Arquivos Mensais: setembro \30\UTC 2010

DILMA ROUSSEFF: a mulher mais poderosa do mundo! “The Independent” / londres

27 de setembro de 2010 às 12:25

The Independent: A mulher mais poderosa do mundo

Hugh O’Shaughnessy – do jornal britânico The Independent, reproduzido na Carta Maior

A mulher mais poderosa do mundo começará a andar com as próprias pernas no próximo fim de semana. Forte e vigorosa aos 63 anos, essa ex-líder da resistência a uma ditadura militar (que a torturou) se prepara para conquistar o seu lugar como Presidente do Brasil.

Como chefe de estado, a Presidente Dilma Rousseff irá se tornar mais poderosa que a Chanceler da Alemanha, Angela Merkel e que a Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton: seu país enorme de 200 milhões de pessoas está comemorando seu novo tesouro petrolífero. A taxa de crescimento do Brasil, rivalizando com a China, é algo que a Europa e Washington podem apenas invejar.

Sua ampla vitória prevista para a próxima eleição presidencial será comemorada com encantamento por milhões. Marca a demolição final do “estado de segurança nacional”, um arranjo que os governos conservadores, nos EUA e na Europa uma vez tomaram como seu melhor artifício para limitar a democracia e a reforma. Ele sustenta um status quo corrompido que mantém a imensa maioria na pobreza na América Latina, enquanto favorece seus amigos ricos.

A senhora Rousseff, a filha de um imigrante búlgaro no Brasil e de sua esposa, professora primária, foi beneficiada por ser, de fato, a primeira ministra do imensamente popular Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ex-líder sindical. Mas com uma história de determinação e sucesso (que inclui ter se curado de um câncer linfático), essa companheira, mãe e avó será mulher por si mesma. As pesquisas mostram que ela construiu uma posição inexpugnável – de mais de 50%, comparado com menos de 30% – sobre o seu rival mais próximo, homem enfadonho de centro, chamado José Serra. Há pouca dúvida de que ela estará instalada no Palácio Presidencial Alvorada de Brasília, em janeiro.

Assim como o Presidente Jose Mujica do Uruguai, vizinho do Brasil, a senhora Rousseff não se constrange com um passado numa guerrilha urbana, que incluiu o combate a generais e um tempo na cadeia como prisioneira política.

Quando menina, na provinciana cidade de Belo Horizonte, ela diz que sonhava respectivamente em se tornar bailarina, bombeira e uma artista de trapézio. As freiras de sua escola levavam suas turmas para as áreas pobres para mostrá-las a grande desigualdade entre a minoria de classe média e a vasta maioria de pobres. Ela lembra que quando um menino pobre de olhos tristes chegou à porta da casa de sua família ela rasgou uma nota de dinheiro pela metade e dividiu com ele, sem saber que metade de uma nota não tinha valor.

Seu pai, Pedro, morreu quando ela tinha 14 anos, mas a essas alturas ele já tinha apresentado a Dilma os romances de Zola e Dostoiévski. Depois disso, ela e seus irmãos tiveram de batalhar duro com sua mãe para alcançar seus objetivos. Aos 16 anos ela estava na POLOP (Política Operária), um grupo organizado por fora do tradicional Partido Comunista Brasileiro que buscava trazer o socialismo para quem pouco sabia a seu respeito.

Os generais tomaram o poder em 1964 e instauraram um reino de terror para defender o que chamaram “segurança nacional”. Ela se juntou aos grupos radicais secretos que não viam nada de errado em pegar em armas para combater um regime militar ilegítimo. Além de agradarem aos ricos e esmagar sindicatos e classes baixas, os generais censuraram a imprensa, proibindo editores de deixarem espaços vazios nos jornais para mostrar onde as notícias tinham sido suprimidas.

A senhora Rousseff terminou na clandestina VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Nos anos 60 e 70, os membros dessas organizações sequestravam diplomatas estrangeiros para resgatar prisioneiros: um embaixador dos EUA foi trocado por uma dúzia de prisioneiros políticos; um embaixador alemão foi trocado por 40 militantes; um representante suíço, trocado por 70. Eles também balearam torturadores especialistas estrangeiros enviados para treinar os esquadrões da morte dos generais. Embora diga que nunca usou armas, ela chegou a ser capturada e torturada pela polícia secreta na equivalente brasileira de Abu Ghraib, o presídio Tiradentes, em São Paulo. Ela recebeu uma sentença de 25 meses por “subversão” e foi libertada depois de três anos. Hoje ela confessa abertamente ter “querido mudar o mundo”.

Em 1973 ela se mudou para o próspero estado do sul, o Rio Grande do Sul, onde seu segundo marido, um advogado, estava terminando de cumprir sua pena como prisioneiro político (seu primeiro casamento com um jovem militante de esquerda, Claudio Galeno, não sobreviveu às tensões de duas pessoas na correria, em cidades diferentes). Ela voltou à universidade, começou a trabalhar para o governo do estado em 1975, e teve uma filha, Paula.

Em 1986 ela foi nomeada secretária de finanças da cidade de Porto Alegre, a capital do estado, onde seus talentos políticos começaram a florescer. Os anos 1990 foram anos de bons ventos para ela. Em 1993 ela foi nomeada secretária de minas e energia do estado, e impulsionou amplamente o aumento da produção de energia, assegurando que o estado enfrentasse o racionamento de energia de que o resto do país padeceu.

Ela tinha mil quilômetros de novas linhas de energia elétrica, novas barragens e estações de energia térmica construídas, enquanto persuadia os cidadãos a desligarem as luzes sempre que pudessem. Sua estrela política começou a brilhar muito. Mas em 1994, depois de 24 anos juntos, ela se separou do Senhor Araújo, aparentemente de maneira amigável. Ao mesmo tempo ela se voltou à vida acadêmica e política, mas sua tentativa de concluir o doutorado em ciências sociais fracassou em 1998.

Em 2000 ela adquiriu seu espaço com Lula e seu Partido dos Trabalhadores, que se volta sucessivamente para a combinação de crescimento econômico com o ataque à pobreza. Os dois se deram bem imediatamente e ela se tornou sua primeira ministra de energia em 2003. Dois anos depois ele a tornou chefe da casa civil e desde então passou a apostar nela para a sua sucessão. Ela estava ao lado de Lula quando o Brasil encontrou uma vasta camada de petróleo, ajudando o líder que muitos da mídia européia e estadunidense denunciaram uma década atrás como um militante da extrema esquerda a retirar 24 milhões de brasileiros da pobreza. Lula estava com ela em abril do ano passado quando foi diagnosticada com um câncer linfático, uma condição declarada sob controle há um ano. Denúncias recentes de irregularidades financeiras entre membros de sua equipe quando estava no governo não parecem ter abalado a popularidade da candidata.

A Senhora Rousseff provavelmente convidará o Presidente Mujica do Uruguai para sua posse no Ano Novo. O Presidente Evo Morales, da Bolívia, o Presidente Hugo Chávez, da Venezuela e o Presidente Lugo, do Paraguai – outros líderes bem sucedidos da América do Sul que, como ela, têm sofrido ataques de campanhas impiedosas de degradação na mídia ocidental – certamente também estarão lá. Será uma celebração da decência política – e do feminismo.

Tradução: Katarina Peixoto

gilmar mendes, ministro do stf, QUE ONTEM, 29/09/2010 PEDIU VISTAS DO PROCESSO QUANDO A VOTAÇÃO PARA NÃO EXIGÊNCIA DE DOIS DOCUMENTOS PARA VOTAR JÁ ESTAVA 7X0 , PORTANTO, MATÉRIA ENCERRADA, GILMAR MENDES TOMOU ESSA ATITUDE APÓS RECEBER TELEFONEMA PESSOAL DE JOSÉ SERRA.

REPUGNANTE.

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Quinta, 30 de setembro de 2010, 11h12  Atualizada às 12h01

Líder do PT: Espero que Mendes não tenha atendido Serra

Eliano Jorge


Serra, no momento em que teria telefonado para Gilmar Mendes
(foto: Rodrigo Coca/ Fotoarena/ Especial para Terra)

Líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza prefere acreditar que não foi por interferência do presidenciável tucano José Serra que o ministro Gilmar Mendes interrompeu julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quarta-feira (29), sobre a necessidade de apresentação de dois documentos para votar em 2010.

Ele mede as palavras para não criar problemas com o STF:
– Temos muito cuidado em fazer uma guerra contra o Supremo. A esperança que tenho é que o ministro Gilmar Mendes não tenha tomado esta decisão por conta de um pedido do candidato Serra – afirmou, em conversa com
Terra Magazine.

Afirmando que aguarda a conclusão do julgamento nesta quinta-feira, Vaccarezza imagina que será confirmada a permissão para se votar apenas apresentando um documento com foto, algo visto como favorável ao PT, por incluir a participação de pessoas mais pobres.

Leia a entrevista.

Terra Magazine – Como o PT reagiu à notícia de que o ministro Gilmar Mendes interrompeu o julgamento do Supremo Tribunal Federal após telefonema do candidato do PSDB, José Serra? O partido tomará algum providência sobre isso?
Cândido Vaccarezza –
Nós temos muito cuidado em fazer uma guerra contra o Supremo. A esperança que eu tenho é que o ministro Gilmar Mendes não tenha tomado esta decisão por conta de um pedido do candidato Serra. Acho que o ministro Gilmar Mendes vai devolver o voto dele hoje (quinta-feira, 30) e está resolvido o problema.

Há possibilidade de a votação, que estava em 7 a 0, ser modificada. Os ministros podem mudar seus votos.
Não, os votos podem ser modificados, mas vamos aguardar o voto hoje do ministro Gilmar

O senhor acredita que a votação seguirá do jeito que estava, sem interferência?
Eu acho que seguirá do jeito que estava porque o fundamental que a Constituição garante é o direito do eleitor votar.

“GINGA DO MANÉ” na ASTJ = CHORO e SAMBA / são josé.sc

DA ARTE DO ATOR – por jorge lescano / são paulo

DA ARTE

DO ATOR

A fotografia em movimento (cinematografia) criou a ilusão de reprodutividade da vida através da imagem. Esta superstição não diz respeito exclusivamente ao público espectador, e convive com a tendência, cada vez mais agressiva, dos efeitos especiais. Estes, por sua vez, poderão dar origem a outra superstição: a supremacia da ação visual sobre a representação. Nesta, a presença humana nos filmes se tornaria supérflua.

A imagem “abstrata” (não figurativa) em movimento foi a essência da Arte Cinética dos anos 60. Esta corrente das artes plásticas poderia ser interpretada como o último estágio da Arte Concreta, nome genérico com o qual os artistas definiam seu ismo. O conceito objeto substituía as noções de pintura e escultura, unificando-as.

O cinema dito realista, como todo ismo, se tem tabus, também tem seus mitos. O mais popular destes, porque permite que qualquer pessoa lhe avalie a qualidade, diz respeito à representação.  Desta se espera verossimilhança (mimesis),não invenção. Tal julgamento antepõe, à artificialidade da arte, a naturalidade da vida, sem levar em conta a artificialidade dos meios de sobrevivência nos grandes centros urbanos. Nos filmes realistas, tudo deve parecer como na vida.

Em termos de atuação, fala-se, elogiosamente, de um certo ator de cinema norte-americano que, para construir os personagens que interpreta, procura na vida real os modelos e assume suas respectivas profissões. Por que não a cor dos olhos, as nacionalidades ou suas relações familiares?, poderíamos perguntar. Este ator acredita, sem dúvidas, que assim vivencia o que o personagem precisa para agir no seu papel (ser na vida).

Pressupõe-se que isto seja honestidade artística e despojamento profissional. Para representar um trompetista, aprendeu a tocar trompete. Um taxista? Trabalhou de motorista de praça por um tempo determinado e sem depender da feira para sobreviver.

Vendo os filmes, o público sabe que ele não é trompetista nem taxista

como seu personagem, ainda que ignore seu laboratório. Ou, para sermos justos: é um trompetista e um taxista amador.

Para não prejulgar (os elogios da crítica e o sucesso de bilheteria nada tem a ver com o caso), coloquemos em questão o “método” nos seguintes papéis: Édipo, Gulliver, Hitler. Estes personagens fazem parte de contextos diversos: teatro, literatura, política. Limitemo-nos então ao universo cinematográfico.

Um personagem que, embora de origem literária, encontrou sua dimensão “mitológica” no cinema: Tarzan. A grande maioria das pessoas o conhece, ou teve seu primeiro contato com ele através do cinema, são menos os que o viram nas histórias em quadrinhos, e menos ainda o número dos que leram os livros nos quais é protagonista.

Édipo remete ao incesto. Evitemos o lugar comum perguntando: como recuperar as experiências de um cego que foi rei e parricida? Mataria um vizinho da mesma idade do seu pai? Vagaria de olhos vendados pelas ruas de Nova Iorque? Isto é possível mas, como ser grego?

Para ser Tarzan, deveria viver na selva ou ler todas as estórias e ver todos os filmes? Qual a verdadeira vida deste personagem de ficção?

Não pequemos de puristas. Admitamos que a experiência (o laboratório) é válida como simulacro e que depois, por um sistema de acomodação, o ator transfira a experiência contemporânea à época e lugar em que se desenrola a ação ficcional. Admitamos também que a honestidade artística lhe permita aceitar tais papéis.

Se este sistema de transferência é válido e possível, surge a pergunta: por que, então, para interpretar o trompetista, não foi jogar futebol? E para o taxista, não seria igual trabalhar de açougueiro? O público, que conhece, ou ignora, seu laboratório, o vê apenas no seu papel. Esta é a função do ator.

Convenhamos: equivalências (o valor) das profissões são mais “fáceis” que a translação no tempo-espaço. O sistema proposto, tão útil quanto o seu, seria mais rico, pois tocaria trompete como se jogasse futebol e dirigiria o táxi como um açougueiro. Porém, foge à poética do nosso ator.

O resultado da montagem de personagens (Jogador-trompetista, taxista-açougueiro) poderia ser interessante, mas o método é inadequado porque inútil. Nesta alternativa é indiferente que toque trompete ou dirija um táxi como jogador, açougueiro ou ator.

No estágio atual, o cinema realista é subsidiário, suporte ocasional, do teatro e da literatura. Desta conserva a narrativa. Do teatro, a presença visual do tempo-espaço, sem bem que lhe falte a presença factual do acontecimento: aqui, agora. Neste sentido, seria apenas “documento” do teatro.

O cinema raramente permite a re-interpretação de um roteiro sem que pareça parasitária ou paródica, isto é: metalingüística. Assim, de um modo geral, é a “primeira” versão do filme a que fica e estabelece um padrão de interpretação, tanto para a equipe de realização quanto para o público.

Há ainda a leitura que ator faz do seu personagem. Se na versão que estamos analisando (a única que existe na realidade factual) é o ator que incorpora o personagem, outra leitura poderia nos mostrar a versão do trompetista e do taxista, que se “apossam” do ator para viver. Esta a qualidade do personagem ficcional, ainda quando tenta retratar alguém real (personagem histórico). Todo personagem é apenas uma estrutura lingüística.

Agora estamos mais próximos do roteiro original. Este foi criado por um autor que excepcionalmente, ou nunca, exerce ou exerceu a profissão do personagem, ou, em todo caso, não a exerce no momento da escrita. Ainda que o autor conheça por experiência própria as profissões em pauta, ele dará  apenas seu testemunho. E este corresponderá às suas características pessoais, diversas das do ator que as representará na tela.

Recuperar o modelo original é impossível. Mesmo que o próprio personagem-autor as represente, as experiências sofrerão, necessariamente, uma adequação ao médium, que as tornará outras, parasitárias ou paródicas.

Pensamos em duas alternativas. A primeira: documentar a vida (uma parte da vida) do trompetista ou motorista (foi o que tentou o cinema neo-realista italiano); neste caso se corre o risco de que não surja aventura alguma digna de ser filmada, eliminando de antemão o produto (a obra). Claro que é possível se tomar a realidade como objeto do filme sem qualquer pretensão artística, ou reduzir o conceito de arte à reprodução e/ou documentação do gesto cotidiano. Bruce Nauman, ao explicar seu filme Pescando una carpa asiática, exemplifica bem esta alternativa:

Bill Allan calçou as botas e fomos para o córrego. O filme durou até Allan fisgar o peixe… Quando a gente quer fazer um filme, não sabe quanto tempo vai levar. Por isso, o melhor é pegar qualquer coisa que determine a duração. Quando Allan fisgou o peixe, o filme acabou. (Art News, verano 1967; in: Victoria Combalía Dexeus: La poética de lo neutro; Barcelona, Anagrama, 1975; p.72; tradução: J.L.)

A segunda alternativa: o ator representa o personagem segundo sua visão artística (imaginativa, não-documental; documento é a pessoa-personagem) sem abandonar sua condição de ator (intérprete, representador). Só assim o ator será o suporte ou veículo do personagem, sem pretender se confundir com ele. Tampouco dará mais ênfase ao seu virtuosismo que a ação.

No teatro kabuqui (sic), há um gesto que indica “olhar para a lua”, quando o ator aponta o dedo indicador para o céu. Certa vez, um ator, que era muito talentoso, interpretou tal gesto com graça e elegância. O público pensou: “Oh, ele fez um belo movimento!” Apreciaram a beleza de sua interpretação e a exibição de seu virtuosismo técnico.

Um outro ator fez o mesmo gesto; apontou para a lua. O público não percebeu se ele tinha ou não realizado um movimento elegante; simplesmente viu a lua. Eu prefiro este tipo de ator: o que mostra a lua ao público. O ator capaz de se tornar invisível. (Yoshi Oida: O Ator Invisível; S.P., Beca, 2001; p.21)

Aqui não é qualquer pessoa que julga a atuação, mas alguém informado das premissas da arte de representar, ainda que o exemplo seja de outra convenção estética. O público de nosso ator realista, que sabe que ele não é trompetista nem taxista, deveria aprovar ou desaprovar sua representação enquanto ator.

Aos que farejem elitismo (!) nesta afirmação, quero lembrar-lhes que não é Qualquer Pessoa que está capacitada para opinar sobre odontologia ou cervejaria, embora possua dentes e aprecie a cerveja. A realidade factual não é parâmetro de juízo da arte.

Se fosse assim: arte = vida, por que procurar atores para a representação?

Na segunda alternativa proposta, a atuação estaria mais próxima da arte experimental que da representação mimética, isto talvez não seja a função ou intenção do atual estágio do cinema. Afastando-se da ilusão de realidade, o cinema “realista” ficaria mais perto da realidade artística. E deixaria de ser “realista”. Nesta perspectiva, não é improvável que a parafernália dos efeitos especiais esteja indo ao encontro da essência do cinema e acabe descobrindo, ou criando, esta essência.

DEBATE NA TV RECORD. PRESIDENCIÁVEIS. – por idelber avelar / são paulo

Notas sobre o debate da TV Record

O debate de ontem à noite, na TV Record, mostrou quão equivocados estavam os estrategistas tucanos que imaginavam que José Serra daria surras de argumentação em Dilma Rousseff nos confrontos ao vivo. Bastou aparecer uma equipe de jornalistas que não faz entrevista combinada para que Serra perdesse a compostura e, mais uma vez, saísse reclamando das perguntas que lhe foram feitas. Creio que é possível discutir se a maior vencedora do debate foi Dilma Rousseff ou Marina Silva. Mas acho que dificilmente um tucano acreditaria, de boa fé, que José Serra ganhou pontos ontem na TV Record. Também acredito que nenhum tucano de boa fé diria que a TV Record favoreceu Dilma. Ela também enfrentou perguntas questionadoras e duras. A diferença é que Serra também teve que enfrentá-las. Dilma está mais que acostumada a isso. Serra, não.

O debate da Record foi o mais importante até agora, por motivos óbvios. Ele teve lugar em rede nacional de TV, chegou a marcar 14 pontos de audiência (a média total do programa foi 9) e aconteceu uma semana antes da eleição. Na minha avaliação, Serra foi muito mal, Plínio fez um papel bisonho, Marina mostrou uma melhora considerável em relação aos debates anteriores (e pode ter ganhado pontos de quem já decidiu não votar em Dilma ou Serra) e a candidata do PT, encarando tarefa difícil, saiu-se muito bem. Como o empate lhe favorece e ela claramente prevaleceu nos dois embates diretos com a outra figura de destaque da noite, Marina, o campo dilmista comemorou vitória, a meu modo de ver, com razão.

O debate teve três grandes momentos de sacode-Iaiá: um de Marina em Plínio, outro de Ana Paula Padrão em Serra, o terceiro de Dilma em Marina. Estes eu achei que foram os três sacode-Iaiá incontestáveis, de claros nocautes sem apelação. No primeiro, Marina lembrou a Plínio o seu abuso dos rótulos. Falou firme e com altivez acerca do respeito ao outro. O recado foi dado de maneira claríssima e, pela própria reação da plateia, ficou nítido o nocaute. No segundo, Ana Paula Padrão lembrou a Serra o uso da imagem de Lula e a desesperada insistência do candidato do PSDB em esconder Fernando Henrique. Para piorar a situação de Serra, Ana Paula mencionou a recente declaração de FHC, feita no exterior, de que a vitória de Dilma já estaria garantida. A resposta do candidato misturou ataques à jornalista, coisa que é bem do seu feitio (já terá pedido a cabeça dela à Record?), com algumas frases que devem ter feito a equipe de Dilma vibrar: acusações ao PT de ser “ingrato” com Fernando Henrique. A acusação pode até ser verdadeira. É fato que existem setores do petismo que se recusam a dar a FHC o seu quinhão de méritos na estabilização da economia. Mas a veracidade da acusação não faz com que ela deixe de ser, eleitoralmente, um tiro no pé. Do ponto de vista do PT, quanto mais o nome de FHC for mencionado, melhor. Sim, é injusto. Quem disse que política tem a ver com justiça?

O terceiro sacode-Iaiá foi categórico e ocorreu no único momento em que Marina decidiu repetir a cantilena da qual havia abusado no debate anterior: a retórica udenista sobre a corrupção. Ao interpelar Dilma a respeito do caso de nepotismo na Casa Civil, ouviu a resposta de que a investigação estava sendo feita e que tanto em 2005, quando Dilma assumiu o cargo, como agora, à raiz do caso Erenice, ela tomara medidas para coibir os malfeitos. Marina replicou que era inaceitável que isso se repetisse e que pelo jeito as medidas não estavam surtindo efeito. Com certeza, não esperava a tréplica que veio: Dilma lembrou que tomou as mesmas medidas da própria Marina quando vieram à tona casos de corrupção no Ministério do Meio Ambiente comandado por ela. Lembrou-lhe, com elegância, que ninguém tem monopólio sobre a moral. De forma implícita, nocauteou o argumento tantas vezes usado por Marina nesta campanha, o de que ela supostamente seria mais limpa ou ética que o governo do PT – do qual ela fez parte durante sete anos e que só resolveu abandonar às vésperas da eleição.

Os camaradas do PSOL sabem do meu respeito por e de minha interlocução com o partido. Inclusive, a partir de algumas conversas com psolistas no Twitter, quero oferecer o espaço do Biscoito, a partir de novembro, para que façamos uma ampla discussão sobre os rumos do partido. Poderíamos armá-la a partir de um texto meu e dois ou três textos de militantes do partido que queiram contribuir, publicando todos os textos num mesmo post e, a partir daí, usando a caixa de comentários para a conversa. Esta é uma promessa do blog, caso interesse, é evidente.

DÊ UM CLIQUE NO CENTRO DO VÍDEO:

No entanto, o meu respeito não me impede de dizer que o papel de Plínio ontem foi grotesco, bisonho. Esqueceu-se de que ele não saiu do PT quando estouraram casos de corrupção, mas quando perdeu a eleição para presidente do partido. Mostrou estar desinformado sobre o ProUni. Chamou Dilma de Marina. Teve a oportunidade de uma tréplica e não a usou, pois não sabia o que estava acontecendo. Falou da União Soviética como se ela existisse. Fez uma infantil correlação entre o aumento das investigações sobre a corrupção e um suposto aumento da própria, como se o Brasil nunca tivesse tido um Engavetador-Geral da Repúbilca. Repetiu a cantilena sobre salário mínimo de R$ 2.000, 10% do PIB para a Educação e uma série de outras promessas pouco factíveis, respondendo, quando perguntado sobre de onde sairia o dinheiro, com o chavão da ruptura com os banqueiros—sem nos dizer o que faria o Brasil em estado de isolamento ante o sistema financeiro internacional.

Vejamos como se comportam os jornalistas da TV Globo no próximo debate, o último. Para os que gostam de contrapor, às críticas à parcialidade da Globo, alusões a uma suposta parcialidade da Record para o lado oposto, fica o lembrete: ontem, todo mundo encarou perguntas duras dos jornalistas. Mas só Serra saiu reclamando delas.

O Brasil que a imprensa brasileira não vê é destaque no mundo todo

O Brasil que a imprensa brasileira não vê é destaque no mundo todo

“Bolsa do Brasil é agora a segunda maior do mundo”, postaram “Wall Street Journal” e outros no final da semana. O “Financial Times” descreveu como Lula “levantou salvas e aplausos na Bolsa após concluir o maior lançamento jamais realizado”. Sob o título “Investidores correm em bando ao Brasil”, o“Guardian” abriu descrevendo como “por anos ‘Lula’ foi palavrão na Bolsa de São Paulo”, mas “os tempos mudaram”. Os jornais ecoam declarações de Lula no pregão, como “não foi em Frankfurt, não foi em Londres, não foi em Nova York. Foi aqui em São Paulo!”.

O “WSJ” foi além, publicando no sábado uma comparação entre a oferta da Petrobras e a operação prevista na GM. São empresas “emblemáticas de seus países”, mas hoje, sob controle do governo, a montadora não tem a mesma perspectiva. Sua oferta visa reduzir o controle estatal, o que, diz o “WSJ”, “é elogiável, mas não é estímulo para venda forte”.

Como outros pelo mundo, também o “New York Times” noticiou “o maior lançamento de ações da história, armando a Petrobras com o dinheiro necessário para implantar seu ambicioso plano”.
A
“Economist” postou que não é exagero descrever a operação da Petrobras como “um grande sucesso”, porém “agora vem a parte difícil” _o que inclui levantar ainda mais dinheiro, achar gente qualificada etc.

No Bloomberg Will Landers,  falou do fundo BlackRock, avaliou que “o fato de a Petrobras ter sido capaz de levantar a maior operação jamais realizada, a dez dias da eleição presidencial, mostra o quanto este mercado avançou”.

A Escola de Guerra do Exército dos EUA publicou estudo de 86 páginas sobre os “Dilemas da Grande Estratégia Brasileira” -a “grande estratégia de Lula” para “posicionar o Brasil como líder de uma América do Sul unida”. Em suma, ” foi bem-sucedida em elevar o perfil”, mas “expôs dilemas estratégicos” como “as tensões crescentes com os EUA”

Do indiano “Business Standard” à alemã Deutsche Welle, ecoa o novo esforço conjunto de Índia, Alemanha, Japão e Brasil para reformar o Conselho de Segurança. O chanceler alemão vê “boas chances”.

O mesmo “FT” noticiou de Ramallah que a “Autoridade Palestina abre negociações comerciais com Mercosul”. O primeiro-ministro Salam Fayyad “embarcou no esforço de preparar o caminho para a independência” do país.


“National” e “Gulf News”, dos Emirados Árabes Unidos, deram que o país “está pronto para comprar aviões militares do Brasil”, citando o cargueiro KC-390, parte de um amplo “acordo de defesa” entre as nações.Nelson Sá

Enquanto isso… na  nossa imprensa brasileira….o destaque é….

‘O “Estado” apoia a candidatura de José Serra à Presidência da República.’
Do editorial “O mal a evitar”, do jornal
“O Estado de S. Paulo”, ontem.

Geraldo Vandré Especial // Tudo o que o Grande Mudo da MPB disse na primeira gravação que faz para uma TV depois de décadas (Hoje, ele garante:”Não existe nada mais subversivo do que um subdesenvolvido erudito”) – por geneton moraes neto / são paulo

O “DECÁLOGO” DE GERALDO VANDRÉ NA PRIMEIRA ENTREVISTA QUE GRAVA PARA A TV DESDE O INÍCIO DOS ANOS SETENTA:

1.”EU ESTOU EXILADO AINDA – ATÉ HOJE, NÃO VOLTEI”

2.”ARTE É CULTURA INÚTIL. CONSEGUI SER MAIS INÚTIL DO QUE QUALQUER ARTISTA.SOU ADVOGADO NUM TEMPO SEM LEI”

3.”PROTESTO É COISA DE QUEM NÃO TEM PODER”

4.”NÃO EXISTE NADA MAIS SUBVERSIVO DO QUE UM SUBDESENVOLVIDO ERUDITO”

5.”NÃO SOU MILITARISTA. TAMBÉM NÃO SOU ANTI”

6.”NÃO TENHO O QUE CORRIGIR EM NADA DO QUE FIZ. TENHO ORGULHO”

7.”RARAMENTE ME ARREPENDO DO QUE FAÇO”

8.”A LOUCURA É A AVIAÇÃO. A MAIOR LOUCURA DO HOMEM É VOAR”

9.”O QUE EXISTE É CULTURA DE MASSA. NÃO É CULTURA ARTÍSTICA BRASILEIRA. NÃO HÁ ESPAÇO PARA A CULTURA ARTÍSTICA”

10.”NUNCA FUI MILITANTE POLÍTICO. NUNCA PERTENCI A NENHUM PARTIDO. NUNCA FUI POLÍTICO PROFISSIONAL”

Um dos mais duradouros silêncios da Música Popular Brasileira foi quebrado num fim de tarde de domingo no Clube da Aeronáutica, no Rio de Janeiro.

“Demorou uma eternidade”, mas Geraldo Vandré, o grande mudo da MPB, resolveu falar diante de uma câmera de TV.

Desde que voltou para o Brasil, no segundo semestre de 1973, depois de quatro anos e meio de exílio, Geraldo Vandré mergulhou num mutismo quase absoluto.

O compositor e cantor que entrara para a história da MPB dos anos sessenta como autor de canções como “Disparada” (em parceria de Théo de Barros) e “Pra Não Dizer que Não Falei de Flores”/Caminhando” , parecia ter se especializado em provocar  espantos em série no público.


Primeiro espanto: numa declaração feita na volta do exílio, anunciou que, a partir dali, só queria fazer “canções de amor e paz”. O Jornal do Brasil registrou outras declarações de Vandré: “Eu desejo, em primeiro lugar, integrar-me à nova realidade brasileira. Isso é um processo que demanda paciência e tranquilidade de espírito – que espero encontrar aqui, nessa nova realidade”.

Segundo espanto: ao contrário do que se esperava, não houve novas canções de “amor e paz”.  Vandré sumiu. Nada de shows, nada de entrevistas, nada de excursões. Nada, nada, nada. Recolheu-se a um país que parece ter um só habitante: o próprio Geraldo Vandré.

O Vandré pós-exílio não lembrava em nada o compositor que arrebatara o público no Festival Internacional da Canção de 1967.  Entoados por Vandré diante de um Maracanãzinho superlotado, os versos de “Caminhando” ( “vem/vamos embora/que esperar não é saber/quem sabe faz a hora/não espera acontecer”) saíram daquele palco para entrar na história: viraram uma espécie de hino de protesto contra o regime militar. Sob uma vaia de fazer tremer as estruturas do ginásio, o júri deu o prêmio à “Sabiá”, a parceria de Chico Buarque com Tom Jobim. Mas o público foi seduzido pelo tom incendiário dos versos de “Caminhando”. Pouco depois, desabava sobre o país o Ato Institucional número 5 – que dava poderes absolutos aos militares. Vandré partiu para o exílio. A música “Caminhando” foi proibida.

O terceiro espanto viria anos depois: para surpresa geral, descobriu-se que Geraldo Vandré compôs uma peça sinfônica em homenagem à FAB, a Força Aérea Brasileira. Sim, era verdade. Vandré não apenas compôs a declaração de amor à FAB como cultivou uma relação próxima com a Aeronáutica. Vive sozinho em São Paulo. Quando vem ao Rio, para visitar a mãe nonagenária, hospeda-se no hotel do Clube da Aeronáutica, nas proximidades do aeroporto Santos Dumont.

De vez em quando, faz aparições fugidias. Virou lenda. O mutismo deu origem a lendas de todo tipo. Vandré teria sido torturado na volta ao Brasil. Teria, simplesmente, “pirado”. Teria feito um acordo secreto com os militares. E assim por diante. A lenda mais estapafúrdia dizia que ele teria sido castrado !  O silêncio, claro, só servia para alimentar o mistério.  Como acontece em casos assim, a fantasia toma o lugar dos fatos.

O que há de certo é que ele foi, sim, constrangido a gravar um depoimento no Aeroporto de Brasília, em 1973. A gravação foi exibida à noite, na TV. Por onde andaria este filme ?  Fiz uma primeira busca. Voltei de mãos vazias. Vandré tem lembrança de que agentes da Polícia Federal participaram da operação. Não há registros do filme nem na Polícia Federal em Brasília nem no Arquivo Nacional. Faço uma tentativa no Centro de Documentação da Rede Globo. Nada. Com quem estará o filme  ?  O que se sabe é que uma empresa de Brasília – uma produtora que, entre outras atividades, fazia filmes para órgãos do governo – foi contratada para gravar o depoimento de Vandré, no aeroporto. O cinegrafista  escalado pela produtora para a gravação foi Evilásio Carneiro – por coincidência, trabalha hoje na Globonews. Por falar no assunto: uma dupla de documentaristas prepara atualmente um filme sobre o dono da produtora mobilizada para a gravação do depoimento – um italiano radicado na capital da República. Nome: Dino Cazzola. Em breve, novas informações.

Igualmente, as imagens de Geraldo Vandré cantando “Caminhando” no Maracanãzinho estão desaparecidas. Restou o áudio da performance. Lá, é possível ouvir o pequeno discurso que Vandré, elegantemente, fez em defesa de Chico Buarque e de Tom Jobim, crucificados pelas vaias do público. “A vida não se resume a festivais”, diz, antes de começar a cantar “Caminhando”.


Houve, obviamente, uma ruptura profunda entre o Vandré de antes e o Vandré de depois do exílio. O próprio Vandré nos deu uma explicação : disse que perdeu a motivação e a razão para cantar  porque aquele Brasil de 1973 já começava a viver um processo que ele chama de “massificação”. Num país em que a “cultura artística”  foi engolida pela “cultura massificada”,  não haveria lugar para o que ele fazia.

Depois de quatro meses de insistência, a produtora de TV Mariana Filgueiras terminou convencendo o Grande Mudo da MPB a falar. O mérito de ter derrubado o muro de silêncio que Vandré ergueu em volta de si deve ser creditado, portanto, à capacidade de insistência da produtora. É algo que ocorre com incrível frequência em TV: a responsável pelo  furo de reportagem fica nos bastidores. C´est la vie. Mas fica feito o registro.

Vandré marcou o encontro para as cinco da tarde do domingo, doze de setembro – justamente o dia em que ele completava setenta e cinco anos de idade. Nasceu em setembro de 1935 em João Pessoa, Paraíba.

O autor de pelo menos uma obra prima indiscutível – “Disparada” – escolheu o fim de tarde do domingo em que fazia aniversário para produzir um novo mistério – um, entre tantos outros que passou a cultivar desde que saiu de cena: o Grande Mudo decidiu, finalmente, que iria falar diante de uma câmera de TV. Por quê ? É provável que o fato de estar fazendo aniversário tenha pesado.

Para minha surpresa, o Grande Mudo estava solícito, falante, acessível. Aceitou sem reclamar os pedidos para caminhar no saguão do Clube de Aeronáutica diante da câmera do cinegrafista Ricardo Carvalho.

Quando a entrevista terminou, Vandré se recolheu  a um quarto do Hotel da Aeronáutica. Cinegrafista improvisado, captei a cena com minha DVCAM: Vandré se afastando em direção à escadaria que dá acesso aos quartos. Estava sozinho. Terminava assim o domingo em que completava setenta e cinco anos. Não imaginei que um dia iria testemunhar esta cena – o cantor que um dia incendiou o país com seus versos de alta combustão estava ali, solitário, no dia em que fazia aniversário, depois de ter quebrado, diante de mim, um silêncio que se estendeu por décadas.  Quem se lembra da última entrevista concedida por Vandré para uma TV ? Havia um tom ligeiramente melancólico na cena solitária protagonizada por Vandré no saguão do hotel, a caminho da ala dos hóspedes. Nada de grave. Os domingos à noite não são sempre assim ?

O que importa é que Geraldo Vandré deu sinal de vida. Eu estava lá para testemunhar a cena. Estava fazendo minha pequena parte no circo de horrores geral : “produzir memória”, não deixar que as palavras se desfaçam no vento.  Afinal, o que diabos um repórter pode fazer de útil, além de “produzir memória” ?  Pouquíssima coisa. Quase nada. Quando Vandré sumiu na penumbra do corredor do hotel,  dei por cumprida minha missão – o depoimento tinha sido devidamente colhido. É hora de passá-lo adiante. Eis o que o Grande Mudo falou no dia em que quebrou o silêncio:


A pergunta que todos gostariam de fazer é a mais simples possível: o que foi que aconteceu com Geraldo Vandré ?

Vandré : “Ficou fora dos acontecimentos (ri). Ficou fora dos acontecimentos. Acho melhor para ele. Tenho outras coisas para fazer. Estudei leis. Quando terminei meu curso de Direito aqui no Rio e fui me dedicar a uma carreira artística, já sabia que arte é cultura inútil. Mas hoje consegui ser mais inútil do que qualquer artista. Sou advogado num tempo sem lei. Quer coisa mais inútil do que isso ? Quando entrei na escola, para estudar, era a Universidade do Distrito Federal. Quando saí, era Universidade do Estado da Guanabara. Hoje, é Uerj, no Maracanã”.

Você se animaria a fazer uma temporada comercial,em teatros ?

Vandré : “Tenho uma prioridade: fazer a minha obra de língua espanhola. É uma obra popular. Além de tudo, o que quero fazer, antes de cantar canções populares no Brasil, é terminar uma série de estudos para piano, música erudita com vistas a composição de um poema sinfônico. Porque aí já é a subversão total. Não existe nada mais subversivo do que um subdesenvolvido erudito”.

O fato de a música “Caminhando” ter se tornado uma espécie de hino de protesto provoca o quê em você hoje: orgulho ou irritação ?

Vandré: “Estou tão distante de tudo. Mas não tenho o que corrigir em nada do que fiz. Tenho muito orgulho de tudo o que fiz. Protesto é coisa de quem não tem poder. Não faço canção de protesto. Fazia música brasileira. Canções brasileiras. A história de “protesto” tem muito a ver com a alienação denominatória, é o “protest song” norte-americano, a música country. Há algumas coincidências. Não concordo com a denominação “música de protesto”. Fiz música popular brasileira”.

Você teve uma divergência artística com os tropicalistas – entre eles, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Hoje, você ainda considera ruim a música que eles faziam na época ?

Vandré : “Com essa pergunta, eu me lembrei de uma reposta que o próprio Gil deu uma vez. Fiz uma pergunta a ele. Não me lembro qual foi. E ele disse: “Ah, faço qualquer coisa. Uma tem que dar certo”. Eu não faço qualquer coisa”.

Mas você mudou de opinião sobre os tropicalistas ou não ?

Vandré: “Parece que eles continuam na mesma. É o que me parece. Eu estou distante de tudo – não só do Tropicalismo como de tudo praticamente que se faz do Brasil”.

Em que país vive Geraldo Vandré ?

Vandré: “Vive num Brasil que não está aqui. Geraldo Vandré vive no Brasil. Eu até me atreveria a dizer que quem não vive no Brasil é a maioria dos brasileiros. A quase totalidade dos brasileiros não vive mais no Brasil. Vive num amontoado”.

Como é este Brasil de Geraldo Vandré ?

Vandré : “É o antes – de quarenta anos atrás. O país que o Brasil era quando fiz música para o Brasil não era este país de hoje. Não existia este processo de massificação. Dentro da minha própria carreira – profissionalmente falando – houve uma mudança ali no Maracanãzinho. Ali, houve a passagem do que eu fazia para um público de um teatro de setecentas ou no máximo mil e duzentas pessoas para um ginásio com trinta mil pessoas. E a televisão direto no ar. Já foi a massificação”.

O Brasil de quarenta anos atrás era melhor do que o Brasil de hoje ?

Vandré: “Eu fazia música para aquele país”.

E por que não fazer música para o Brasil de hoje ?

Vandré: “Porque o país é outro. O que existe é cultura de massa. Não é cultura artística brasileira.Não há praticamente espaço para a cultura artística. Se você considerar os outros autores, eles fazem coisas de vez em quando. Não têm uma carreira como tinham antigamente – nem Chico Buarque nem Edu Lobo, ninguém. A carreira que eles têm é uma carreira hoje muito segmentada”.

Você se considera, então, uma espécie de exilado que vive dentro do Brasil ?

Vandré: “Estou exilado até hoje. Ainda não voltei. Eu estou exilado e afastado das atividades que eu tinha até 1968 no Brasil. Eu me afastei. Não retornei”.

Por que é que você resolveu se afastar totalmente da carreira artística naquela época ?

Vandré: “Naquela época, já era assim: já era como hoje. Quando voltei, o Brasil já estava num processo de massificação em que o público para quem eu tinha escrito e para quem eu tinha composto praticamente já não existia, aquela classe média de quatro anos e meio antes. Estava muito confuso tudo.Fui esperando, fui vendo outras coisas. Isso foi de mal a pior – cada vez mais. Para você ter uma ideia: quando terminei o curso de Direito no Rio e me mudei para São Paulo, em 1961, para fazer uma carreira artística, não existia bóia-fria em São Paulo. Hoje, São Paulo é a terra do bóia-fria: todo mundo amontodo nas cidades. Vão aos campos para plantar e para colher e depois voltam para a cidades. Quando fui para São Paulo, a cidade tinha quatro milhões de habitantes. Hoje, são dezesseis milhões de amontoados. É um genocídio. Tiraram todo mundo dos campos para produzir e exportar…”

A decisão de interromper a carreira,então, foi – de certa maneira – um protesto contra o que você via como “massificação” da sociedade brasileira ?

Vandré: “Não. O que houve foi muito mais uma falta de motivo, uma falta de razão para cantar. Protesto,não: falta de razão, falta de porquê. Estou fazendo o que acho que devia fazer”.

O que é que chama a atenção do Geraldo Vandré no Brasil de hoje ? Que manifestação artística desperta interesse ?

Vandré: “A miséria aumentou. Se você pegar a letra de “Caminhando” – ” pelos campos, as fomes em grandes plantações/pelas ruas marchando indecisos cordões/ ainda fazem da flor seu mais forte refrão/ e acreditam nas flores vencendo o canhão” -, hoje é mais ainda. Hoje, as ruas estão muito mais cheias de indecisos cordões. O processo de massificação destruiu praticamente a urbe brasileira”.

Você se animaria a fazer uma canção como “Caminhando” hoje ?

Vandré:”Não existe isso. A gente nunca faz uma canção como uma outra. Aquela é uma canção. Cada uma é uma.A gente faz independentemente de animação. Quando decide fazer, faz”.

Você diria que o Brasil é um país ingrato ?

Vandré : “Não. De forma alguma. São coisas que ocorrem. Guerra é guerra.Não perdi (ri). Eu me lembrei agora de um poema muito bonito de Gonçalves Dias que aprendi com meu pai: “Não chores, meu filho, não chores/ Viver é lutar/ A vida,meu filho, é combate/é luta renhida/ que aos fracos abate e aos bravos só pode exaltar”.

Quando você se lembra hoje do Maracanãzinho inteiro cantando “Caminhando” que sentimento você tem ?

Vandré: “Aquilo foi muito bonito, muito bonito. Pena que eu não posso ver o VT. Estão guardando o VT não sei para quê.Quero ver o VT. Lá na sua estação eles devem ter. Procure lá. Consegue o VT para ver!” ( olhando para a câmera).

Você tem saudade daquela época ?

Vandré : “Saudades….Saudades…Um pouco. Mas também há tanta coisa para fazer que não dá muito tempo de sentir saudade”.

Você vive de quê hoje ? Você recebe direitos autorais ?

Vandré: “Nunca dependi de música para viver. Sou servidor público. Hoje, estou aposentado como servidor público federal”.

Você deixou de receber direitos autorais ?

Vandré: “Pagam o que querem. Não existe controle. Não existe critério. Se nós tivéssemos direito de autor, teríamos os direitos conexos, direitos de marcas, patentes, propriedade industrial. É um assunto complexo. Mas aí não seríamos subdesenvolvidos“.

Você foi o único grande nome daquela geração que não voltou aos palcos – entre eles, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque…

Vandré: “Eu não voltei. É uma boa pergunta: por que não voltei? Não mudou tudo ? Mas será que mudou ?As razões pelas quais me afastei continuam preponderantes no que que se apresenta como realidade brasileira”.

Se você fosse escrever um verbete numa enciclopédia sobre Geraldo Vandré qual seria a primeira frase ?

Vandré: “Criminoso (ri)”.

Por quê ?

Vandré : “O que você chama de governo ainda me tem como anistiado por haver cantado as canções que cantei. Fui demitido do serviço público por causa das canções. O que se apresenta como governo no Brasil até hoje cobra impostos sobre o “corpo de delito” que foram as canções que fiz. Deu para entender agora ? “.

Você foi punido pelo governo da época, perdeu o emprego público…

Vandré: “Fui demitido. Depois, retornei. Briguei, briguei, briguei..”

Em algum momento, você foi considerado “criminoso”…

Vandré: “Fui demitido por causa da canção. E essa canção que foi motivo de minha demissão até hoje é…Voltei por força de um despacho dado com fundamento na Lei de Anistia, como se eu fosse criminoso. Anistia é para criminoso – condenado por sentença transitada em julgado, se ele aceitar. Porque ele pode não aceitar. Aceitar a anistia significa aceitar-se criminoso, beneficiário de anistia”.

Você acha que a grande injustiça foi esta : em algum momento você ser considerado um criminoso ?

Vandré: “Injustiça não é a palavra…”

Você teria cometido um “delito de opinião” …

Vandré: “Não. Era subversão mesmo, sob certos aspectos, porque não havia nada mais para fazer naquele instante. Não me lembro. Mas as Forças Armadas, propriamente ditas, entenderam muito melhor do que a sociedade civil. Nunca tive nenhum problema com as Forças Armadas propriamente. Sempre houve uma consideração e respeito entre nós”.

Hoje, você nega que tenha sido em algum momento um antimilitarista nos anos sessenta ?

Vandré: “Nunca fui antimilitarista. Nunca assumi tal posição. Fui lá e falei o que queria dizer, numa canção que foi dita e cantada no Brasil diante de todo mundo. A canção foi cantada para os soldados, também”.

O grande equívoco sobre Geraldo Vandré foi este : achar que você era antimilitarista ?

Vandré : “Não houve, na realidade, um grande equívoco. Houve uma grande manipulação porque, quanto mais proibido, mais sucesso fazia; mais se vendia; menos conta se prestava. É uma questão muito séria”.

Qual foi a última manifestação artística que despertou o interesse e a curiosidade de Geraldo Vandré no Brasil ?

Vandré: “Passei quatro anos e meio fora do Brasil. Quando voltei, havia uma coisa muito importante que era o Movimento Armorial. Havia o Quinteto Armorial e a Orquestra Armorial. A sonoridade era muito condensada. O resultado era importante. Para mim, foi a coisa mais importante que aconteceu nos últimos tempos. Não me lembro de outra coisa que tenha ido além daquilo”.

E da produção recente, alguma coisa chamou a atenção do Geraldo Vandré ?

Vandré: “Nada. Tiririca (ri). Dizem que vai ser o deputado mais votado de São Paulo. Está bom ? “.

Você disse, numa discussão na época dos festivais: “A vida não se resume a festivais”. Hoje, tanto tempo depois dos festivais, qual é o principal interesse do Geraldo Vandré ?

Vandré : “São as outras coisas que não estão nos festivais. Minha vida funcional – de que cuidei até me aposentar; as minhas relações com a Força Aérea, o meu projeto de fazer estas gravações na América espanhola…Tenho muita coisa para fazer”.

Outro grande nome que se celebrizou como opositor do regime militar na música brasileira foi Chico Buarque de Holanda. Você acompanhou o que ele fez depois ?

Vandré: “Chico teve um caminho diferente do meu. Não chegou a parar. Produziu muito durante aquela época em que eu estava fora. Chico ficou aqui. Saiu e voltou, saiu e voltou. Passei quatro anos e meio fora. Quando voltei, fiz uma tentativa de apresentação num programa de televisão. Não vem ao caso qual, mas não gostei do que aconteceu: o jogo de pressões que se fez em volta. Recuei. Depois, passou-se um tempo. A própria Globo queria fazer um festival. Chegaram a me procurar. Não tive interesse em participar”.

O que é que a produção de Chico Buarque significa para você ?

Vandré: “Chico é uma pessoa muito talentosa, muito importante. Um grande artista”.

Você perdeu o contato com todos os seus companheiros de geração na música ?

Vandré: “Nunca fui muito enfronhado no meio artístico. Fazia minhas coisas. Voltava para minhas atividades extramusicais”.

É verdade que você ficou escondido na casa da família Guimarães Rosa antes de ir para o exílio ?

Vandré: “Eu saí de circulação. Depois que o tempo foi passando, as coisas vão ficando claras: as Forças Armadas propriamente ditas não tinham nada contra mim. Não tomaram nenhuma iniciativa contra mim. Quando fecharam o Congresso Nacional, no dia 13 de dezembro de 1968, eu estava indo para Brasília para fazer um espetáculo.Evidentemente, suspendemos o espetáculo. Vim de carro – guiando – até São Paulo. Eu estava à mão das Forças Armadas….Nunca deixei de estar. Mas claro que algo poderia acontecer: ao andar à toa pela rua, eu poderia de repente encontrar um “guardinha de trânsito” que quisesse fazer média. Há sempre alguém que quer tirar proveito de situações assim. Para evitar, saí de circulação. Durante um tempo, estive na casa de Dona Aracy (viúva de Guimarães Rosa – que tinha morrido meses antes). Fiquei lá porque, quando vinha para o Rio, como não tinha casa aqui, sempre ficava na casa de amigos e de pessoas conhecidas”.

Por que você tomou esta decisão tão drástica – de interromper uma carreira de tanto sucesso ?

Vandré: “Decidir sair do Brasil naquele ano de 1968. (N:Os mesmos agentes que prenderam Caetano Veloso e Gilberto em São Paulo,em dezembro de 1968, tentaram prender Geraldo Vandré. Mas, avisado por Dedé, à época mulher de Caetano Veloso, Geraldo Vandré conseguiu escapar a tempo)  Eu tinha uma programação para fazer fora do Brasil. Tinha um contrato com a televisão Bavária,na Alemanha, para fazer um filme sobre Geraldo Vandré. Fui fazer. Passei um ano e meio pela Europa. Depois, voltei para o Chile – para onde eu tinha ido do Brasil. Havia muitos brasileiros lá ainda. De lá, fui para o Peru. Ganhamos um festival em Lima em 1972 com uma canção que era a única não cantada em espanhol. Era cantada em “brasileiro” mesmo. O Brasil não conhece a canção.Chama-se “Pátria Amada Idolatrada, Salve, Salve – Canção terceira”.

Você se lembra da letra ?

Vandré : “Eu me lembro. É uma canção que foi feita para ser cantada por um homem e uma mulher. Existe de caso pensado – coincidentemente – uma confusão de sentimentos entre a ideia da pátria e a ideia da mulher amada.O homem canta: “Se é pra dizer-te adeus/ pra não te ver jamais/Eu – que dos filhos teus fui te querer demais-/no verso que hoje chora para me fazer capaz da dor que me devora/quero dizer-te mais/ que além de adeus/ agora eu te prometo em paz levar comigo afora o amor demais”.

E a mulher, cuja imagem se confunde com a noção da pátria, responde:

“Amado meu sempre será quem me guardou no seu cantar/ quem me levou além do céu/além dos seus/e além do mais/ amado meu/ que além de mim se dá/não se perdeu nem se perderá”.

Os dois cantam juntos um para o outro. É um contraponto”.

Você foi constrangido a gravar, em 1973, um depoimento em que negava que fosse militante político. Qual foi o peso deste depoimento na decisão de Geraldo Vandré de interromper a carreira ?

Vandré: “Nunca fui constrangido a declarar que não tive militância política. Nunca tive militância político-partidária. Nunca pertenci a nenhum partido. Nunca fui político profissional. Não fui obrigado a dizer que não era militante. Nunca fui militante político. Nesta contemporaneidade em que estamos, eu me lembrei de um professor de Filosofia que dizia: “O homem é um animal político”. Sou uma qualidade de animal político que não depende de eleição. Vamos estudar a diferença entre política e eleição ?”.

Que lembrança você guarda deste depoimento ? Você foi levado para uma sala do aeroporto de Brasília e gravou um depoimento em que – de certa maneira – renegava ….

Vandré (interrompendo) : “É um assunto que ficou muito confuso. Não me lembro exatamente. Gostaria de ver a declaração…”

Você gravou o depoimento quando voltou do Chile…

Vandré: “Gostaria de ver, porque houve montagens. Era gravação. O que foi para o ar não sei”

O depoimento criou espanto na época, porque – de certa maneira – era você negando a militância política…

Vandré: “Nunca fui militante. Se engajamento político é pertencer a um partido, nunca pertenci a nenhum. Nunca fui engajado politicamente”.

Você obrigado a gravar este depoimento ? Fazia parte do acordo para voltar para o Brasil ?

Vandré: “Queriam que eu fizesse uma declaração. Não me lembro o que foi que disse. Mas eu disse coisas que poderia dizer. O que eu disse era verdade. Não disse nada que não tenha querido dizer. A TV Globo deve ter isso. Procure lá…”

A gente procurou e não encontrou….

Vandré: “Pois é:  somem com tudo. Que loucura essa…Por quê ? Veja se acha o vt do Maracanãzinho. É o que tem Tom Jobim. É o mesmo vt. A minha parte sumiu. Por quê ? Fizeram uma retrospectiva do Festival. Botaram o Festival no Maracanãzinho- Tom,Chico, todo mundo, Cynara e Cybele. Mas,na hora de botar o Geraldo Vandré, usaram um filme feito na Alemanha, em que eu estava de barba. Não é certo”…

Talvez tenham recolhido o filme…

Vandré: “Para mim, é muito difícil acreditar que a TV Globo tenha se desfeito do filme. Não acredito. Devem estar guardando muito bem guardado”

Só para esclarecer este episódio sobre o depoimento que você gravou quando voltou do exílio : que lembrança exatamente você tem ? Quem pediu a você para gravar este depoimento ?

Vandré: “Aquelas declarações foram feitas para uma pessoa que se me apresentava como da Polícia Federal. Fiz um depoimento aqui. Depois, disseram que eu tinha de ir para Brasília. Cheguei ao Brasil no dia 14 de julho. Dois meses depois, apareço como se estivesse chegando em Brasília. Aquilo foi uma manipulação. O depoimento foi gravado antes. Gravaram-me descendo do avião em Brasília. Tudo muito manipulado. É esta a história dos vts: normalmente, temos esta doença. Estou falando aqui. O que vai ser mostrado vai ser uma seleção que a estação vai fazer. Não vai ser o que estou dizendo. Isso é muito sério”.

Para encerrar o assunto: o depoimento teve um peso na decisão de interromper a carreira ? Você ficou incomodado com aquilo ?

Vandré: “Não. Eu estava chegando e vendo como estavam a coisas. Não tinha a menor noção da realidade. Tive de passar por um processo de adaptação no retorno ao Brasil”.

O grande mistério que existe sobre Geraldo Vandré durante todas essas décadas é, afinal de contas, o que aconteceu com ele depois da volta do exílio: você foi maltratado fisicamente ?

Vandré: “Não. Não”

Se você tivesse a chance hoje de se dirigir a uma plateia de jovens num festival, o que é que você diria a eles ?

Vandré: “Vamos ter de dar um tempo aí, não é ?…” (rindo)

Um “tempo” de quantos anos ?

Vandré: “Não sei. Agora, vocês vão votar para presidente, deputado, senador. Estão ocupados com outras coisas. Estou por fora”.

Que papel você acha que vai caber a Geraldo Vandré na história da música popular brasileira moderna ?

Vandré: “Nunca fiz este tipo de avaliação”.

Que papel você espera ter ? Você se acha suficientemente reconhecido ?

Vandré: “Obtive o reconhecimento que procurei e quis”.

Você em algum momento se arrepende de ter interrompido a carreira ?

Vandré: “Não. Porque raramente me arrependo das coisas que faço. Calculo bem, reflito bem, meço bem : quando faço é para ficar feito mesmo. Não existe arrependimento não”.

Para efeito de registro histórico: você, primeiro, não se considera antimilitarista…

Vandré: “Não…”

Segundo: você não foi maltratado fisicamente durante o regime militar…

Vandré: “Não…”

Terceiro: você disse o que quis no depoimento que você foi forçado a gravar quando voltou do exílio…

Vandré: “E em quarto: há o Quarto Comando Aéreo Regional…Tenho uma canção para o “exército azul”, a Força Aérea…(ri e exibe o brasão da Aeronáutica, impresso numa espécie de cartão de visita que traz, no verso, a letra de “Fabiana“). A aviação é muito bonita. A loucura é a aviação. Porque a maior loucura do homem é voar. Conhece loucura maior do que esta ? Não existe”.

Como é que surgiu a fascinação de Geraldo Vandré pela aviação ?

Vandré: “Desde pequeno, desde criança”.

Você gostaria de ter sido aviador ?

Vandré: “É. Não fui aviador militar. Não sou piloto, mas – de certa forma – sou aviador, porque me ocupo de assuntos da aviação. Uma coisa é aviador, outra é piloto. Você pode ser piloto, co-piloto, rádio navegador, mecânico de bordo, médico aviador. Há vários caminhos – não necessariamente tem de ser piloto…”.

O fato de você ter composto uma música em homenagem à Força Aérea criou um certo espanto. Hoje, você se hospeda em hotéis da Aeronáutica, como este. Nós estamos num ambiente militar…

Vandré :”Relativamente, porque este é um instituto de direito privado…”

Houve alguma mudança na postura do Geraldo Vandré ou não em relação às Forças Armadas ?

Vandré : “O que houve foi o reconhecimento de uma parte da sociedade que nunca tinha tido oportunidade de saber realmente quais eram as minhas posições”.

Em que situação Geraldo Vandré voltaria a um palco hoje ?

Vandré:”Depende de onde. Tenho uma programação na qual invisto meu tempo e minhas energias : gravar um disco no exterior, num país de língua espanhola. É minha prioridade. Depois, vou ver minha programação para o Brasil. Escrevi umas trinta canções originalmente em “americano de habla hispânica”. Quero gravar num país de música espanhola, com músicos de lá. Minha prioridade comercial é esta. Para o Brasil, por ora, o projeto é a canção da Força Aérea mesmo – e um projeto sinfônico. A canção se chama Fabiana porque nasceu na FAB – em sua honra e em seu louvor”.

Você, hoje, então prefere compor peças sinfônicas ?

Vandré: “Tenho estudado música. Compus uma série de estudos para piano – aproveitando da técnica de uma jovem pianista de São Paulo. Mas a música ganhou outras dimensões. Passou a ser física e matemática. Ritmos do coração. Fica mais complicado,mas, para mim, é música”.

Você tem planos de gravar a música que você fez em homenagem à FAB ?

Vandré: “Claro. Já fizemos uma apresentação numa festa da Força Aérea em torno das comemorações da Semana da Asa, em São Paulo, com um coral de trezentos infantes. Uma coisa muito bonita. Com o tempo, vamos ver quais são alternativas que se colocam”.

Você declarou algumas vezes : “Geraldo Vandré não existe mais….”

Vandré ( interrompendo) : “Não, não declarei. Eu disse que ele não canta no Brasil comercialmente. Apresentei uma canção para a Força Aérea do Brasil. Não canto comercialmente no Brasil porque os problemas todos que tive de enfrentar resultaram de especulações comerciais: vendas clandestinas, câmbio negro, tudo isso. Quanto mais se proibia, mais se vendia. A sociedade, às vezes, tem essa doença”.

Você canta “Disparada” hoje, em casa ?

Vandré : “Não. Faz tempo que não pego num violão. Tenho de voltar a estudar”.

Que instrumento, então, você toca ? Piano ?

Vandré :”Não. Não sou pianista. Toco de improviso alguma coisa”.

Pelo menos duas músicas que você compôs são conhecidíssimas até hoje: “Disparada” e “Caminhando”.

Vandré ( interrompendo) : “Pelo menos duas…”

Se você fosse escolher uma, que música você escolheria como típica da produção de Geraldo Vandré ?

Vandré: “Disparada” é mais brasileira, tem uma forma mais consequente com a tradição das formas da música popular : a moda de viola. “Caminhando” já é mais urbana. É uma crônica da realidade. É a primeira vez que fiz uma crônica. Deu no que deu. A realidade não estava muito querendo ser…”

Retratada…A obra-prima de Geraldo Vandré qual é ?

Vandré: “Todas são iguais. Para mim, são todas iguais. Isso de obra-prima é uma questão de seleção e de predileção do público, os meios de comunicação e os chamados formadores de opinião”.

Mas você deve ter uma predileção pessoal…

Vandré: “Não tenho. É tudo igual mesmo”.

As peças sinfônicas você compõe como ?

Vandré : “As melodias, algumas harmonias…Para escrever em notas convencionais, preciso da escrita de pessoas que estão muito mais afeitas a esta tarefa do que eu.Eu levaria anos para escrever uma partitura. Jamais escreveria como alguém que faz parte de uma orquestra, lê e escreve na hora, à primeira vista. Hoje,estou dedicado a preparar um poema sinfônico cuja abertura coralística será a Fabiana, a canção que fiz para a Força Aérea”.

Você hoje se animaria a fazer um espetáculo para o público brasileiro ?

Vandré :”Não.Para o público brasileiro, só uma coisa muito especial”…

Em que situação você voltaria a se apresentar no Brasil ?

Vandré: “Chegamos a cogitar de fazer uma apresentação da Fabiana no Clube de Aeronáutica. É um dos projetos de que chegamos a nos ocupar. Mas até agora as coisas ficaram postergadas, porque o clube vai entrar em reforma. Vêm aí as Olimpíadas Militares. O clube vai ter de se adequar”.

Qual é a grande inspiração que você tem para compor essas peças sinfônicas ? O que é que motiva você a compor ?

Vandré: “Nunca dependi muito da palavra inspiração. Escolhia os temas. O fundamental para mim é a memória que tenho do que ouvia no cancioneiro popular, as músicas de desde a minha infância”.

O público brasileiro ainda vai ter chance de ver Geraldo Vandré cantando “Caminhando” e “Disparada” no palco ?

Vandré: “Isso é profecia. Não sou profeta”.

O que é que levou você a fazer uma música em homenagem à FAB, a Força Aérea Brasileira, você, que era tido nos anos sessenta como antimilitarista ?

Vandré: “Era tido. Por quem ? Isso deveria ser perguntado para os que a mim me tinham como antimilitarista.Não sou militarista. Mas também não sou anti. Todos os países soberanos do mundo têm suas forças armadas. O que é que devemos fazer com as nossas ? Entregá-las para outras pessoas ? Vamos fazer isso ? Acho que não!

Chamo de “Fabiana” porque nasceu na FAB. Costumamos dizer assim: uma servidora da FAB é “fabiana”. A letra diz : “Desde os tempos distantes de criança numa força,sem par, do pensamento teu sentido infinito e resultado do que sempre será meu sentimento/todo teu/todo amor e encantamento/vertente.resplendor e firmamento/ Como a flor do melhor entendimento/a certeza que nunca me faltou/na firmeza do teu querer bastante/seja perto ou distante é meu sustento/ De lamentos não vive o que é querente do teu ser no passado e no presente/Do futuro direi que sabem gentes de todos os rincões e continentes/que só tu saber do meu querer silente/porque só tu soubeste, enquanto infante, das luzes do luzir mais reluzente pertencer ao meu ser mais permanente”.

O refrão é, coincidentemente, um contraponto de “vem/vamos embora/ que esperar não é saber” : “Vive em tuas asas todo o meu viver/ meu sonhar marinho / todo amanhecer”.

Termina a entrevista. Já são quase sete da noite. O Grande Solitário da MPB caminha em direção à escadaria que dá acesso à ala de hóspedes do hotel que funciona no Clube da Aeronáutica. Parte sozinho. Vai em companhia do único habitante do Brasil que Geraldo Vandré criou para si: o próprio Geraldo Vandré.

UM SHOW DE MÚSICA PELO PLANETA – editoria

Um show imperdível!

Basta clicar e assistir a uma coisa absolutamente impressionante, técnica e musicalmente.Trata-se de um grupo de pessoas, que não se conhecem entre si . É aqui que entram os técnicos de som e imagem voluntários e sem remuneração, que se ocuparam de captar o som de cada um dos “cantores”, individual e mundialmente (são atuações ao ar livre e isso é extremamente difícil de fazer sem “ruídos exteriores”). Posto isto e remixado, atingindo um nível de pureza musical notável, chegamos a esta maravilha musical conseguida através de alta tecnologia, e que num instante, junta as pessoas de todo o mundo, fazendo-as sentir e falar ao mesmo tempo a mesma linguagem universal… a música. Momentos como este, de grande dedicação e generosidade, fazem-nos ainda ter alguma esperança na “raça humana”.

CLIQUE : SHOW

ROTAS DESCULPAS por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

  • Alastrou-se, pelo Brasil e pelo mundo, uma epidemia universal de desculpas esfarrapadas. É a CNBB pedindo desculpas aos índios do Brasil pela catequese que não respeitou a cultura autóctone. É o Vaticano pedindo desculpas a Israel e aos judeus pela inércia do papa Pio XII diante do terrorismo nazista e do Holocausto.

    É a Europa rogando desculpas aos países africanos que colonizou, drenando riquezas, alimentando apartheids e fermentando dívidas. São os sacerdotes pedófilos da diocese de Boston, EUA, pedindo desculpas às famílias das crianças que um dia molestaram. Mais um pouco e assistiremos ao arrependimento do próprio Torquemada, o inquisidor-mor, pelos cristãos que mandou para a fogueira mediante a mera suspeita de “bruxaria”.

    Desculpas só pareceriam válidas se acompanhadas de arrependimentos. O verdadeiro pesar pelo mal cometido. Arrependimentos são atos de contrição devotados à verdade.

    Arrepender-se é sentir genuína mágoa pelos malfeitos cometidos, aceitando-os como “errados” e “lamentáveis”. É, geralmente, um sentimento nobre e inócuo, resultando em desculpas sinceras ou apenas “oportunistas”.

    Ora, se insistem em pedir desculpas aos primeiros habitantes do Brasil, os bispos precisariam renegar a própria igreja, a cruz que velejou com Cabral e a Primeira Missa de frei Henrique Coimbra, sem a qual não haveria cristianismo no Brasil. Se a “catequese” respeitasse integralmente a cultura do índio, não haveria CNBB. E, ao invés de festejarmos o Natal, em dezembro estaríamos nos pintando para o Quarup, dançando com os pajés do Alto Xingu.

    O arrependimento precisa ser eficaz, ensina o Direito Penal. Mas, na vida real, o que é arrependimento “eficaz”?

    Desculpas servem apenas aos que cortejam indulgências capazes de tornar menos pesado o fardo dos pecadores. Interessa, portanto, mais aos delinquentes do que às suas vítimas.

    No Brasil, não é incomum o sujeito espancar a mulher e depois… pedir desculpas, antes de voltar a bater.

    O Vaticano, através de Bento XVI, pediu desculpas aos judeus pela omissão da Igreja no Holocausto, mas mantém em estágio adiantado o processo de canonização de Eugênio Pacelli, o papa Pio XII, que, podendo, nada fez para denunciar ao mundo o apocalipse nazista.

    Pior: Pacelli, núncio apostólico na Berlim de 1933, tornou-se parceiro de Hitler ao acertar com ele uma “concordata”. O acordo concedia à Igreja Católica alemã a tolerância do novo regime em troca de um afastamento da sua ação social e política. Durante a “solução final”, de 1940 a 1944, a voz do Papa jamais se fez ecoar com toda a sua autoridade moral. John Cornwell, jornalista do britânico The Independent e professor de Cambridge, reconstitui com tintas dramáticas essa “omissão de socorro” no seu instigante livro O Papa de Hitler – A História Secreta de Pio XII.

    Haverá pedido de desculpas mais inócuo do que esse, lavando com lágrimas tardias o Muro das Lamentações? O pedido de desculpas de Neymar a Dorival Júnior resultou inócuo, pois o técnico acabou demitido… Mas teriam sido sinceros os pedidos de desculpas? E o técnico, que pretendeu eternizar a culpa de Neymar, punindo o futebol, também não tem lá a sua culpa? Um pedido de desculpas dos cristãos aos tupiniquins que receberam Cabral na manhã do dia 22 de abril, há 510 anos, somente seria verdadeiro se, agora de manhãzinha, saíssemos todos de tanga, arco e flecha para caçar e pescar…

    Se preferimos nos “abastecer” no sortido armazém da esquina, pronto: o arrependimento soa tão “postiço” quanto um índio bororó.

  • Dupla âncora

    Enquanto, na maior nação costeira do mundo, os hotéis e resorts querem afundar os navios de turismo marítimo, a Royal Caribbean e o trade hoteleiro de Miami e Orlando celebram um pacote complementar, a que deram o nome de “Mais do que um Cruzeiro”. Combina o melhor da terra e do mar para oferecer aos turistas. Junta o cruzeiro pelo Caribe com a hospedagem nos melhores hotéis dos parques temáticos de Orlando ou do waterfront de Miami.

  • Calendário

    A prefeitura vai esperar a alta temporada para dar início ao recapeamento da Avenida Beira-Mar. Se não acontecer novo e previsível adiamento, as obras devem começar em novembro.

    Se não, só depois do Carnaval, como tudo no Brasil. Até lá, talvez a outra Beira-Mar, a Continental, freeway de fantásticos dois quilômetros, talvez já tenha sido inaugurada. Mas nunca se sabe. O calendário da prefeitura não é o mesmo de São Gregório.

  • Dilma & controles

    Em meio a um surto de apedrejamento da imprensa, como se houvesse baixado sobre o país inspiração regida pelo doidinho Mahmud Ahmadinejad, a candidata Dilma Rousseff produziu frase em que reluz uma boa esperança: “Por mim, podem falar tudo o que quiserem. O único controle social que eu aceito é o do controle remoto na mão do telespectador”.

Em lugar do lobo do homem, o irmão do homem – por alceu sperança / cascavel.pr


Sempre que a crise bate no pescoço dos EUA e da Europa, alegres manifestantes financiados por interesses já bem conhecidos saem às ruas para “protestar” contra a China e pedir a “libertação” do Tibete.

Como a crise de hoje parece ser a mãe de todas as crises, as manifestações são ainda mais ruidosas e “humanitárias”.

O desejo de criar mais nações, para que com elas os EUA possam fazer “acordos bilaterais”, como os feitos com a infeliz Colômbia, é parte da estratégia do dividir para reinar.

Enquanto a tendência mundial é unir para fortalecer – União Europeia, Mercosul, reunificação dos Vietnãs, das Alemanhas e agora, se os EUA novamente não embaçarem, das Coreias −, os saudosistas da Guerra Fria, com sua enorme sede de sangue, apostam na “libertação” de povos indígenas e outros segmentos étnicos.

Aproveitando que a Europa cai na noite escura do racismo, nas mãos de gente como Sarkozy (França) e Berlusconi (Itália), a ultradireita avança nos países da derrotada social-democracia: Suíça, Suécia…

Por isso, fora, moreninhos brasileiros e latino-americanos! Voltem para casa e se dividam em territórios divididos e fáceis de dominar.

Como a solução capitalista para as grandes crises sempre foi a guerra, quanto mais povos forem instigados a se “libertar” (de quem, se os banqueiros mandam no mundo inteiro?), mais armas podem ser vendidas numa conta que será cobrada depois em matérias-primas e juros altos.

O Tibete é muito cobiçado. A Índia quer um pedaço, Taiwan quer o Tibete inteiro. Os religiosos (lamas) querem governar. Eles nem questionam o Tibete ser uma região autônoma da China: só querem poder.

O “poder espiritual” quer lidar com o cofre público. Mas os tibetanos têm o direito de não ter religião ou seguir a religião que desejarem, sem ficar submetidos aos ditames dos “lamas”, que se julgam encarnações de seres divinos.

E assim, desde 1965, quando o Tibete se tornou uma região autônoma, sempre que há uma crise no Ocidente, requentam-se as agressões armadas ao Tibete na ânsia de criar “fatos novos”.

Mas é coisa velha, bem velha. Em nome da “independência do Tibete”, na Guerra do Ópio, os ingleses dominaram a região (década de 40 do século XIX), voltando em 1888, 1903 e 1904.

Um discurso de independência e uma prática de escravidão. Será difícil os tibetanos esquecerem que na segunda ocupação inglesa ocorreu o massacre de tibetanos pelos “humanitários” ingleses, que interromperam a marcha da tocha olímpica em 2008 mas não parecem capazes de interromper a marcha da própria crise, iniciada naquele setembro nos EUA.

Cada qual acredita nas ilusões que bem entender. Mas foi uma canalhice descomunal tentar levar as Olimpíadas da China ao fracasso. Elas pertencem à juventude mundial: são raros momentos em que o homem supera seus limites, cria novos recordes e desafios.

Sejam no Canadá, Coreia, Japão ou China, as Olimpíadas pertencem ao mundo esportivo, não a interesses egoístas, políticos ou religiosos. Felizmente quebraram a cara, pois a China espantou o mundo com sua competência coletiva.

O ódio racista disseminado à larga hoje na Europa, que aproveita o medo americano, a pretexto de prevenção ao terrorismo, facilita a onda pseudo-nacionalista.

Essa onda, na verdade racista, barra as fronteiras aos nossos pobres da mesma forma que tenta invadir outras fronteiras pela força das armas, como se fez recentemente no Equador e sempre se tenta fazer no Tibete, criando novos Iraque e Afeganistão.

Para vencer a escuridão do racismo e essa malandra campanha para dividir países (volta e meia se fala em rachar o Brasil em três ou quatro e a Bolívia em dois) só a democracia verdadeira, em que o homem seja irmão do homem e tenha na comunhão de interesses a busca da felicidade.

Sem essa de dividi-los em exércitos para que se trucidem uns aos outros.

A IMAGEM DE UM NOVO PAÍS E DE UM TRISTE PASSADO !

Minha amiga de Facebook Ronilda Oliveira me manda estas duas fotos publicadas no ótimo blog Maria Frô, mostrandodois momentos da história deste país. Na foto de cima, aquele de quem não se fala o nome, bate o martelo da privatização da Ecelsa, a distribuidora de energia do Espírito Santo, a primeira do setor elétrico a cair no massacre do setor, promovido pelo governo (?) Fernando Henrique Cardoso.
A da parte de baixo, tirada hoje, quando os diretores da Petrobras e o Ministro da Fazenda, Guido Mântega, cercam o presidente Lula no momento da conclusão da capitalização da Petrobrás, que devolveu ao país o controle da, agora, segunda empresa petroleira do mundo, que passa a ter condições de explorar a imensa riqueza do pré sal.
Tão poucos anos de diferença mas, se você pensar, séculos de distância.
De um lado, o Brasil colônia, dependente, alienado ao estrangeiro, submisso, vendido.
De outro, o Brasil que se prepara para o futuro, autônomo, confiante, dono de si e de seu destino.
Estas duas imagens vão se enfrentar em 3 de outubro.
É possível ter dúvidas sobre qual delas triunfará?

PHA.

WALMOR MARCELLINO, um ano de ausência – por dinah ribas pinheiro / curitiba

O poeta que fazia política e livros

Se ainda estivesse por aqui o jornalista Walmor Marcelino estaria com certeza indignado com o comportamento dos políticos na campanha eleitoral do próximo dia 3 de outubro. Imagina então, contra a morosidade do Supremo em julgar a imediatização da Lei da Ficha Limpa.   O poeta sensível que deixou dezenas de livros publicados era, sobretudo, um cidadão preocupado com os assuntos da cidade, do Estado e do país. Com oitenta anos, sem aparentar a idade, Walmor completa um ano defalecimento neste sábado, dia 25. No seu último livro, Ulciscor, publicado postumamente no início deste ano, ele mescla memória política e poesia, dois temas recorrentes na sua biografia.

Polêmico, com idéias consistentes, era constantemente convidado a participar de debates organizados pelos alunos de Jornalismo e membros de organizações culturais. Durante muitos anos era comum encontrá-lo na Boca Maldita, no centro da cidade, distribuindo seus livros, publicados sem a intenção de retorno financeiro e discutindo com os companheiros seus temas prediletos. Desde a sua partida a “Boca”, ficou mais pobre. A família tem um plano que vai trazer de volta um pouco da sua memória e sensibilidade. No seu aniversário, em março do próximo ano, deverá ser publicada uma coletânea de todos os seus poemas escritos em diversas fases da sua existência, muitos deles ainda inéditos.

Socialista marxista, Walmir Marcelino, participou ativamente de todos os movimentos políticos que ocorreram no país. Antes de 1964 foi ativista nas manifestações nacionalistas e populares e membro do Partido Socialista Brasileiro (PSB), que ajudou a recriar no Paraná em 1968. Em agosto de 1961 teve importante papel na Campanha da Legalidade contra os golpistas que pretendiam impedir a posse de Jango Goulart. Processado pela Justiça Militar por ter integrado o Jornal Última Hora (1951-1971), participou de grupos de teatro e de experiências pedagógicas.

Funcionário da Assembléia Legislativa do Paraná,  foi demitido logo após o Golpe de 64. Participou ativamente das lutas populares pela redemocratização do Brasil, pela anistia aos presos políticos e pelas Diretas Já. Em 1965 mobilizou intelectuais para juntos publicarem o livro de contos “7de Amor e Violência”. Desta coletânea participaram também Elias Farah, Jodat Nicolas Kury, Nelson Padrella, Oscar Milton Volpini, Sylvio Back e Valêncio Xavier. Sobre esta obra histórica, o cineasta Sylvio Back publicou no início de setembro, no Jornal Folha de São Paulo, o artigo “ O livro Encarcerado”, onde ele narra detalhes deste importante episódio recente da literatura parananese. Na capa do livro, assinada pelo artista plástico Álvaro Borges, uma imagem que também virou memória: Um punhal estilizado aparecia prestes a perfurar o coração de uma figura feminina. Uma tarja no livro com uma frase considerada “subversiva” pelo Dops, provocou o confisco dos exemplares ainda em circulação, inviabilizando a edição seguinte.

Catarinense de Araranguá, mas residindo em Curitiba há quase 40 anos, ele foi uma usina de idéias e projetos que iam desde escrever seus poemas e romances que falavam de amor, morte, amizade e política, até a organização de seminários, formação de centros de pesquisa e militância em partidos políticos, todos de esquerda. Acreditava que seria possível um mundo mais justo e que a política e o engajamento cultural poderiam ajudar a salvar o homem. Prova disso foi sua participação no Grupo Quixote, de Porto Alegre, junto com outros idealistas da literatura e das artes. Iniciou no Jornalismo em Florianópolis e em Curitiba trabalhou nos jornais Diários do Paraná, Estado do Paraná, Radio Independência, Revista Panorama, Tribuna da Luta Operária, Jornal da Indústria e Comércio e Gazeta do Povo. Nos últimos anos exerceu o jornalismo por meio do blog walmormarcelino.blogspot.com, onde se expressava com a mesma coerência com que pautou toda a sua vida.


BATER DE ASAS de walmor marcellino / curitiba


De ter feito os exercícios
não me adonei da arte.
Posso falar das tentativas
limitadas, circunstanciais
em que me empenhei,
e dos anti-resultados, os pífios
sucessos que me couberam.

Tenho pertinência em apontar
os alvos e descrever caminhos e processos
em que trotei compelido,
e fui atropelado de ânsias e urgências.

Sem pretensões nem escusas, hoje
devo mais confessar do que proclamar:
o homem é seu alvo e suas frechas;
o homem é seu projeto e seus meios;
o homem não é senão sua própria estrutura;
porque necessita, porque deseja, porque se impõe.
À sua natureza aparentemente conhecida
à sua característica enovelada pelos desejos
cada um de nós acresceu a sua cultura
e utopias.

Então, sejamos esse projeto
mas sob advertência do que é
insistentemente procurado, hipoteticamente conseguido…
e satisfatoriamente alcançado.
E seus fracassos, naturalmente.

“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma” – Joseph Pulitzer

Verônica Dantas, irmã do banqueiro e Verônica Serra, filha do candidato, sócias em uma empresa em Miami, quebraram o sigilo de 60.000.000 (milhões ) de brasileiros quando SERRA era ministro e FHC presidente. A imprensa, dita democrata, que formam o PIG- PARTIDO DA IMPRENSA GOLPISTA, FOLHA DE SÃO PAULO, V E J A, O ESTADO DE SÃO PAULO e outros, NÃO SABEM DE NADA, não apuram nada, não…NADA ! $$$$$

DEUS IMPERFEITO de zuleika dos reis / são paulo



Palavras criaram espelhos

em cada espelho

o rosto do outro projetado.

Palavras criaram lagos

em cada lago

a imagem de outro Narciso.

Palavras pararam

ponteiros dos relógios

enovelaram o mundo.

Palavras reviraram a vida

tão de dentro

que as árvores revelaram

o rosto do Sonho.

Palavras entre sonho e vida

de sinais trocados

teceram a história

que não explica o Abismo.

Assim, as horas ocultas:

Palavras.

Assim, eterno retorno do Mundo sem Memória:

Palavras.

Tempo inexistente anjo que se repete no Portal:

Palavras.

Sonho exausto querendo acordar de si mesmo:

Palavras.

Palavras desde sempre tardias a forjarem

organismos … de palavras.

Palavras:

Demiurgas de Simulacro.

Palavras:

Deus Imperfeito.

Palavras:

Sem perdão possível.

A GUERRA da imprensa comercial CONTRA LULA E DILMA – por leonardo boff / são paulo


O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta. Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa.


Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso”pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais” onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida, me avaliza para fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade do pais, ao Presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues ( Conciliação e Reforma) “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e nãocontemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles tem pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascendente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidene de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados de onde vem Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e de “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palabra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.

Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA faz questão de não ver, protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e no fundo, retrógrado e velhista ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes.

Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.

(*) Teólogo, filósofo, escritor e representante da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.

BESSINHA e as eleições em 2010

Descendo a Blumenau, subindo à nova frase – de tonicato miranda / curitiba


para aquela que nada sabe ser sempre ela

Deputados franceses aprovam

proibição aos véus islâmicos”

berra a manchete da Gazeta do Povo

no colo de alguém na minha

poltrona vizinha.

E o que tem eles

a ver sob o véu?

o que tenho eu

a ver sobre o véu?

Isto ainda vai dar

panos pras mangas.

E ainda vai sobrar

pro véu

Bom dia!

Acordar-te queria

mas não com tristezas.

Sepultarei elas em mim,

eu decreto

através de um telefone TIM.

A tristeza está morta.

Para ela fechei a porta.

Agora chegou a hora

do combate em campo aberto,

aos políticos distantes

e aos que estão perto.

Morte às quatro rodas

e aos motores à explosão,

incendeiem todos

besouros de lata,

mas protejam

caminhões e o busão.

Faz frio

nesta manhã sulina

mas meu coração arde

como o passeio na tarde

de uma bela menina.

Ah, quem me dera

ser o Sol,

ter o grito do maçarico

furar a camisola das nuvens

chegar até os braços dela

com meu anzol.

Será que a pescava?

Bobagem curta

a mim o olhar bastava.

Mas não só a menina

de saia curta

interessava

queria roubar do pintor

toda a paisagem

e da sua cara

a expressão de terror.

JORNAL “FOLHA DE SÃO PAULO” torna-se novamente aparelho do crime no Brasil – por mauro carrara /são paulo


A empresa que edita a Folha de S. Paulo foi braço físico da Ditadura Militar e da repressão.

Seu jornal Folha da Tarde era um QG dos grupos que sequestravam, torturavam e matavam.

A Folha de S. Paulo apoiou convenientemente os assassinos militares até o governo Geisel.

Depois, por motivos comerciais, vestiu a pele de cordeiro.

Recentemente, passou a delinquir novamente.

Passou a chamar a Ditadura de “Ditabranda”.

Forjou com o grupo Ternuma uma falsa ficha de Dilma Rousseff.

E agora comete o mais grave crime de campanha, ao construir uma fábula de calúnia acerca da gestão da candidata do PT na Secretaria de Minas e Energia do Rio Grande do Sul e na Fundação de Economia e Estatística (FEE), entre 1991 e 1992.

dê UM clique no centro do vídeo

As expressões utilizadas na matéria comprovam o CRIME de calúnia: “apontam favorecimento” e “mostram aparelhamento”.

A matéria foi produzida a partir de uma investida de “jagunços” autoritários da Folha que passaram dias no Rio Grande do Sul exigindo, ofendendo e ameçando pessoas, especialmente aquelas que cuidam dos arquivos públicos.

Mas em que parte da reportagem os agentes do PSDB travestidos de jornalistas mostram que todas as contas de Dilma foram aprovadas pelo TCE gaúcho?

A pergunta é: como podem promotores e juízes eleitorais autorizar esse tipo de crime de natureza eleitoral?

E os outros promotores e juízes: como podem permitir que a imprensa se transforme num instrumento de calúnia e destruição de reputações?

A ordem democrática vem sendo gravemente ameaçada mais uma vez.

Globo-Abril-Folha-Estadão seguem à frente nesta escalada neofascista, destinada a destruir a ordem institucional.

Que o partido de Dilma Rousseff leve sua justa reclamação ao horário da TV.

Os brasileiros de bem já não admitem a impunidade para os criminosos midiáticos.


MARILDA CONFORTIN e sua poesia II / curitiba

Pro par oxítono

Inóspito,
responde ríspido
a minha presença abrupta
em sua tela pálida
e impávido desconecta
rápido como relâmpago.

Erótico,
passeia de helicóptero
entre minhas pernas trêmulas,
derrete minha máscara
de lantejoulas pretas,
me despeja incandescente
sobre o piso de mármore
de um hotel barato da zona norte.

Artístico,
rabisca em minhas costas
a capa do próximo livro,
capta meus pensamentos
com máquina fotográfica
e me deixa atônita
com seus desenhos mágicos.

Cândido,
acolhe-me lírico
em seu crisálido peito,
sussurra blandícias,
bucólicos hinos
e me nina angélico,
o diabólico menino.

***********************************************

Garoto tolo…

Se não fosse para tê-lo,
por que eu iria pô-lo
em meu colo
assim,
nuzinho em pêlo?

***********************************************************

Disse-me:

No e trago mucho, pero te traigo siempre.
Fiquei bem quieta.
Ele, um poeta.
Eu, aguardente.

*****************************************************

Sem papo

Não, amigo…
Hoje eu não quero conversa.
Estou no meu melhor mau humor
e  não quero ouvir suas histórias de amor.
Sou avessa a versos amenos.
A menos que em vez de papo,
queiras levar um sopapo…

*****************************************************************

Naturezas mortas

Sumo, somes,
secas, seco,
escoas, escôo.

Escorres, escorro.
só corres, só corro.
Socorro!

Somos somente ecos
do que fomos.
Ah, essa maré de dó,
marré de si…
Pobre de ti, pobre mim
pobre dessa poesia pobre.

ITAJAZZ hoje / itajaí.sc

O GLOBO e o ato contra o GOLPE MIDIÁTICO – por altamiro borges /são paulo

O ato “contra o golpismo midiático e em defesa da democracia”, que ocorrerá nesta quinta-feira, dia 23, às 19 horas, na sede do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, parece que incomodou o poderoso monopólio da família Marinho. O site do jornal O Globo deu manchete: “Após ataques de Lula, MST e centrais sindicais se juntam contra a imprensa”. Já o jornal impresso publicou a matéria “centrais fazem ato contra a imprensa”. Como se nota, o império global sentiu o tranco!


Diante desta reação amedrontada, é preciso prestar alguns esclarecimentos. Em primeiro lugar, o ato do dia 23 não está sendo convocado pelas centrais sindicais, MST ou partidos. Ele é organizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, entidade fundada em 14 de maio último, que reúne em seu conselho consultivo 54 jornalistas, blogueiros, acadêmicos, veículos progressistas e movimentos sociais ligados à luta pela democratização da comunicação. A entidade é ampla e plural, e tem todo o direito de questionar as baixarias da mídia golpista.


As mentiras sobre o protesto


As manchetes e a “reporcagem” do jornal O Globo tentam confundir os leitores. Insinuam que o protesto é “chapa-branca” e serve aos intentos do presidente Lula, que “acusa a imprensa de agir como partido político”. A matéria sequer menciona o Centro de Estudos Barão de Itararé e tenta transmitir a idéia de que o ato é articulado pelo PT, “siglas aliadas”, MST e centrais. A repórter Leila Suwwan, autora do texto editorializado, cometeu grave erro, que fere a ética jornalística.


Em segundo lugar, é preciso explicitar os verdadeiros objetivos do protesto. Ele não é “contra a imprensa”, como afirma O Globo, jornal conhecido por suas técnicas grosseiras de manipulação. É contra o “golpismo midiático”, contra a onda denuncista que desrespeita a Constituição – que fixa a “presunção da inocência” – e insiste na “presunção da culpa” que destrói reputações e não segue os padrões mínimos do rigor jornalístico – até quem saiu da cadeia é usado como “fonte”.


Falso defensor da liberdade de imprensa


O Globo insiste em se travestir como defensor da “liberdade de imprensa”. Mas este império não tem moral para falar em democracia. Ele clamou pelo golpe de 1964, construiu o seu monopólio com as benesses da ditadura e tem a sua história manchada pelo piores episódios da história do país – como quando escondeu a campanha das Diretas-Já, fabricou a candidatura do “caçador de marajás”, defendeu o modelo destrutivo do neoliberalismo ou criminaliza os movimentos sociais.


Quem defende a verdadeira liberdade de expressão, contrapondo-se à ditadura midiática, estará presente ao ato desta quinta-feira. Seu objetivo é dar um basta ao golpismo da mídia, defender a soberania do voto popular e a democracia. Ele não é contra a imprensa, mas contra as distorções grosseiras dos donos da mídia. Não proporá qualquer tipo de censura, mas servirá para denunciar as manipulações dos impérios midiáticos, inclusive dos que são concessionárias públicas.

SÓ de vera lucia kalaari / portugal

Só, com este olhar de descrente,

De noites mansas sem estrelas,

Com este andar sem destino

Como rio deslizante

Fugindo em desvario.

Só, nestas asas desdobradas,

Em sonhos, em cavalgadas,

Cabelos ao vento atirados,

Batida pelo vento suão

No meu negro alazão.

Só, nesta brisa que chega

Cheirando a feno e a campo,

Na ribeira escondida

Perdida no mundo distante

Duma vida já vivida.

Só, no tempo que passa

Que é tempo perdido somente,

Tempo sem nada, só tempo.

Lula foi o presidente que modernizou o Brasil, diz jornal francês Le Figaro

DA BBC BRASIL

Uma reportagem na edição desta terça-feira do jornal francês “Le Figaro” afirma que Luiz Inácio Lula da Silva foi o presidente responsável por “modernizar o Brasil”.

O texto, que recebeu uma chamada na capa do “Le Figaro”, é assinado pela correspondente do jornal no Rio de Janeiro, Lamia Oualalou.

A reportagem conta a história de Ricardo Mendonça, paraibano de Itatuba que se mudou para o Rio de Janeiro à busca de emprego em 2003 e conseguiu entrar na universidade graças a uma bolsa do programa ProUni, do governo federal.

O jornal atribui o sucesso de Mendonça às políticas do governo Lula.

“Histórias como esta de Ricardo, o Brasil registra aos milhões. A três meses do fim do seu segundo mandato, este é um país mudado que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixará ao seu sucessor”, escreve o Le Figaro.

BARBUDO ONIPRESENTE

O jornal diz que quando Lula chegou ao poder, em 2003, o Brasil era um país sem “grandes esperanças” que havia finalmente dado uma chance a um “turbulento barbudo onipresente na cena eleitoral deste o restabelecimento da democracia”.

O “Le Figaro” destaca que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conseguiu combater a hiperinflação com o Plano Real, mas que se tornou “muito impopular” antes de deixar o poder em 2002.

Citando analistas políticos brasileiros, o jornal diz que Lula foi responsável por ampliar políticas sociais do governo anterior.

“O chefe de Estado reagrupou algumas medidas sociais do seu antecessor e às deu uma dimensão inimaginável”, diz a reportagem.

“Pela primeira vez na história, o Brasil assiste a uma redução continua e inédita das desigualdades. Em dois mandatos, 24 milhões de brasileiros saíram da miséria e 31 milhões entraram para a classe média.”

O jornal diz que o governo quer agora usar a riqueza dos novos campos de petróleo descobertos no litoral brasileiro para criar um fundo que beneficie os mais pobres.

O “Le Figaro” destaca que apesar dos avanços, o Brasil ainda é um dos mais desiguais da América Latina e do mundo, com altos índices de analfabetismo e problemas crônicos de saúde pública.

O jornal alerta também que as autoridades e parte dos analistas no Brasil não estão imunes a “complacência”.

“ÓIA” – NOVAS DENÚNCIAS CONTRA DILMA SACODEM O PAÍS

A ÓIA desta semana está imperdível, prometendo uma verdadeira BOMBA VIRA-ELEIÇÃO. VEJA as estarrecedoras manchetes!


À REVOLUÇÃO FARROUPILHA homenagem dos gaúchos fora de casa

UM clique no centro do vídeo:

O TESOURO & A HISTÓRIA DE UM AMOR EXTRATERRESTRE de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


Duas horas da madruga. A lua deitava por trás da mata, do lado de lá do rio Iguaçu. Já havíamos cavado mais de metro e meio de terreno pedregoso. Nada do tesouro que vi no pêndulo de aliança, com fio de costura. É faço isso de vez em quando: acionar um pêndulo com a aliança presa num fio, nos lugares mais estranhos. Ali, as margens do rio, é que pude ver na fúria do pêndulo nos movimentos do relógio, o tesouro subterrâneo. Provavelmente um caixote ou panela de barro, cheia de moedas de ouro. Moedas, barras de ouro, relicários em jóias e até diamantes. Dá mais certo que com qualquer aparelho tecnologicamente sofisticado. Já acertei várias, mas tudo rapela. Moedas da coroa portuguesa e patacões de pouco valor econômico. Dessa vez acertamos no alvo, eu, o Landio Kanigoski e o Charles Soboleski. O Landio bebe muito, e já estava a meio litro de Jamel, quando batemos no casco do tesouro. Pedi ao Charles pra sair de lado, e aventei de amarrarmos o Landio que laborava com um enxadão perigoso. Muito perigoso. Bêbado, já dava sinais de transtorno psíquico. Os olhos giravam dum lado ao outro. Acho, pressentia a riqueza em suas mãos e de repente já pensava em apoderar-se sozinho do achado. Era um perigo pra nós. Não deu tempo, sequer de amarrar bem o Landio Kanigoski. A supernave que apareceu ali, primeiro sobre o meio do rio Iguaçu e depois vagando pela margem onde perfurávamos, perto em torno de 60 metros, apavorou e truncou tudo. Aquietamos com o bebum, dando trabalho, sob uns sarandis no barranco e prestamos atenção na nave, agora estacionada a menos de 5 metros de altura no capim seco da fazenda. Uma esteira longa e luminosa desceu do trambolho. O som era suave e penetrante. Uma névoa fina, envolveu a parafernália pratametálica. Sobre a esteira, uma mulher de metro e oitenta, pele clara, mas não loira, desfilou alguns metros. Do nada, surgiu um homem magro, todo de negro. Um traje bizarro, de botões luminosos na lapela do casaco e nas laterais das calças e botas. Dava pra ver o rosto do vivente, moreno, nariz adunco e olhos fundos. No encontro com a pele marfim, claríssima, beijaram-se. O Charlinhos Soboleski, disse: eu conheço aquele cara, é o Jarbas de tal, da Bandeirantes, aqui de Quedas. Falei, não viaja Charles, esse cara não existe. Isso aí é alucinação nossa… por causa do buraco que abrimos na fazenda do homem aqui, sem licença. O bebum, se alterou e: deixa que eu me acerto com esse aí… eu… eu. Demos um chega pra lá nele e o enliamos em aperto com uma corda comprida nos caules do sarandi. Os amantes, na esteira luminosa e longa, no maior transe. Um som diferente, tomava o ar, quase uma música eletrônica. Falei pro Charlinhos, que deveríamos, deixar picareta e enxadas ali e cair fora. A cerca era perto, e a camionete aparecia estacionada numa lombada de chão batido. O Charles, observou que os amantes entravam na nave. Ela linda. Exuberante, no balanço e andar. A esteira ia sendo recolhida com vagar. A nave levantou vôo, primeiro em vertical e depois meio de lado, costeando a barranca do rio. O mistério. Matutamos. Quem era aquele cara estranho!? Parece até, usava um revólver niquelado na cinta. E a moça, linda de matar. Pescoço comprido, fino e claro. Orelhas pontudas como personagem do Guerra nas Estrelas. Sobrancelhas bem definidas. Testuda. A boca, dá licença, desenhada em carmim. Lábios finos e perigosos. Pele marfim, clara, claríssima, roupa colante como escama de peixe. Pareciam mesmo, escamas de peixes pelo tórax, cintura e pernas. Cabelos longos, seios grandes, cinturão azul, translúcido. Me belisca disse o Charlinhos Soboleski, isso não pode ser verdade. Eu disse calma Charlinhos. Calma. Como diz o nosso amigo Betão da Pedreira. Deixa quieto. Xá quieto. O Landio Kanigoski, resmungou algo incompreensível. Ainda amarrado nos galhos, só pedia mais uns goles da boa. A garrafa da Jamel tombada de lado no mato. Demos uma talagada da outra, a do Sr. Stachelski, nossa de Kedas a ótima, num litro branco. Tirei a linha do pêndulo, pus a aliança no dedo e joguei uma pedra no imenso buraco que fizemos na fazenda do homem. Deu um estouro na tampa do truvisco miliardário. Tava ali o negócio. Tava ali o compensário de privações passadas, o tal de sempre querer e nunca poder. Quando o Charlinhos abaixou-se pra abrir a tampa cinza, corroída de tempo e ornada de formigas verdes, ouvimos novamente o som estridente da supernave que havia aportado a pouco ali e nesse instante retornou. No mesmíssimo lugar, a esteira estendeu-se luminosa, e de dentro da belíssima composição metálica, saiu o cara de preto, (horrível composição) como se caminhasse sobre uma ponte. A arma, tipo revólver niquelada, lampiando na escuridão. Era o demo… A bela, acompanhou-o por alguns metros, beijaram-se e ela retornou ao interior da nave. O Landio, esbravejava, pra que o soltássemos. Empurramos umas pás de terra sobre o tampo do tesouro e não vimos mais nada. Aliás, consegui juntar o talão de cheque, a chave do carro, um cartão de telefone celular e umas moedas que me caíram do bolso. Depois não vi mais nada. Algo, nos tirou de nós. Um som fino, nos tomou e desmemoriou. Nos fez dormir, quedar silente. Quando acordamos, o bêbado ainda estava bêbado e brigão. O buraco, reaberto, e nem tium do tampo do tesouro, ou mesmo tesouro que juramos havíamos batido em cima. Será que o cara de negro, amante da bela extraterrena, nos surrupiou o negócio!? Será o comandante invisível da navemãe, num jato de luz aspirou o moedário pra dentro do engenho!? É só o que falta, (pensei) extraterrestres nos passarem a perna… tudo frustrado, quando batemos encima da coisa. Perguntas e respostas ficaram no ar. Ficam. Ficarão pra sempre. A nave já era pra nós. Nem sinal nos céus nebulosos. Passava das quatro e meia. O dia quase clareando. Varamos a cerca de arame liso da fazenda, com o bebum pronunciando palavras ininteligíveis, como se dominasse uma outra língua. Muitos xis e erres nos compostos de palavras. Jogamos os instrumentos de trabalho na carroceria da camionete e vazamos dali. O Charlinhos ainda insiste que o cara de negro, aparecido do espaço, sobre a esteira da supernave, era conhecido de algum lugar. Algum lugar, de que lugar!? Só Deus sabe. Falei: Charlinhos foi tudo alucinação nossa, coisa emanada do próprio tesouro que encontramos ou eu acho apareceu pra nós. Essa mulher não existe, esse cara não existe, essa nave é coisa ruim que nos tomou inteiros. O Charlinhos, não, não e não. Eu vi, eu conheço o cara Jairo. Esse cara tinha uma bodega, perto da Barra do Mato Queimado, e coisa e tal. O Landio, estirado na carroceria da camionete, compunha belos textos em língua extraterrestre. Poemas até, parece, feitos de xis e erres, emendados com soluços e arrotos, próprios de quem bebeu um pouco demais. Ficou pra nós a estampa da bela, atordoante em estética Et, que nenhuma poesia, filosofia, estética propriamente terrena teria condições de configurar, compor. Ousei, outra explicação ao fenômeno: Charlinhos, isso aí é coisa do tranho, o furfulhoso, o rebodoquenho’s… foi uma ilusão coletiva que tivemos. Ilusão, alucinação, zonzeira… e tudo era nada, só quartzo, pedra branca esmigalhada no enxadão e picareta. Além do mais a cachaça Jamel e a do Stachelski, se estranharam e deu pane em nós. Misturamos demais… com vinho e aquele litro amarelão de plasma de besouro, de três e cinqüenta reais.

O Charlinhos, não. Não e não. Foi tudo fato pra ele. Bebi só hoje. Não costumo beber, misturar, não fumo e não alucino a toa, falou. Depois dessa recolhi o pêndulo e o ímpeto de aventurar novamente os tesouros escondidos por jesuítas e aventureiros, às margens do rio Iguaçu. Tínhamos plano duma outra incursão em poucos dias, próximo à Foz do Chopim. Plano abortado de vez. Quem sabe, o maior tesouro, foi vermos a bela, clara, claríssima, lunática, transreal, extensiva em beleza na esteira, antes do aparecimento do cara de negro, chapéu de corvo, revólver niquelado, olhos úmidos e fundos, lampiado das trevas como o capeta em forma de gente.

O LAR E O BAR por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Pesquisa-se, por conta da lei que bane o álcool à beira de estradas e do recenseamento do IBGE, quantos são os bares do Brasil.

Os pesquisadores chegaram a uma conta próxima do milhão – 976 mil bares, 3 milhões de empregados, mais os donos. Sem contar, é claro, os mais de cem bares “temporários” abertos em Floripa a cada verão.

Uma conta bem modesta. Depois de cinco anos de Yeltsin, 15 de Vladimir Putin e cinco de Medvedev, “Mama” Rússia abriga nada menos do que 8 milhões de bares, aí incluídos os botequins dos romances de Dostoievski e Tolstoi. Nos EUA, são 3 milhões de bares. E na Escócia, pequenininha como é, são mais de 400 mil “balcões”. Parece que todos os Johnnie Walkers da Terra já acordam chupando aquele magnífico líquido cor de âmbar – e usando aquele proverbial kilt xadrez…

Na verdade, bar no Brasil é o que não falta. Todo dia estão abrindo ou fechando um. Em 1796 – conta mestre Oswaldo Cabral, no seu magnífico Memória de N. S. do Desterro –, a vila possuía 666 casas, um triplo seis – esse número demoníaco. Dessas vivendas, 18 eram lojas do comércio e 44 eram botequins. Ou seja: um boteco para cada 85 dos seus 3.757 habitantes. Vale dizer: a turma era boa de copo.

Em torno de uma mesa de bar, já se conspirava contra o governo ou… contra os maridos de mulheres bonitas. Nos bares, edificavam-se calúnias, ateavam-se infâmias, blasfemava-se contra Deus e o próximo. Nem por isso, os botecos cerravam suas portas por causa da presença de bêbados.

O problema, a sério, não é a quantidade de bares. Mas a qualidade dos bêbados…

Sendo os conventos e os mosteiros as casas da virtude, esses altares não são, contudo, infensos a Belzebus. Assim como não é impossível que algum arcanjo tenha ido parar no inferno – por erro no endereçamento do código postal.

Ainda não adquirimos a maioridade etílica de uma Rússia, uma Alemanha, uma Inglaterra – onde os bêbados não somente são cidadãos respeitáveis como presidem a República (Yeltsin, nos anos 1990); fundam a Oktoberfest (o príncipe Ludwig da Baviera no século 19); ou salvam o império britânico do nazismo, como o velho e esponjoso Churchill nos anos da Segunda Guerra Mundial.

Não há nada como um boteco bem brasileiro, onde se bebe em pé, no balcão, de forma que o copo se transforme num aposto verbal, uma extensão da própria linguagem. Nem se poderia, a não ser num botequim nacional, encomendar a cerveja da rua, comandando ao barman:

– Mais duas louras!

Se elas chegarem requebrando os quadris, melhor ainda.

Essas casas, os bares, são, sem dúvida, muito menos corruptas do que muita Casa Civil.

  • Sem controle

“Controle social de mídia” – inconstitucional, por agredir o artigo 5º da Carta de 1988, protetor da livre expressão e manifestação de pensamento – é inspiração de tutela autoritária, cultivada por teóricos do “aparatchik” soviético, como o ministro Franklin Martins. Liberdade de imprensa é requisito básico para uma democracia substantiva, sem adjetivos. Mas o substantivo “honestidade” informativa deveria ser, também, apanágio da imprensa. Por exemplo: jornais com nome a zelar, como o The New York Times, habituaram-se a publicar, em editorial, sua preferência por um candidato em majoritárias presidenciais.

  • Honesta liberdade

Imagine-se um grande jornal brasileiro, como o Estadão, publicar editorial informando sua preferência por José Serra, o que, por óbvio, transparece na opinião do jornal. Seria muito mais honesto. Sem prejuízo, como faz o NYT, do noticiário contemplar igualmente as candidaturas preferenciais. O leitor saberia como “ler” o veículo. Veja é Serra; Carta Capital é Dilma. Mas o espaço do “fatual” seria devidamente equilibrado. Utopia? A pior solução já se sabe qual é: a ditadura do Estado liberticida, em que a única opinião publicável é a do poder.

  • Lá e aqui

As democracias mais amadurecidas também dão tratamento cuidadoso às pesquisas dos institutos de opinião. O New York Times, por exemplo, não publica pesquisas de um só instituto. Prefere publicar uma “média” de todas, evitando as induções de voto.

No Brasil, as pesquisas só faltam substituir a eleição propriamente dita.

AS TRES PENEIRAS (enviado por rô stavis). ilha de santa catarina

Olavo foi transferido de projeto.
Logo no primeiro dia, para fazer média com o novo chefe, saiu-se com esta:

– Chefe, o senhor nem imagina o que me contaram a respeito do Silva. Disseram que ele…..

Nem chegou a terminar a frase, e o chefe, aparteou:

-Espere um pouco, Olavo. O que vai me contar já passou pelo crivo das Três Peneiras?

– Peneiras, que peneiras, chefe?

– A primeira, Olavo, é a da VERDADE.
Você tem certeza de que esse fato é absolutamente verdadeiro?

– Não. Não tenho, não. Como posso saber? O que sei foi o que me contaram. Mas eu acho que…

E, novamente, Olavo é interrompido pelo chefe:

– Então sua história já vazou a primeira peneira.
Vamos então para a segunda peneira que é a da BONDADE.

O que voce vai me contar, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?

– Claro que não! Deus me livre, Chefe! diz Olavo, assustado.

– Então, – continua o chefe – sua história vazou a segunda peneira.
Vamos ver a terceira peneira, que é a da NECESSIDADE.

Voce acha mesmo necessário me contar esse fato ou mesmo passá-lo adiante?

– Não chefe. Pensando desta forma, vi que não sobrou nada do que eu iria contar – fala Olavo, surpreendido.

-Pois é Olavo! Já pensou como as pessoas seriam mais felizes se todos usassem essas peneiras? – diz o chefe sorrindo e continua:

– Da próxima vez em que surgir um boato por ai, submeta-o ao crivo das Três Peneiras:

VERDADE – BONDADE – NECESSIDADE….

– Antes de obedecer ao impulso de passá-lo adiante, porque:

PESSOAS INTELIGENTES FALAM SOBRE IDÉIAS

PESSOAS COMUNS FALAM SOBRE COISAS

PESSOAS MESQUINHAS FALAM SOBRE PESSOAS!!!

REVÓLVER de sylvia beirute / Faro.pt


{ao josé ferreira}

por fim: entre desejos lindos, estrita-
-mente prováveis, e contra-impulsos no
dorso, dia sim dia não, como que

numa mistura clássica e fascinante,

substituo o corpo na competência

de parir o tempo que resta

no rebentar das águas de um

instante principal em forma de

edema e américas;

e entre desejar e não desejar, o vazio

de cordas deseja e consegue: a certeza
de não cabermos numa
única possibilidade, o saber que há
um inverno de grande razão

na carne fria do nosso cesariny,
o ter o coração em riste no diadema
solitário sob os olhos dos mi-
-nutos emperrados em direcção a meca,
o supor que a morte já
não admite exemplos

e um excesso de memória

adivinha o futuro.

SAUDADES DO SANGUE DERRAMADO por alceu sperança / cascavel.pr


Coisa esquisita, mas como tem cabeça pra tudo, de vez em quando aparece alguém com saudade das ditaduras. Atribuem todas as trapalhadas que elas fizeram – corrupção, desperdício de dinheiro, dívida excessiva etc – só ao Inácio, como diria frei Cappio, quando foram elas as mães parideiras dos filhotes neoliberais.

Sentem saudades de um mundo bipolar, em que tudo lhes era fácil: pró EUA enriquecia e anti-EUA apanhava. Mentes estreitas, adoram escolher entre o sim e o não do maniqueísmo. Mas só gastam tempo, saliva e energia com o saudosismo de uma coisa pútrida que não tem mais como voltar.

A Guerra Fria, que manchou de sangue o solo nacional, jogando criminosamente brasileiros contra brasileiros, enlutando famílias como a do estudante Edson Luís, já era. Mesmo se Serra também já era e se Dilma já erra…

Os EUA já não dominam como dominavam: sua grave crise está à vista de todos. A farsa estalinista foi plenamente desmascarada. A China mostra como é bom ter um governo que funciona.

O Brasil conquistou a liberdade de imprensa e expressão: no entrechoque entre idéias e opiniões encontraremos o caminho da democracia que ainda não temos, mas um dia teremos. Bem-vindos ao terceiro milênio.

Há um presente, no entanto, que também gostaríamos de transformar rapidamente em passado. É a tal da financeirização, que, na atual etapa neoliberal do capitalismo, é a sua face mais gritantemente desumana.

As crises das “bolhas” das bolsas asiáticas e da Rússia, na década de 90, foram um evidente fruto de movimentos especulativos dos banqueiros e seus operadores. Agora vem essa enorme desgraça para o bravo povo americano.

Está claro: a dependência nacional ao capital financeiro é um entrave à industrialização. Contribui para a manutenção de taxas de juros elevadas e para a escravidão aos grandes bancos.

O neoliberalismo é tão espetacularmente agressivo que hoje não tenta mais liquidar o “comunismo”, embora alguns acreditem que nessa ilusão do Tibete vão tirar alguma casquinha.

Ninguém é mais ingênuo: está na cara que pretendem esconder as mazelas debaixo do tapete, sem admitir que a crise é fruto de suas más práticas.

Como sua solução para tudo é a guerra, instigam a ânsia de oprimir, liquidar, ferir, ofender. Mas o que se mostra evidente é o desejo claro e aberto de liquidar de vez a social-democracia, com suas tentativas de “welfare state” (Escandinávia, por exemplo), pugnando, em paralelo, para liquidar tudo o que venha do povo, como o MST e as FARC.

É o que se vê no recrudescimento de um falso nacionalismo, que fecha as fronteiras aos jovens pobres dos países explorados, a pretexto de que sejam “terroristas”, quando tudo o que eles querem é trabalhar e provar o sabor da “democracia” do Primeiro Mundo.

Vendo que seus países são oprimidos e dominados por essa financeirização, tentam buscar uma vida melhor em outros lugares, onde descobrem, tardiamente, que serão humilhados, prostituídos, superexplorados.

Certamente no futuro também haverá mentes poluídas com saudades do tempo atual, que é o da maior farsa ideológica de todos os tempos: a idéia evidentemente enganosa de que o “pensamento” da financeirização é único, vitorioso e eterno.

Valha-nos outro poderoso pensamento – o de Gandhi: “Se queremos progredir, não devemos repetir a história mas fazer uma história nova”.

QUANDO A ASCENÇÃO SOCIAL CAUSA MEDO E PERPLEXIDADE por luiz carlos azenha / são paulo


Há, por toda parte, da direita à esquerda, uma certa perplexidade. Intelectuais à esquerda e à direita se debruçam sobre a campanha eleitoral com uma ponta de saudosismo em relação ao passado e desprezo pela aparente despolitização do eleitorado. O domínio do marketing, a presença do Tiririca e a influência de Lula são apontados como sinais de que a democracia brasileira está às vésperas de um naufrágio.

Em um caderno especial, “Desafios do Novo Presidente”, o Estadão exibe sua saudade de um tempo em que ainda era possível controlar o protagonismo das multidões para negociar, por cima,  uma “solução política”. Foi assim no movimento das Diretas Já! , em que o vozerio das ruas foi instrumentalizado para buscar uma democracia “de bastidores”. “Democracia à brasileira”, anuncia o Estadão, obviamente sem notar a ironia contida na escolha da foto. Se tivesse escolhido uma imagem da greve dos metalúrgicos do ABC, em 1980, não seria, naturalmente, o Estadão, embora a greve tenha sido o golpe que de fato chacoalhou o regime militar.

Na Folha, um colunista identificou no Tiririca o símbolo de tudo o que há de errado com a política brasileira. Ele se esqueceu que a despolitização é herança da cidadania negada e está explícita não só nos candidatos bizarros, mas também em partidos que não resistem a prévias internas para a escolha do candidato a presidente. O dedaço, como se sabe, é um mal apenas quando praticado pelo atual presidente da República, nunca quando se dá em um apartamento de Higienópolis. Politização exige engajamento. A  amnésia do colunista se estende à campanha movida contra as tênues tentativas do governo Lula de promover a cidadania política, através das conferências nacionais e do Plano Nacional de Direitos Humanos, campanha da qual fez parte…  a Folha.

O Globo de domingo gastou uma página inteira de papel e tinta para falar em Vazio de ideias, por que a apatia e a ausência de reflexão tomaram conta da campanha eleitoral. Na página, o poeta Claufe Rodrigues prega “mudar radicalmente o sistema de representação”. Será que ele sonha com o voto censitário? O jornalista Eugenio Bucci trata como “discurso autoritário”  a propaganda eleitoral de Dilma Rousseff que dá ênfase à ascensão social (‘”pusemos” não sei quantos brasileiros na classe média’). O sociólogo Bernardo Sorj fala em “massa apática”, sustentada pela “classe média pagadora, que se preocupa com problemas como liberdade de expressão, transparência do Estado e corrupção”.

Curiosamente, as pílulas de O Globo revelam mais sobre os entrevistados do que sobre a população brasileira, os eleitores brasileiros e a conjuntura política e econômica do Brasil. Revelam desconhecimento, preguiça intelectual e a falta de reflexão que eles, os entrevistados, preferem atribuir — como sempre — “aos outros”.

Infelizmente, pouca gente tem se dedicado até agora a estudar a erupção política de milhões de brasileiros como resultado da ascensão social que eles viveram nos últimos anos. O fenômeno, em números, foi retratado mais recentemente no estudo A Nova Classe Média: o Lado Brilhante dos Pobres, da Fundação Getúlio Vargas. Do ponto de vista da ciência política, foi estudado por André Singer, em Raízes sociais e ideológicas do Lulismo.

Além da ignorância, no entanto, torcer o nariz para a atual campanha eleitoral também serve a um objetivo político: desqualificar antecipadamente os eleitos. Para além do golpismo, no entanto, está a perplexidade de classe — e aqui localizamos a esquina onde se encontram direitistas e esquerdistas (alguns, pelo menos). O Brasil é um país de extrema concentração de poder, de riqueza e de saber. E o fenômeno que vai influenciar as eleições brasileiras a longo prazo representa uma ameaça a essa sociedade, em que as “ideias” políticas, de comportamento e de consumo “vertem” dos ungidos em direção às massas.

Assistimos, em câmera lenta, a uma revolução nos papéis sociais, que vai se acelerar quando a ascensão econômica se combinar com a interiorização do conhecimento, o acesso à universidade e as tecnologias de informação.

Perplexos, os que se acreditam mantenedores de nossa ordem hierarquizada confundem sua irrelevância com a decadência definitiva da democracia brasileira. É um jeito elegante de dizer que eles sentem desprezo pelos pobres.

MOMENTO QUE NÃO SEI OUVIR de luis garcia / Tomar. pt


Não sei porque raio
tenho esta mania,
de fazer de um segundo
muito mais do que o tempo.
Ás vezes é como se eu não soubesse,
aquilo que tenho de fazer,
tudo o que tenho de ser…
e apenas procurasse
um momento para sentir
e então me perdesse,
porque não sei ouvir
o que me diz o agora!
Porque raio persigo o vazio
se ele às vezes também me persegue.
É como se eu quisesse fugir
e não conseguisse correr,
não porque as pernas não queiram
não porque eu me tenha esquecido
de como se pode perder o fôlego
em dez segundos
mas apenas porque não sei
somente porque eu não compreendo
para onde tenho de ir.

“COISAS DE MARIA JOÃO” convida para hoje, 18 e 19.set.10 / ilha de santa catarina

REDE GLOBO de tv E O GOLPE FINAL / por luis nassif / são paulo

A direita prepara o golpe fatal, o definitivo


Como será a bala de prata na campanha

Qual a bala de prata, a reportagem que será apresentada no Jornal Nacional na quinta-feira que antecederá as eleições, visando virar o jogo eleitoral, sem tempo para a verdade ser restabelecida e divulgada?


Ontem, no Sarau, conversei muito com um dos nossos convivas. Para decifrar o enigma, ele seguiu o seguinte roteiro:

1. Há tempos a velha mídia aboliu qualquer escrúpulo, qualquer limite. Então, tem que ser o episódio mais ignóbil possível, aquele campeão, capaz de envergonhar a velha mídia por décadas, mas fazê-la acreditar ser possível virar o jogo. Esse episódio terá que abordar fatos apenas tangenciados até agora, mas que tenham potencial de afetar a opinião pública.

2. Nas pesquisas qualitativas junto ao eleitor médio, tem sobressaído a questão da militância de Dilma Rousseff na guerrilha. Aliás, por coincidência, conversei com a Bibi que me disse, algo escandalizada, que coleguinhas tinham falado que Dilma era “bandida” e “assassina”. Aqui em BH, a Sofia, neta do meu primo Oscar, disse que em sua escola – em Curitiba – as coleguinhas repetem a mesma história.

As diversas pesquisas de Ibope e Datafolha devem ter chegado a essa conclusão, de que o grande tema de impacto poderá ser a militância de Dilma na guerrilha. A insistência da Folha com a ficha falsa de Dilma e, agora, com a ficha real, no Supremo Tribunal Militar, é demonstração clara desse seu objetivo.

Assim como a insistência de Serra de atropelar qualquer lógica de marketing, para ficar martelando a suposta falta de limites da campanha de Dilma – em cima de um episódio que não convenceu sequer a Lúcia Hipólito.

Aliás, o ataque perpetrado por Serra contra Lúcia – através do seu blogueiro – é demonstração cabal da importância que ele está dando à versão da falta de limites, mesmo em cima de um episódio que qualquer avaliação comezinha indicaria como esgotado.

A quebra de sigilo é apenas uma peça do jogo, preparando a jogada final.

A partir daí, meu interlocutor passou a imaginar como seria montada a cena.


Provavelmente alguém seria apresentado como ex-companheiro de guerrilha, arrependido, que, em pleno Jornal Nacional, diria que Dilma participou da morte de fulano ou beltrano. Choraria na frente da câmera, como o José Serra chora. Aí a reportagem mostraria fotos da suposta vítima, entrevistaria seus pais e se criaria o impacto.

No dia seguinte, sem horário gratuito não haveria maneiras de explicar a armação em meios de comunicação de massa.

Será um desafio do jornalismo brasileiro saber quem serão os colunistas que endossarão essa ignomínia – se realmente vier a ocorrer -, quem serão aqueles que colocarão seu nome e reputação a serviço desse lixo.

Essa loucura – que, tenho certeza, ocorrerá – será a pá de cal nesse tipo de militância de Serra e de falta de limites da mídia. Marcará a ferro e fogo todos os personagens que se envolverem nessa história.

Incendiará a blogosfera. Todos os jornalistas que participarem desse jogo serão estigmatizados para sempre.

Todas essas possibilidades são meras hipóteses que partem do pressuposto da falta de limites total da velha mídia.

Mas a hipótese fecha plenamente.

enviado do blog do Luis Nassif

AÉCIO NEVES deixa o PSDB após as eleições.

o ex governador de Minas Gerais, Aécio Neves, concorre ao senado e pelas pesquisas encontra-se praticamente eleito para 8 (oito) anos de mandato. Segundo informações correntes Aécio tem se aborrecido com o rumo da campanha eleitoral do colega José Serra. Por formação, da politica mineira, afirma que não concorda com as ações desencadeadas após as tres últimas pesquisas. Pessoas próximas ao ex governador afirmam ter ouvido dele mesmo que “tantos anos de convivência levaram o PSDB a absorver e praticar os métodos tradicionais da direita histórica, e eu não concordo com isso”.

WAGNER DE OLIVEIRA MELLO e seu “TEXTO 1” / curitiba

Texto 1

Embora sua reputação o condene, a culpa pela minha insônia e dor de estômago não é do café, não posso culpá-lo, nem mesmo os mais de vinte cigarros que fumei hoje tem participação nisso. Já me recomendaram passiflora, chá de camomila; “toma chá de alface” disse um bêbado, que parecia bem mais lúcido do que eu sóbrio. Tudo crendices! Gosto mesmo é de rivotríl, diazepan, e se não funcionar soco-lhe cachaça no meio, porque remédio dá sede e juntando com a sede que tenho por natureza, haja água, digo -álcool- pra satisfazer esse homem.

Outro dia acordei. Não que estivesse dormindo, mas também não estava necessariamente acordado, só percebi isso depois de uma verdadeira batalha campal dentro de uma ambulância em movimento. “Seda gritava o condutor” – “Ele já esta sedado” gritava meu adversário travestido de paramédico. “Vai ter uma overdose”. Haha! Não levei a dose extra de calmante, mas ganhei um afastamento de três meses do trabalho. Alegria, alegria! Pelo visto esses psiquiatras não conhecem aquele célebre ditado: “cabeça vazia: panela do diabo”. Que diabo o quê¿ Sai pra lá pai de santo! Que hoje eu vou exorcizar meus demônios em outro lugar. Parafuso solto é a m.. E me dá logo uma dose aqui, e das grandes! Hoje eu to podendo! Até cito Nietzsche pra comprovar, olha só “Eu fiz isso” diz minha memória. “Eu não posso ter feito isso” diz meu orgulho, e permanece inflexível. Por fim, a memória cede.

Em casa, duas da manhã, de sobressalto um frio na barriga, “bateu ansiedade, não é? Não sou eu pastor, é ele; sim, é ele, aquele que não sei quem sou, é o Exu. Melhor desligar a televisão antes que você me convença, aí paro de beber, namorar, até com o videogame terei de parar. Rezar não adianta. ”Se rezar adiantasse o papa não andava de blindado e igreja não tinha para-raio”; melhor procurar uma encruzilhada, lá tem bar, posto de combustível, farmácia, e companhia é o que não falta. Ah, mas o que eu estava procurando mesmo? não lembro, prefiro cair fora, não quero a minha companhia, nem a sua, tá olhando o que aí com essa cara de reprovação, moralista pederasta? Pensa que eu não sei o que você faz dentro desse teu importado com vidros escuros? Aliás, só Deus sabe, sabe de mim e deles também, por isso se mantém tão afastado de nós, porque com ele o buraco é mais embaixo, então taca lenha na fogueira que eu quero ver o circo pegar fogo, não respondo por mim mesmo, ao menos era isso que estava escrito no meu B.O da última que fui preso.

TEMPO? de j b vidal / ilha de santa catarina


que idade tens? perguntam,

a todo instante, sem poder, respondo

não sei,

não contei os sofrimentos que passei,

os sonhos que penso ter sonhado,

as dores que senti, quantas lágrimas derramei,

.

não sei quantos silêncios me fiz,

quantos amores tive e penso que amei,

não contei os caminhos que andei,

quantas pedras recebi  quantas atirei,

quantas aflições ofereci quanto magoei,

quantas vezes penso que pensei,

.

não sei o tempo do tempo que passo,

se vivo ou se me vivem no universo,

se me conto no tempo ou no espaço,

não contei quantas dúvidas [ou se dúvida sou]

se existo por contar ou por pensar em existir,

se me olho e não me vejo se desejo sem sentir,

.

não contei quantos prazeres vivi quantos neguei,

quantos fui quantas almas mostrei,

em quantas noites morri,  quantas voltei,

jamais contarei

a morte o fará por mim,

quando na cova saberei se fui, estou ou serei

RETTAMOZO expõe no FOLHA SECA / curitiba

“Rettamorfose 1” no Folha Seca

Retta se intitula “gauchibano”. Nasceu em São Tomé, na Argentina e foi registrado três dias depois em São Borja no Rio Grande do Sul. Nasceu gaúcho e diz que vai morrer curitibano.

Autodidata, com vários prêmios de arte contemporânea, já expôs em Macau na China, em Kanagawa no Japão, na UNESCO em Atenas, Santiago do Chile, Bienal de São Paulo, Museu do Olho, entre outros.

Nesta terça-feira, 14, Retta abre a exposição “Rettamorfose 1”, a partir das 19h, no Folha Seca. “Esses desenhos são ‘estudos’ feitos para depois serem pintados. Ideias óbvias”, diz. O artista tem trabalhado com essa visão de topo. Em ângulo de 90º, do alto do campanário ou de cima das árvores. Com isso ele afirma o trocadilho: cada macaco no seu galho.

“O fundo é o chão do planeta terra. Neste ângulo, trabalhando as sombras e os objetos de topo, se consegue uma leitura completa da cena. Conteúdo, significado e forma, integrados em uma só imagem. Rettamorfose 1 também é um caderno de rabiscos, folha a folha”, explica.
Um trabalho bom para ser curtido nas idas e vindas ao banheiro no bar Folha Seca. A exposição fica em cartaz até o dia 9 de outubro. Não perca!

Serviço

Abertura da Exposição “Rettamorfose 1”, de Retta. Dia 14 de setembro, terça-feira. 19h.

Bar Folha Seca. Rua Petit Carneiro, 394 – Água Verde.
Telefone: (41) 3343-5632 –
www.folhasecabar.com.br

Visitação: 14 de setembro a 9 de outubro. De terça a sexta-feira, das 17h às 2h. Sábados, das 12h30 às 2 h.
Entrada: R$ 9,00


FILHA de SERRA EXPÔS SIGILO DE MILHÕES DE PESSOAS, VEJA COMO: – por luiz nassif / são paulo

Aventuras das duas Verônicas

A revista CartaCapital que está nas bancas nesta semana traz reportagem de Leandro Fortes que vai colocar em apuros o tucano José Serra. Segundo a reportagem, baseada em documentos oficiais, por 15 dias no ano de 2001, no governo FHC/Serra a empresa Decidir.com abriu o sigilo bancário de 60 milhões de brasileiros. A Decidir.com é o resultado da sociedade, em Miami, da filha de Serra, Verônica Serra,  com a irmã de Daniel Dantas.

Veja abaixo a reportagem de CartaCapital.

Extinta empresa de Verônica Serra expôs os dados bancários de 60 milhões de brasileiros obtidos em acordo questionável com o governo FHC

30 de janeiro de 2001, o peemedebista Michel Temer, então presidente da Câmara dos Deputados, enviou um ofício ao Banco Central, comandado à época pelo economista Armínio Fraga. Queria explicações sobre um caso escabroso. Naquele mesmo mês, por cerca de 20 dias, os dados de quase 60 milhões de correntistas brasileiros haviam ficado expostos à visitação pública na internet, no que é, provavelmente uma das maiores quebras de sigilo bancário da história do País. O site responsável pelo crime, filial brasileira de uma empresa argentina, se chamava Decidir.com e, curiosamente, tinha registro em Miami, nos Estados Unidos, em nome de seis sócios. Dois deles eram empresárias brasileiras: Verônica Allende Serra e Verônica Dantas Rodenburg.

Ironia do destino, a advogada Verônica Serra, 41 anos, é hoje a principal estrela da campanha política do pai, José Serra, justamente por ser vítima de uma ainda mal explicada quebra de sigilo fiscal cometida por funcionários da Receita Federal. A violação dos dados de Verônica tem sido extensamente explorada na campanha eleitoral. Serra acusou diretamente Dilma Rousseff de responsabilidade pelo crime, embora tenha abrandado o discurso nos últimos dias.

Naquele começo de 2001, ainda durante o segundo mandato do presidente FHC, Temer não haveria de receber uma reposta de Fraga. Esta, se enviada algum dia, nunca foi registrada no protocolo da presidência da Casa. O deputado deixou o cargo menos de um mês depois de enviar o ofício ao Banco Central e foi sucedido pelo tucano Aécio Neves, ex-governador de Minas Gerais, hoje candidato ao Senado. Passados nove anos, o hoje candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff garante que nunca mais teve qualquer informação sobre o assunto, nem do Banco Central nem de autoridade federal alguma. Nem ele nem ninguém.

Graças à leniência do governo FHC e à então boa vontade da mídia, que não enxergou, como agora, nenhum indício de um grave atentado contra os direitos dos cidadãos, a história ficou reduzida a um escândalo de emissão de cheques sem fundos por parte de deputados federais.

Temer decidiu chamar o Banco Central às falas no mesmo dia em que uma matéria da Folha de São Paulo informava que, graças ao passe livre do Decidir.com, era possível a qualquer um acessar não só os dados bancários de todos os brasileiros com conta corrente ativa, mas também o Cadastro de Emitentes de Cheques sem Fundos (CCF), a chamada “lista negra”do BC. Com base nessa facilidade, o jornal paulistano acessou os dados bancários de 692 autoridades brasileiras e se concentrou na existência de 18 deputados enrolados com cheques sem fundos, posteriormente constrangidos pela exposição pública de suas mazelas financeiras.

Entre esses parlamentares despontava o deputado Severino Cavalcanti, então do PPB (atual PP) de Pernambuco, que acabaria por se tornar presidente da Câmara dos Deputados, em 2005, com o apoio da oposição comandada pelo PSDB e pelo ex-PFL (atual DEM). Os congressistas expostos pela reportagem pertenciam a partidos diversos: um do PL, um do PPB, dois do PT, três do PFL, cinco do PSDB e seis do PMDB. Desses, apenas três permanecem com mandato na Câmara, Paulo Rocha (PT-PA), Gervásio Silva (DEM-SC) e Aníbal Gomes (PMDB-CE). Por conta da campanha eleitoral, CartaCapital conseguiu contato com apenas um deles, Paulo Rocha. Via assessoria de imprensa, ele informou apenas não se lembrar de ter entrado ou não com alguma ação judicial contra a Decidir.com por causa da quebra de sigilo bancário.

Na época do ocorrido, a reportagem da Folha ignorou a presença societária na Decidir.com tanto de Verônica Serra, filha do candidato tucano, como de Verônica Dantas, irmã do banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity. Verônica D. e o irmão Dantas foram indiciados, em 2008, pela Operação Satiagraha, da Polícia Federal, por crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal, formação de quadrilha, gestão fraudulenta de instituição financeira e empréstimo vedado. Verônica também é investigada por participação no suborno a um delegado federal que resultou na condenação do irmão a dez anos de cadeia. E também por irregularidades cometidas pelo Opportunity Fund: nos anos 90, à revelia das leis brasileiras, o fundo operava dinheiro de nacionais no exterior por meio de uma facilidade criada pelo BC chamada Anexo IV e dirigida apenas a estrangeiros.

A forma como a empresa das duas Verônicas conseguiu acesso aos dados de milhões de correntistas brasileiros, feita a partir de um convênio com o Banco do Brasil, sob a presidência do tucano Paolo Zaghen, é fruto de uma negociação nebulosa. A Decidir.com não existe mais no Brasil desde março de 2002, quando foi tornada inativa em Miami, e a dupla tem se recusado, sistematicamente, a sequer admitir que fossem sócias, apesar das evidências documentais a respeito. À época, uma funcionária do site, Cíntia Yamamoto, disse ao jornal que a Decidir.com dedicava-se a orientar o comércio sobre a inadimplência de pessoas físicas e jurídicas, nos moldes da Serasa, empresa criada por bancos em 1968. Uma “falha”no sistema teria deixado os dados abertos ao público. Para acessá-los, bastava digitar o nome completo dos correntistas.

A informação dada por Yamamoto não era, porém, verdadeira. O site da Decidir.com, da forma como foi criado em Miami, tinha o seguinte aviso para potenciais clientes interessados em participar de negócios no Brasil: “encontre em nossa base de licitações a oportunidade certa para se tornar um fornecedor do Estado”. Era, por assim dizer, um balcão facilitador montado nos Estados Unidos que tinha como sócias a filha do então ministro da Saúde, titular de uma pasta recheada de pesadas licitações, e a irmã de um banqueiro que havia participado ativamente das privatizações do governo FHC.

A ação do Decidir.com é crime de quebra de sigilo fiscal. O uso do CCF do Banco Central é disciplinado pela Resolução 1.682 do Conselho Monetário Nacional, de 31 de janeiro de 1990, que proíbe divulgação de dados a terceiros. A divulgação das informações também é caracterizada como quebra de sigilo bancário pela Lei n˚ 4.595, de 1964. O Banco Central deveria ter instaurado um processo administrativo para averiguar os termos do convênio feito entre a Decidir.com e o Banco do Brasil, pois a empresa não era uma entidade de defesa do crédito, mas de promoção de concorrência. As duas também deveriam ter sido alvo de uma investigação da polícia federal, mas nada disso ocorreu. O ministro da Justiça de então era José Gregori, atual tesoureiro da campanha de Serra.

A inércia do Ministério da Justiça, no caso, pode ser explicada pelas circunstâncias políticas do período. A Polícia Federal era comandada por um tucano de carteirinha, o delgado Agílio Monteiro Filho, que chegou a se candidatar, sem sucesso, à Câmara dos Deputados em 2002, pelo PSDB. A vida de Serra e de outros integrantes do partido, entre os quais o presidente Fernando Henrique, estava razoavelmente bagunçada por conta de outra investigação, relativa ao caso do chamado Dossiê Cayman, uma papelada falsa, forjada por uma quadrilha de brasileiros em Miami, que insinuava a existência de uma conta tucana clandestina no Caribe para guardar dinheiro supostamente desviado das privatizações. Portanto, uma nova investigação a envolver Serra, ainda mais com a família de Dantas a reboque, seria politicamente um desastre para quem pretendia, no ano seguinte, se candidatar à Presidência. A morte súbita do caso, sem que nenhuma autoridade federal tivesse se animado a investigar a monumental quebra de sigilo bancário não chega a ser, por isso, um mistério insondável.

Além de Temer, apenas outro parlamentar, o ex-deputado bispo Wanderval, que pertencia ao PL de São Paulo, se interessou pelo assunto. Em fevereiro de 2001, ele encaminhou um requerimento de informações ao então ministro da Fazenda, Pedro Malan, no qual solicitava providências a respeito do vazamento de informações bancárias promovido pela Decidir.com. Fora da política desde 2006, o bispo não foi encontrado por CartaCapital para informar se houve resposta. Também procurada, a assessoria do Banco Central não deu qualquer informação oficial sobre as razões de o órgão não ter tomado medidas administrativas e judiciais quando soube da quebra de sigilo bancário.

Fundada em 5 de março de 2000, a Decidir.com foi registrada na Divisão de Corporações do estado da Flórida, com endereço em um prédio comercial da elegante Brickell Avenue, em Miami. Tratava-se da subsidiária americana de uma empresa de mesmo nome criada na Argentina, mas também com filiais no Chile (onde Verônica Serra nasceu, em 1969, quando o pai estava exilado), México, Venezuela e Brasil. A diretoria-executiva registrada em Miami era composta, além de Verônica Serra, por Verônica Dantas, do Oportunity, Brian Kim, do Citibank, e por mais três sócios da Decidir.com da Argentina, Guy Nevo, Esteban Nofal e Esteban Brenman. À época, o Citi era o grande fiador dos negócios de Dantas mundo afora. Segundo informação das autoridades dos Estados Unidos, a empresa fechou dois anos depois, em 5 de março de 2002. Manteve-se apenas em Buenos Aires , mas com um novo slogan: “com os nossos serviços você poderá concretizar negócios seguros, evitando riscos desnecessários”.

Quando se associou a Verônica D. Na Decidir.com, em 2000, Verônica S. era diretora para a América Latina da companhia de investimentos International Real Returns (IRR), de Nova York, que administrava uma carteira de negócios de 660 bilhões de dólares. Advogada formada pela Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Harvard, nos EUA, Verônica S. Também se tornou conselheira de uma série de companhias dedicadas ao comércio digital na América Latina, entre elas a Patagon.com, Chinook.com, TokenZone.com, Gemelo.com, Edgix, BB2W, Latinarte.com, Movilogic e Endeavor Brasil. Entre 1997 e 1998, havia sido vice-presidente da Leucadia National Corporation, uma companhia de investimentos de 3 bilhões de dólares especializada nos mercados da América Latina, Ásia e Europa. Também foi funcionária do Goldman Sachs, em Nova York.

Verônica S. ainda era sócia do pai na ACP – Análise da Conjuntura Econômica e Perspectivas Ltda, fundada em 1993. A empresa funcionava em um escritório no bairro da Vila Madalena, em São Paulo , cujo proprietário era o cunhado do candidato tucano, Gregório Marin Preciado, ex-integrante do conselho de administração do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), nomeado quando Serra era secretário de Planejamento do governo de São Paulo, em 1993. Preciado obteve uma redução de dívida no Banco do Brasil de 448 milhões de reais para irrisórios 4,1 milhões de reais no governo FHC, quando Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-arrecadador de campanha de Serra, era diretor da área internacional do BB e articulava as privatizações.

Por coincidência, as relações de Verônica S. com a Decidir.com e a ACP fazem parte do livro Os Porões da Privataria, a ser lançado pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr. Em 2011.

De acordo com o texto de Ribeiro Jr., a Decidir.com foi basicamente financiada, no Brasil, pelo Banco Opportunity com um capital de 5 milhões de dólares. Em seguida, transferiu-se, com o nome de Decidir International Limited, para o escritório do Ctco Building, em Road Town , Ilha de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas, famoso paraíso fiscal no Caribe. De lá, afirma o jornalista, a Decidir.com internalizou 10 milhões de reais em ações da empresa no Brasil, que funcionava no escritório da própria Verônica S. A essas empresas deslocadas para vários lugares, mas sempre com o mesmo nome, o repórter apelida, no livro, de “empresas-camaleão”.

Oficialmente, Verônica S. e Verônica D. abandonaram a Decidir.com em março de 2001 por conta do chamado “estouro da bolha” da internet – iniciado um ano antes, em 2000, quando elas se associaram em Miami. A saída de ambas da sociedade coincide, porém, com a operação abafa que se seguiu à notícia sobre a quebra de sigilo bancário dos brasileiros pela companhia. Em julho de 2008, logo depois da Operação Satiagraha, a filha de Serra chegou a divulgar uma nota oficial para tentar descolar o seu nome da irmã de Dantas. “Não conheço Verônica Dantas, nem pessoalmente, nem de vista, nem por telefone, nem por e-mail”, anunciou.

Segundo ela, a irmã do banqueiro nunca participou de nenhuma reunião de conselho da Decidir.com. Os encontros mensais ocorriam, em geral, em Buenos Aires. Verônica Serra garantiu que a xará foi apenas “indicada”pelo Consórcio Citibank Venture Capital (CVC)/Opportunity como representante no conselho de administração da empresa fundada em Miami. Ela também negou ter sido sócia da Decidir.com, mas apenas “representante”da IRR na empresa. Mas os documentos oficiais a desmentem.

Fonte: CartaCapital

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/aventuras-das-duas-veronicas

A QUARTA PAREDE por jorge lescano / são paulo


No retorno do segundo ato, no centro da sala, Bernarda ocultava o rosto no interior do cotovelo esquerdo, esticava o braço direito nu à sua frente, a mão espalmada, os dedos trêmulos e, cambaleando, vinha para ele.

Por cima da curva branca que uniria a manga ao corpo do vestido, surgiu a axila. Era suave a penumbra aveludada de penugem, e Abeillard a sentiu com maciez de pluma. Foi uma visão fugaz – a rubrica exigia que ela deixasse cair os braços ao longo do corpo para expressar cansaço, impotência ante as “provas” que se acumulavam para culpá-la –, mas ele soube que nunca estivera tão perto da intimidade feminina. Mais tarde relembrou aquela depressão da carne e concluiu que essa axila era um milagre.

Cada noite Abeillard, corretamente vestido, esperou esse momento com uma ligeira mágoa. Renovava-se, também, o temor de que o milagre se desfizesse a força de repetição.

Sistematizou os sentidos. Precisava saber se era o balbucio tímido, ou o brilho acetinado do vestido (Não o enfeitou ontem com a camélia que lhe enviei?), ou o tremor dos dedos da mão pálida, ou o silêncio que se seguia à sua fala, enquanto seu braço descia e ocultava seu tesouro – mas era isto o que estava em causa –, ou ainda a voz rouca de emoção contida pelo reencontro e a atitude crítica de Constantin, os que envolviam de encanto aquela sutil fuga do corpo sob o ombro suavemente esférico, apesar do músculo fino aderir ao plano oblíquo do osso que o modela, ou se o efeito provinha da luz, que ao descer, como um luar de inverno depositava no ombro seu diamante e devolvia à pele sua cor rosa chá.

Notou, a partir da terceira noite, que a simpatia pelo marido, com quem se identificara no primeiro ato, diminuía. Sua eloqüência não lhe parecia tão justa. A solidez do caráter, minuciosamente construído pelo autor e elogiado pela crítica na crônica especializada, era a máscara por trás da qual se escondiam egoísmo e insegurança. A mulher, apesar da caleidoscópica fragilidade, resistia melhor às agressões de que era vitima em virtude daquela mesma fraqueza do marido, que Abeillard, tenso na poltrona, percebia com toda nitidez.

Na sequência, Bernarda voltava-se vagarosamente, deixando à mostra um triângulo perfeito de suas costas. Após um instante de hesitação – era perdoada de uma culpa incerta –, com os braços enlaçava o corpo de Constantin.

Para Abeillard, o gesto era teatral demais. Muito elaborado para ser autêntico. Isto o aliviava de certa inquietação sobre os verdadeiros sentimentos dela. Bernarda era obrigada pelas convenções a abraçar àquele homem que no seu íntimo repudiava. Agora ela também conhecia o verdadeiro estofo do marido, não importa o que dissessem os jornais. Abeillard compreendeu isto no olhar perplexo do ator. Porém, duvidava do significado da pressão de sua mão na cintura dela, a ponto de repuxar a bainha do vestido sobre a perna admiravelmente modelada. Tinha Constantin ainda essa prerrogativa? Até quando?

Eis que Bernarda aceita o direito de propriedade sobre si. Um direito que o pacto social do casamento outorga tacitamente àquele homem pelo qual já não poderá sentir amor (conto com que tenham lido meu bilhete). Ao mesmo tempo, é previsível que a compaixão, provocada pelo seu desastre financeiro, faça com que continue agindo (por quanto tempo?) segundo o que se espera nestas circunstâncias e no seu papel de esposa e mãe. Contudo, no caso, a fidelidade conjugal não é traição a si mesma apenas.

No terceiro ato sentia vontade de abandonar a sala e desistir da fuga. (Não aprovo a submissão de Bernarda. Ao lado de Constantin sua vida será erma, depois da atroz cena da carta anônima. Prova-o a maneira de avançar o braço e procurar apoio na parede inexistente no proscênio.)

Na cena final Bernarda volta corretamente vestida pela porta da esquerda, no fundo do palco, e vem para a direita do proscênio. Constantin, corretamente vestido e de três quartos de perfil para o público, está no local do milagre. Bernarda esconde as lágrimas abaixando os olhos numa reiteração das anteriores (Falsas!) reconciliações.

Cada noite Abeillard espera que ela, em vez de separar os lábios suculentos para o beijo e pousar suas alvas mãos de mármore nos ombros de Constantin (o que me permite adivinhar o doce vale de sua axila), continue andando, o deixe para trás sob a luz potente de um único spot (aumentando assim o efeito de vazio), e numa atitude altiva e corajosa (Por que esse olhar apreensivo na minha direção?), sem veneno nem punhais, abandone definitivamente a casa descendo os três degraus que levam à platéia (defronte à minha poltrona).

FALTAM TRES SEMANAS editorial.cm


Serra já tentou todas as máscaras; de neo-lulista a sucessor de Alvaro Uribe no comando da direita lationamericana. Fez-se passar por vítima e depois caluniou com sofreguidão. Não parou de cair nas pesquisas mas, sobretudo, algo que os isentos comentaristas fingem não ver, a forma arestosa como faz política, encharcada de falsidade quase colegial, inspira cada vez mais repulsa, mesmo entre seus pares. Serra tem 32% de rejeição, contra 27% de apoio nos levantamentos do complacente instituto de pesquisas da família Frias, cuja aderencia à campanha demotucana não é mais objeto de discussão. Serra vai receber a extrema unção política dia 3 de outubro ou em seguida, no 2º turno. O conservadorismo nativo sabe que ele é um fósforo queimado. Jamais será cogitado novamente como um líder aglutinador. A exemplo de certos colunistas e veículos, porta-vozes da direita e da extrema-direita nativa, Serra sabe que perdeu o bonde da história e quer vingança. Eles já teriam disparado a bala de prata se ela existisse. Não conseguiram uma. Resta-lhes o método da saturação. Expelir diariamente acusações, calúnias, falsas denúncias, insinuações, preconceitos, mentiras. Requentar velhos temas, criar uma nuvem de ilações descabidas. Recriar, enfim, o artifício udenista de um mar de lama em torno do governo, do PT, de Lula e Dilma na esperança de que, ao menos, sua derrota seja também uma derrota da democracia.Quem sabe capaz de reproduzir no país uma classe média de vocação golpista, a exemplo do que a direita conseguiu na Venezuela. Serra, os petizes da Veja, os aliados espalhados na mídia demotucana em geral, não tem o talento de um Carlos Lacerda. Nem a coragem dos golpistas que íam às ruas apregoar abertamente a derrubada de governos. O que eles possuem de mais perigoso no momento é a consciência de que não tem mais nada a perder. Derrotados, pior que isso, desmoralizados como incompetentes entre seus próprios pares, atingiram aquele ponto em que são capazes de qualquer coisa. Faltam tres semanas para as eleições. A barragem de fogo vai se intensificar. Contra o jogral da mídia pró-Serra, o Presidente Lula terá que usar todo o peso de sua liderança popular para consumar a vitória das forças democráticas contra uma direita disposta a se transformar em carniça para incomodar até depois de morta.


Você, eu, todos nós nas garras do Lobo Mau – por alceu sperança / cascavel.pr

Quem manda no mundo?

Evidentemente não é Lula nem foi FHC, menos ainda os antecessores deles e sem chance para seus sucessores imediatos, todos moleques de recado dos nababos estrangeiros.

Mas ninguém vai negar que um dos dez donos do mundo tem sido Alan Greenspan, ex-presidente do Fed (e como tem cheirado mal!), algo sempre comparado a um “banco central” usamericano.

Esse sujeito vivia nos dando medo, mesmo que não soubéssemos exatamente que foi ele o assustador. Antes, porque mandava subir o preço do que a gente comia, vestia, calçava, lia, estudava.

Em seguida, quando eles venceram e o sinal ficou fechado pra nós, ele escreveu um artigo no Financial Times dizendo que os modelos econômicos com os quais o sistema financeiro mundial trabalha são “insuficientes para determinar os rumos da economia”, além de admitir o óbvio: a crise financeira dos EUA é a mais grave desde a Segunda Guerra Mundial.

Se entendemos bem, tudo aquilo pelo que eles invadiram países, mataram pessoas, mandaram torturar, exilar, perseguiram, humilharam, desempregaram, atormentaram, era apenas uma coisa vazia, que eles mesmos não compreendem.

Sim, porque, para ele, a famosa “mão invisível do mercado” (premissa básica dos ideólogos da desregulamentação do sistema financeiro) tem um pequeno problema: não funciona. O mercado! O novo Deus do planeta…

Toda a sabedoria acumulada em séculos de capitalismo não permitiu aos donos do mundo traçar um rumo para a felicidade dos povos. O que se vê é cada vez mais crise e mais infelicidade.

A violência nas cidades, a dívida estúpida e estupenda de causar estupor, o caos urbano, essa corrupção toda, a politicalha no poder e os talentos desperdiçados – tudo isso é fruto da “vitória” dessa coisa insuficiente para desenvolver a economia visando à riqueza coletiva e não funciona, segundo admite um dos homens mais geniais e poderosos do mundo.

Longe de querer discutir com Greenspan, cabe concordar com ele: é simplesmente impossível saber quanto tempo vai durar a atual crise, que vai muito além da financeira e já se combina com a ambiental e a alimentar.

Pois tudo o que ele (e os políticos) aprenderam em séculos de capitalismo é insuficiente “para determinar os rumos da economia, diante do volume e da complexidade das variáveis existentes”.

Tome fôlego e suporte mais estas: “Nunca seremos capazes de prever as descontinuidades do mercado financeiro. Elas são necessariamente uma surpresa”.

Os donos do poder estão metidos apenas num jogo de azar, tipo as apostas no bicho. Nem Lobo Mau assustaria tanto a Chapeuzinho Vermelho com tanta insegurança e incerteza.

Aliás, está mais que na hora de meter o barrete vermelho na cabeça e mudar essa história!

“O Cerco do Porto nos nomes das ruas” – conferência com francisco ribeiro da silva e joel cleto / porto.portugal

Lançamento do livro «O Cerco do Porto em 1832 para 1833 – por um portuense»

(U.Porto editorial)

Rua do Cerco do Porto, Rua do Heroísmo, da Bataria, da Bateria da Vitória, Praça do Coronel Pacheco, Rua de Sá da Bandeira, Rua do Marechal Saldanha… ,  nomes que recordam o cerco militar imposto à cidade do Porto pelas tropas absolutistas de D. Miguel em 1832.

No próximo dia 28 de Setembro, pelas 18h00, os historiadores Francisco Ribeiro da Silva e Joel Cleto vão falar sobre os reflexos do Cerco do Porto na toponímia da cidade, numa conferência intitulada “O Cerco do Porto nos nomes das ruas”. A sessão realiza-se no âmbito do lançamento do novo livro da U.Porto editorial intitulado «O Cerco do Porto em 1832 para 1833 – por um portuense» e terá lugar na Reitoria da Universidade do Porto.

O livro «O Cerco do Porto em 1832 para 1833 – por um portuense» é uma reprodução em fac-simile daquela que será a primeira obra escrita em língua portuguesa sobre um dos mais importantes episódios da Guerra Civil que opôs liberais e miguelistas. Foi escrita por um anónimo partidário de D. Pedro IV que nos leva a reviver o período das desajeitadas tentativas liberais de retomar a terra continental, dos desentendimentos e do sofrimento de um povo preso na sua própria cidade. Para o leitor conhecedor do Porto, os locais familiares aparecem, neste livro, investidos num diferente papel: redutos, fortins, baterias e paliçadas eriçavam uma cidade que teimosamente resistia aos bombardeamentos e às tentativas de rompimento das defesas pelas muito superiores forças miguelistas, todavia incapazes de partir a carapaça do exército que a protegia.

A sessão realiza-se na sala do Fundo Antigo da Reitoria da Universidade do Porto, sita na Praça Gomes Teixeira.

Informações:

28 de Setembro, às 18h00

Reitoria da Universidade do Porto – Sala do Fundo Antigo

U.Porto editorial

Reitoria da Universidade do Porto

Praça Gomes Teixeira, 4099-002 PORTO

Tel.: 220 408 196  Fax: 220 408 359

URL: editorial.up.pt/

Globo, Veja, Folha e Estadão: os grandes derrotados de 2010 – por emir sader / são paulo

Das eleições 2010, derrotados saem a Globo, a Veja, a FSP (Força Serra Presidente), o Estadão e todos os arautos do golpismo, do velho Brasil, das oligarquias tradicionais, com seus métodos de manipulação da opinião pública e de desprezo e discriminação pelo povo e por tudo o que é popular.



Massacrado pelos monopólios da velha mídia, desinformado sobre o país, vitima das mentiras reiteradas da oposição midiática, o povo brasileiro demonstra nestas eleições um grau de consciência política e de maturidade cívica exemplares. Consegue distinguir o essencial do secundário, opta pela prioridade das políticas sociais sobre a absolutização do ajuste fiscal, condena os políticos responsáveis pelos governos desastrosos do passado, opta pelo Estado como indutor do crescimento e da distribuição de renda.

Reconhece em Lula e na Dilma os principais responsáveis pelas mudanças positivas que o pais vive, execra a FHC, a Serra, à Globo e aos seus aliados da velha mídia, não dando bola para seus factóides e deixando-os na solidão do seu golpismo. O povo reconhece os avanços principais que o país teve, assiste os programas da Dilma na TV, comparece aos comícios de Lula e da Dilma, e se reconhece, sabe que tudo o que se mostra e se diz reflete as mudanças de vida que estão vivendo no seu mundo sofrido e até aqui abandonado.

Não deram ouvidos para as infâmias da oposição e sua velha mídia, de preconceitos contra as mulheres – que hoje majoritariamente também preferem Dilma –, contra os lutadores contra a ditadura, contra os movimentos sociais e os militantes políticos, que saem todos engrandecidos com o apoio popular.

Derrotados saem a Globo, a Veja, a FSP (Força Serra Presidente), oEstadão e todos os arautos do golpismo, do velho Brasil, das oligarquias tradicionais, com seus métodos de manipulação da opinião pública e de desprezo e discriminação pelo povo e por tudo o que é popular.

O povo percebe a diferença entre a demagogia opositora, não dá ouvidos a quem pretende ser eqüidistante dos dois campos em luta, relega ao ostracismo os que pretendem que nada mudou no Brasil. O povo não é bobo, encontra em Lula e na Dilma as vertentes do futuro, reconhecem a valorização do Brasil, sentem a auto-estima revigorada, superam o desalento, voltam a acreditar em si mesmos e no país.

Por isso o povo impõe a mais acachapante derrota às elites tradicionais, com sua velha imprensa, seus políticos caducos, sua demagogia superada. Derrota os caciques tradicionais que os enganaram durante tanto tempo, mandam FHC para o exílio e Serra para a aposentadoria, os tucanos para o museu da história.

“Esse povo de quem fui escravo, não será mais escravo de ninguém”, pregava e previa o Getúlio na sua Carta Testamento. Quem não reconhece esse povo, que começa a construir sua soberania, sua emancipação, seu destino próprio, suas formas solidárias de vida, está de costas para o país e merece ser derrotado fragorosamente nas eleições deste ano.

ANIMAL de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


Comer da tua carne lamber teus ossos os nervos beber o sangue sorver a seiva de tua alma telúrica

beijar teus olhos os cabelos a tépida tez rubra de teus encantos

fulgir poemas novos no céu da tua boca compilar ensaios de vidamorte salvação nos teus silêncios

trançar oníricas redes conceitos mapas

sempiternas guias na tua pele

gerir em teu sexo minhas artes de corpo inteiro compor brinquedos semlimites

variações de intenso

prazer

Visceral teogônico antropocêntrico o ato animal

Tomar-te toda como objeto anímico e desigual.

‘Modelo cubano não funciona mais nem mesmo para nós’, diz Fidel / havana. cuba (entrevista histórica)

Ex-presidente admitiu que o modelo não tem apelo para ser exportado.
Especialista diz que declaração deve abrir espaço para reformas em Cuba.

O ex-presidente cubano Fidel Castro admitiu que o “modelo cubano” não tem mais apelo para ser exportado para outros países. A declaração faz parte de uma longa entrevista que concedeu à revista americana “The Atlantic Monthly”, cuja segunda parte foi publicada nesta quarta-feira (8). Questionado pelo o jornalista Jeffrey Goldberg se a

chava que o modelo cubano ainda poderia ser exportado para algum lugar, Fidel respondeu: “O modelo cubano não funciona mais nem mesmo para nós”.

Segundo Julia Sweig, diretora de pesquisas sobre a América Latina no Council of Foreign Relations, que acompanhou o jornalista em sua viagem a Cuba, “ele não rejeitou as ideias da revolução”, mas apenas admitiu que sob o “modelo cubano” o Estado tem um papel grande demais na vida econômica do país. Segundo ela, trata-se de uma forma de abrir espaço para que Raúl Castro, irmão de Fidel que está no poder desde que ele saiu da Presidência, faça as reformas necessárias para abrir a economia do país.

Reportagem da revista “Atlantic” com a entrevista de

Fidel Castro publicada na internet nesta quarta-feira (8).

(Foto: Reprodução)

Fidel Castro, durante visita ao Aquário Nacional em Havana, junto ao jornalista americano Jeffrey Goldberg, da revista ‘Atlantic Montlhy’ (Foto: AFP)

Na mesma entrevista, o ex-ditador cubano criticou a retórica antissemita usada pelo presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. “Não acredito que alguém tenha sido mais difamado que os judeus. Diria que muito mais do que os muçulmanos. Foram mais difamados que os muçulmanos porque são acusados e caluniados por tudo. Ninguém culpa os muçulmanos de nada”, estimou Fidel.

“Digo isso para que você possa dizer a ele”, respondeu Fidel, indagado pelo correspondente Jeffrey Goldberg se tem a intenção de compartilhar com Ahmadinejad seu ponto de vista.

Goldberg foi convidado pelo próprio Fidel, que se interessou por um artigo seu sobre as tensões entre Irã e Israel. “Os judeus tiveram uma vida muito mais dura do que a nossa. Não há nada que se compare ao Holocausto”, afirmou Fidel Castro, que foi entrevistado pelo jornalista em Havana durante três dias.

Fidel Castro, que voltou a aparecer em público e escrever com frequência nas últimas semanas, criticou Ahmadinejad por negar o Holocausto, e afirmou que o governo iraniano contribuiria para a paz se tentasse entender porque os israelenses temem por sua existência, escreveu Goldberg.

“QUANDO DOU COMIDA AOS POBRES, ME CHAMAM DE SANTO. QUANDO PERGUNTO PORQUE ELES SÃO POBRES, CHAMAM-ME DE COMUNISTA”. / DOM HELDER CÂMARA – salvador.ba

A VERGONHA DO DIA – por vera lucia kalahari / portugal

O  ‘’Processo Casa Pia’’, que teve o seu desfecho ontem, com a condenação de seis arguidos, foi, sem dúvida alguma, a vergonha das vergonhas, no que diz respeito à  Justiça que neste momento existe em Portugal.

Baseando-se todo ele em testemunhos das vítimas daquela Instituição, sem haver o cuidado duma investigação cuidadosa se o que elas alegavam, correspondia ou não à verdade, este processo,  teve, na minha opinião, como único objectivo, desviar as atenções para muitos outros culpados, nomes sonantes de todas as esferas sociais, desde políticos a personalidades da alta sociedade e do clero.

Portanto, quando o funcionário da Casa Pia, Carlos Silvino, resolveu, ‘’apertado’’ que foi, começar a divulgar o escândalo, deve ter assustado muita gente influente que,

imediatamente começou a elaborar uma manobra para ‘’entreter’’ o público.

Mas é claro que para isso, necessitavam dum nome sonante porque a verdade, é que todos os outros acusados de ‘’pedófilos eram ilustres desconhecidos, que só se tornaram figuras públicas no decorrer do processo. Nunca ninguém tinha ouvido falar deles. Na minha opinião, quando escolheram Carlos Cruz ,a figura mais popular e querida do povo português, para encabeçar esta lista, foi para darem mais crédito ao processo e para que este tivesse o impacto que teve.

Foi , portanto, não o ´´Processo Casa Pia’’ mas sim, o ‘’Processo Carlos Cruz’’ um colega por quem eu punha as mãos no fogo.

Provas abonatórias foram pura e simplesmente escamoteadas, e retiradas da investigação, prevalecendo unicamente tudo o que servia para acusação.

Testemunhos que contradiziam os acusadores, não foram considerados. Os jovens

indicavam casas onde os abusos tinham tido lugar, mas que , defrontados com a sua localização, passavam ao ‘’esquecimento’’, por ter decorrido muito tempo.

Enfim, um rol de acontecimentos incríveis, muito deles completamente fantasiosos

que provocavam o espanto de qualquer leigo.

Também a comunicação social fez um trabalho desastroso, a meu ver, com jornalistas

imparciais e especulativas, desejosos de se tornarem famosos, que ‘’atiravam’’ para a opinião pública notícias e entrevistas

com as vítimas, sem terem o mínimo cuidado em averiguarem a sua idoneidade , e note-se que algumas delas, deixavam muito a desejar, sendo até as próprias mães que vinham testemunhar o oportunismo confesso dos filhos, que tinham sido incitados a

entrarem nesta embrulhada, para ‘’ganharem’’ algum/muito dinheiro. Estes testemunhos, eram logo abafados. Aqui, só interessava a condenação pública daquele que até ali tinha sido o ídolo dos portugueses, e que de ídolo, passou a ser um famigerado pedófilo.

Pedófilo…Não considero que isto tivesse sido um caso de ‘’pedofilia, mas sim, prostituição de menores, que também, pelo menos alguns ao que eu saiba, não foram forçados a sê-lo… Quiseram, isso sim, terem acesso a coisas que doutra forma nunca as conseguiriam… E o que é certo, é que a maior parte deles, continuam a prostituir-se no Parque Eduardo VII, à vista de toda a gente e de todas as autoridades… Qual a lógica?

Todo o início deste processo teve cenas verdadeiramente rocambolescas, com um Juiz

Rui Teixeira que se tornou vedeta dum momento para o outro, e que de repente, pura e simplesmente, desapareceu. Dum funcionário do Ministério Publico, João Guerra, acusado de não incluir provas de grande importância em defesa dos arguidos, e que,

pura e simplesmente, desapareceu. Duma dama da alta sociedade e responsável governamental junto da Casa Pia, que depois de alguns anos de saber o que se passava,’’a tal  Dra.Teresa Costa Macedo, resolveu  denunciar os abusos, mas que nunca fez parte do processo, assegurando que tem uma lista de mais culpados de nomes sonantes, mas que tal lista só será divulgada após a sua morte…???

Enfim, este é mais um caso vergonhoso que estou convencida, um dia terá que, forçosamente, voltar a lume, com muitos e verdadeiros culpados que neste momento

Se escondem na sombra, com o manto insidioso que foi criado para os manter na obscuridade.

Enquanto isso, destrói-se sem contemplações, a vida dum homem e da sua família…

Carlos Cruz tem um site no Facebook onde irá publicar todo o processo.

E para finalizar, que se saiba que estas sentenças foram divulgadas, sem que os réus ou seus advogados fossem informados dos factos que ditavam os anos de prisão estipulados. Tal como no início do escândalo, quando Carlos Cruz foi detido e mantido em prisão efectiva durante um ano e três meses, passando depois a prisão domiciliária por mais dois anos, sem culpa formada, só na próxima quarta –feira será entregue aos

seus advogados uma súmula do julgamento, onde serão informados dos fundamentos em que se basearam para as respectivas penas.

Passo agora a transcrever, para vossa apreciação, o comentário que coloquei no site

Carlos Cruz, do Facebook, para vos elucidar melhor sobre esta vergonha.

Não quero terminar sem afirmar que estou totalmente do lado das crianças que foram vítimas destes abusos e que me magoa profundamente que as Instituições a quem elas foram entregues, para serem protegidas, depois de outras tantas misérias passadas, quem sabe, no seio das próprias famílias,  as tivessem protegido tão pouco…  Mas isso é outro caso que nunca foi discutido… Porque a maior parte dos abusos, ocorriam precisamente dentro dessas Instituições… Não deveriam os seus dirigentes serem também responsabilizados e sentarem-se nos bancos dos réus? Mais um pormenor que passou ao largo, porque  ao que se sabe, alguns sabiam, mas tiveram medo de divulgarem nomes…

‘’Hoje estou triste, não só pelo Carlos Cruz, ignobilmente acusado na farsa que foi todo este processo, mas também pelo país em que se transformou Portugal… Um sítio mal frequentado… E quando um país está nas mãos de gente como esta na no…ssa justiça e no nosso governo, é, infelizmente, um país que está muito doente… Este processo foi desde o início uma vergonha, desde os jornalistas que lhe deram cobertura, com um jornalismo vergonhosamente especulativo,
dando relevo a testemunhos que apareciam do nada e sobre os quais não havia o mínimo cuidado de averiguarem se eram verdadeiros ou não, a uma série de contradições, de acusações sem pés nem cabeça que eram pura e simplesmente divulgados para um prévio julgamento, ou antes, uma prévia condenação pública do Carlos Cruz. Envenenou-se o público sem o mínimo interesse em se averiguar a verdade. Porque quem alguém como o Carlos Cruz, acusado de crimes
desses, faria aumentar audiências e vender jornais? Necessitava-se dum nome sonante como o dele para se chegar onde se propunham chegar. Entretanto, que é feito da Teresa Costa Macedo, conhecedora de tudo o que se passava e que por tantos anos se calou, encobrindo
os ditos pedófilos? Não devia ela estar também no banco dos réus?
E a tal Catalina Pestana? Porque não se investigou também o que se passava no Internato de Sta. Catarina, onde tantas raparigas foram abusadas e algumas obrigadas a abortarem, engravidadas que foram, dentro do internato, por beneméritos e padres?
Mais do que um processo judicial, este foi também um processo político, onde os maus da fita eram todos socialistas…Não, porque os outros
tinham ou têm uma moral isenta de qualquer acto reprovável… Engraçado, não é? E o ”artista” Rui Teixeira, que por uns tempos ”virou”
vedeta? Porque motivo foi afastado e desapareceu da ribalta?
Tenho esperança que um dia toda a verdade venha ao de cima.
Neste momento apenas posso desejar que o grande injustiçado e a
grande vítima desta manobra com muitas ligações perigosas, o Carlos Cruz, que para azar dele era muito querido e muito popular, pelo que seria a figura ideal para ”cabeça de cartaz” desta peça teatral que tinha todos os ingredientes para ter sucesso, i.e., política, intriga, e sexo q.b., dizia eu, só desejo que ele, o nosso Carlos Cruz, consiga ter a força suficiente para continuar a sua luta em defesa do seu nome e da sua inocência.
Estamos juntos.’’

BALAS DE PRATA E OS TEMPOS DAS FILHAS – por gilson caroni filho / são paulo


O que poucos se dão conta é que o uso da “bala de prata” é improvável por uma logística inédita: dessa vez o “lobisomem” e o atirador estão umbilicalmente ligados. Qualquer disparo fulmina os dois. Simbiose perfeita.


É cristalino o significado político das últimas declarações de José Serra. Ao comparar, em um telejornal das Organizações Globo, a presidenciável petista, Dilma Rousseff, ao ex-presidente Fernando Collor, o tucano deixou claro que já não lhe sobra margem para argumentos sutis. Quando responsabiliza a ex-ministra pela quebra do sigilo fiscal de sua filha, Verônica Serra, o candidato do PSDB, comprova, mais uma vez, que, neste momento, está refugiado à sombra de togas obscuras e barões midiáticos, aos quais deve prestar vassalagem até o dia 3 de outubro.

Carente de apoio popular, perdendo força a cada dia na classe média, e constatando a decomposição de seu apoio político-parlamentar, Serra só espera sobreviver a partir do apoio que vem obtendo de redações que se transformaram em extensões de seus comitês eleitorais. Sua candidatura está em estranha suspensão, em compasso de espera entre o imprevisto e um novo ato do drama de retrocesso calculado. Esperando por uma improvável “bala de prata”, parece estar pronto para enveredar por uma aventura de alto preço para o país: um golpe branco em nome da preservação do Estado Democrático de Direito. Melancólico, mas é o que parece lhe restar.

Fingindo não saber que acabou o teatro esquizofrênico do falso moderno que pensava ser rei, o tucano não teme o ridículo: “O Collor utilizou o filho do Lula em 1989. Agora, pegaram a minha filha (…) para meter nesse jogo político sujo por preocupação com a minha vitória. Dilma está repetindo Collor”. Traçar paralelismos requer cuidados que, quando não são tomados, revela a verdadeiras intenções do discurso e do gesto. A mistificação – e Serra deveria saber disso – costuma cobrar preço alto.

Vamos por partes, para melhor detalhar o processo. Collor foi eleito através de uma campanha em que misturou um discurso modernizante com apelos a valores e crenças tradicionais. A reforma do Estado e a moralização da sociedade eram os eixos centrais do discurso. Quem, a essa altura da campanha, está adotando a receita do bolo collorido? A total ausência de compromisso com a verdade e com a ética é marca de qual candidatura? Não convém brincar com o passado recente. O país, hoje, já não padece de aguda crise de cidadania. A sociedade civil já não se submete às surradas cantilenas reacionárias.

Collor atiçou o medo das camadas médias denunciando futuras medidas socializantes de candidatos mais à esquerda, principalmente Lula. Quando, seguindo a mesma trilha do “caçador de marajás”, um prócer tucano afirma que ”devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários “, cabe a pergunta: quem está repetindo quem? Que democracia é preservada quando se pretende reduzir o aparato estatal a uma espécie de polícia da produção a serviço dos ditames do mercado? Como obter a submissão do mundo do trabalho sem a supressão de direitos democráticos?

Por fim, o ex-presidente da UNE, deveria se lembrar que Collor atacou seu adversário no segundo turno, manipulando uma antiga namorada de Lula. Em tudo isso, o ex-presidente contou com uma máquina de apoio e propaganda como nunca tinha sido visto, custeada por grandes grupos econômicos. O apoio da Globo foi, como é, notório e especialmente importante. Como se vê, não cabe misturar filhas e tempos distintos.

Lurian Cordeiro da Silva surgiu no cenário eleitoral como golpe baixo de uma campanha ameaçada pela curva de crescimento da candidatura oponente. Verônica Allende Serra, sem que se saiba ainda quem encomendou a quebra de seu sigilo fiscal, vem a público por emanações do mercado financeiro. Não é plausível confundir coisas e nomes. Sociedades financeiras e namoros apaixonados são coisas bem diferentes. Disso sabem todos, de Miriam Cordeiro a Daniel Dantas.

O que poucos se dão conta é que o uso da “bala de prata” é improvável por uma logística inédita: dessa vez o “lobisomem” e o atirador estão umbilicalmente ligados. Qualquer disparo fulmina os dois. Simbiose perfeita.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

“MONÓLOGO DE UMA SOMBRA” de AUGUSTO DOS ANJOS



“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras…
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A sáude das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
– Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma
– O metafisicismo de Abidarma –
E trago, sem bramánicas tesouras,
Como um dorso de azémola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.

Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo á Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho…
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
E com certeza meu irmão mais velho!

Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como urna vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infurtúnio.

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!

Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem…
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.

Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!

Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!

E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
– Engrenagem de vísceras vulgares –
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!

A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.

E unia trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece…
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.

E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!…
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável de micróbios!

Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo…
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.

Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E á noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.

No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, á noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta…
E explode, igual á luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do aríete
E os arremessos de uma catapulta.

Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descamada de um duende,
Que tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!

Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su’alma na cavema escura,
Fazendo ultra-epiléticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.

É o despertar de um povo subterrâneo!
E a fauna cavernícola do crânio
– Macbetbs da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sangüinárias
Que ele tem praticado na família.

As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam…
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!

Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!

Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca…
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de urna esfera opaca.

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.

Continua o martírio das criaturas:
– O homicídio nas vielas mais escuras,
– O ferido que a hostil gleba atra escarva,
– O último solilóquio dos suicidas –
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!”

Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
Julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadora do sarcasmo!

Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases…
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.

E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandiloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta á quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!

VOTOS AO MICROFONE por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Vivemos as eleições da tevê: horário gratuito, programas bem produzidos, partidos sem torcida e alguns remanescentes fichas sujas caprichando no marketing.

Sou do tempo das eleições pelo rádio. Emissoras e jornais “do partido” faziam as vezes dos marqueteiros, puxando a brasa para a sua “chapa”. Candidatos de um certo perfil “moral”, partidos com torcida e reconhecimento popular, campanhas e comícios apaixonados.

O 3 de outubro era o seu “Dia Santo”.

Os partidos que dominavam a cena, assim como as escolas de samba, eram apenas dois. Os Lordes do PSD e os Protegidos da UDN.

Abertas as urnas, os votos eram cantados ao microfone das duas rádios, de forma rigorosamente “parcial”. Ao som dos dobrados e dos hinos de cada exército, as emissoras orientavam o seu “departamento musical” para o caso de celebrar vitórias ou camuflar derrotas.

Durante os primeiros quatro dias, cada uma das “rádio-apuradoras” proclamava a vitória da sua grei. Até que a realidade começasse a corrigir os boletins e a baixar a primeira partícula de veracidade na poeira da dissimulação.

A guerra de informações fazia parte da estratégia de vitória, ainda que ela terminasse em derrota. “Ler” resultados era uma tarefa para conhecedores. Para o bom entendedor, era essencial prestar atenção no score musical das emissoras. Ali residiam alguns “cifrados”. Quando a capitulação parecia inevitável, a rádio perdedora assumia os sinais de luto, na forma de algum bolero de Nelson Gonçalves, algum tango de Gardel ou qualquer música não carnavalesca:

– Boemia, aqui me tens de regresso/ E suplicante te peço/ A minha nova inscrição…

Já o contrarregra da rádio vencedora entupia o braço da “eletrola” de bolachas carnavalescas, entre as quais a que popularizou um grande sucesso do falecido Dorival Caymmi, muito tocado no Carnaval de 1956:

– Eu vou pra Maracangalha, eu vou/ Eu vou convidar Anália, eu vou/ Se Anália não quiser ir eu vou só, eu vou só, eu vou só…

Era a senha para a partida da “barca” e para a bazófia dos vencedores. A “nau” levantava ferros do Miramar, levando a bordo os infelizes náufragos dos cargos em comissão, a turma dos “inconsoláveis”, chorando a perda da boquinha. Vagas que seriam repassadas para a tropa de ocupação dos novos conquistadores.

A segunda providência desses novos césares era organizar um destacamento precursor para soltar foguetes no quintal dos vencidos – tanto mais poderoso o rojão quanto mais fanático fosse o alvo.

Antes das apurações, o lado mais fraco se precavia discretamente. Na surdina, acumulava o provimento de gêneros alimentícios, “rancho” para um mês, mais ou menos. Consumada a derrota, os vencidos se recolhiam em prisão domiciliar, à espera do bombardeio da Luftwaffe adversária. Foguete de assobio. Buscapé. Espanta-coió. Para os segregados, era como ser Anne Frank num sobrado de Amsterdã, em plena Floripa dos anos 1950.

Os “miúdos” sofriam na escola, recebendo “selos” e sendo “inticados”. Os adultos começavam a deixar o “bunker” um mês depois, para organizar a aguerrida oposição.

Com um novo “inquilino” no Cruz e Sousa, esse tempo de transição se completava: o que era branco passava a ser preto, o que era amarelo, azul.

O jornal dos vencidos ganhava um novo viço, em destempero e atrevimento. Era a hora de devolver os rojões, na forma de “denúncias” e de críticas ao “secretariado”. E de desafiar os novos césares a atravessar os novos rubicons.

“UM BRASIL PARA TODOS” não passa na GLOBO, o que passa na GLOBO é “UM BRAZIL PARA TOLOS” !

suficiente.

J B VIDAL

O PESCADOR – por hamilton alves / ilha de santa catarina

Vinha do mar, com uma pequena canoa cheia de petrechos de pesca. Um balaio abarrotado até a boca de peixes grandes e pequenos. A manhã era um pouco coberta, fazia um pouco de frio. Ele estava agasalhado com um paletó comprido, que chegava até perto dos joelhos, uma calça jean velha, um chapéu de couro, as mãos calosas, por onde deviam frequentemente passar os fios da tarrafa ou devido ao uso persistente e contínuo dos remos. Era um caniço em forma de gente, a barba branca por fazer, os olhos miúdos escuros, parecendo a quem o olhasse com atenção duas jaboticabas, os pés enfiados em alpercatas, de pouca fala.

Morava num barraco próximo da praia, dividido com as peças imprescindíveis, um quarto, banheiro, cozinha e uma pequena sala (ou o que poderia se denominar de sala).

A casa era igualmente mobiliada com o estritamente indispensável, sem rádio, sem TV, uma cama de casal, embora vivesse só (de vez em quando uma mulher, podia ser sua irmã, aparecia por ali para fazer a limpeza), um guarda-louça, um fogão à lenha (ainda era do tempo do fogão à lenha), uma mesa, uma cadeira de balanço velhíssima, duas janelas e obviamente uma porta.

A casa tinha uma pintura antiga ou há muitos anos não conhecera outra. Tais os estragos na que se viam agora.

Arrastou a canoa para próximo do barraco. Depois veio pegar o balaio com peixes.

– Quer me vender alguns desses peixes?

– Pode levar uns. – disse com o cenho carregado.

– Enfiou meia dúzia numa embira e ma entregou.

– Nem todo o dia dá boa pescaria, não é? – disse-lhe isso para dizer alguma coisa.

– Nem sempre o mar ta pra peixe. – consciente ou inconscientemente repetiu esse ditado popular.

Tirou o paletó e ficou só com com a camiseta debaixo, apesar do friozinho que fazia.

Encaminhou-se com o balaio para dentro do barraco. Uma mulher (provavelmente a irmã) despontou numa das janelas.

Os dois sumiram lá dentro.

Olhei o mar demoradamente. É sempre bom olhar o mar.

Os vultos cínicos das cartilhas escolares – por alceu sperança / cascavel.pr

O Reino português nos doou à Inglaterra. O Império gerou as dívidas impagáveis aos banqueiros. As ditaduras republicanas nos venderam aos EUA. E as democraduras fora delas subscreveram alegremente essa malandragem toda.

As cartilhas escolares, antigamente, eram feitas para domesticar a população. Nos tempos da Guerra Fria, coisa espantosamente absurda, que ceifou vidas de bons brasileiros, jogando irmãos contra irmãos, a introjeção da lúgubre ideologia do “inimigo interno” fazia professores espionarem alunos e vice-versa, pais espionarem filhos e vice-versa.

Vizinhos se temiam e se odiavam. Hoje, ao atirar fora aqueles manuais escolares, o que resta é a lenta, difícil, mas persistente apuração da verdade para superar aquelas besteiras sobre “vultos cívicos” das aulas de “moral e cívica”. Na verdade, vultos cínicos.

O professor José Jobson Arruda, em “A abertura dos portos brasileiros: 1800–1808: Uma colônia entre dois impérios”, traça a gênese da entrega do Brasil aos interesses alienígenas.

Até agora, acreditava-se que a família real veio ao Brasil, em 1808, devido à ameaça napoleônica. Hoje já se sabe que essa foi uma decisão tomada pela Inglaterra. Ela foi registrada na Convenção Secreta de Londres, de 22 de outubro de 1807. Só isso já valeria jogar no lixo as cartilhas do passado.

A coisa começa quando a revolução americana, em 1776, tira da Inglaterra seu “Brasil” até então explorado: os EUA. Sem a mamata da ex-colônia, os ingleses esticaram os olhos para o algodão brasileiro.

Aí se reforça também a larga tradição de contrabando neste País, estimulado pelos circunspectos senhores londrinos.

A partir de 1790, o governo britânico, depois de tanto receber de Lisboa o ouro que Portugal surrupiava do Brasil, foi surpreendido com uma inversão na balança comercial com Portugal.

“Culpa” do Brasil: “O algodão da colônia portuguesa alimentava a indústria têxtil inglesa. E as mesmas moedas – feitas com o ouro brasileiro e com a efígie de d. João 4º – que haviam inundado os cofres ingleses, começaram a voltar para Portugal, a fim de pagar as importações de algodão”, diz Arruda.

Em 1800, com déficits cada vez mais elevados, eles iniciaram uma política ainda mais agressiva de contrabando. Em 1805, a Inglaterra queria ir mais longe: diante das necessidades financeiras ainda mais acirradas pela ofensiva napoleônica, George Canning projetou a invasão do Rio de Janeiro – ou, alternativamente, Salvador – em uma expedição que contaria com 10 mil homens e seria realizada em 1806.

Mas Portugal entregou a rapadura e facilitou as coisas. Resultado: nosso algodão foi produzir tecidos e roupas na Inglaterra e os brasileiros pagavam caro pelos produtos feitos com esse mesmo algodão.

Muitas vezes foi assim. Quando os patriotas se erguiam contra a dominação estrangeira, eram tratados a ferro e fogo, abaixo de muita calúnia, criminalização dos movimentos sociais e censura férrea à imprensa.

Em 1° de abril de 1964, o abutre estava à espreita: se o presidente Jango resistisse à ilegalidade, navios e aviões dos EUA despejariam 110 toneladas de armas e munições para abastecer os “democratas” golpistas.

O bom Jango entregou a rapadura. Resultado: um País endividado até o pescoço e entregue à corrupção. O governo neoliberal de hoje é apenas o novo (e manhoso) capítulo dessa mesma história.

AUTONOMIA de joão batista do lago / são luis


Por que me pretendes prisioneiro, se

Sabes o tanto e o quanto que te amo?

.

Sou pássaro vadio na solidão dos tempos.

Nem tenho domicílio e levo vida errante!

Sou capeta da minh’alma ambulante;

Viajor eterno dos meus momentos (e)

Dos meus maltrapilhos instantes.

.

Então, por que me pretendes prisioneiro, se

Sabes como sou? (…) Autônomo e livre.

.

Deixa-me voar pelos universos infinitais

Das essências universais que existe em cada ser.

Deixa-me livre para que eu possa retornar ao teu colo

Prenhe de amores apreendidos de todos os mundos.

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE NÃO SER de zuleika dos reis / são paulo



Este momento é meu só

ninguém mais dele sabe

nem eu.

Estrangeira aqui em toda parte

tal Pessoa

e não tal Pessoa

nunca estou onde estou

nem estou onde não estou.

A tarde escoa morre

inteira fora

não depende de nada

nem de ninguém

como eu não dependo de mim.

Parece que estou a árvore na praça em frente

mas não estou a árvore na praça em frente

nem me pareço com alguém que olha pela janela

a árvore na praça em frente.

Para  ser uma com a árvore

na praça em frente

precisaria ser

uma com o Tudo

como dizem iniciados

e simpatizantes …

Na janela se projeta uma sombra

da árvore?

de mim?

Cegueira sem transcendência.

A noite caiu

e não quebrou

esta insustentável leveza

de não ser.

Haikai: fotogramas * – por jorge lescano /são paulo

Haikai:  fotogramas *


A seguir, em quatro tomadas, as metamorfoses de um poemeto.

No Tâmisa

o silêncio da Patinha

é um mistério.

Patinha é nome próprio, caracterizado assim pela maiúscula. Poderá parecer arbitrário, mas se trata do diminutivo do apelido de uma amiga do autor, residente em Londres, ao mesmo tempo sugere o tamanho e a idade de uma ave. Patinha, então, deve ser entendido nestes dois sentidos, justapostos.

A primeira “falha” do terceto — e por isso não admitido como haikai –, é a ausência do kigo (termo que indica a estação do ano), elemento estruturador deste tipo de composição. O kigo pode ser interpretado também como verdadeiro tema do haikai. Na sua ausência, o poemeto perde tal qualificação.

O segundo “verso” é narrativo, não dramático (ação direta), prefigura um narrador que distancia o leitor da experiência. A falha é de concepção, pois o haikai deve provocar no leitor a iluminação, ou revelação, de um significado novo nos fatos cotidianos. O zen chama isto de satori.

O terceiro verso é conceitual. Mistério é uma sensação já filtrada pelo autor; o leitor recebe a idéia do fato, não o fato.

No velho Tâmisa

Patinha silenciosa.

Luar entre nuvens.

Neste contexto, o adjetivo velho pode ter o sentido de antigo, nobre, respeitável, é ainda termo carinhoso e familiar. Também cumpre a função, mais ou menos convencional neste “gênero poético”, de “cenografia” aprazível. No cenário vazio deverá surgir a personagem passiva do agente da ação (revelação) do terceiro “verso”: luar (kigo). No espaço criado pelo primeiro verso, a lua cria uma cena de penumbras, necessária para tornar sensível o mistério.

No rio londrino

Patinha silenciosa.

Luar entre nuvens.

O nome do rio é substituído pelo termo genérico, embora localizado. À sensação de rio se segue uma noção geográfica que o situa; porém, há uma certa demora na sua identificação. Isto é condenável no haikai, que deve ser direto, próximo, concreto; as palavras devem criar o fato mais do que narrá-lo. Todos os leitores sabem o nome deste rio?

É premissa do poemeto a apreensão imediata e não seletiva de leitores. Poderá se questionar também  se  todos  os  leitores  da  versão  anterior  sabem  onde  fica  o Tâmisa,  ou  se a  lembrança é

instantânea, pois na construção e recepção do haikai devem-se evitar processos não sensoriais. A

sensação do rio supera a informação seguinte, tornando-a quase supérflua, não fosse intenção do autor localizar a ação. Isto cria um novo inconveniente. Londres é cidade famosa o bastante para se ter uma imagem de pontes e avenidas e prédios e de todo tipo de construção das grandes zonas urbanas; assim sendo, a acepção bucólica de Patinha é praticamente anulada.

O efeito final já se incorporou ao haikai: luar entre nuvens.

À margem do Tâmisa

Patinha silenciosa.

Luar entre nuvens.

O fato se dá em outro local. A ação da personagem humana também mudou: ela observa o rio (e talvez a avezinha solitária), já não está no centro dele; sua posição no quadro é outra: oferece-se ao leitor num efeito “cinematográfico”. O objeto percebido por este foi modificado. Se na versão anterior o leitor podia pressentir a beira do rio pela imagem da água, a câmera agora apresenta uma visão panorâmica que inclui Patinha, objeto-sujeito do silêncio.

A composição ganha profundidade espacial por ter um elemento interferindo na linha do horizonte: o corpo da observadora. A cena é iluminada parcialmente pelo luar entre as nuvens, recurso ou imagem-clichê dos filmes (por que não ingleses?) de mistério. O autor selecionou e transferiu para o leitor os componentes que expressam sua experiência. Cada uma destas variantes — não se trata de correções — é um haikai. As variações são determinadas pela necessidade de provocar no leitor recolhimento, contemplação estática, primeira sensação produzida no autor pelo fato original. A preferência por qualquer uma das versões não exclui as outras.

Ainda que a leitura não seja “tema”  de haikai, ela faz parte do morador da cidade, leitor alvo do poema. A primeira versão tinha endereço único, dirigia-se à amiga e por ela podia ser entendido além, ou aquém, das regras poéticas. As versões seguintes procuram leitores diversos, alguns deles versados no assunto.

Após a leitura, outro silêncio.

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* Haikai é poesia popular japonesa, considerado a forma poética mais breve do mundo. Não leva título. É composto de dezessete sílabas, divididas em três versos de cinco, sete, cinco, respectivamente. O kigo é o termo que identifica a estação do ano. Pode ser o próprio nome da estação, é mais comum, contudo, que seja um produto da natureza; vegetal, animal, fenômeno atmosférico, etc., ou evento que caracterize a estação. Exemplos: flor (primavera); urubu (inverno); luar (outono); carnaval (verão).

GERTRUDE STEIN, QUANDO PARIS ERA UMA FESTA por helena vasconcelos / são paulo

E … UM POEMA DE GERTRUDE STEIN

Quem apareceu primeiro, Gertrude Stein ou James Joyce? Não se esqueçam que o meu primeiro grande livro, «Three Lives», foi publicado em 1908. Muito antes de “Ulisses”. Não nego que Joyce fez qualquer coisa mas a sua influência é apenas local. A sua hora já passou tal como aconteceu com Synge, outro escritor irlandês.”

Estas linhas foram escritas por Gertrude Stein, em 1924. Apesar de ter errado em relação a James Joyce ( como aconteceu, aliás, com Virginia Woolf), a verdade é que ela tinha a perfeita noção do seu lugar de pioneira da chamada “ficção experimental” e do impacto que a sua escrita e a sua personalidade iriam ter em muitos dos seus contemporâneos e nas gerações que se seguiram

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De Gertrude Stein é comum dizer-se que “descobriu ” Picasso, que inventou a expressão “geração perdida”, aplicada a Hemingway e Fitzgerald, que aconselhou Paul Bowles a dedicar-se à música e que se considerava um génio. Sabe-se também que possuía uma das maiores e mais ricas colecções de arte do século XX e que essas obras se encontram, agora, espalhadas por vários museus. No seu apartamento, em Paris, acotovelavam-se personagens do mundo artístico e da sociedade da época: Braque, André Masson, Tristan Tzara, Marcel Duchamp, Jean Aron, Djuna Barnes, Nancy Cunard são alguns dos nomes constantes de uma lista interminável referenciada por Linda Wagner-Martin na biografia “Favored Strangers. Gertrude Stein and her Family” (400 págs., November 1997, Rutgers University Press).

Em 1999, cento e vinte e cinco anos depois do seu nascimento, sucederam-se as manifestações de apreço, análise, recuperação da sua obra: teatro, ficção, poesia, biografia, ópera. O século passado terminava, assim, com uma “revisão da matéria” lançada aos ventos por Stein. A partir do estudo da sua obra e personalidade, noções como modernismo e pós-modernismo, etnicismo, lesbianismo, elitismo, estética, nunca mais foram as mesmas.

Gertrude Stein nasceu a 3 de Fevereiro de 1874 em Allegheny, Pennsylvania, Estados Unidos e passou a maior parte da infância entre Viena e a Califórnia. De acordo com as recordações de uma tia, “aos catorze meses andava sozinha, imitava e repetia tudo.” Tinha oito anos quando começou a escrever, uma actividade que rapidamente se transformou em obsessão, tal como a leitura. As suas preferências iam para Shakespeare e para livros de História Natural. Na escola mostrou imediatamente o fascínio que sentia pela estrutura das frases.

Em 1893 entrou para o Radcliffe College mas, em 1903, instalou-se em França com o irmão, Leo, depois de ter passado por um curso de medicina na Universidade Johns Hopkins e de ter experimentado o estudo de psicologia com William James, com quem desenvolveu uma relação estreita e privilegiada ao ponto de, num belo dia de Primavera, escrever no topo da página de um exame: “Querido Professor James. Espero que me perdoe mas hoje não me apetece nada fazer um exame de filosofia.”

Gertrude e Leo, munidos de uma generosa mesada facultada pelo irmão mais velho depois da morte do pai, tornaram-se rapidamente o centro da actividade cultural, em Paris. Leo era pintor e crítico de arte mas acabou por se tornar um neurótico incurável, paralisado por desordens alimentares e pela surdez, a que se juntou um “bloqueio” artístico e um ruinoso fetichismo por sapatos. Em “Sister, Brother” (Ed. Putnam) a biógrafa Brenda Wineaple traça o perfil destes dois irmãos ligados por sentimentos profundos e uma feroz interdependência, agravada pela morte da mãe quando Gertie tinha catorze anos e Leo dezasseis.

Em Paris desenvolveram uma relação estreita com Picasso e, simultaneamente, com o seu grande rival, Matisse. Braque, Van Dongen, Derain e Juan Gris, também faziam parte do círculo de amigos íntimos, sendo este ultimo o favorito de Stein. Para além de pintores o famoso n.º 27 da rue de Fleurus acolhia, regularmente, todas as semanas, a visita de Apollinaire, Max Jacob, André Salmon, Erik Satie, Jean Cocteau, Sherwood Anderson, Ernest Hemingway, Scot Fitzgerald. Gertrude gostava de reunir a sua “corte de génios”, presidida por ela própria. Mas havia quem lhe resistisse como, por exemplo, James Joyce que afirmava “detestar mulheres intelectuais” e, em certa medida, Djuna Barnes, a sua rival na escrita, que preferia frequentar a companhia de Nathalie Barney e do seu grupo de lésbicas sofisticadas. Gertrude nunca gostou de Joyce, que considerava um trapaceiro, e irritava-se por ele não se vergar perante a sua forte personalidade e por não se mostrar agradecido pelo facto de ela o ter incluído no seu grupo de convidados que incluía “discípulos” obedientes como Hemingway de quem ela dizia : “Fui eu que o ensinei a escrever.”

Em 1907, Stein começou a viver com Alice B. Toklas, uma amiga dos seus tempos de S. Francisco. Foi uma união muito feliz que durou todo o resto da vida da escritora ( Gertrude morreu a 27 de Junho de 1946 e Alice sobreviveu-lhe 21 anos) e que foi amplamente documentada em “Autobiografia de Alice B. Toklas”, escrita pela própria Gertrude Stein, aos cinquenta e oito anos, numa altura em que decidiu afastar-se do seu estilo mais rebuscado e escrever algo simples e corriqueiro. A narrativa era-lhe, supostamente, ditada pela sua companheira por esta “estar demasiado ocupada com os problemas caseiros do dia-a-dia

“Robinson Crusoé” de Daniel Defoe serviu de modelo para esta “autobiografia” em que Stein se divertiu a designar-se como “génio” e a descrever os detalhes mais íntimos da vida de todos os dias, com as festas, os jantares, as exposições, os amores, ódios, zangas e reconciliações de amigos, inimigos ou simples conhecidos.

Gertrude Stein afirmou que não queria que as emoções ditas “femininas” dominassem a sua vida, preferindo ser ela a dominar o mundo (daí a sua imagem iconográfica muito utilizada pelas suas admiradoras, na qual a sua cabeça, de perfil, se assemelha à de César), reproduzindo-o nos seus escritos e reprimindo sempre a eventual primazia da emoção. A única paixão permitida era reservada à escrita, uma afirmação transmitida, à sua maneira, muito peculiar, através da voz de Toklas na “Autobiografia” : “(Ela) sabe que a beleza, a música, os adornos, até mesmo acontecimentos, não deveriam ser a causa de emoção nem deveriam servir de material para poesia ou prosa. Nem mesmo a emoção per si deveria ser a causa de poesia ou prosa. Estas deveriam consistir numa reprodução exacta de uma realidade, tanto interior como exterior”.

Quando Gertrude e Alice começaram a viver juntas, a primeira tinha acabado “Three Lives“, um conjunto de três histórias (retratos) de três mulheres e trabalhava numa obra monumental baseada na sua própria família a que chamou ” Making of Americans“. O momento foi especialmente dramático porque se tinha separado definitivamente de Leo, com quem se mantinha em estado de guerra declarada por ele não apreciar os seus escritos. Zangaram-se e nunca mais se falaram. Gertrude, que fora educada por um pai tirânico, ao lutar raivosamente com o irmão que adorava, para impor a sua identidade como escritora, criava uma barreira entre ela e o “mundo masculino “. O mais interessante é que, como é possível constatar através da já referida “Autobiografia”, era Stein quem assumia o papel de marido no casal, “escrevendo e discutindo arte com os homens“, enquanto Alice cozinhava e tratava da casa e “se sentava a conversar sobre chapéus e roupas com as mulheres dos artistas que vinham de visita“.

Theree Lives“, o estranho livro que Stein escreveu em 1905, foi concebido, segundo ela, a partir de um quadro de Cézanne  que os dois irmãos tinham adquirido no inverno anterior. É a história de Anna, Lena e Melanctha, esta ultima considerada por Richard Wright como “a primeira narrativa longa e séria sobre a vida dos negros, nos Estados Unidos”, onde se acumulam detalhes psicológicos e cenas da vida quotidiana que a escritora observava durante os seus passeios a pé em Montmartre,

quando ia e vinha de e para o “atelier” de Picasso, onde quase todos os dias posava para o seu famoso retrato.

A influência de Cézanne na sua obra deu origem ao seu estilo repetitivo e hipnótico e ao “cubismo na literatura” a que ela chamava o seu próprio ” método de composição”. Este assentava nos seguintes princípios: “…começar sempre de novo, sempre, sempre, “usar tudo” e “utilizar um presente contínuo“. Em Cézanne, ela admirava a técnica a paciência e o método bem como o facto de, na composição, os detalhes terem tanta importância como o todo.

Gertrude foi uma escritora incansável. Os editores ficavam chocados com a sua pontuação, com as suas frases inacabadas que eram retomadas mais adiante, com as suas repetições. Ela dizia que tanto fora influenciada pelo cubismo como por Mark Twain o que marcava a sua relação com a cultura americana, apesar de ter vivido quase toda a vida na Europa. Em 193,  numa viagem aos Estados Unidos, durante a qual proferiu palestras e conferências, foi acolhida triunfalmente em todo o lado, chegando a ser recebida na Casa Branca com pompa e circunstância.O seu cosmopolitismo e desenraizamento contribuiram para estabelecer o mito de Paris como centro cultural de eleição para infindáveis gerações de americanos, sem nunca deixar de enaltecer as virtudes do seu país natal. Escreveu que, “…(os Estados Unidos), ao começarem a criação do século vinte nos anos sessenta do século dezanove, tornaram-se o país mais antigo do mundo”.

Fisicamente, Gertrude era a típica matrona germano-americana, de corpo e traços fortes, uma figura que nada tinha de feminino. Mas o seu humor, o seu sentido de auto-estima e o seu espírito finamente irónico, aliados ao facto de ser extremamente mundana e muito “snob”, faziam dela uma personagem muito atraente. Hemingway descreveu-a assim: “Mademoiselle Stein tinha uma constituição pesada, como a de uma camponesa… com uns belos olhos e um rosto germano-judeu que… fazia lembrar o das mulheres do campo do norte de Itália, com as suas roupas, o seu rosto sempre móvel e o seu adorável cabelo, espesso, vivo, como o das imigrantes. ” Quanto a Alice, “uma gárgulaamigável” foi descrita por Hadley Hemingway como, “…um pedaço de fio electrificado, magra e pequena, com ar de espanhola e olhos muito escuros e penetrantes.” Mabel Dodge, uma amiga de Gertrude fez o seguinte comentário em relação à sua aparência: “ era atraente de uma forma positiva e generosa, apesar da sua amplitude física. Parecia apreciar a sua própria gordura, uma atitude que é sempre uma ajuda, no sentido de se ser aceite por outras pessoas. Não possuía nem um traço daquele embaraço tonto que os anglo-saxónicos demonstram em relação à carne. Ela glorificava a sua.”

Em “Paris é uma Festa“, Hemingway conta que não foi capaz de a encarar uma vez em que teve de esperar no salão do apartamento, enquanto ouvia gemidos e suspiros, no quarto situado mesmo por cima. Só a ideia das duas damas embrenhadas num acto sexual bastante activo, fizeram-no bater em retirada. Mas Hemingway era um misógino e o seu machismo tinha de ser arvorado de uma forma óbvia que também passava pela repulsa em relação ao lesbianismo.

Virginia Woolf, Willa Cather, Colette e Gertrude Stein apresentam entre si certas semelhanças num universo romanesco em que a “sedução maternal” é o reflexo de uma visão muito feminina do universo do amor. Embora com personalidades diferentes, elas representam uma ideia de sucesso entre as “mulhers de letras”. Todas elas tiveram a liberdade de produzir os seus escritos, alcançando uma enorme mestria na utilização das suas linguas maternas. Também foram capazes de disfrutar um certo conforto, ao lado de companheiros e companheiras que se preocuparam em fornecer-lhes condições para trabalharem. Todas conheceram o sucesso em vida e gozaram plenamente esse privilégio, colocando a literatura à frente de tudo. É verdade que também escreveram sobre a maternidade mas, de todas elas, só Colette teve uma criança, já quando estava na meia idade (“Je suis un écrivais qui a fait un enfant” dizia ela quando se referia ao “acidente”)

Gertrude Stein foi mais do que uma senhora ( com um ar bastante masculino ) que dava óptimas festas e entretinha os seus amigos e convidados com ditos espirituosos e inteligentes, ao mesmo tempo que os deliciava com os famosos cozinhados da sua companheira. Foi uma escritora que inovou em literatura e uma importante mentora da arte moderna. Diz-se que ela fez com as palavras o que Picasso fez com as tintas. Os seus escritos “impressionistas” nos quais utilizava termos que lhe eram familiares e que lhe suscitavam uma determinada reacção, tinham como finalidade descobrir um significado oculto, a sua verdadeira natureza. Para muita gente, ela maltratou a língua inglesa, abusou dela e “desfigurou-a”. A sua intenção era criar uma nova linguagem em que a qualidade do verbo deveria ser intrínseca e não o espelho de uma imagem preconcebida. É famosa a sua frase,  “Rose is a rose is a rose“, na qual ela condensou toda a sua teoria: o sentido deveria surgir a partir da entoação do conjunto de palavras, fazendo emergir, do subconsciente, o significado perfeito até aí mergulhado nos recônditos da mente.

Gertrude Stein tem sido utilizada como ícone de grupos homossexuais. Um dos seu primeiros livros “Q.E.D.” (Quod Erat Demonstrandum) ou “Things As They Are“, que ela escondeu e fingiu ter esquecido durante anos, contava a história de um triângulo amoroso formado por três mulheres , uma das quais era uma imagem decalcada de si própria, no tempo em que estudava Medicina. Aliás, os seus biógrafos estão convencidos que a sua desisitência do curso na John Hopkins University ficou a dever-se às agruras de uma paixão e não, como ela disse, ao facto de se “aborrecer mortalmente”.

O facto de mais tarde, em Paris, fazer questão de demonstrar abertamente que desafiava as convenções, contribuiu para uma admiração por parte das comunidades homossexuais. A sua qualidade de judia tão pouco a marcou com sinais de exclusão. Durante a Primeira Grande Guerra, tanto ela como Alice fizeram questão de ficar em Paris. Compraram um Ford em muito mau estado, a que chamaram “Auntie” e usaram-no para ajudar a Cruz Vermelha e transportar feridos para a província. Durante a Segunda Grande Guerra trabalharam para a Resistência, conseguindo que os ocupantes nazis nunca descobrissem que eram judias.

A imagem de Gertrude Stein ficará sempre associada ao retrato que Picasso fez dela: uma forma mais ligada à escultura do que à pintura, uma figura sólida, maciça, que nos olha com o ar remoto de um monge tibetano. A sua forte personalidade marcou indestrutivelmente todos os que com ela privaram. Adorava a escrita, acima de tudo (seguiam-se, na ordem dos seus afectos, Alice e os seus dois cães, Pépé e Basket) e procurou transformar o romance e a linguagem do século XX da mesma forma e com o mesmo génio que o seu amigo Picasso, em relação às artes visuais.

Morreu a 27 de Junho de 1946 e foi enterrada no cemitério Père Lachaise, em Paris. Dias antes, na cama do hospital onde estava internada, perguntara a Alice: “Qual é a resposta?” E, uma vez que a companheira não lhe respondeu, insistiu. ” Então, qual é a pergunta?!”. O seu humor e o seu génio permaneceram intactos até ao fim.

fotos: Alice e Gertrude

UM POEMA DE GERTRUDE STEIN

from Before the Flowers of Friendship Faded Faded

I love my love with a v
Because it is like that
I love my love with a b
Because I am beside that
A king.
I love my love with an a
Because she is a queen
I love my love and a a is the best of them
Think well and be a king,
Think more and think again
I love my love with a dress and a hat
I love my love and not with this or with that
I love my love with a y because she is my bride
I love her with a d because she is my love beside
Thank you for being there
Nobody has to care
Thank you for being here
Because you are not there

“Nosso Lar”, baseado no livro de Chico Xavier, longa acompanha a jornada do médico André Luiz após sua morte

Uma história sobre evolução e segunda chance, Nosso Lar apresenta a trajetória pelo mundo espiritual de André Luiz (Renato Prieto), um médico bem-sucedido que acorda em um lugar desconhecido – um ambiente escuro e tenebroso, com gritos e seres que vivem à sombra. Ele sabe que não está mais vivo, mas continua sentindo fome, frio, dor e sede.

Após o sofrimento nas zonas purgatórias, é levado para a cidade que dá nome ao filme, onde aprende como é a vida em outra dimensão, coisa que ele sequer supunha existir. Entre lições sobre conhecimento e momentos ainda marcados por dor e angústia, André Luiz vê que a vida na Terra continua, inclusive para sua família que ele tanto ansiava reencontrar.

de UM clique no centro do vídeo.

O longa-metragem de Wagner de Assis é baseado no best seller do médium Chico Xavier. Em sua 60ª edição, o livro vendeu cerca de 2 milhões de cópias no Brasil e foi traduzido para outras dez línguas. Renato Prieto se preparou durante seis meses e emagreceu 18 quilos para viver o personagem. As gravações foram feitas no Rio de Janeiro e em Brasília entre agosto e setembro de 2009. Com um orçamento de R$ 20 milhões, a película teve o maior gasto com produção da história cinematográfica nacional. Hoje nos cinemas (3/9/10).

HOMEM SENTADO por ronnie von martins / pedro osório.rs

Engolia todas as dores. E já se acostumara. Não havia dor que não estivesse acostumado a engolir. Todas. Friamente às engolia. Às vezes mastigava-as. Lentamente. Tudo ao seu redor era lento. Denso. Tudo era denso. Densidades estratificantes que lhe cobriam, envolviam em camadas. Como uma cebola. Não comia cebolas.

Os movimentos eram raros, da cama ao assento frente a parede que não se abria em janela, mas que se fechava em parede. E mesmo assim, seus olhos paravam ali. No espaço que só o olho do homem sentado conseguia ver. Ver? Seria uma frincha? Existiria a possibilidade de o olho buscar e se esgueirar pelos interstícios invisíveis e “impossíveis” da parede?

Comia dores e bebia chimarrão. Amargo e quente. E não escuta o rádio. Mas sempre ligava o aparelho. Uma estação além das vozes chiava dialetos singulares e vetustos. E seus olhos por breves instantes pareciam brilhar.

O tempo era impreciso, já não era possível determinar se era presa de Kronos ou Aion, ou se decidira deixar o corpo para um e o resto para o outro. Mas parecia que já havia preenchido seu quinhão de real com várias toneladas de memória e delírio.

Pelo substantivo louco, era definido pela família. Nunca apareciam, mas pagavam uma funcionária para limpara o pequeno apartamento. Ela chegava lépida, faceira, pequenas e infames piadinhas nos lábios, barriga volumosa e satisfeita, espantando fantasmas e poeira com seu espanador encantado.

Ele ordenava a sua máscara que forçasse um sorriso. Cordialidade. E o que saia era uma careta engraçada que fazia a mulher sorrir e dizer mais besteiras.

A funcionária era um vento. E soprava  com força todo o silêncio e a solidão do espaço do homem, mas quando saia, a gravidade puxava-os para baixo. E ele realmente não sabia se gostava do agora ou do antes.

“O que estás vendo?” às vezes a mulher perguntava e ele respondia que via a cidade da memória. E ela ria. Aquecia mais água para a térmica, perguntava se ele não queria trocar a erva. “Uma carteira de cigarro” ele dizia, mais que pedia. “Eles disseram que você não pode fumar” e ele sorria. E ela trazia a carteira e ele incendiava o lugar. O fósforo incandescente por segundos frente aos olhos e em seguida a fumaça se esvaindo e abraçando o ar em valsa erótica. Lascívia. “Eles se amam.” Ele dizia. “Quem?” perguntava a mulher. “A fumaça e o ar.” A gargalhada era dela, o silêncio dele. “Você é esquisito mesmo, hein?” “É.”, dizia o verbo pensando na conjunção “e”. Este era o problema. A finitude das coisas e de si mesmo começavam a lhe causar estranhamentos. Gostaria de se ligar a outra oração, acrescentar eternamente. O meio das coisas. O verbo ser. A palavra “é” definia, estagnava e prendia tudo que não deveria ser nas estruturas  sedimentares do “é”. O ser.

Ria desta suposta unidade. E se esvaia em fumaça. E dissolvido em nevoa, qual vampiro, perdia-se inteiramente pelas frestas do seu corpo real e organizado.

“COISAS DE MARIA JOÃO” convida para 3 e 4/9 / ilha de santa catarina

CARTA A UM AMOR PASSADO por vera lucia kalahari / portugal

CARTA A UM AMOR PASSADO

Tu eras a paisagem grandiosa e amena do oásis na solidão da minha vida.

Meu cavalo galopara por todos os desertos meu albornoz se agitara a todos os ventos,

e armara a minha tenda sob todos os céus: nada vira, nada encontrara, nada tivera que me acolhesse, como a sombra das palmeiras, que me encantavam como o mistério luminoso dos astros.

Sabia o que as palmeiras ensinavam entre as dunas inóspitas: que a sua sombra era doce e silenciosa.

Sabia que as estrelas estavam longe e que só os magos entendiam a sua linguagem de beleza e de mistério.

Não sabia que um dia, como o nómada perdido sob o sol escaldante, caminhando sobre as areias, poderia encontrar junto de ti, a doce sombra das palmeiras silenciosas, na amena paisagem do oásis. Nem sabia que no azul das minhas noites, vendo as estrelas reflectidas nos meus olhos, entenderia também a linguagem cintilante dos astros e ouviria o que eles diziam, palpitando no céu distante: Que Alá é grande, que o amor é o maior bem terreno e que a felicidade existe, não no céu distante, mas junto de nós, ao alcance do nosso gesto, perto do nosso coração, e que um dia a encontraremos…Então, sonhava, apertava-te ao meu peito e beijava os teus olhos cheios de estrelas

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ilustração da autora.

OBAMA oficializa fim da missão de combate dos EUA no Iraque / usa


Cinquenta mil soldados continuam em tarefas de apoio e treinamento.
Segundo presidente, agora o foco é economia.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, declarou oficialmente o fim da missão de combate americana no Iraque, em um discurso no Salão Oval da Casa Branca na noite desta terça-feira (31). Obama enfatizou que a principal missão do país neste momento é restaurar a economia e colocar os milhões de americanos que perderam o emprego para trabalhar. “É hora de virar a página”, disse o presidente, da mesma mesa em que George W. Bush anunciou o início da guerra, em 2003.

“Esta noite, anuncio que a missão de combate americana no Iraque acabou. A Operação Iraque Livre está finalizada, e os iraquianos agora têm responsabilidade por sua segurança e pela segurança de seu país. Essa era minha promessa quando fui candidato a este posto”, disse

Presidente americano anuncia o fim da missão de combate no Iraque, da Casa Branca (Foto: Reuters)

O presidente enfatizou que os EUA pagaram um preço muito alto para colocar o futuro do Iraque na mão de seus cidadãos. “Mandamos nossos homens e mulheres para fazerem esse enorme sacrifício e gastamos enormes recursos em um momento de orçamento apertado dentro do país.”

Menos de 50 mil soldados americanos permanecem no Iraque, em tarefas de apoio e treinamento; Ao menos 100 mil deixaram o país, invadido em 2003 pelo ex-presidente George W. Bush, para capturar um arsenal de armas de destruição em massa que jamais foi encontrado.

O presidente destacou que os líderes do Iraque devem formar rapidamente um novo governo: “esta noite, encorajo os responsáveis iraquianos a avançar com urgência para formar um governo que seja representativo de todos os iraquianos”. “Quando o governo estiver formado, não haverá dúvidas, os iraquianos terão um parceiro forte: os Estados Unidos”, acrescentou.

Quase um trilhão de dólares foram gastos e mais de 4,4 mil soldados americanos e ao menos 100 mil civis morreram desde 2003. Uma pesquisa recente da rede CBS mostrou que 72% dos americanos acham que a guerra não compensou as perdas de vidas de americanos.

Obama disse que em agosto do ano que vem, a transição será no Afeganistão. Segundo ele, agora os EUA estão aptos a aplicar mais recursos no Afeganistão devido à mudança no Iraque, e que o ritmo da retirada norte-americana naquele país dependerá das condições em terra, mas começará na data prevista, em julho de 2011.

Do G1, com agências internacionais

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DOIS DEDOS DE PROSA:

os conservadores, norte americanos ou não, não gostam desta notícia, ela vai contra seus interesses econômicos na medida em que controlam a industria do armamento, comunicações  e espacial. para eles é preciso tensionar, sempre. Obama havia se comprometido em acabar com a guerra pesada no Iraque, os democratas aguardavam este momento para crescer em popularidade, aconteceu. os democratas do planeta também aguardavam a retirada do afeganistão. havia e há, ainda, muitos que não acreditavam nessa vontade presidencial de Obama, irão, agora, buscar outras questões para criticá-lo e tensionar ao máximo. tempo para que o presidente encontre o momento exato para tais medidas  não haverão de permitir, conservadores porque querem outra guerra, talvez com o Irã (que será um desastre mundial) e democratas porque querem trocar o grupo no centro do poder. é óbvio que um presidente americano não pode realizar todas as suas políticas de vontade  pessoal, lá o sistema é a origem do poder, mas o presidente Obama pode, se quiser, modificar as relações politicas e sociais com o planeta e “suavizar” a pressão na área econômica. é de alto risco, poderá ser assassinado como foram os Kennedy por muito menos. só o povo americano compreendeu e acreditou em Obama. estava certo.

J B VIDAL