O POUSO DO PASSARINHO – de guilherme cantídio / natal

No tape-deck alternavam-se Tim Maia, Rita Lee, Barry White…ora um rock agitado, ora um som pra se dançar mais agarradinho. Dessa vez a festinha era no apartamento de Magnólia, colega de trabalho, divorciada, sem filhos, um pouco mais velha do que a média dos convivas mas, sem dúvida, a mais animada; sorriso aberto, gargalhada fácil…a simpatia em pessoa.

Aquele tipo de festa íntima entre amigos era tradicional em Brasília. Se é que alguma coisa  podia ser considerada tradicional na ainda jovem Brasília do final dos anos setenta. A escassez de opções de diversão, combinada com a privacidade proporcionada, dava um toque todo especial às “festinhas”, como eram conhecidas pelos candangos.

“Cheguei pra terapia” foi a saudação de Ivo, ao lhe ser aberta a porta pela anfitriã. Referia-se, jocosamente, a um relacionamento amoroso recentemente terminado, e que havia durado pouco mais de três anos, deixando-lhe emocionalmente bastante abatido, cheio de sentimentos conflitantes no coração: saudades, ciúmes, sensação de liberdade e, por fim, uma vontade incontida de divertir-se para, se não curar, pelo menos  esquecer-se daquele turbilhão de sentimentos.

A gargalhada de Magnólia se fazia ouvir a intervalos cada vez menores e contagiava a todos, que passaram a imita-la em coro, cada vez que ecoava pela sala. O ambiente não podia estar mais animado.

Ivo estava saindo da cozinha de volta para a sala, quando a campainha tocou, no momento em que se encontrava bem defronte à porta de entrada. Como tinha certa intimidade com a anfitriã, fez as honras da casa. Abriu a porta para dar as boas vindas aos novos convivas.

– Oi! É você? – perguntou Laura, com um sorriso de orelha à orelha, e um ar de surpresa indisfarçável. Laura era mais uma colega de trabalho que já havia dado em cima de Ivo um sem número de vezes, sem ter sido correspondida. Na verdade, nem mesmo Brigitte Bardot, em seus melhores momentos dos anos sessenta, teria conseguido fazer com que Ivo cedesse à uma cantada, nos últimos três anos. Estava acompanhada de uma linda morena. Magra, pouco menos de um metro e setenta e um olhar maroto, quase insinuante, segundo pareceu a Ivo.

– Eu mesmo. Tudo bem? Não vai apresentar?

– Ah, claro! Essa é a Mille, minha amiga.

Se o olhar da morena pareceu insinuante, a atitude confirmou. Com o braço esquerdo enlaçou Ivo por sobre os ombros, puxando-o carinhosamente para aplicar os dois beijinhos tradicionais de apresentação. No primeiro, displicentemente o beijo escorregou da bochecha para o canto da boca; o segundo foi um selinho sem disfarce algum, dessa vez com a ativa colaboração de Ivo que, ato contínuo, abraçava-a pela cintura.

Enquanto entravam sala adentro Ivo não pôde deixar de notar um ar de reprovação por parte de Laura. Ciúmes, nada mais. Até mesmo Magnólia que se aproximou para dar as boas vindas, acompanhada de um sujeito bem estranho, de cabelos rastafári,  percebeu que ali havia se formado um triângulo amoroso e conseguiu captar, como uma especialista, tanto o ciúme de Laura como o clima de “love is in the air” que envolvia Ivo e Mille. Espirituosa, do tipo que perde o amigo, mas não perde a piada, encarou Ivo e falou:

– Sua terapia está indo muito bem, mas cuidado com algum efeito colateral! –  enquanto pronunciava “algum efeito colateral” retorceu a boca em direção à Laura.

Mais uma risada retumbante de Magnólia se fez ouvir. Todos imitaram. Atravessaram a sala e sentaram-se no chão, em um dos cantos, próximo da janela. Laura, ainda exalando ciúmes, teve sua oportunidade de ouro de dar a volta por cima ao aceitar, de pronto e entusiasticamente, o convite pra dançar que recebeu de um sujeito bem apessoado, um dos poucos desconhecidos, provavelmente convidado de algum colega de trabalho. Com a área livre, Ivo e Mille se entendiam cada vez melhor e formavam um casal simpático e apaixonado.

