Arquivos Diários: 6 setembro, 2010

“MONÓLOGO DE UMA SOMBRA” de AUGUSTO DOS ANJOS



“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras…
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A sáude das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
– Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma
– O metafisicismo de Abidarma –
E trago, sem bramánicas tesouras,
Como um dorso de azémola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.

Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo á Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho…
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
E com certeza meu irmão mais velho!

Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como urna vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infurtúnio.

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!

Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem…
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.

Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!

Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!

E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
– Engrenagem de vísceras vulgares –
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!

A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.

E unia trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece…
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.

E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!…
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável de micróbios!

Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo…
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.

Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E á noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.

No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, á noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta…
E explode, igual á luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do aríete
E os arremessos de uma catapulta.

Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descamada de um duende,
Que tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!

Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su’alma na cavema escura,
Fazendo ultra-epiléticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.

É o despertar de um povo subterrâneo!
E a fauna cavernícola do crânio
– Macbetbs da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sangüinárias
Que ele tem praticado na família.

As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam…
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!

Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!

Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca…
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de urna esfera opaca.

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.

Continua o martírio das criaturas:
– O homicídio nas vielas mais escuras,
– O ferido que a hostil gleba atra escarva,
– O último solilóquio dos suicidas –
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!”

Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
Julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadora do sarcasmo!

Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases…
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.

E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandiloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta á quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!

VOTOS AO MICROFONE por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Vivemos as eleições da tevê: horário gratuito, programas bem produzidos, partidos sem torcida e alguns remanescentes fichas sujas caprichando no marketing.

Sou do tempo das eleições pelo rádio. Emissoras e jornais “do partido” faziam as vezes dos marqueteiros, puxando a brasa para a sua “chapa”. Candidatos de um certo perfil “moral”, partidos com torcida e reconhecimento popular, campanhas e comícios apaixonados.

O 3 de outubro era o seu “Dia Santo”.

Os partidos que dominavam a cena, assim como as escolas de samba, eram apenas dois. Os Lordes do PSD e os Protegidos da UDN.

Abertas as urnas, os votos eram cantados ao microfone das duas rádios, de forma rigorosamente “parcial”. Ao som dos dobrados e dos hinos de cada exército, as emissoras orientavam o seu “departamento musical” para o caso de celebrar vitórias ou camuflar derrotas.

Durante os primeiros quatro dias, cada uma das “rádio-apuradoras” proclamava a vitória da sua grei. Até que a realidade começasse a corrigir os boletins e a baixar a primeira partícula de veracidade na poeira da dissimulação.

A guerra de informações fazia parte da estratégia de vitória, ainda que ela terminasse em derrota. “Ler” resultados era uma tarefa para conhecedores. Para o bom entendedor, era essencial prestar atenção no score musical das emissoras. Ali residiam alguns “cifrados”. Quando a capitulação parecia inevitável, a rádio perdedora assumia os sinais de luto, na forma de algum bolero de Nelson Gonçalves, algum tango de Gardel ou qualquer música não carnavalesca:

– Boemia, aqui me tens de regresso/ E suplicante te peço/ A minha nova inscrição…

Já o contrarregra da rádio vencedora entupia o braço da “eletrola” de bolachas carnavalescas, entre as quais a que popularizou um grande sucesso do falecido Dorival Caymmi, muito tocado no Carnaval de 1956:

– Eu vou pra Maracangalha, eu vou/ Eu vou convidar Anália, eu vou/ Se Anália não quiser ir eu vou só, eu vou só, eu vou só…

Era a senha para a partida da “barca” e para a bazófia dos vencedores. A “nau” levantava ferros do Miramar, levando a bordo os infelizes náufragos dos cargos em comissão, a turma dos “inconsoláveis”, chorando a perda da boquinha. Vagas que seriam repassadas para a tropa de ocupação dos novos conquistadores.

A segunda providência desses novos césares era organizar um destacamento precursor para soltar foguetes no quintal dos vencidos – tanto mais poderoso o rojão quanto mais fanático fosse o alvo.

Antes das apurações, o lado mais fraco se precavia discretamente. Na surdina, acumulava o provimento de gêneros alimentícios, “rancho” para um mês, mais ou menos. Consumada a derrota, os vencidos se recolhiam em prisão domiciliar, à espera do bombardeio da Luftwaffe adversária. Foguete de assobio. Buscapé. Espanta-coió. Para os segregados, era como ser Anne Frank num sobrado de Amsterdã, em plena Floripa dos anos 1950.

Os “miúdos” sofriam na escola, recebendo “selos” e sendo “inticados”. Os adultos começavam a deixar o “bunker” um mês depois, para organizar a aguerrida oposição.

Com um novo “inquilino” no Cruz e Sousa, esse tempo de transição se completava: o que era branco passava a ser preto, o que era amarelo, azul.

O jornal dos vencidos ganhava um novo viço, em destempero e atrevimento. Era a hora de devolver os rojões, na forma de “denúncias” e de críticas ao “secretariado”. E de desafiar os novos césares a atravessar os novos rubicons.