com suas formigas de estimação, aleijões fixados na alma, perquirições inúteis, perceptos acelerados a caminho do nada…

Sylvia Plath consegue metaforizar em forma humana a nathureza, não só nesse poema “O Caçador de Coelhos, mas em outros na obra. O corpo disso, o corpo daquilo, que tomava formas humanas e enternecia ou aterrorizava. “Era um lugar de força — / O vento amordaçando minha boca com meus cabelos revoltos, / Arrancando minha voz, e o mar / Me cegando com suas luzes, a vida dos mortos / Se desenrolando nele, se espalhando como óleo”. Sempre é uma nathureza que toma corpo, reage, persegue e impõe beleza e aniquilamento. Negativa a visão de vida que nutria a poeta. Negativa de só carregar o fardo da opressão de pai, de marido, de poder estatal, de forças naturais avassaladoras, que repercutiam diretamente no eu, vulnerando-o. Um produto dos anos Einsenhower, de um ambiente de alta competividade, e de uma busca obsessiva por ser a melhor em tudo: a melhor aluna, filha, poeta, depois mãe e esposa. Essas cobranças acabaram vulnerando-a por toda a vida breve de artista. Quase um encosto, de patológica ação, cercava a poeta desde bebê, e prosseguia na infância (pai morto em circunstâncias tragi-cômicas, criança rejeitada) entre perigosos brinquedos, traumas, associações terríveis, pesadelos, psiquismos… Esse o entorno da artista, que deu origem a seu acervo riquíssimo de signos, símbolos, sinais pra denotar a vida em palavras.

Podemos dizer que Sylvia Plath tomou as rédeas de sua vida, dominando-a e sendo dominada pelo mundo exterior. O ser/poeta/filósofo de ação empírica que, sem o apoio de Deus, insiste em alquimizar o duro destino. Não há um pedido sequer de proteção, ou guarida a uma entidade superior, que viesse diminuir o pesadelo e a dor da poeta. Mas como transmutá-la em arte? Essa a questão para Plath, já que ela própria desconfiava da poesia como “grito do coração”. A mesma trouxe pra si, a responsabilidade do revide (vingança artística e terrena através da palavra poética) ao que se era quase-impossível de se revidar, como criança, adolescente, mulher e poeta naquele mundo. Potência e impotência foram signos de presença constante na vida e nos poemas da artista. Com suas catanas, afiadas no sofrimento, Sylvia Plath, rebateu as forças opressoras que a sugavam, um tanto a mais, do que conseguiria qualquer filósofo, escudado só na razão. A força de poeta, advém da adversidade e de transcendências não-identificáveis, variantes de um instinto primário de ação e reação.

Em “Lady Lazarus”, belíssimo poema longo, um dos pontos altos do livro, a poeta evoca imagens fortíssimas, como “a leprosa desenfaixada”, “pele e osso”, “violentada aos 10”, “vermes como pérolas grudentas”. A mulher que marca o tempo, devendo tentar um ano em cada dez, e já estava com trinta. O fato da poeta denotar/identificar o tempo, induz consciência atenta aos signos que a marcavam. Consciência seletiva na qualidade simbólica do que seria sua obra e o aproveitamento do lixo/suspiro/existencial. Novamente, o rebate contra o inimigo, se opera nesse poema. “Dispa o pano / Oh, meu inimigo. / Eu te aterrorizo?”, pergunta, sem resposta, ao terror que atravessa a vida da poeta. “E eu uma mulher sempre sorrindo. / Tenho apenas trinta anos. / E como o gato, nove vidas para morrer”. Fortíssima a imagem ao final do poema (“Lady Lazarus”), que evoca a ressurreição da mulher-oprimida, a qual sem piedade, retorna pra devorar o superinimigo: “Saída das cinzas / Me levanto com meu cabelo ruivo / E devoro homens como ar”. Em ato de ressurreição, a poeta volta aos ajustes, ainda não finalizados em vida pela palavra poética. Magnífica apreensão do ódio, dos efeitos da opressão no ser, que transferidos com o corpo ao além, comparecem novamente ao mundo terreno aptos à plena realização da vingança. É de se admitir que Sylvia Plath venceu a vida no esmero de sua produção poética, impondo ao mundo uma personalidade in-descartável, ao contrário dos seus bebês de estufa e sacos plásticos, ou mulheres dentro de garrafas, símbolos semelhantes nas suas visões convulsas da nathureza e do humano.

Jairo Pereira é autor de O Abduzido (romance-ensaio), Espirith Opéia (livro-poema), entre outros.

DUNGA envia carta ao RICARDO TEIXEIRA “il cappo”

Dunga desembarcou em Porto Alegre no domingo e foi demitido horas depois (Foto: EFE)

CESAR VALLEJO: Um coração dividido (1) – por manoel de andrade / curitiba

Eu conhecia apenas alguns poemas esparsos de Cesar Vallejo quando encontrei, entre os livros de Francisco Macias, — meu anfitrião em Lima em fins de 69 — o poemário Trilce.

Publicada em 1922, sob a influência das vanguardas europeias, e, sobretudo pelo seu rompimento com a tradição poética peruana, a leitura da obra, não somente pela data da edição, mas pela nova postura literária, lembrava-me a renovação da linguagem e a liberdade na criação poética apresentada pelo movimento modernista brasileiro de 22 —  também rompendo com os cânones  parnasianos e românticos da poesia brasileira, bem como influenciada pelos ismos europeus e sobretudo pelo Futurismo de Marinetti.                                                                                                                                                                                                     Como nunca aceitei o radical rompimento com os ideais estéticos do século XIX, proposto pela Semana da Arte Moderna de São Paulo – que foi um modernismo meramente paulista, marcado pela irreverência e o ufanismo, ideologicamente reacionário e com uma insensata aversão pelo lirismo  –  não  me identifiquei com o discurso poético do segundo livro de Vallejo. Trilce surgiu numa época em que, na literatura hispânica, estava em moda a poesia “experimental” como umareação em marcha contra o modernismo e foi  um desesperado manifesto de liberdade do poeta, expresso por sua íntima intuição, mas marcado então por uma liberdade literária ainda sem norte. “Quero ser livre – declara, na época, em carta, a seu amigo Antenor Orrego  – ainda que a troco de todos os sacrifícios. Por ser livre, me sinto ocasionalmente rodeado de espantoso  ridículo  com o ar de um menino que leva a colher às narinas…”(2) O resultado desse íntimo desencontro é uma atitude poética audaciosa e original, mas expresso em versos sem lógica, frases  fragmentadas, espaços em branco, letras invertidas, neologismos, imagens herméticas, numa linguagem extraída do caos e do absurdo que maculam a  imagem da poesia.

Como a postura de vanguarda, em Trilce, pertencia a uma fase da linguagem poética que eu já havia superado, — sobretudo pelo engajamento político da minha poesia na década de 60, no Paraná  —   mas sabendo da consagração mundial da poesia de Vallejo e das providências que, naqueles anos, tomava a intelectualidade peruana, para consagrar a imagem do seu maior poeta  — desprezado e auto-desterrado para sempre da pátria, quarenta anos antes  —, me isolei por uma semana, na Biblioteca Nacional do Peru, para ler a tão comentada primeira edição nacional de sua obra poética completa,  lançada no país, no ano anterior pelo editor Francisco Moncloa. (3)

Excetuando-se quatro poemas, toda a obra poética de Vallejo, escrita depois de Trilce, somente foi publicada depois de sua morte. Contudo, seu livro Poemas Humanos, última fase de sua produção poética, continuaria marcado pelo binômio metafísico do tempo e da morte, ante a ironia e a orfandade do homem diante do destino, mas agora enriquecido pelo comprometimento político, pelo seu despojamento social e solidário com o ser humano onde sua poesia conquista o merecido reconhecimento mundial e a cidadania da universalidade. Percebe-se claramente nessa obra o resgate poético do vazio com que ele próprio declarou ter escrito Trilce: “ O livro nasceu no maior vazio.   – Escreveu ao amigo Antenor Orrego, logo após seu lançamento Sou responsável por ele. Assumo toda a responsabilidade de sua estética”.(4) Essa discreta “mea culpa” prematura de Vallejo será reassumida abertamente, alguns anos depois em Paris, quando ele renega Trilce depois que adere ao marxismo e ao ativismo ideológico.

1. Los heraldos negros

Mas além da grandeza e da qualidade social dos Poemas Humanos, tocou-me sobretudo, o lirismo de seu primeiro livro, Los Heraldos Negros, de 1918, obra com a qual inaugurou uma nova fase da poesia peruana. O primeiro poema, que dá o nome ao livro, aqui apresentado na excelente tradução de Felipe José Lindoso (5), nos leva a profundas reflexões sobre o significado da vida, com seus golpes, poucos, mas cruéis, que nos são enviados como os arautos da morte:

Os arautos negros

Há golpes na vida, tão fortes… Não sei!

Golpes como o ódio de Deus; como se diante deles

A ressaca de todo o sofrido

Encharcasse a alma… Não sei!

São poucos;  mas são… Abrem valas escuras

no rosto mais duro e no lombo mais forte.

Serão talvez os potros de bárbaros átilas;

ou os arautos negros que nos manda a morte.

São as quedas profundas dos Cristos da alma,

de alguma fé adorável que o Destino blasfema.

Esses golpes sangrentos são as crepitações

de algum pão que nos queima na  porta do forno.

E o homem… Pobre… pobre! Volta os olhos, como

quando por cima do ombro nos chama uma palmada;

volta os olhos loucos, e todo o vivido

se empoça, como charco de culpa, na mirada.

Há golpes na vida, tão fortes… Não sei!” (6)

Todo o simbolismo que permeia Los Heraldos Negros ultrapassa esse estilo, meramente literário, para identificar-se com a própria simbologia da vida no seu cotidiano como um todo e a uma particular expressão nostálgica das imagens antropomórficas da cultura andina.  Talvez, por isso mesmo e por sua origem e aparência de mestiço, sua poesia não foi aceita, na época, pela “aristocrática” intelectualidade limenha. Na atualidade, Vallejo é a glória da poesia peruana, mas Mariátegui colocou abertamente, já em 1928, o dedo nessa preconceituosa  ferida cultural ao afirmar que  “Essa arte assinala o nascimento de uma nova sensibilidade. É uma arte nova, uma arte rebelde, que quebra com a tradição cortesã de uma literatura de bufões e lacaios. Essa linguagem é a de um poeta e de um homem. O grande poeta de Los heraldos negros e de Trilce —  esse grande poeta que passou ignorado e desconhecido pelas ruas de Lima tão propícias e subservientes aos louros dos jograis de feira  —  se apresenta, em sua arte, como um precursor do novo espírito, da nova consciência”. (7)

2. O indigenismo de Vallejo

Vallejo foi amigo do grande ensaísta peruano José Carlos Mariátegui, com quem conviveu e depois manteve o mais estreito contato do exterior publicando seus textos na Revista Amauta fundada em Lima no ano de 1926, por Mariátegui,  levantando com ele as bandeiras do indigenismo andino – empunhadas primeiramente pelo pensamento lúcido e acusador de Manuel Gonzáles Prada, “descobridor” do índio peruano, (8) e, posteriormente,  por José Maria Arguedas,  Manuel Scorza e Ciro Alegria  –  e referindo-se poeticamente ao incário em sua histórica grandeza, quando o perfil do Império do Sol se justapunha á silhueta litorânea e a paisagem andina do continente americano do sul da Colômbia até o norte do Chile. “Consiste o indigenismo de Cesar Vallejo em mostrar seus antepassados não como débeis criaturas, mas sim pelo contrário” —  é o que afirma o escritor colombiano Miguel Manrique, mostrando a clara disposição de Vallejo para o melhor indigenismo, não somente na poesia, mas também como prosador em sua novela Hacia el Reino de los Sciris: Ressaltando a pompa de uma civilização na plenitude de sua glória e não na apresentação melindrosa da arquisabida má história da conquista. O que  melhor,  para alguém que se considera membro ou natural de uma coletividade, que representá-la com o brilho que Cesar Vallejo faz com esta curta porém imensa novela. Muito melhor do que se o escritor se colocasse na chorosa  tarefa de encenar a captura de Atahualpa e as exigências para o seu resgate. Vallejo se converte assim em um Homero quíchua que tece com luminosidade o esplendor de sua civilização, do outro costado do seu ser. Os dois sangues nunca o abandonarão nem muito menos o trairão, um em benefício covarde do outro. Vallejo soube toda a vida ser índio e espanhol, desfraldando uma mestiçagem fidalga, fiel descendente do quixotesco e do quíchua”. (9)

E agora, é novamente Mariáteghi quem declara: “Vallejo é o poeta de uma estirpe, de uma raça. Em Vallejo se encontra, pela primeira vez em nossa literatura, sentimento indígena virginalmente expresso.(10) Contudo é um pouco diferente a opinião contemporânea do poeta e ensaísta peruano Américo Ferrari — talvez o melhor conhecedor da poesia de Vallejo  —  quando se refere a’Os Heraldos Negros: “O tema indigenista e telúrico é, de todos os modos, n’Os Heraldos Negros, secundário: a vocação do verdadeiro Vallejo é ruminar obsessões mais que descrever paisagens ou cantar a raça.” E contudo é o mesmo Ferrari quem escreve anteriormente: (…)“E, não obstante, existe algo mais: sob o espartilho das novas formas palpita a emoção e a nostalgia, o apego à terra andina de um homem que já antes de sair do Peru, na cidade costeira de Trujillo primeiro, em Lima depois, se sentia desterrado: desterrado do lar, que se confunde com o lugar onde nasceu, que se confunde com a pátria. A pátria é o entorno andino, com seu povoador, o camponês índio e serrano. Mais tarde, em Paris, o índio, essencializado e agigantado pela distância e a nostalgia, será protótipo de humanidade: “Índio depois de homem e antes dele”; e a serra peruana, símbolo de pátria universal: “Serra do meu Peru, Peru do mundo/ e Peru ao pé do orbe; eu concordo!” (11)

O fato é que sua condição de mestiço está sempre presente na sua assumida postura quíchua e castelhana, índia e espanhola, marcada pelo seu amor ao Peru e à Espanha, pela sua vida quixotesca e sempre iluminada pela luz e o calor de Inti, o deus Sol dos seus antepassados.  Há também, na fase inicial da poesia de Vallejo, uma contraditória religiosidade e uma imagem de Deus ora evocada com amargura e hostilidade (“golpes como o ódio de Deus”) ora com o sentimento de piedade pelos homens: (12)

Sinto Deus que caminha

tão em mim, com a tarde e com o mar.

Com ele vamos juntos. Anoitece

Como ele anoitecemos. Orfandade…

Mas eu sinto Deus. E até parece

que ele me dita nem sei que boa cor.

Como um hospitaleiro, e bom e triste;

languesce um doce desdém  de apaixonado:

deve doer-te muito o coração.

Oh, Deus meu, só agora a ti chego

hoje que amo tanto esta tarde; hoje

que na balança falsa de uns seios

olho e choro uma frágil Criação.

E tu, o que chorarás… tu, apaixonado

de tão enorme seio girador…

Eu te consagro Deus, porque amas tanto;

porque jamais sorris; porque sempre

deve doer-te muito o coração. (13)

3. A pobreza, a indiferença e os caminhos do mundo

Nascido em 1892 em Santiago de Chuco, numa região montanhosa a quinhentos quilômetros ao norte de Lima, décimo primeiro filho de uma família de origem indígena e espanhola, Cesar Abraham Vallejo Mendoza sempre se identificou com os pobres e desamparados do mundo porque essa foi a imagem que trouxe da infância e adolescência marcada por dificuldades familiares próximas da miséria.. Viveu sua juventude com a intelectualidade de Trujillo em cuja Universidade estudou e onde publicou seus primeiros poemas. Foi lá que  entrou em contato com a poesia de Juan Ramón Jimenez, Miguel de Unamuno, Rubén Darío, Walt Whitman, Julio Herrera y Reissig e Chocano. (14)

Chega à Lima em 1917 e no ano seguinte publica Los Heraldos Negros, onde transparece a influência e sua admiração por Darío, a afinidade com Herrera, onde usa e abusa do valor dos símbolos. Talvez tenha sido a indiferença com que os limenhos trataram  a poesia de seus dois primeiros livros e sua injusta prisão de quatro meses, em Trujillo, por sua suposta participação em um incidente público ao visitar sua terra natal em 1920,  que o levou em 1923, a deixar o Peru, para sempre, indo viver em Paris onde passará fome, dormirá algumas noites ao relento e depois sobrevive da atividade gráfica, jornalística, de traduções e docência. É ali que conhece os grandes poetas e pintores da época como Vicente Huidobro, Pablo Neruda, Juan Gris, Pablo Picasso, Antonin Artaut, Jean Cocteau, Tristan Tzara e o poeta espanhol Juan Larrea, que seria seu grande amigo, futuro biógrafo e com quem funda, em 1926, a Revista Favorables Paris Poema. Em 1928 viaja a Moscou, onde conhece Maiakovski. Retorna a Paris, onde abre a  primeira célula parisiense do Partido Socialista do Peru e no ano seguinte, em companhia de Georgette Marie Philippart Travers – com quem passa a viver — viaja novamente à Rússia, retornando pela Hungria, Áustria, Tchecoslováquia, Polônia, Alemanha e Itália.

Em 1930 chega à Espanha para o lançamento da segunda edição de Trilce, voltando em seguida a Paris de onde é expulso por propagar o comunismo. Em 1931 está novamente na Espanha onde testemunha a queda da monarquia e a ascensão republicana. Relaciona-se com o filósofo Miguel de Unamuno, com António Machado e com os poetas mais jovens, da chamada “geração de 27”, como Federico Garcia Lorca e Rafael Alberti, Jorge Guillen, Miguel Hernandez, Luis Cernuda, Dámaso Alonso ePedro Salinas, entre outros e quase todos vítima da Guerra Civil Espanhola. Neste mesmo ano publica suas crônicas e ensaios sobre a Rusia en 1931 e Reflexiones al pie del Kremlin, título cujo sucesso de vendas levou os editores espanhóis a publicar três edições em quatro meses. Ainda em 1931, atendendo a uma proposta editorial de uma novela proletária, escreve em três semanas e publica em Madri o livro El tungsteno, onde recorda seu tempo de adolescente e o contacto com trabalhadores da Empresa Minimo Society, no assentamento mineiro de Quiruvilca, perto de sua cidade natal. Denuncia as injustiças por que passam os mineiros, acusando os “gringos” e autoridades peruanas que defendem os interesses dos exploradores norte-americanos em detrimento dos abusos contra os mineiros e, sobretudo, pela exploração de uma coletividade indígena da etnia sora, submetida pelos atos mais cruéis e iníquos de arbitrariedade e cuja revolta é sufocada com o sangue dos caídos.

Em 1931 realiza sua última viagem a Moscou para participar do Congresso Internacional de Escritores Solidários com o Regime Soviético, de onde retorna a Madrid e encontra as portas editoriais fechadas a seus novos livros em razão do caráter marxista e revolucionário de suas obras. Recomeça a escrever poesia cujos versos serão publicados, postumamente, com o título de Poemas Humanos.

Em 1932 filia-se ao Partido Comunista Espanhol e regressa a Paris onde vive na clandestinidade, organizando, posteriormente, com Neruda, a coleta de fundos para a causa republicana na guerra civil espanhola. Em 1937 volta pela última vez à Espanha para participar do Congresso Internacional de Escritores Antifascistas, e talvez porque sua precária saúde o impedisse de empunhar um fuzil para defendê-la, escreve seu grande poema político: España, aparta de mí este cáliz, que deu título ao livro de quinze poemas, publicado postumamente, em 1939, como um verdadeiro testamento poético, por sua viúva, Georgette Vallejo.

4. Cesar Vallejo, um coração dividido.

Vallejo foi homem repartido. Filho da consanguinidade indígena e espanhola, sentiu seu coração dividir-se pelos caminhos da vida. Primeiro sentiu sua alma partir-se, dolorosamente, entre a imagem querida da mãe e a imperecível saudade que chegou com sua morte, em 1918.  Repartiu-se entre o idílio e a separação da mulher que amou, num romance tormentoso e frustrado de sua juventude como professor em Lima. Sentiu sempre o coração dividido entre a pátria e o mundo e culturalmente entre o Peru e a Espanha.  Vallejo viveu dividido entre Paris e a sua crônica nostalgia da paisagem andina. Pablo Neruda, seu grande amigo, afirma que: “Vallejo era sério e puro. Morreu em Paris. Morreu no ar sujo de Paris, do rio sujo de onde tiraram tantos mortos. Vallejo morreu de fome e asfixia. Se o tivéssemos trazido para o Peru, se o tivéssemos feito respirar ar e terra peruana, talvez estivesse vivo e cantando.(15)

O poeta  transitou balizado pelas  ironias da vida, pelos golpes do destino, entre o desespero e a esperança, que atormentaram sua alma sobretudo depois dos quarenta anos, onde sua poesia mantém sempre aquela obscuridade tatuada pela dor dos homens, pela perplexidade ante o grande mistério da vida e o significado da morte: “Haver nascido para viver de nossa morte”, e assim sempre dividido entre o imenso vazio do mundo e seu sonho de plenitude espiritual e de uma eterna felicidade. “ E se alguém fica perplexo ante esse universo de trevas, de limites, é sobretudo o próprio poeta que o revela em seu poema; (Panteón) daí o acento de angústia que raramente abandona Vallejo; daí essas yuntas, essas parelhas de significações em conflito que não são nunca abolidas nem superadas: o todo-o nada, a alma-o corpo, o alto-o baixo, o nunca-o sempre, o tempo-a eternidade, a vida-a morte, Deus-nada. (16)

Vallejo viveu repartido entre sua íntima plenitude, filosófica e poética, e sua fidelidade ao marxismo. Conforme carta datada em 29 de Janeiro de 1932 ao poeta e amigo Juan Larrea, Vallejo confessa: Comparto a minha vida entre a inquietação política e social e a minha inquietação introspectiva e pessoal minha para dentro. Ou seja, O poeta sentia-se, pois, dividido, sem conseguir unificar as duas partes de que se sentia feito: uma de inquietação política e social, que o marxismo satisfazia; outra introspectiva e pessoal minha para dentro para a qual nunca encontrou resposta que o satisfizesse, nem mesmo a religião que desde os primeiros tempos pulsava no seu íntimo, sem que por isso possa entender-se a adesão a uma igreja. Essa angústia persistirá até a sua morte, não sem um vislumbre de esperança que o levará a ditar a sua mulher, poucos dias antes de morrer, estas palavras: Qualquer que seja a causa que tenha de defender perante Deus, para além da morte, tenho um defensor: Deus.” (17)

Vallejo, cuja poesia foi desprezada por seus contemporâneos, é tido hoje como o maior poeta peruano de todos os tempos e talvez a figura mais proeminente da poesia hispano-americana depois de Pablo Neruda, o qual declarou que a poesia de Vallejo era maior que sua própria poesia.  Foi um homem marcado por transes pedregosos, por uma infância de misérias e penitências, e sua pobreza o obrigou a abandonar, em 1910, o curso de Letras na Universidade de Trujillo – somente concluído em 1915  –  para dar aulas particulares e depois trabalhar na administração de uma fazenda açucareira no vale de Chicama, onde presencia o drama cruel e cotidiano da exploração do trabalho indígena. Ciro Alegria – que depois se tornaria um dos grandes romancistas peruanos  — conta que foi aluno de Vallejo no Colégio San Juan, de Trujillo, e que (…) “De todo seu ser fluía uma grande tristeza. Nunca  vi um homem que parecesse mais triste. Sua dor era como  uma secreta e ostensível condição, que terminou por contagiar-me.(…)  Ainda que à primeira vista pudesse parecer tranquilo, havia algo profundamente desgarrado naquele homem que eu não entendi mas senti com toda minha desperta e alerta sensibilidade de menino.(…) Foi assim como encontrei a  César Vallejo e como o vi, como se fosse pela primeira vez. As palavras que dele ouvi sobre a Terra são também  as que mais  gravei na memória. O tempo haveria de revelar-me novos aspectos de sua pessoa, os longos silêncios em que caía, sua atitude de tristeza infindável…(…) (18)

5. “O poeta dos vencidos”

Eu nasci num dia em que Deus estava enfermo”, afirma ele, reiteradamente, em seu poema Espergegia. E apesar de tudo, do sentimento pessimista pela sua dor e por compreender a imensa dor humana, do desamparo que colheu da vida, nunca permitiu que suas dolorosas experiências alterassem seu espírito solidário com os pobres, os injustiçados do mundo e apagassem de sua alma a fé revolucionária e a esperança com que o marxismo prometia a construção de uma sociedade mais justa para todos os homens.

É, por isso mesmo, chamado o poeta dos pobres, da dor dos homens, o “poeta dos vencidos” na ótica histórica de Eduardo Galeano, e esse é o retrato que está  por trás dos 76 poemas que integram os seus Poemas Humanos, escritos entre 1931 e 1937, e publicados, postumamente, em Paris, em 1939. “Aí o poeta exprimiu o sofrimento próprio e dos outros, o absurdo da existência, o sentimento de culpa que sentia pelos direitos em que se baseia a sociedade que fazia parte, e revolta perante a injustiça que era gritante ao seu redor, o horror da guerra vista como conflito global, sem rosto, e como tragédia dos seus humildes protagonistas anônimos, as contradições de um ser tenso entre pontos opostos que não param de enfrentar-se, a esperança num mundo de compreensão entre os homens, que ele sabia ser uma utopia” (19)

O seu sentimento poético de solidariedade e de piedade pelos desamparados e humildes, cujos primeiros passos são dados n’Os Heraldos Negros, — como neste fragmento do poema El pan nuestro:

Todos meus ossos são alheios;
quem sabe os tenha roubado!
Dei-os a mim mesmo o que talvez estivesse
designado para outro;
e penso que, se não tivesse nascido,
outro pobre tomaria este café!
Sou um mau ladrão… Para onde irei?

E nesta hora fria, em que a terra
recende a pó humano e é tão triste,
quisera eu bater em todas as portas
e suplicar a não sei quem, perdão,

e fazer-lhe pedacinhos de pão fresco

aqui,  no forno do meu coração…! (20)

– caminham ao longo de toda sua vida de escritor e chegam ainda mais comoventes em tantos de seus últimos poemas, como a perplexidade ante a dor humana em Los Nueve Monstruos e nestes versos  fraternos de Traspié entre duas estrelas, ambos do livro Poemas Humanos:

Amado seja aquele que tem percevejos,
o que anda sob a chuva com sapatos furados
o que vela o cadáver de um pão com dois fósforos,
o que prende um dedo  numa porta,
o que não tem aniversário,
o que perdeu sua sombra num incêndio,
o animal, o que parece um papagaio,
o que parece um homem, o pobre rico,
o puro miserável, o pobre pobre!
(21)

6. O pressentimento e a morte

Na poesia dos últimos tempos de Vallejo, apesar do engajamento político dos seus  versos, persistirão sempre a sua obsessão pelo metafísico, que já existia com a feição religiosa n’Os Heraldos Negros e ressurgindo somente em Espanha, aparta de mi este cáliz,  e nos Poemas Humanos onde o social e o metafísico se abraçam solidariamente nas emoções e sentimentos dos homens diante  da pobreza, do abandono, da injustiça e da morte. O tema da morte é uma constante na poesia de Vallejo e, à medida que o poeta dela se avizinha, vai registrando com seus versos sua despedida do mundo, como no poema París, octubre 1936:

De tudo isto sou o único que parte.
vou-me deste banco vou-me , de meus calções,
de minha  grande situação, de minhas ações,
de meu número fendido parte a parte,
de tudo isto sou o único que parte.

Dos Campos Elíseos ao dar volta

à estranha viela da Lua,
meu féretro se vai, parte de meu berço,
e, rodeada de gente, sozinha, solta,
minha semelhança humana dá a volta
e despacha suas sombras uma a uma.

E afasto-me de tudo, porque o todo
fica para ser restringido:
meu sapato, sua botoeira,  seu lodo
e até a dobra do  cotovelo
de minha própria camisa abotoada.
(22)

Há também um claro pressentimento de sua morte no poema Pedra negra sobre uma pedra branca. Não morreu na quinta, como supôs, mas no dia seguinte, numa sexta-feira chuvosa. Era outono em Lima, mas primavera em Paris. Este é um dos seus poemas mais conhecidos e dos mais reproduzidos nas antologias e seu estranho título deriva de uma tradição dos habitantes de Santiago de Chuco, sua cidade natal: o de colocar uma pedra negra sobre uma pedra branca para assinalar os enterros. Eis um fragmento:

Morrerei em Paris com aguaceiro

num dia do qual já tenho a lembrança.

Morrerei em Paris — de onde não saio —

talvez numa quinta, como hoje, de outono.(…) (23)

No início de 1938 leciona Língua e Literatura em Paris, quando tem um forte esgotamento físico. Foi internado em 24 de março com sintomas indefinidos que o levaram a uma forte crise e à morte em 15 de abril daquele ano, numa sexta-feira chuvosa. O poeta e romancista francês, Louis Aragon, um dos iniciadores do surrealismo, fez o elogio fúnebre a Vallejo, cujos restos repousam no cemitério de Montparnasse com o epitáfio: “He nevado tanto, para que duermas”.

“Esta primavera da Europa está  crescendo sobre mais um, um inesquecível entre os mortos, nosso bem-admirado, nosso bem-querido César Vallejo. Por estes tempos de Paris, ele vivia com a janela aberta, e  sua pensativa cabeça de pedra peruana recolhia o rumor de França, do mundo, da Espanha… Velho combatente da esperança, velho querido. É possível? E que faremos neste mundo para sermos  dignos de tua silenciosa obra duradoura, do teu interno crescimento essencial? Já em teus últimos tempos, irmão, teu corpo, tua alma te pediam terra americana, mas a fogueira da Espanha te retinha na França, onde ninguém foi mais estrangeiro.Porque eras o espectro americano  – indo-americano como vós outros preferis dizer  – , um espectro de nossa martirizada América, um espectro maduro na liberdade e na paixão. Tinhas algo de mina, de socavão lunar, algo terrenamente profundo.

“Rendeu tributo a suas muitas fomes”  –  me escreve Juan Larrea. Muitas fomes, parece mentira…  As muitas fomes, as muitas solidões, as muitas léguas de viagem, pensando nos homens, na injustiça sobre a terra, na covardia de meia humanidade. O caso da Espanha já te ia roendo a alma. Essa alma roída por teu próprio espírito, tão despojada, tão ferida por tua própria necessidade ascética. O caso da Espanha foi a verruma diária para a tua imensa virtude. Eras grande, Vallejo. Eras interior e grande, como um grande palácio de pedra subterrânea, com muito silêncio mineral, com muita essência de tempo e de espécie. E ali no fundo, o fogo implacável do espírito, brasa e cinza…   Salve, grande poeta, salve irmão!” (24)

Pablo Neruda (25)

Notas e textos em espanhol:

  1. Este artigo integra o texto de um livro que o autor está escrevendo sobre os anos que passou na América Latina , nas décadas de 60/70.

  1. O texto original em espanhol pode ser encontrado em: FERRARI, Américo. César Vallejo entre la angústia y la esperanza. In: FERRARI, Américo (int.). Cesar Vallejo: Obra poética completa. Madrid: Alianza ,1983, p. 20.

  1. O reconhecimento literário de toda obra poética de Vallejo chegou, editorialmente, trinta anos atrasado em seu próprio país. A primeira edição de Poemas Humanos (1923-1938) foi publicada  por Editions des Press Modernes, Paris, 1939, um ano depois de sua morte.  Já na América do Sul, foi a editora argentina Losada que tomou a dianteira na publicação de toda a sua poesia, editando, em  1949, as Poesías Completas (1918-1938). Em 1959, Los Heraldos Negros e Poemas Humanos foram publicados em Lima, em edições separadas, pela Editora Peru Nuevo. Contudo a publicação de Cesar Vallejo, Obra poética completa, somente foi lançada no Peru em 1968, pelo editor Francisco Moncloa. Essa edição tornou-se clássica, servindo de base para muitas outras edições latino-americanas,  espanholas e portuguesas. Além do excelente prólogo de  Américo Ferrari, a obra, com 510 páginas, foi supervisionada por Georgette Vallejo, esposa do poeta, e sua originalidade está em apresentar  os fac-smiles dos poemas póstumos, quase todos datilografados e corrigidos pelo próprio Vallejo. Em 1970, a Casa das América editou em Havana Cesar Vallejo, obra poética completa, com prólogo do poeta cubano Roberto Fernández Retamar, reproduzindo o título e o texto da edição Moncloa.

  1. FERRARI, Américo. Obra citada.

  1. MARIÁTEGUI, José Carlos. Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. Tradução Felipe José Lindoso. São Paulo: Clacso. 2008. p. 291/292.

  1. Hay golpes en la vida, tan fuertes… Yo no sé!/ Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,/ la resaca de todo lo sufrido/ se empozara en el alma… Yo no sé./ Son pocos; pero son… Abren zanjas oscuras/ en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte./ Serán talvez los potros de bárbaros atilas;/ o los heraldos negros que nos manda la Muerte./ Son las caídas hondas de los Cristos del alma,/ de alguna fe adorable que el Destino blasfema./ Esos golpes sangrientos son las crepitaciones/ de algún pan que en la puerta del horno se nos quema./ Y el hombre… Pobre… pobre! Vuelve los ojos, como/ cuando por sobre el hombro nos llama una palmada;/ vuelve los ojos locos, y todo lo vivido/ se empoza, como un charco de culpa, en la mirada./ Hay golpes em la vida, tan fuertes… Yo no sé! (N.A.)

  1. MARIÁTEGUI, José Carlos. Obra citada, p. 299.

  1. A importância do indigenismo, no Peru, surge somente com as obras de Gonzalo Prada, estabelecendo, entre 1900 e 1930, o início da grande  polémica entre hispanismo e indigenismo que dominariam todo o pensamento social do Peru durante o século XX e marcam os conflitos culturais até os dias de hoje no país, cujas negociações têm buscado, sem sucesso, a igualdade cultural sem desconsiderar as diferenças.

  1. MANRIQUE, Miguel. El hombre vallejiano. Cuadernos Hispanoamericanos, Madrid. v. I. n. 456/457, junio/julio 1988, p.531.

10. MARIÁTEGUI, José Carlos. Op. cit., p. 291.

11. FERRARI, Américo. Op. cit., p. 12.

12. MARIÁTEGUI, José Carlos. Op. cit., p.296.

13. Siento a Dios que camina/ tan  en mí, con la tarde y con el mar./  Con  él nos vamos juntos. Anochece./ con él anochecemos. Orfandad…/ Pero yo siento a Dios. Y hasta parece/ que él me dicta no sé qué buen color./ Como un hospitalario, es bueno y triste;/ mustia un dulce desdén de enamorado:/ debe dolerle mucho el corazón./ Oh, Dios mío, recién a ti me llego,/ hoy que amo tanto en esta tarde; hoy/  que en la falsa balanza de unos  senos,/ miro y lloro una frágil Creación./ Y tú, cuál llorarás… tú, enamorado/ de tanto enorme seno girador…/  Yo te consagro Dios, porque amas tanto;/ porque jamás sonríes; porque siempre/  debe dolerte mucho el corazón. (N.A.)

14. José Santos Chocano, destacado poeta modernista peruano nascido em 1875, em Lima, também conhecido pelo pseudônimo de O Cantor da América. Foi uma estranha figura literária.  Polêmico e aventureiro, foi secretário de Pancho Villa, escapou por pouco do fuzilamento na Guatemala, em 1920, e matou em Lima, num duelo o jovem escritor Edwim Elmore. Morreu em 1934 em Santiago, assassinado por  um demente que acreditava ter Chocano  o mapa de um tesouro.

15. NERUDA, Pablo. Confesso que vivi. São Paulo: Difel, 1979, p.285.

16. FERRARI, Américo. Op. cit., p.39.

17. VALLEJO, César. Antologia poética. Tradução, seleção, prólogo e notas de José Bento. Lisboa: Relógio D’Água, 1992, p.19/20.

18. ALEGRÍA, Ciro. El César Vallejo que yo conocí. Cuadernos Hispanoamericanos. México, ano III, vol. XVIII, n. 6, nov/dez 1944.

19. VALLEJO, César. Op. cit., p 18.

20. Todos mis huesos son ajenos/ yo talvez los robé!/ Yo vine a darme lo que acaso estuvo/ asignado para otro;/ y pienso que, si no hubiera nacido,/ otro pobre tomara este café!/ Yo soy un mal ladrón… A dónde iré!/ Y en esta hora fría, en que la tierra/ trasciende a polvo humano y es tan triste,/ quisiera yo tocar todas las puertas,/ y suplicar a no sé quién, perdón,/ y hacerle pedacitos de pan fresco/ aquí, en el horno de mi corazón…! (Tradução e nota do autor)

21. ¡Amado sea aquel que tiene chinches,/   el que lleva zapato roto bajo la lluvia,/el que vela el cadáver de un pan con dos cerillas,/el que se coge un dedo en una puerta,/ el que no tiene cumpleaños,/ el que perdió su sombra en un incendio,/el animal, el que parece un loro, el que parece un hombre, el pobre rico,/ el puro miserable, el pobre pobre! (Tradução e nota do autor)

22. De todo esto yo soy el único que parte./ De este banco me voy, de mis calzones, de mi gran situación, de mis acciones,/ de mi número hendido parte a parte,/ de todo esto yo soy el único que parte./De los Campos Elíseos al dar vuelta/ la extraña callejuela de la luna,/ mi defunción se va, parte de mi cuna,/ y, rodeada de gente, sola, suelta,/ mi semejanza humana dase vuelta/ y despacha sus sombras una a una./ Y me alejo de todo, porque todo/ se queda para hacer la coartada:/ mi zapato, su ojal, también su lodo/ y hasta el doblez del codo/ de mi propia camisa abotonada.(Tradução e nota do autor)

23. Me moriré en París con aguacero,/ un día del cual tengo ya el recuerdo./ Me moriré en París —y no me corro— / tal vez un jueves, como es hoy, de otoño.(Tradução e nota  do autor)

24. NERUDA, Pablo. Para nascer nasci. São Paulo: Difel, 1979, p.66.

25. Este texto foi escrito quando Cesar Vallejo morreu e posteriormente publicado, em Santiago do Chile, pela revista Aurora, em 1° de agosto de 1938.

NOVELA DE ROTH por hamilton alves / ilha de santa catarina

Não consigo entrar numa livraria sem adquirir um livro. Livros bons é o que não faltam. Além de bons autores, provando-nos, contra toda as previsões, que a novela continua firme em sua trajetória e, de um modo geral, todos os demais gêneros literários – até mesmo, por que não dizer, o mais complexo de todos, a poesia. Apesar de uma porção de gente se erigir ou querer passar por poeta. A grande poesia é um círculo fechado a candidatos de porte pequeno ou médio.

Uma (novela) que logo me impressionou pela primeira frase (tenho o hábito de dizer que uma história se revela pela primeira frase ou pela primeira página) é de autoria de Philip Roth, o escritor americano laureado com tantos prêmios, que está há anos à espera de levar o Nobel.

Nem embrulhei o livro para não dar trabalho à vendedora ou para economizar tempo. Estava com certa pressa; trouxe-o debaixo do braço.

Quando iniciei a leitura foi que descobri que Roth volta a seus velhos vícios de frases mal formuladas (ou mal traduzidas, embora o tradutor tenha bom conceito como tal), uma adjetivação excessiva, com três ou quatro palavras dizendo a mesma coisa, além de um momento em que me pareceu que, para mim, tinha sido a linha de chegada, além da qual não havia condições de poder avançar mais. Até onde cheguei, com todos os pequenos percalços de leitura, o texto ou o desenrolar da história estavam sendo bem conduzidos, com um personagem interessante, um ator de teatro, que chegou a um ponto que perdera o pique, não se sentia mais dono de sua arte, sentia-se falso no palco, o personagem não era muito bem definido por ele – e por tudo isso vivia um drama. Na clínica, encontra-se com uma mulher, cujo marido foi surpreendido por ela, certo dia, com a cabeça metida entre as pernas da filha de oito anos. Na entrevista com o médico, este lhe perguntou:

– Por que?

– Para fazer essa coisa que todo o homem faz.

Um horror, enfim.

Daí por diante me pareceu que seguiria, certamente, um rol de coisas desse padrão, que agridem certo grau de respeito com que deve ser tratado o leitor.

Roth teve sempre essa tendência sexopata. Num de seus primeiros romances, “Complexo de Portnoy”, o que se vê é uma enxurrada de aberrações sexuais (se é que estou bem lembrado da história).

Obviamente, que um tal comportamento não constitui a regra do humano. Até porque, no caso, configura-se uma manifestação clara de psicopatia.

Não era a esposa que deveria estar numa clínica psiquiátrica, mas o marido.

Na visão de Roth, pelo que suponho, essa conduta sexual do pai de uma menor traduz o modelo humano. Como se todos o seguissem. A realidade é bem o contrário, felizmente. Nem todos os pais são psicopatas.

A novela traz o titulo de “Humilhação”.

Humilhado senti-me eu de ter investido uma boa grana nessa porcaria.

ODE à CARICATURA – de valério mendes / rio de janeiro (1902)

I

A chlamyde sombria desvestindo
Com que o bom senso e a sisudez casmurra
Quotidianamente sacrifico,
Banzeiro e somnolento,
Lepido cinjo o saio auri purpureo
E a leve camiseta de bretanha,
E de rosas e lyrios coroada
A cabeça, que os annos salpimentam,
Venho carmes e lôas offertar-te,
Caricatura augusta!

II

Nobre filha do Traço e da Risada,
Sobrinha do Sarcasmo e da Ironia,
Prima da Troça e neta do Assobio,
Éso allivio supremo dos que soffrem,
Dos perseguidos e desamparados,
Dos que têm fome e sêde de justiça.
Salve, Consoladora!
Ave maravilhosa, hybrida, estranha,
De garras de ouro e bico de diamante,
Receiam-te os ataques os perversos
E os tyrannos de ti pávidos fogem…
Ave, Caricatura!

III

O que as palavras exprimir não podem,
O que ás pennas e as linguas a lei veda,
Pode o lapis dizel o impunemente,
No papel branco saracoteando…
Reputações que o Tempo, cauteloso,
Morosamente solidificara
Num momento desfazes com dous traços!
Pões verrugas sacrilegas nos santos,
Zarolhos fazes os imperadores.
Nos ministros penduras rabo-levas,
E até do proprio Deus brincas com as barbas!
Ave, Caricatura!

IV

Mãe das artes, origem do desenho,
Foste irmã da canção nas eras priscas,
No symbolismo egypcio é encontrada,
O fetichismo desmoralisando,
Veneram-te gregos e romanos,
Cicero amou-te, o
scurra consularis
E foste de Aristophanes amiga,
O Olympo debochaste, irreverente,
Nos graves deuses dando piparotes,
Em pedra, em bronze, em ouro trabalhaste,
O vingador ridiculo atirando
Por toda parte onde a tolice humana
O gordo papo alcançava.
P’ra gloria tua trabalharam genios
Erasmo e Rabelais, Vinci e Carracio
– O proprio Manoel Angelo serviu-te –
Papyros, telas, marmores lavrando,
Rindo os vicios castigas, e os costumes
Corriges a brincar. Teu nobre peito
Do Juvenal hospeda a alma serena,
És refrigerio e abrigo á desventura,
Odios desarmas, vingas injustiças,
Irreverente, intrepida, indomavel,
Bombas de risoatiras ás targedias,
Da tyrannia, a liberdade humana
Defendendo e salvando……
Eis-me a teus pés, bradando alegremente:
Ave, Caricatura!

Rio, Setembro, 1902


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poema publicado no jornal (panfleto) O MALHO no Rio de Janeiro em 1902.


MARADONA PELADO?…OBRIGADO ALEMANHA !!!

UM clique no centro do vídeo:

A MULHER NUA – por sérgio sant’anna / são paulo

É no aposento também nu, absolutamente nu, postada próxima ao ângulo formado por duas paredes pintadas de verde, uma recebendo mais claridade do que a outra, e pisando o chão liso, neutro, de um bege esverdeado, que a mulher nua, ao fundo – um falso fundo, porque não distante de nós — se oferece ao nosso olhar. o fato de a mulher estar calçada com sapatos cor-de-rosa, de salto alto, e segurar pela alça, com a mão direita, uma bolsa da mesma cor não a deixa menos nua, pelo contrário. Mas tornaremos a isso mais tarde.


Antes, é preciso apontar que, para a completa nudez da mulher nua, é indispensável que não haja mobiliário ou objetos que dispersem a nossa atenção pelo aposento. Mas dizer que ela se encontra em um aposento, já não terá sido cair num ardil?Pois o espaço que a circunscreve se reduz aos elementos mais primários, primordiais; a três planos pintados — não há nem mesmo um plano para o teto — que se limitam reciprocamente, criando um espaço,uma perspectiva,um cenário impecavelmente despido,para que a mulher nua se exponha ao nosso olhar, capture-o — na verdade, somos trazidos para dentro da peça — sob uma luz feita de tintas que não se ostentam; luz que é toda para a mulher nua e que emana também dela própria, de seu corpo branco, regado, pigmentado, com o rubor da vida que estará circulando em seu interior e irrompe nos bicos dos seios, os quais, juntamente com o que se abriga sob os pêlos castanho-negros entre as pernas, são como que as verdadeiras e puras fontes dessa mulher.

Um atributo notável da mulher nua é que, apesar de sua prisão solitária na tela, ela nunca se encontra sozinha, eis que sempre nos olha, nos encara fixamente quando a olhamos. Jamais poderemos ser voyeurs secretos,ela sempre nos observará, nos penetrará agudamente, revelando-nos como funciona o nosso desejo e, portanto, quem somos, e isso valerá tanto para homens quanto para mulheres. Sua presença é muito diversa daquela de nus pintados por pintores oniscientes da solidão, como Edward Hopper, em seus, por exemplo, Eleven A. M. (1926) e Moming in a City (1944),em que mulheres nuas, sozinhas em seus quartos, completamente distraídas de seus corpos, vistos de perfil e já marcados pelo tempo, contemplam pedaços de cidades lá fora, nesgas de edifícios,tão desolados quanto elas, as mulheres nos quadros. E se falamos em onisciência é porque o pintor, em princípio, não poderia estar no espaço delas, nem vê-las. Então é bem como no cinema, quando se oculta a técnica que nos propicia estar ali, no convívio dos personagens. O cinema, que não escapou a Hopper em NewYork Movie (1939):de um lado, a sala de projeção, com seus escassos espectadores que se perdem no que se passa na tela; do lado de fora, no estreito saguão, a moça de uniforme, a lanterninha, com a mão no rosto, profundamente absorvida em seus pensamentos — ah, a eterna prisão dos pensamentos —, e quase não resistimos a ler na expressão da moça, sendo ela tão jovem, a tristeza de algum amor desfeito, ou distante: uma saudade.

Falecido em 1967, Hopper se torna cada vez mais popular, em reproduções nas paredes de lojas, consultórios, capas de livro, lanchonetes e lares, expressando os sentimentos de solidão que todos identificam: perfeitos e poéticos lugares-comuns.

Já esta mulher nua é, para mim, e suponho que para outros — e por motivos que irão se revelando —, única. Não tem nada a ver, também, com os nus de ateliê e com os pintores que revelam, de algum modo, numa obra, sua relação ou atração pela modelo, como Goya e sua La Maja desnuda (1800/3) ,sem negar o que ela tem de enigmático no olhar que concede ao pintor pintando-a, o qual, conclui-se, a deseja e é desejado, ainda que a modelo possa retirar seu maior prazer e excitação desse olhar de homem que a acaricia e eterniza jovem, bela e nua. E, pelo menos a mim, me parece que Goya fixou o olhar da modelo (esqueçamo-nos de fofocas da corte, que a deram como a duquesa de Alba, disfarçada) quando ela mirava a si própria, no quadro já esboçado. E não terá se alimentado uma relação amorosa, ou simplesmente carnal, tanto para ele como para ela, primordialmente dessa representação? De todo modo, o olhar da Maja, como Goya o pintou, também atravessa o pintor para dirigir-se a todos os que a contemplariam pelos séculos afora, mas ficará para sempre flagrante a pose de ateliê, a conjunção pintor-modelo, o primeiro absolutamente explícito na pose da segunda,o que torna La Maja desnuda, em corpo e espírito, tão distante de nossa mulherzinha nua.

Antes de voltarmos a ela, não custa apontar que um nu tão radical, tão feroz em sua conversão extremada da mulher a signos de pura sexualidade e pura pintura,como Nude in an Armchair (1929),de Pablo Picasso,essa obra-prima e triunfo implacável do moderno, foi também pintura de ateliê (e se não foi, foi feita como se fosse), ambientada, é claro, num estúdio falsificado, com acréscimos e citações, de Matisse a Malevitch, intrometidos na cena pela imaginação requintada e rigorosa, pelo espírito lúdico, pela lucidez e pelo gênio de Picasso. Mas é difícil crer que uma mulher de carne e osso não se sentou ali na poltrona vermelha para que o pintor a devassasse inteiramente, a desconstruísse e reconstruísse, a fodesse de todos os modos, numa explosão de porra também pictórica.

Voltando à nossa mulherzinha — tão valorosa, entre outras coisas, porque a sujeitamos a comparações duríssimas -, uma de suas maiores diferenças não estaria no fato de ter sido pintada por uma mulher? Em parte sim, mas não apenas por isso, pois nada impede que haja pintoras que estabeleçam, com maior ou menor envolvimento e afeição, uma relação íntima com suas modelos, que podem ser até elas próprias, como nos film-stills da norte-americana Cindy Sherman, criando personagens para si — e que não deixam de ser ela mesma — em flagrantes de atuações dramáticas, que até precisam que outro, sem se tornar o artista, empunhe a câmera sob a direção de Cindy, artista exemplar da nossa contemporaneidade, da passagem do século vinte para o século vinte e um.

Para Cindy, tornam-se essencialíssimos, embora sem ostentação, os figurinos, enquanto o figurino de nossa mulher nua, apesar dos adereços cor-de-rosa, é sua própria nudez, pois se trata de uma nudez criada, realçada, e algo certamente fundamental é que foi pintada sem a utilização de nenhuma modelo, o que não terá impedido que a artista passasse a amar sua criatura. Mas se trata, esta criatura, da materialização de uma subjetividade ultrafigurativa, e logo trataremos disso, que é uma diferença muito importante.

Antes, quero voltar ao aparente paradoxo de a mulher estar sempre sozinha e sempre conosco. Talvez se possa ir mais longe para dizer que essa mulher, mesmo que o quadro seja relegado aos porões, estará sempre à nossa espreita, desde que foi aprisionada, em 1999, em seu pequeno mas elástico espaço de 43 X 31 cm. E tão logo abrirmos a página do livro, ou do catálogo da exposição em que estiver reproduzida, ou, ainda, passarmos entre os quadros dessa exposição, não apenas seremos fatalmente atraídos para ela, como teremos a sensação de que ela já nos olhava, até mesmo pelas costas, desafiando-nos a decifrá-la e, por que não?, desejá-la, mas de um modo especial, singular, inclusive porque existe algo de artisticamente traiçoeiro, suspeito, nessa pintura tão inesperada, nessa mulher que nos enreda em sua nudez. E há um naturalismo deliberado nessa obra, que a arremessa ao limite do artístico, ela não pertence a nenhuma escola ou contemporaneidade codificada, eis um de seus inegáveis atrativos.

Ah, uma reles sedutora, poderão dizer, tanto da artista como da personagem, com seus truques até baratos e vulgares, como esse de usar sapatos e bolsa cor-de-rosa — uma cor fútil —, os quais, pela razão e poder dos fetiches, nos permitem um acesso maior à sua nudez, têm uma relação indiscutível e inexplicavelmente íntima com os biquinhos de seus seios e sua xoxota escondida sob os pêlos, como se fosse uma profissional num cenário e sob uma iluminação espertos, dotando aquele corpo de uma auréola suculenta de pecado, fazendo com que ele pareça até tangível, ali naquele falso fundo de um falso aposento.

Mas o que dizer da postura estática e algo tensa da mulher nua, ao mesmo tempo defensiva e provocadora? De seus olhos arregalados, vítreos, fixos, simultaneamente amedrontados e desafiadores? De tudo o que revelam de timidez e arrojo simultâneos, uma coisa tendo a ver com a outra? E pode-se perguntar se uma mulher não se torna tímida, entre outras coisas, para conter o que, do contrário, poderia levá-la a ultrapassar os limites mais loucos e inconcebíveis, fronteiras sobre as quais a pintora talvez haja passeado o tempo todo, à medida que ia se definindo o quadro, e que estão refletidas nele. Esse quadro a respeito do qual “o outro” — no caso agora eu — poderá dizer o que quiser.

E aqui é chegada a hora de ir ao ponto principal: com seu corpo rechonchudinho, apesar de firme — inegavelmente gostosa —, a mulher nua em nada se assemelha a uma atriz ou modelo, ou a qualquer outro tipo de profissional que posasse nua, conhecedora de todos os truques do métier. Ao contrário, e por isso a chamamos de mulherzinha, sem nenhum menosprezo, é a mulher comum – por exemplo, uma dona-de-casa – que de repente se revestisse, ainda que se despindo, de suas e nossas fantasias e caprichos, como a da puta que fosse pura, amadora, Belle de jour, como Catherine Deneuve angelical no filme de Buñuel, e isso talvez explique por que nos sentimos tão fascinados por ela, a desejamos tanto, e tento eu cingi-Ia com palavras que me façam possuí-la para sempre, aqui, neste estágio do desejo antes de sua satisfação, o que mantém esse desejo permanentemente aceso.

Poderá ela também despertar o desejo adormecido, talvez mesmo desconhecido, de outras mulheres; em algumas para, verdadeiramente, quererem tê-la nos braços; noutras, o desejo que já terão sentido algum dia, com o coração batendo, de se mostrarem assim, tão nuas, aos olhares de todos, nem que para isso tivessem de idealizar um outro corpo para si, mas que é parente do seu e semelhante a ele.

Mas se foi a pintora, é certo, que projetou, conscientemente ou não, uma imagem e idéia de seu corpo na tela, não fez como a grande e autoconsciente artista plástica que se maquiasse, sofisticada, para o grande salão. Com um requinte bruto, ela se pintou com a fantasia da mulher comum, a mulherzinha, repetimos, que também é — e penso nela, com um vestido caseiro, fritando um ovo —, que cedesse à sua audácia mais escondida. E eis que esse quadro nos dá uma sensação tão grande de intimidade, de penetração nos segredos femininos, nos segredos da artista, que nos exibe seus devaneios sensuais. Porém, não há a promiscuidade da mais leve pornografia (ou será que há, talvez sutil?), nem a falsa naturalidade do deitar-se, ou do banho, ou das carícias no próprio corpo, da languidez feminina tão cara a certos pintores homens de outra época.

Antes de tudo, a artista, a mulher nua, sem nenhuma modelo, pintou e pintou-se para si própria. Mas nessa sua intimidade que nos inclui, pelo olhar que trocamos, a mulher nua parece estar a nos dizer que nos deixaria tocar e gozar de seu corpo, de suas puras fontes femininas, se nos fosse possível dar dois ou três passos no aposento em que estamos junto com ela. No entanto, só o poderemos fazer com a visão, mas há, aqui, na carnalidade desse quadro, uma visão tátil, ouso dizer, que nos torna, de algum modo, possuidores do corpo da mulher nua, embora todo movimento fosse fatal para a sua estática e elegante sensualidade.

Altiva, solitária, misteriosa, ela então se dá a cada um de nós desse modo, e poderemos ter esse sentimento tão raro diante de uma mulher pintada, que é o de não só desejá-la, como também amá-la perdidamente.

(A mulher nua é a figurante de um quadro sem título de Cristina Salgado, pintado em 1999.)


O mundo só é verdadeiramente vivido quando pode ser narrado. Este bem podia ser o mote da obra de Sérgio Sant’Anna, escritor que, desde a sua estréia com “O sobrevivente”, em 1969 (que lhe valeu a participação no International Writing Program, da Universidade de Iowa, EUA), vem quebrando regras, ampliando contornos, questionando agudamente os limites do conto, em busca de uma nova experiência do narrar.

Sérgio Sant’Anna é carioca, nascido em 1941. Além de “O sobrevivente” (1969), publicou “Notas de Manfredo Rangel, repórter (A respeito de Kramer)” (1973), “Simulacros” (1977), “O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro” (1982), “Amazona” (1986), “Senhorita Simpson” (1989), “Breve história do espírito” (1991), “O monstro” (1994) e “Contos e novelas reunidos” (1997). Ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti e também, por duas vezes, foi agraciado com o prêmio Status de Literatura.

O livro “Senhorita Simpson” foi adaptado para o cinema e se transformou em “Bossa Nova”, filme de sucesso de Bruno Barreto.


O texto acima foi extraído do livro “O Vôo da madrugada” (Prêmio Jabuti 2004), Ed. Cia. das Letras – 2003 – São Paulo (SP), pág. 211.

CLAUDIO KAMBÉ e sua arte / praia da pinheira.sc

A TRILOGIA DE VELA AO CRUCIFICADO – por joão batista do lago / são luis

A Solidão, no contexto de Vela ao Crucificado, é, ao mesmo tempo, origem, mistério e enigma. E é exatamente essa trilogia que faz da obra de Ubiratan Teixeira, das mais expressivas no Maranhão, um compêndio que resume, em-si, significantes e significados que se podem retraduzir nos mais variados campos da arte. No caso presente essa retradução ocorre no cinema e no teatro.

Aos meus olhos, a solidão é a principal preocupação que contextualizou o curta-metragem Vela ao Crucificado, de autoria do cineasta Frederico Machado. Coincidentemente, muito embora haja sido escrito antes, o (também) roteiro para teatro, de autoria do escritor e teatrólogo Wilson Martins, traz em-si, consigo, a mesma contextualização: a solidão do Ser, do Ente, do Sujeito. Não a solidão do Homem (homem/mulher) como pessoas existênciais, mas a solidão que é e faz sentido na mundanidade do mundo do homem.

Contudo, a versão roteirística produzida por Wilson Martins foi mais ousada que a realizada por Frederico Machado. Diferentemente deste – que não ousou incluir, isto é, criar novos personagens para o contexto filmográfico – o autor do roteiro para teatro foi incisivo nesse ponto, ou seja, ampliou a formação e a geração de novos personagens sem ferir a originalidade do texto de Ubiratan Teixeira.

Porém, se os roteiristas tomaram esse caminho é porque encontraram na origem, isto é, no conto homônimo, de autoria do escritor e teatrólogo Ubiratan Teixeira, todos os fragmentos necessários e essenciais para a construção e reconstrução dum realabstraído da realidade existencial na obra original. Aos meus olhos, o processo de ontogonia (esse mesmo realismo existencial encontramos em Labirintos – do mesmo autor), isto é, a história da formação e geração dos seres organizados e introjetados na literatura ubirataniana, não se dá, pura e tão-somente, no campo do realismo-mais-que-real. Em realidade ela se transcende e se perpassa no tempo e no espaço formando, assim, o seu campo trioico.

Penso, pois, que o cineasta Frederico Machado (e a mesmíssima “coisa” raciocino sobre o roteiro para teatro produzido por Wilson Martins) soube captar essa ontogonia ao recriar, para o cinema, Vela ao Crucificado. A história da formação e da geração das personagens do filme provam, de maneira insofismável, contundente e contumaz, essa realidade existencial como uma mundanidade do mundo, onde o Ser é um Sujeito solitário do Ente.

Insofismável porque o que vemos na tela é o realismo-real-existencial que não se pode por em dúvida. Contundente porque orealismo-real-existencial contextualizado na peça filmográfica não pode ser contestado ou refutado. Contumaz porque esserealismo-real-existencial insiste e persiste em se construir como sujeito antagônico de si-mesmo.

A abstração feita por Frederico Machado, aos meus olhos, para produzir o roteiro, parte de “um campo” heideggeriano, qual seja, o ser no mundo que é, sempre, o existencial num movimento de lançar-se na mundanidade do mundo. E é exatamente neste ponto que se percebe a preocupação do curta-metragem em mostrar, como um campo presencial, “a presencialidade da solidão” introjetada em todo o contexto da obra de Ubiratan Teixeira.

Desde a primeira cena – o pai com o filho morto nos braços, antes de cavar a cova para enterrá-lo – até a cena final – a mãe esmurrando a barriga para (possivelmente) interromper um novo lançar-se no mundo –, o que os olhos dos expectadores captam é uma tipologia de estética da solidão.

E essa estética da solidão produz uma tipologia de ente que se projeta na mundanidade de um mundo, sempre meu, destituído de espacialidade e de temporalidade, posto que, agora, todos já fazemos parte da mundanidade do mundo projetada na tela, ou seja, lançada no mundo como se fora Ser, Ente ou Sujeito.

Vela ao Crucificado é, sem sombra de dúvida, um belíssimo conto escrito na década de 60 por Ubiratan Teixeira. Um conto com uma linguagem direta e objetiva. Um conto que cria e gera seres (des)organizados no interior de uma sociedade complexa – como a brasileira, por exemplo – onde a solidão começa a ser descortinada como “emblema” inconfesso daquilo que a partir dos anos 70 (?) passaríamos a entender como pósmodernidade. Ora, isso – per se – faz da obra de Ubiratan Teixeira uma literatura premonitória.

Por sua vez, as versões criadas – seja para o teatro, seja para o cinema – provam que o conto do autor da novela Labirintos continua a fazer e dar sentido no interior de sociedades complexas.