GIL CLEBER, sua crítica ao “OS DEMÔNIOS” de DOSTOIEVSKI

A recente releitura de Os Demônios, de Dostoievski, foi menos uma releitura do que uma redescoberta do romance.

Apesar da existência de uma versão para o cinema, penso que este seja o menos conhecido de seus quatro romances principais: Crime e Castigo, O Idiota, Os Demônios e Os Irmãos Karamazov.[1]

A redescoberta do romance se deve não só ao fato de já terem transcorridos vários anos desde a primeira leitura, mas também à natural dificuldade que a maioria dos leitores encontram ao se defrontarem com a obra do grande escritor russo, não sendo tarefa simples acompanhá-lo em suas viagens ao “submundo” da consciência humana — mesmo para quem já havia lido Crime e Castigo, O Idiota, Humilhados e Ofendidos, a novela O Jogador, Os Irmãos Karamazov (nessa ordem), além de diversos contos e outras narrativas, pois Os Demônios é, dentre todos esses, o de ação mais lenta, aparentemente aquele no qual o autor parece “demorar mais para entrar de fato na história” — juízo não apenas apressado mas de todo incorreto, pois é certo que o autor “entra na história” de imediato.

De que trata o livro? Quem são, afinal, os “demônios” de que fala o título?

Responderei a esta última pergunta no fim, ou melhor, estarei comentando a questão durante todo o texto que se segue, deixando para o fim que um dos personagens maiores do romance a responda.

Os Demônios (que chegou a ser traduzido, segundo Roberto Alvim Corrêa, em diversos países com o título “Os Possessos”, tradução inadequada resultante talvez do fato de a própria língua ter como sinônimos palavras como “criminoso” e “infeliz”, e por associação ao pensamento de Dostoievski, que considerava o criminoso uma vítima do diabo), romance publicado em 1871, conta a história de um pequeno grupo de revoltosos socialistas (conhecidos como “os nossos”) numa certa província da Rússia (província não referida, restando a impressão de que se trata de uma região interiorana), os quais têm em mente levar adiante o movimento até que ele alcance todo o vasto território russo — aliás, os membros desse pequeno grupo crêem na existência de ramificações do seu movimento por toda parte — e com isso ponha por terra o estado constituído a fim de substituí-lo por uma sociedade justa e ideal.

Está visto que o sonho acalentado pelos “nossos”, utópico e, por que não dizer, singelo, veio com efeito a realizar-se com a revolução de 1918 e as desastrosas conseqüências que a História relata.

Os integrantes desse grupo destacam-se por seu niilismo generalizado (tanto a religião quanto as demais instituições — como a família, p. ex. — são, a seu ver, decadentes e já não faz mais sentido mantê-las), e isso fica patente até mesmo na discussão entre dois personagens insignificantes do livro no sétimo capítulo da segunda parte, “A reunião dos ‘nossos’”, uma estudante atéia e seu tio — a quem não vê havia muito tempo e não obstante despreza —, discussão na qual a estudante nega com veemência a existência de Deus: após baterem boca algum tempo o tio, por fim, protesta “andei com ela ao colo; quando tinha dez anos, dançava mazurca com ela. Hoje chega e, naturalmente, acorro para lhe dar um beijo; pois imediatamente ela me diz que Deus não existe”.

Integravam “os nossos”, entre outros: Chatov, que, insatisfeito, pretende abandonar os companheiros, e por isso pagará caro; Virgüinski, em cuja casa ocorrem as reuniões; Liputin, homem tido publicamente como ateu; Liamchin, um judeu brincalhão e debochado; Erkel, um jovem tenentecapaz de levar adiante um crime perpetrado embora não tenha, em absoluto, qualquer ressentimento contra a vítima, fazendo-o unicamente para preservar a “causa”; Tolkatchenko, homem que afirmava conhecer muito bem o povo, principalmente criminosos, “freqüentador assíduo dos botequins (…) e [que] se orgulhava do traje grosseiro que vestia (…), do seu ar astuto e da linguagem rústica”; Chigaliov, autor de um sistema político-social que, partindo da liberdade ilimitada, chegava ao despotismo ilimitado, conferindo a um décimo da humanidade total liberdade, sendo os nove décimos restantes seus escravos, sistema que ele afirma ser o único possível.

Serão esses, portanto, os “demônios”? Até certo ponto a resposta seria sim, porém Chigaliov à última hora declara que o crime perpetrado pelo grupo é desnecessário e vai embora antes da chegada da vítima. Quanto aos outros, será a fraqueza de Virgüinski (que numa demonstração de arrependimento após cometerem o crime exclama “não era isso, não era isso, absolutamente”) e de Liamchin (que tem um acesso de nervosismo e desata numa gritaria desvairada até ser contido pelos demais) que fará com que o crime seja descoberto e quase todos os envolvidos presos.

Contudo, afirmar que o romance conta apenas a história das ações desse pequeno grupo de conspiradores não permite uma visão do plano do romance em sua real dimensão.

Tomemos como exemplo o romance A Mãe, de Máximo Gorki (mau romance, por sinal). Este também trata das ações de um grupo de socialistas que lutam pela “causa”, com uma descrição minuciosa dos riscos e dificuldades enfrentadas por seus membros em seu dia-a-dia, além de “panfletar” sobre a “grandiosidade de seus ideais”, abordando ainda de forma melodramática a própria ação da mãe de um dos integrantes do grupo, mostrada com uma heroína da causa e que por ela se sacrifica. O romance de Gorki não passa de um “panfleto” sobre o comunismo, interessa-lhe apenas o aspecto político do assunto, conta uma história que talvez tivesse importância diante do contexto histórico da época em que foi escrita, mas não vai além.

No romance de Dostoievski o aspecto político é apenas secundário, pode-se mesmo dizer casual, pois o que lhe interessa são as conseqüências das idéias esposadas pelos “nossos”, e não apenas as idéias políticas: nesse sentido, Os Demônios nos apresenta uma antevisão profética da monstruosidade que foi a revolução de 1918 e suas decorrências (que Dostoievski não veria, pois morre em 1881 aos cinqüenta e nove anos).

A construção dos personagens é minuciosa e de grande riqueza: começa apresentando “alguns traços biográficos do ilustríssimo Stephan Trophimovitch”, homem de cinqüenta e três anos, estudioso das ciências, ex-professor superior que se orgulhava de ter sido perseguido na juventude e viver sob suspeição do governo (coisa que existia apenas em sua cabeça); que se casara no exterior e enviuvara pouco depois, ficando com um filho que prefere não criar mas entregar a umas parentas distantes e a quem não vê mais; e que por fim, aposentado, vivia em uma casa na propriedade da generala Várvara Petrovna Stavroguina, e às suas expensas, de cujo filho Nicolai Stavroguin fora preceptor na infância. Como veremos, Stephan Trophimovitch será a contrapartida das idéias niilistas daquele grupo de insurretos, ao qual não se ligou diretamente.

Destacam-se no romance outros personagens emblemáticos.

Kirílov é um deles: completamente ateu, decidiu sucidar-se e afirma que assim que o faça, torna-se Deus. Kirílov, na altura em que é apresentado ao leitor, está escrevendo um artigo sobre o número de suicídios na Rússia, assunto que lhe interessa de perto, como se percebe, e é também um partidário da revolução, uma revolução que faria “rolar a cabeça de milhões”, mas a princípio nega-o perante seus interlocutores. Em outra passagem do livro afirma que “tudo está bem”, e quando alguém lhe pergunta: “E se se morre de fome, se a gente magoa uma menina, se a gente a desonra, também está bem?”, afirma que ainda assim tudo está bem. Vemos em Kirílov a imagem do homem dividido entre a necessidade de crer em Deus (o seu lado místico) e a de negá-lo (a racionalidade) — e é essa divisão que fará com que ele chegue ao gesto definitivo.

Referido apenas en passant, o filho que Stephan Trophimovitch não mais viu desde a infância, e que a princípio parece ser uma referência apenas circunstancial, súbito aparece na cidade já adulto e é ele — Peter Stephanovitch — o líder dos “nossos”. É dele é a mente ardilosa que tudo planeja: arquiteta e executa o crime praticado pelo grupo e se vale do assassino foragido Fedka para cometer outros assassinatos, mas não é alcançado pela Lei pois foge a tempo, indo refugiar-se no estrangeiro.

É hora, porém, de introduzir nestes breves comentários aquele que vem a ser o mais sombrio dos personagens de Dostoievski: Nicolai Stavroguin. Nenhum outro nos trás uma visão tão assombrosa da psiquê humana: Raskholnikov (Crime e Castigo) mata a velha usurária por amor a uma idéia de grandeza, mas é um jovem apenas e é redimido pelo arrependimento; Ivan Karamazov (Os Irmãos Karamazov) afirma que se Deus não existe, então tudo é permitido, levando seu meio irmão epilético Smerdiakov a assassinar o pai, mas Ivan é apenas um livre-pensador, assim como Kirílov; Peter Sepanovitch é um burocrata do crime, que não passa em suas mãos de um instrumento para atender ao seus interesses; Fedka mais não é que um criminoso foragido cujas ações são dirigidas por este, e com isso será um dos demônios; perverso, sim, inescrupuloso, mas — assim como “os nossos” — apenas um demônio menor; porém Stavroguin vai além de todos eles.

Stavroguin, instruído na infância por Stephan Trophimovitch, parte da casa da mãe aos dezesseis anos para estudar na Capital e retorna homem feito aos vinte e cinco. Nesse meio tempo, entre as diversas notícias inquietantes que chegam a seu respeito, havia a de dois duelos em que participara, matando um dos adversários, além do que dizia-se dele um sujeito arrogante e violento. Mas Stavroguin permanece pouco tempo, provoca um escândalo ao ofender um membro honorável da sociedade, e logo parte para uma viagem ao estrangeiro, retornando quatro anos depois como um dos líderes dos “nossos”, porém de atuação menor que a de Peter Stephanovitch. Stavroguin não demonstra ser o que os comentários a seu respeito faziam crer: é um homem de inteligência superior, tranqüilo, e que chega com o firme propósito de tornar público seu casamento com Maria Timopheievna, uma mulher coxa e meio louca, a quem trata com cortesia e mesmo carinho. Esse casamento, contudo, não passara — como vamos saber no decorrer da narrativa — de uma aposta após uma noite de bebedeira, sem que Stavroguin tenha se importado com o fato de Maria Timopheievna amá-lo de verdade, casamento aliás que não chegou a ser consumado.

São Maria Timopheievna e seu irmão bêbado, o capitão Lebiadkin, a vítimas de Fedka, crime com o qual Peter Stephanovitch pretende cair nas graças de Stavroguin, livrando-o de uma esposa indesejável para que ele possa casar-se com uma jovem e rica aristocrata. Stavroguin sabe que o crime será cometido mas nada faz para evitá-lo, e moralmente julga-se responsável por ele. A esse respeito é memorável a cena de um encontro entre ele e Fedka numa certa noite, em que o assassino faz insinuações que, mais tarde, Stavroguin referirá abertamente como uma proposta para que se assassinassem sua esposa e o cunhado.

Uma das páginas, contudo, mais impressionantes da obra de Dostoievski é a “Confissão de Stavroguin”, que figura na segunda parte do livro, capítulo inicialmente censurado quando da primeira publicação do romance no ano de 1871.

Essa “confissão”, Dostoievski leu-a então para alguns amigos, que concordaram com a censura por a considerarem muito forte: ali Stavroguin desnuda sua alma, falando de sua tendência para o crime como algo não apenas necessário como também prazeroso, e relata como deixou que uma menina de onze anos fosse espancada pela mãe, mesmo inocente do furto de que é acusada, e como abusa da criança dias depois, deixando friamente que ela, aterrorizada pelo ato praticado — inicialmente com seu próprio consentimento — e roída de remorsos, se enforque. Felizmente Dostoievski não se desfez do texto, pois tinha a intenção de inseri-lo num outro romance, A Vida de Um Grande Pecador, que não chegou a ser escrito. Mais tarde essa “confissão de Stavroguin” passou a figurar como o capítulo VIII-a da segunda parte do romance.[2]

Por fim, após todas essas tragédias e crimes, temos a contrapartida do ateísmo destruidor que perpassa toda a história nas últimas palavras de Stephan Trophimovitch, que, já doente e em seu leito de morte, comenta a passagem do Evangelho de São Lucas que refere a expulsão dos demônios que atormentavam um homem, os quais pedem a Jesus que lhes permita entrar nuns porcos que passavam por ali:

“Minha amiga, disse Stephan Trophimovitch comovidíssimo, savez-vous, essa passagem admirável e… e extraordinária sempre foi para mim uma pedra no meio do caminho… dans ce livre… e por isso a guardei de memória desde a infância. Mas uma idéia me ocorreu, une comparaison. Ocorrem-me muitas idéias agora. Veja, é exatamente como nossa Rússia. Esses demônios que saem do doente para entarem nos porcos são todas as chagas, todos os miasmas, todas as imundícies, todos os demônios pequenos e grandes que no decorrer dos séculos se acumularam na nossa querida e imensa doente, na nossa Rússia! Oui, cette Russie que j’amais toujours. Mas um pensamento sublime, uma sublime vontade lá de cima descerão sobre ela, como desceram sobre esse endemoniado. E ela se desembaraçará de todas as impurezas, de todas as podridões — que espontaneamente hão de pedir moradas no porcos. Talvez já neles hajam entrado. Somos nós — nós e eles —, e Petruchka [Peter Stephanovitch]… et les autres avec lui, — e eu talvez em primeiro lugar, eu talvez à frente. Como loucos furiosos atirar-nos-emos do alto do rochedo até o mar, e pereceremos todos. Melhor, porque só servimos para isso. O doente, porém, será curado, e ‘assentar-se-á aos pés de Jesus…’ e todos o encararão com espanto… Minha cara, vous comprendez aprés… Nous comprendrons ensemble.”

A História que, contudo, parece ter desmentido as previsões de Stephan Trophimovitch, parece ter copiado as do genial escritor russo em Os Demônios, reproduzindo-as no que foi a revolução de 1918 com todas as suas terríveis conseqüências.



[1] Apenas como adendo, outros romances de Dostoievski — além das numerosas narrativas menores e contos — são: Humilhados e Ofendidos, O Eterno Marido, Nietotchka, A Aldeia Stepantchikovo e seus Moradores, e O Adolescente.

[2] Em algumas edições, é inserido como apêndice, mas na edição que li foi incluído após o cap. VIII da segunda parte.

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