PROBLEMA CONJUGAL por hamilton alves / ilha de santa catarina

Maria e José se encontraram um dia em circunstâncias que nunca souberam se explicar. Pouco tempo depois se casavam.

Ele era jornalista, ela professora.

Tudo ia  bem no início com o casal. Até que um dia…

Na vida de um casal, seja qual for, há sempre um dia.

Esse dia não demorou muito.

José era homem prático, sem protocolos nem formalismos. Ao contrário de Maria, que era amante dos detalhes (aliás, como a grande maioria das mulheres).

Num certo dia, José entrou porta adentro informando a Maria que no dia seguinte, à noite, compareceriam a um jantar na casa do editor do jornal em que trabalhava. Se topava o convite.

Maria gostava de umas festinhas desse tipo para encontrar as amigas, algumas delas colegas de trabalho do marido.

No dia seguinte, antes de sair para a redação, José lembrou à esposa que tinham o compromisso do jantar. Deixou-lhe dinheiro para que comprasse um bom presente para o casal anfitrião.

José retornou cedo, fora de seus hábitos, à casa.

Sabendo que Maria levava tempo para se arrumar, enfiou-se primeiro no banheiro, dando todo o tempo para ela.

Quando foi a vez de Maria, demorou-se no banho. Quando deu com José na sala, estava de terno, gravata, lendo o jornal daquele dia, pronto para sair. Só à espera que Maria se arrumasse.

– Só agora que você saiu do banho? – perguntou, vendo-a embrulhada na toalha. – Vamos nos atrasar.

– Me arrumo rápido. Um instante só.

José já tinha lido todo o jornal. Até a seção de palavras cruzadas tinha resolvido quase toda.

– Mariaaaaaaaa! São quase nove horas!

– Não se apresse, meu bem. Há tempo para tudo na vida.

– Não podemos dar o vexame de chegarmos atrasados. É uma indelicadeza. Além do mais…

– …você é muito nervoso, espere um pouco… o mundo não vai se acabar por um pequeno atraso.

– Já pensou no congestionamento, na distância que tem de nossa casa até à do Demerval (nome do editor chefe)?

– Levou mais uma meia hora para dar-se por pronta.

Quando deu com José, estava de pijama, chinelo, lendo o mesmo jornal, tendo concluido as palavras cruzadas.

– Estás pronto? – perguntou-lhe.

– Estou, vamos pra cama!

Maria saiu porta afora, não sem antes arrancar a aliança do dedo e jogar na cara do marido. Pegou um taxi e foi dormir aquela noite na casa dos pais.

José, sem saída, foi resolver  palavras cruzadas.

5 Respostas

  1. Marilda, seu comentário é inteligentíssimo. Nem precisa lhe dizer mais nada.
    Abraço. Hamilton

  2. Uma historia bem humorada e inteligente. Muito bom ler suas crônicas, Hamilton. A verdade é que os homens se apaixonam pelos “pequenos detalhes” das mulheres. Mas, depois que casam, aqueles mesmos detalhes começam a irritar seus maridos. Aí, só tem duas alternativas:
    1. Ou elas despem-se dos detalhes e viram “práticas, sem protocolos nem formalismos” e são trocadas por outra mulher cheia de “pequenos detalhes”
    2. Ou elas arrancam a aliança, vão embora e deixam o marido de pijama resolvendo palavras cruzadas… rssss.
    Abraços

  3. Tom,
    você sempre generoso com as minhas crônicas. Compsrará-las com as do Braga impossível. Braga foi o papa do gênero. Quem me dera poder me igualar a ele. Grande abraço. Hamilton

  4. Prezado Hamilton,

    Como sempre, suas crônicas são dignas de notas 10 e muitas notas de rodapés nos efabulativos de muitos ctedráticos que irão lhe estudar no futuro. Rubem Braga se estivesse por aqui não somente a aprovaria como seria capaz de dizer que a crônica não é sua e sim dele. Pior faria Nelson Rodrigues, que talvez movesse processo contra você apenas por estar esquecido se era mesmo sua ou dele. Maravilha, gostei muito. Como sempre.

    Antes que esqueça e você não veja, postei um comentário no belíssimo artigo do Manoel de Andrade, que está ali nos Comentários. No texto postado coloquei um poema escrito hoje o qual dedico a ele e a você. Dê uma olhada, acho que vai gostar.

    Grande Abraço,
    TM

    1. Salve grande Tonicato.
      Tenho acompanhado sua literatura neste blogue.
      Lembras do poeta Cabanas, do Encontrovérsia?
      Atualmente vivo, trabalho e escrevo (www.fcabanas.blogspot.com) em Minas Gerais, BH.
      Casei com uma mineira, trouxe a franquia Master Mind Treinamentos de Alta Performance (www.mastermindbr.com), de SP, e continuo escrevendo meus poemas. Estou também escrevendo uma biografia de um empreendedor aqui de Belo Horizonte.
      Saudades dos nosso tempo compartilhado.
      Breve vou passear na velha e amada Curitiba. Vamos manter contato. Abs.

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