Arquivos Diários: 5 setembro, 2010

“UM BRASIL PARA TODOS” não passa na GLOBO, o que passa na GLOBO é “UM BRAZIL PARA TOLOS” !

suficiente.

J B VIDAL

O PESCADOR – por hamilton alves / ilha de santa catarina

Vinha do mar, com uma pequena canoa cheia de petrechos de pesca. Um balaio abarrotado até a boca de peixes grandes e pequenos. A manhã era um pouco coberta, fazia um pouco de frio. Ele estava agasalhado com um paletó comprido, que chegava até perto dos joelhos, uma calça jean velha, um chapéu de couro, as mãos calosas, por onde deviam frequentemente passar os fios da tarrafa ou devido ao uso persistente e contínuo dos remos. Era um caniço em forma de gente, a barba branca por fazer, os olhos miúdos escuros, parecendo a quem o olhasse com atenção duas jaboticabas, os pés enfiados em alpercatas, de pouca fala.

Morava num barraco próximo da praia, dividido com as peças imprescindíveis, um quarto, banheiro, cozinha e uma pequena sala (ou o que poderia se denominar de sala).

A casa era igualmente mobiliada com o estritamente indispensável, sem rádio, sem TV, uma cama de casal, embora vivesse só (de vez em quando uma mulher, podia ser sua irmã, aparecia por ali para fazer a limpeza), um guarda-louça, um fogão à lenha (ainda era do tempo do fogão à lenha), uma mesa, uma cadeira de balanço velhíssima, duas janelas e obviamente uma porta.

A casa tinha uma pintura antiga ou há muitos anos não conhecera outra. Tais os estragos na que se viam agora.

Arrastou a canoa para próximo do barraco. Depois veio pegar o balaio com peixes.

– Quer me vender alguns desses peixes?

– Pode levar uns. – disse com o cenho carregado.

– Enfiou meia dúzia numa embira e ma entregou.

– Nem todo o dia dá boa pescaria, não é? – disse-lhe isso para dizer alguma coisa.

– Nem sempre o mar ta pra peixe. – consciente ou inconscientemente repetiu esse ditado popular.

Tirou o paletó e ficou só com com a camiseta debaixo, apesar do friozinho que fazia.

Encaminhou-se com o balaio para dentro do barraco. Uma mulher (provavelmente a irmã) despontou numa das janelas.

Os dois sumiram lá dentro.

Olhei o mar demoradamente. É sempre bom olhar o mar.

Os vultos cínicos das cartilhas escolares – por alceu sperança / cascavel.pr

O Reino português nos doou à Inglaterra. O Império gerou as dívidas impagáveis aos banqueiros. As ditaduras republicanas nos venderam aos EUA. E as democraduras fora delas subscreveram alegremente essa malandragem toda.

As cartilhas escolares, antigamente, eram feitas para domesticar a população. Nos tempos da Guerra Fria, coisa espantosamente absurda, que ceifou vidas de bons brasileiros, jogando irmãos contra irmãos, a introjeção da lúgubre ideologia do “inimigo interno” fazia professores espionarem alunos e vice-versa, pais espionarem filhos e vice-versa.

Vizinhos se temiam e se odiavam. Hoje, ao atirar fora aqueles manuais escolares, o que resta é a lenta, difícil, mas persistente apuração da verdade para superar aquelas besteiras sobre “vultos cívicos” das aulas de “moral e cívica”. Na verdade, vultos cínicos.

O professor José Jobson Arruda, em “A abertura dos portos brasileiros: 1800–1808: Uma colônia entre dois impérios”, traça a gênese da entrega do Brasil aos interesses alienígenas.

Até agora, acreditava-se que a família real veio ao Brasil, em 1808, devido à ameaça napoleônica. Hoje já se sabe que essa foi uma decisão tomada pela Inglaterra. Ela foi registrada na Convenção Secreta de Londres, de 22 de outubro de 1807. Só isso já valeria jogar no lixo as cartilhas do passado.

A coisa começa quando a revolução americana, em 1776, tira da Inglaterra seu “Brasil” até então explorado: os EUA. Sem a mamata da ex-colônia, os ingleses esticaram os olhos para o algodão brasileiro.

Aí se reforça também a larga tradição de contrabando neste País, estimulado pelos circunspectos senhores londrinos.

A partir de 1790, o governo britânico, depois de tanto receber de Lisboa o ouro que Portugal surrupiava do Brasil, foi surpreendido com uma inversão na balança comercial com Portugal.

“Culpa” do Brasil: “O algodão da colônia portuguesa alimentava a indústria têxtil inglesa. E as mesmas moedas – feitas com o ouro brasileiro e com a efígie de d. João 4º – que haviam inundado os cofres ingleses, começaram a voltar para Portugal, a fim de pagar as importações de algodão”, diz Arruda.

Em 1800, com déficits cada vez mais elevados, eles iniciaram uma política ainda mais agressiva de contrabando. Em 1805, a Inglaterra queria ir mais longe: diante das necessidades financeiras ainda mais acirradas pela ofensiva napoleônica, George Canning projetou a invasão do Rio de Janeiro – ou, alternativamente, Salvador – em uma expedição que contaria com 10 mil homens e seria realizada em 1806.

Mas Portugal entregou a rapadura e facilitou as coisas. Resultado: nosso algodão foi produzir tecidos e roupas na Inglaterra e os brasileiros pagavam caro pelos produtos feitos com esse mesmo algodão.

Muitas vezes foi assim. Quando os patriotas se erguiam contra a dominação estrangeira, eram tratados a ferro e fogo, abaixo de muita calúnia, criminalização dos movimentos sociais e censura férrea à imprensa.

Em 1° de abril de 1964, o abutre estava à espreita: se o presidente Jango resistisse à ilegalidade, navios e aviões dos EUA despejariam 110 toneladas de armas e munições para abastecer os “democratas” golpistas.

O bom Jango entregou a rapadura. Resultado: um País endividado até o pescoço e entregue à corrupção. O governo neoliberal de hoje é apenas o novo (e manhoso) capítulo dessa mesma história.