Apanhados de uma carta encontrada num antigo livro. Ou esboço para um longo poema de amor. – por régis fernandes / ilha de santa catarina


Seu corpo levantou da cama. Permaneci deitado, não conseguia dormir, tentei por uns quarenta minutos. Ela estava se arrumando. Precisava de quinze minutos com ela e tudo estaria resolvido.

Foi para porta, se despediram e saiu. Levantei, não disse nada, fui atrás. Ela percebeu e não fez comentários. Descia as escadas. Atravessou o saguão do prédio e comentou a esmo que estava atrasada, não sei se foi para mim ou para o porteiro sempre estável na mesma atitude que dá nome a sua profissão. Nada o incomodava, nem pessoas e seus cachorros, síndicos ou pequenos aposentados. Alugueis atrasados ou entra e sai de gente estranha.

Viu duas figuras de olhos fundos, carregando ou sendo carregados pelo fim da brisa noturna. Seus semblantes cadavéricos. Revelava o peso da noite mal dormida, a esperança continua de mais um papel, mais uma dose. Era esse o motivo do entra e sai? Pequenos traficantes, aproveitadores, artistas, desocupados, amigos e não amigos, uma fauna vazia. Destruições magnéticas, rondas sinistras. Cercando a cabeça dos pequenos suicídios.

No estacionamento, entrou no carro pela porta do motorista, abriu a porta do passageiro. Entrei, entramos. Teve um leve sorriso de ambos.                                                                                                                          Iniciar uma conversa? Mas sem resultado fiquei quieto. Manhã sonolenta, a luz é como um tiro de máuser atravessando meus ânimos. Um nó na garganta fazia o gosto amargo circular. Queria esquecer que existia.

As vísceras do dia surgiam como chumbo pendurado. Precisava dizer, faltava coragem. Tão cedo, um congestionamento centopéia, invadia a cidade, suas ruas entrando em pessoas mal humoradas, gentilezas  banais. Ela ali do meu lado, pouco importava se tudo ia mal. Ela ali do lado, não sabia como dizer, nem mesmo conseguia desviar minha atenção daquele rosto púrpura.

“E o que vamos fazer?” perguntei com voz trêmula. Comecei mal, devia continuar? Olhou-me com olhos verdadeiros e negros. Eram tão fortes que faziam  meu estômago urrar, suspenso no abismo. Segurei  sua mão. Uma despedida?  Quase chorei, sem álcool, nem cocaína. Seu olhar, aquele que sempre quis receber, sincero.  Mãos juntas, até trocar de marcha. “O que vamos fazer?” Perguntei com firmeza. “O que você vai fazer?” Retrucou ainda séria. “É cedo, estou indo para um emprego de merda, não quero falar sobre isso agora.” Acelerou mais, olhou para frente. Como fazem as pessoas decididas. Com a mão deitou o cabelo para trás, trocou a marcha e procurou a minha. Pediu desculpas, aceitei.

Lá fora, um frio danado, dentro também. Queria ir embora.

Pessoas com pressa atravessavam as ruas, o sol não chegou. Estava atrasado, provavelmente não viria, tudo escuro. “Vem comigo, vamos embora agora, vamos ficar juntos, vem?” Era isso que queria dizer, fazia três semanas, só pensava nisso, dia e noite. Ela toda, só isso, juntos. Podia aceitar, podíamos ir embora, a cidade não me queria mais.

Fez uma curva, entrou na avenida. “Você ficou maluco acha que posso ir assim? Abandonar tudo e ir? Não consigo entender a cabeça de vocês. Acho que devemos ficar um tempo sem se ver. É melhor darmos um tempo.” Fingi que não escutava, não era real, a sua resposta rasgava.

Não era brincadeira. Segurava minha mão em seguida soltava para trocar a porra da marcha. Enquanto falava, não voltou a segurar. “Sabe que não podemos ficar juntos é melhor terminar com isso.” Tentei concertar, disse que não precisávamos fugir, mas continuaríamos juntos. Quem sabe moramos juntos os três? Riu e me pediu para não ficar chateado. Mas não dava mais.

Parou o carro, descemos, falei que ia esperar voltar.

“Entenda. Acabou não precisa me esperar. Não quero, é melhor ir embora!” Realmente brava. Com as mãos no bolso, esqueci o que fazia ali, fui para outro lugar, queria voltar para casa. Dormir um pouco, descansar.

Com um sorriso, pediu desculpas. “Deu as costas e foi embora.” Não! Espera!”gritei, voltou à cabeça. Acenei e ela voltou com o olhar me dizia adeus, seu corpo todo dizia adeus. “Vamos pensar melhor, te amo e nada de mal vai acontecer, em outro lugar podemos ficar juntos. Vem comigo?”

Do outro lado da rua, uma velha seguia para seu emprego, lépida, contagiada por milhões de enterros. Na minha frente, respirou fundo, queria se livrar daquela situação. “Não posso ir com você e sabe muito bem porque, não agüento mais isso. Nem minha vida e muito menos essa cidade. Mas não posso desistir de tudo agora. Se nada der certo na minha vida como já está acontecendo vou embora da cidade, do país, ou melhor, do mundo, vou sozinha. Desculpa fazer isso, mas preciso ir embora, quero que vá também, ou depois conversamos, estou atrasada. Fica bem, até!” Me deu um beijo e foi.

Usava saia preta bem justa, não andava bem de salto. Foi sem olhar para trás, uma única vez.

Na calçada, do lado do carro. Perdido, entre postes e seus fios, queria a palavra exata, queria que me batesse na cabeça. Olhei novamente e desapareceu.

As ruas e suas pessoas. Seus empregos. Esperava eles jogarem terra, para não ter mais que fingir. Isso não aconteceu? Levantei. Minhas unhas sujas, roupas em trapos. Fui para o centro. Caminhando pela Paulista.

A última visão, do lugar. Onde andei todo esse tempo? Uma voz gritava ao meu ouvido. No meu crânio milhões de velas, não reconhecia a voz. Isso já não importava apenas uma idéia, era o bastante.

Conduzi ou conduzido, na longa caminhada. Sonho hermético que não se realiza, campo urbano, perdido em eixos imaginários, circulava meu eterno adeus. Porém não terminava. Sete dias e a serpente encontrou o rabo.

A cidade cantou meu testamento, escutei os versos, parado em uma esquina, seu adeus.

O farol indo do verde para o vermelho. Faixas com pedestres. E a rua é um cemitério pavimentado. Na linha da minha mão, o metrô seguiu uma enorme sala de estar vazia. Nenhuma pequena humanidade, um palco vivo sem acontecimentos.

De cima do viaduto do Chá, vi pequenos desenhos dos ladrilhos, lá em baixo. Queria esquecer Ana,  precisava ir embora. Para onde? Foi quando encontrei… (aqui termina a carta).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: