VOTOS AO MICROFONE por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Vivemos as eleições da tevê: horário gratuito, programas bem produzidos, partidos sem torcida e alguns remanescentes fichas sujas caprichando no marketing.

Sou do tempo das eleições pelo rádio. Emissoras e jornais “do partido” faziam as vezes dos marqueteiros, puxando a brasa para a sua “chapa”. Candidatos de um certo perfil “moral”, partidos com torcida e reconhecimento popular, campanhas e comícios apaixonados.

O 3 de outubro era o seu “Dia Santo”.

Os partidos que dominavam a cena, assim como as escolas de samba, eram apenas dois. Os Lordes do PSD e os Protegidos da UDN.

Abertas as urnas, os votos eram cantados ao microfone das duas rádios, de forma rigorosamente “parcial”. Ao som dos dobrados e dos hinos de cada exército, as emissoras orientavam o seu “departamento musical” para o caso de celebrar vitórias ou camuflar derrotas.

Durante os primeiros quatro dias, cada uma das “rádio-apuradoras” proclamava a vitória da sua grei. Até que a realidade começasse a corrigir os boletins e a baixar a primeira partícula de veracidade na poeira da dissimulação.

A guerra de informações fazia parte da estratégia de vitória, ainda que ela terminasse em derrota. “Ler” resultados era uma tarefa para conhecedores. Para o bom entendedor, era essencial prestar atenção no score musical das emissoras. Ali residiam alguns “cifrados”. Quando a capitulação parecia inevitável, a rádio perdedora assumia os sinais de luto, na forma de algum bolero de Nelson Gonçalves, algum tango de Gardel ou qualquer música não carnavalesca:

– Boemia, aqui me tens de regresso/ E suplicante te peço/ A minha nova inscrição…

Já o contrarregra da rádio vencedora entupia o braço da “eletrola” de bolachas carnavalescas, entre as quais a que popularizou um grande sucesso do falecido Dorival Caymmi, muito tocado no Carnaval de 1956:

– Eu vou pra Maracangalha, eu vou/ Eu vou convidar Anália, eu vou/ Se Anália não quiser ir eu vou só, eu vou só, eu vou só…

Era a senha para a partida da “barca” e para a bazófia dos vencedores. A “nau” levantava ferros do Miramar, levando a bordo os infelizes náufragos dos cargos em comissão, a turma dos “inconsoláveis”, chorando a perda da boquinha. Vagas que seriam repassadas para a tropa de ocupação dos novos conquistadores.

A segunda providência desses novos césares era organizar um destacamento precursor para soltar foguetes no quintal dos vencidos – tanto mais poderoso o rojão quanto mais fanático fosse o alvo.

Antes das apurações, o lado mais fraco se precavia discretamente. Na surdina, acumulava o provimento de gêneros alimentícios, “rancho” para um mês, mais ou menos. Consumada a derrota, os vencidos se recolhiam em prisão domiciliar, à espera do bombardeio da Luftwaffe adversária. Foguete de assobio. Buscapé. Espanta-coió. Para os segregados, era como ser Anne Frank num sobrado de Amsterdã, em plena Floripa dos anos 1950.

Os “miúdos” sofriam na escola, recebendo “selos” e sendo “inticados”. Os adultos começavam a deixar o “bunker” um mês depois, para organizar a aguerrida oposição.

Com um novo “inquilino” no Cruz e Sousa, esse tempo de transição se completava: o que era branco passava a ser preto, o que era amarelo, azul.

O jornal dos vencidos ganhava um novo viço, em destempero e atrevimento. Era a hora de devolver os rojões, na forma de “denúncias” e de críticas ao “secretariado”. E de desafiar os novos césares a atravessar os novos rubicons.

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