A MULHER QUE VIROU ROSA por joão batista do lago / são luis

Nem sempre a vida fora assim! Nem sempre, para ela. Todas as manhãs de março, sob chuva ou sol escaldante, lá estava ela plantando flores e rosas nos canteiros das avenidas, entre os carros velozes que conduziam as gentes da cidade para seus trabalhos ou para suas casas, ou, até quem sabe (!), para os motéis onde se traia mutuamente a burguesa sociedade dos casais são-luisenses. Mas, foi exatamente numa dessas manhãs de março que ela resolvera plantar-se na principal rotatória que dá acesso às principais praias de São Luis, situada ao final da Avenida Castelo Branco, no bairro do São Francisco. Foi, então, nesse dia, e apenas nesse dia, que ela passara a ser notada por todos os transeuntes e passageiros e motoristas dos carros de luxo que por ali passavam diariamente, sem notá-la, sequer, por um instante. De repente, aquela mulher queimada pelo sol ardente começara a despir-se literalmente e vagarosamente… Era como se ela estivesse no banheiro de sua casa. Lentamente ela foi tirando peça por peça que encobria seu corpo de pele dourada… Uma a uma. Pausadamente. Era como se estivesse dançando um balé no palco do Arthur Azevedo. Depois de totalmente nua ela tomou a pá e começou a cavar… a cavar… a cavar… a cavar e a cavar silenciosamente sem perceber que a essas alturas a avenida já se houvera transformada num caos pois todos os carros começaram a parar para assistir aquele espetáculo; todos os transeuntes ocupavam os principais lugares das ruas e avenidas. O burburinho era intenso. Diziam uns: “De onde surgiu essa louca?!”. Outros resmungavam: “O que passa pela cabeça dela para fazer tamanho desatino!”. Mais à frente dois homens falavam do seu corpo escultural: “Que desperdício, tão bonita e tão sensual”. O outro: “Se a tivesse visto antes… teria convidado para um passeio noturno pela praias de São Luis.” Mais à frente uma senhora de meia idade salientava: “Isso é pura falta de vergonha. Safadeza. Essa gente perdeu o caminho de Deus e por isso anda a cometer esse tipo de vadiação”. Do outro lado da rotatória uma moça por volta dos seus 21 anos, franzina como saracura-do-brejo, grunhia frases incompreensíveis aos outros vizinhos: “Que corpo! Quem me dera ter esse corpo. Não mais estaria aqui, com certeza. Estaria fazendo sucessos lá pelas ‘oropas’ sendo uma modelo e ganhando muito dinheiro”. Enquanto isso lá estava ela cavando… e cavando… e cavando… e cavando… e cavando. Não olhava para ninguém. Estava magnificamente só e solitariamente só. Cada pá de terra que tirava era como se estivesse fazendo uma oração; ia colocando uma a uma à volta do buraco que fazia. Essa sua atitude intrigava a todos que a viam naquela situação e todos se perguntavam silenciosamente o que ela pretendia significar com tudo aquilo, porém, ninguém arriscava um palpite; todos, já ali plantados, não conseguiam arredar os pés, pois, não mais era só o corpo da mulher, mas as suas atitudes que intrigavam. As avenidas e ruas viraram um pandemônio. Jornalistas de todos os jornais queriam chegar o mais próximo possível para fotografar e, possivelmente, entrevistar aquela mulher. E só não chegaram muito perto mesmo porque, ao tentarem, receberam como resposta o olhar ferino daquela mulher. Nenhum jornalista atreveu-se a desafiar seu olhar ferino. Aliás, único momento em que ela levantara os olhos para olhar a multidão que a rodeava. A essas alturas, meio corpo já se encontrava dentro do buraco. A essas alturas via-se, tão-somente, a parte superior do seu corpo… o busto ostentando seios de Vênus – a deusa do amor e da beleza, na antiga Roma – e seu rosto de faces arredondadas como a lua cheia e lábios carnudos e olhos verdes como esmeraldas e seus lindos e ondulados cabelos que esvoaçavam quando qualquer nesga de vento bandeava para seu lado espalhando e (já) misturando seus cabelos cor de juçara à terra. A polícia, que fora intimada a dar cabo àquela sinagoga, também não conseguia aproximar-se dela, nem por terra, nem pelo ar. E lá estava ela. Mas, como se fora uma pantera – e era! – ela saltara para fora do buraco. Todos que ali estavam ficaram atônitos. Todos, ao mesmo tempo, pensaram interrogativamente: “O que ela irá fazer agora?!”. E ela, vagarosamente e carinhosamente começara a espalhar a terra pelo corpo, esfregando-a convulsivamente, como se estivera passando sabonete ao corpo. Em seguida e depois de já se ter enterrada completamente, pulou para dentro do buraco… E, lentamente, carinhosamente, calculadamente, fora arrastando para dentro do buraco toda a terra que dele tirara. Metade do seu corpo já se encontrara coberto quando ela parou… Aí sim, pediu para os jornalistas se aproximarem e solicitou que lhes cobrissem com terra o resto do corpo. Houve dúvidas em todos. Ao perceber o inconveniente ela falara-lhos: “Por que vocês têm medo de plantar uma rosa?”.

2 Respostas

  1. Caramba João,

    Que beleza de conto/história/crônica/novela de um só ato. É uma ácida e bela crítica ao nosso “modus vivendi” desatinado, egoísta. Tudo está aí colocado.

    Bela urdidura, meu amigo. Estou com a Marilda, São Luis tem lhe feito um bem danado. Espero que também esteja garantindo ao poeta e escritor recursos para continuar a nos presentear com estas histórias fantásticas nascidas nos canteiros das rotatórias do seu olhar.

    Saudades, companheiro.
    Grande Abraço.
    TM

  2. Que história linda, João! Só São Luis para te inspirar uma coisa assim! Aqui em Curitiba você escrevia histórias de terror…rs. Daria um ótimo curta-metragem.
    Beijo e saudade
    (talvez em outubro eu te visite)

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