– Sabe, MIlle, estava me sentindo desambientado aqui na festinha, embora conheça quase todos aqui. Mas no momento que abri aquela porta e nos vimos pela primeira vez a sensação que tive foi de um lindo passarinho pousando suavemente bem aqui, na palma de minha mão.

– Interessante você dizer isso. Olha só…fazia bastante tempo que não me divertia…muito trabalho, muito estudo. Hoje, antes de vir pra cá disse para mim mesma: hoje estou pronta pra voar. Passarinhos voam, né? olha só onde vim pousar…

– Aqui, na palma de minha mão.

Um beijo apaixonado selou aquele momento romântico de pura poesia.

Todos se divertiam, inclusive Laura. Estranhamente, apenas Magnólia estava com um semblante de preocupação. Agachou-se de joelhos onde estavam sentados Ivo e Mille e disse, com jeito de preocupada e decepcionada:

– Ivo, temos um probleminha básico aqui: faltou bebida. Você está de carro aí?

– Claro, conte comigo.

– Ótimo! Estou fazendo uma vaquinha e já te passo a grana…mas, – olhou no relógio de pulso, que marcava 01:15 hs. – será que tem algum lugar aberto a essa hora?

– Deixe essa parte comigo. Tenho um amigo que é gerente de um Pub aqui perto. Em meia hora devo estar de volta com os “birinaites”. Uma grade de cerveja e duas vodcas. Acho dá.

Ivo convidou Donato pra ajudar na “estiva” que, bem acompanhado de uma loura lindíssima, declinou. Donato era um bonachão, sempre com um sorriso no rosto e uma piada para contar.

– Me dê um motivo pra eu largar esta loura quentíssima aqui e me agarrar com vinte e quatro louras geladas que não falam, não beijam não abraçam…

– Nossa amizade – bradou Ivo, entrando no clima de humor de Donato, – é um bom motivo.

– Não basta! bote mais peso no prato dessa balança.

Nesse ponto da conversa tudo já tinha se tornado um teatro. Inclusive com plateia. Os convivas rodeavam Ivo e Donato às gargalhadas, conhecedores que eram da fama que Donato conquistara de humorista nato, e que agora tinham oportunidade de presenciar uma apresentação ao vivo, por assim dizer, sem ensaios nem scripts a seguir.

– Tá bom, Donato – ponderou Ivo, dando prosseguimento ao jogo de cena que Donato desencadeou – reconheço que sua loura é muito mais agradável de se olhar e muito mais apetitosa, mas só da boca até a garganta. Daí pra frente (ou pra baixo, melhor dizendo), as lourinhas geladas que vamos buscar vão nos alegrar muito mais.

Agora tudo parecia mais um duelo de cantadores violeiros de improviso. A turba se contorcia de tanto rir.

– Ivo, você é um tarado. Deixe minha loura de fora dessa que por dentro eu cuido, né bem?

– Eu, hein! – disse a loura, encabulada. – você e seus trocadilhos…

– Donato – interrompeu Ivo – você não percebe que trata-se de uma questão de utilidade pública? olhe para essas pobres criaturas carentes de alegria e emoção que esperam que nós  cumpramos a missão nobre de adquirir combustível para alegrar a todos nós.

– Agora eu me emocionei. Estou quase convencido. Me dê o argumento final.

– OK, está aqui: vamos agora mesmo porque se você não vier vou lhe encher de porrada.

Enquanto ia falando aproximou-se de Donato e fez o gesto de pega-lo no colo, mas antes de consumar o ato Donato, de puro improviso, jogou-se no colo de Ivo e assim saíram os dois, como recém-casados adentrando a alcova, porta afora, sob os assobios e aplausos dos convivas.

Ivo calculou bem o tempo da empreitada. Em menos de quarenta minutos estava de volta. Enquanto acomodava as bebidas na geladeira Magnólia, mais uma vez com ar de preocupada, relatou que enquanto estivera fora aconteceram duas coisas chatas.

– Bom, primeiro, – começou Magnólia – você ainda não foi na sala pra ver que quase metade das pessoas foi embora. Mas o pior não é isso…é que …sabe a menina com quem você estava?

– Sim.

– Pois é…dê uma olhada lá. O cara que estava comigo está lá conversando e dando em cima dela desde que você saiu. Estava aqui pensando se não tinha uma maneira de nós dois darmos um jeito nisso.

– Vou lá. Vamos ver no que vai dar. Xi! o rastafári é grande, hein?

Ivo pegou uma cerveja e dois copos e dirigiu-se à sala. Estavam lá dois casais sentados em círculo, além de mais umas dez pessoas, entre homens e mulheres. Sentou-se, atrevidamente, entre o rastafári e Mille. Beijou-a e foi beijado de volta. Encheu um copo de cerveja, entregou-lhe; encheu o outro e por pouco não o esvaziou de um só gole; completou o copo, olhou para o lado esquerdo e lhe pareceu ver sair fumaça das tranças do rival; olhou para baixo e completou o copo dele com cerveja.

– Pô! tou bebendo vodca

– Ops, desculpa aí, cara! tem mais vodca aí. Acabou de chegar.

– Cara mais desligado…que merda!

O rastafári grandão saiu reclamando e falando palavrão. Foi direto para a cozinha, onde estava lhe esperando Magnólia, cheia de amor pra dar. Dez minutos depois foram para o quarto de casal. Entraram e menos de um minuto depois Magnólia sai, sozinha, em direção a Ivo e lhe diz no ouvido: “Você salvou meu dia. Se precisar do outro quarto a chave está na fechadura, pelo lado de dentro”. Voltou correndo para o lugar de onde tinha vindo, toda sorrisos.

Ivo se levantou e ajudou Mille a fazer o mesmo. Tomou-a  nos braços e sem trocarem palavra, foram ao quarto. Com certeza Mille havia escutado o sussurro de Magnólia e adorou a idéia. Trancaram a porta e começaram a dançar, ao tênue som que vinha da sala, na voz sensual de Rita Lee cantando Mania de Você”. Em cinco minutos o chão ao redor do casal acumulava, aleatoriamente espalhados, um par de sapatos, um par de sandálias, uma camisa, uma blusa, duas calças…

No centro de toda essa bagunça batiam dois corações loucos de paixão, no ritmo acelerado, típico das circunstâncias. Mas não eram só os corações que batiam. A porta também batia. Ou melhor, alguém batia freneticamente na porta.

– Mille!, Mille! – chamava insistentemente Laura, pondo uma ducha de água fria no clima de romance tórrido, prestes a se consumar.

– O que aconteceu, Laura?

– Vamos embora, Mille. Agora, por favor. – completou, chorosa.

– Só mais um pouco e já vamos, Laura. Tenha paciência.

Nem Mille nem Ivo sabiam o que tinha acontecido na sala, mas desconfiaram: Laura, de alguma forma, tinha se dado mal com seu par. Uma mulher com ciúmes, sabe-se, é capaz dos atos mais desvairados; uma mulher com ciúmes e, ainda por cima, ferida em seus brios de mulher pode protagonizar atitudes ridículas, como essa que agora presenciavam.

– Mille, por favor. Lembre-se do que combinamos quando viemos pra cá.

– Que foi isso? – indagou Ivo, baixinho, a Mille.

– É verdade, confessou Mille. Antes de sairmos combinamos que sairíamos juntas e voltaríamos juntas. Além disso ela vai dormir lá em casa.

Nocaute. Não havia nada a fazer. Lentamente cataram suas peças de vestuário. Abriram a porta. Laura chorava. Ou fingia. Nunca saberão.

Ivo acompanhou-as até o elevador, sem proferir palavra. Antes de entrar Mille tornou-se para Ivo, com os olhos úmidos. Com dificuldades pronunciou apenas uma palavra, quase inaudível, que traduzia vergonha e decepção:

– Desculpe.

Duas lágrimas rolaram então de seus olhos e, sem conter-se, levou as mãos ao rosto enquanto o elevador seguia seu curso.

Ivo voltou ao apartamento onde, no tape-deck, ouvia-se John Lennon cantando Norwegian Wood (This bird has flown).

Só então percebeu que seu passarinho tinha voado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: