Arquivos Diários: 4 setembro, 2010

AUTONOMIA de joão batista do lago / são luis


Por que me pretendes prisioneiro, se

Sabes o tanto e o quanto que te amo?

.

Sou pássaro vadio na solidão dos tempos.

Nem tenho domicílio e levo vida errante!

Sou capeta da minh’alma ambulante;

Viajor eterno dos meus momentos (e)

Dos meus maltrapilhos instantes.

.

Então, por que me pretendes prisioneiro, se

Sabes como sou? (…) Autônomo e livre.

.

Deixa-me voar pelos universos infinitais

Das essências universais que existe em cada ser.

Deixa-me livre para que eu possa retornar ao teu colo

Prenhe de amores apreendidos de todos os mundos.

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE NÃO SER de zuleika dos reis / são paulo



Este momento é meu só

ninguém mais dele sabe

nem eu.

Estrangeira aqui em toda parte

tal Pessoa

e não tal Pessoa

nunca estou onde estou

nem estou onde não estou.

A tarde escoa morre

inteira fora

não depende de nada

nem de ninguém

como eu não dependo de mim.

Parece que estou a árvore na praça em frente

mas não estou a árvore na praça em frente

nem me pareço com alguém que olha pela janela

a árvore na praça em frente.

Para  ser uma com a árvore

na praça em frente

precisaria ser

uma com o Tudo

como dizem iniciados

e simpatizantes …

Na janela se projeta uma sombra

da árvore?

de mim?

Cegueira sem transcendência.

A noite caiu

e não quebrou

esta insustentável leveza

de não ser.

Haikai: fotogramas * – por jorge lescano /são paulo

Haikai:  fotogramas *


A seguir, em quatro tomadas, as metamorfoses de um poemeto.

No Tâmisa

o silêncio da Patinha

é um mistério.

Patinha é nome próprio, caracterizado assim pela maiúscula. Poderá parecer arbitrário, mas se trata do diminutivo do apelido de uma amiga do autor, residente em Londres, ao mesmo tempo sugere o tamanho e a idade de uma ave. Patinha, então, deve ser entendido nestes dois sentidos, justapostos.

A primeira “falha” do terceto — e por isso não admitido como haikai –, é a ausência do kigo (termo que indica a estação do ano), elemento estruturador deste tipo de composição. O kigo pode ser interpretado também como verdadeiro tema do haikai. Na sua ausência, o poemeto perde tal qualificação.

O segundo “verso” é narrativo, não dramático (ação direta), prefigura um narrador que distancia o leitor da experiência. A falha é de concepção, pois o haikai deve provocar no leitor a iluminação, ou revelação, de um significado novo nos fatos cotidianos. O zen chama isto de satori.

O terceiro verso é conceitual. Mistério é uma sensação já filtrada pelo autor; o leitor recebe a idéia do fato, não o fato.

No velho Tâmisa

Patinha silenciosa.

Luar entre nuvens.

Neste contexto, o adjetivo velho pode ter o sentido de antigo, nobre, respeitável, é ainda termo carinhoso e familiar. Também cumpre a função, mais ou menos convencional neste “gênero poético”, de “cenografia” aprazível. No cenário vazio deverá surgir a personagem passiva do agente da ação (revelação) do terceiro “verso”: luar (kigo). No espaço criado pelo primeiro verso, a lua cria uma cena de penumbras, necessária para tornar sensível o mistério.

No rio londrino

Patinha silenciosa.

Luar entre nuvens.

O nome do rio é substituído pelo termo genérico, embora localizado. À sensação de rio se segue uma noção geográfica que o situa; porém, há uma certa demora na sua identificação. Isto é condenável no haikai, que deve ser direto, próximo, concreto; as palavras devem criar o fato mais do que narrá-lo. Todos os leitores sabem o nome deste rio?

É premissa do poemeto a apreensão imediata e não seletiva de leitores. Poderá se questionar também  se  todos  os  leitores  da  versão  anterior  sabem  onde  fica  o Tâmisa,  ou  se a  lembrança é

instantânea, pois na construção e recepção do haikai devem-se evitar processos não sensoriais. A

sensação do rio supera a informação seguinte, tornando-a quase supérflua, não fosse intenção do autor localizar a ação. Isto cria um novo inconveniente. Londres é cidade famosa o bastante para se ter uma imagem de pontes e avenidas e prédios e de todo tipo de construção das grandes zonas urbanas; assim sendo, a acepção bucólica de Patinha é praticamente anulada.

O efeito final já se incorporou ao haikai: luar entre nuvens.

À margem do Tâmisa

Patinha silenciosa.

Luar entre nuvens.

O fato se dá em outro local. A ação da personagem humana também mudou: ela observa o rio (e talvez a avezinha solitária), já não está no centro dele; sua posição no quadro é outra: oferece-se ao leitor num efeito “cinematográfico”. O objeto percebido por este foi modificado. Se na versão anterior o leitor podia pressentir a beira do rio pela imagem da água, a câmera agora apresenta uma visão panorâmica que inclui Patinha, objeto-sujeito do silêncio.

A composição ganha profundidade espacial por ter um elemento interferindo na linha do horizonte: o corpo da observadora. A cena é iluminada parcialmente pelo luar entre as nuvens, recurso ou imagem-clichê dos filmes (por que não ingleses?) de mistério. O autor selecionou e transferiu para o leitor os componentes que expressam sua experiência. Cada uma destas variantes — não se trata de correções — é um haikai. As variações são determinadas pela necessidade de provocar no leitor recolhimento, contemplação estática, primeira sensação produzida no autor pelo fato original. A preferência por qualquer uma das versões não exclui as outras.

Ainda que a leitura não seja “tema”  de haikai, ela faz parte do morador da cidade, leitor alvo do poema. A primeira versão tinha endereço único, dirigia-se à amiga e por ela podia ser entendido além, ou aquém, das regras poéticas. As versões seguintes procuram leitores diversos, alguns deles versados no assunto.

Após a leitura, outro silêncio.

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* Haikai é poesia popular japonesa, considerado a forma poética mais breve do mundo. Não leva título. É composto de dezessete sílabas, divididas em três versos de cinco, sete, cinco, respectivamente. O kigo é o termo que identifica a estação do ano. Pode ser o próprio nome da estação, é mais comum, contudo, que seja um produto da natureza; vegetal, animal, fenômeno atmosférico, etc., ou evento que caracterize a estação. Exemplos: flor (primavera); urubu (inverno); luar (outono); carnaval (verão).