A QUARTA PAREDE por jorge lescano / são paulo


No retorno do segundo ato, no centro da sala, Bernarda ocultava o rosto no interior do cotovelo esquerdo, esticava o braço direito nu à sua frente, a mão espalmada, os dedos trêmulos e, cambaleando, vinha para ele.

Por cima da curva branca que uniria a manga ao corpo do vestido, surgiu a axila. Era suave a penumbra aveludada de penugem, e Abeillard a sentiu com maciez de pluma. Foi uma visão fugaz – a rubrica exigia que ela deixasse cair os braços ao longo do corpo para expressar cansaço, impotência ante as “provas” que se acumulavam para culpá-la –, mas ele soube que nunca estivera tão perto da intimidade feminina. Mais tarde relembrou aquela depressão da carne e concluiu que essa axila era um milagre.

Cada noite Abeillard, corretamente vestido, esperou esse momento com uma ligeira mágoa. Renovava-se, também, o temor de que o milagre se desfizesse a força de repetição.

Sistematizou os sentidos. Precisava saber se era o balbucio tímido, ou o brilho acetinado do vestido (Não o enfeitou ontem com a camélia que lhe enviei?), ou o tremor dos dedos da mão pálida, ou o silêncio que se seguia à sua fala, enquanto seu braço descia e ocultava seu tesouro – mas era isto o que estava em causa –, ou ainda a voz rouca de emoção contida pelo reencontro e a atitude crítica de Constantin, os que envolviam de encanto aquela sutil fuga do corpo sob o ombro suavemente esférico, apesar do músculo fino aderir ao plano oblíquo do osso que o modela, ou se o efeito provinha da luz, que ao descer, como um luar de inverno depositava no ombro seu diamante e devolvia à pele sua cor rosa chá.

Notou, a partir da terceira noite, que a simpatia pelo marido, com quem se identificara no primeiro ato, diminuía. Sua eloqüência não lhe parecia tão justa. A solidez do caráter, minuciosamente construído pelo autor e elogiado pela crítica na crônica especializada, era a máscara por trás da qual se escondiam egoísmo e insegurança. A mulher, apesar da caleidoscópica fragilidade, resistia melhor às agressões de que era vitima em virtude daquela mesma fraqueza do marido, que Abeillard, tenso na poltrona, percebia com toda nitidez.

Na sequência, Bernarda voltava-se vagarosamente, deixando à mostra um triângulo perfeito de suas costas. Após um instante de hesitação – era perdoada de uma culpa incerta –, com os braços enlaçava o corpo de Constantin.

Para Abeillard, o gesto era teatral demais. Muito elaborado para ser autêntico. Isto o aliviava de certa inquietação sobre os verdadeiros sentimentos dela. Bernarda era obrigada pelas convenções a abraçar àquele homem que no seu íntimo repudiava. Agora ela também conhecia o verdadeiro estofo do marido, não importa o que dissessem os jornais. Abeillard compreendeu isto no olhar perplexo do ator. Porém, duvidava do significado da pressão de sua mão na cintura dela, a ponto de repuxar a bainha do vestido sobre a perna admiravelmente modelada. Tinha Constantin ainda essa prerrogativa? Até quando?

Eis que Bernarda aceita o direito de propriedade sobre si. Um direito que o pacto social do casamento outorga tacitamente àquele homem pelo qual já não poderá sentir amor (conto com que tenham lido meu bilhete). Ao mesmo tempo, é previsível que a compaixão, provocada pelo seu desastre financeiro, faça com que continue agindo (por quanto tempo?) segundo o que se espera nestas circunstâncias e no seu papel de esposa e mãe. Contudo, no caso, a fidelidade conjugal não é traição a si mesma apenas.

No terceiro ato sentia vontade de abandonar a sala e desistir da fuga. (Não aprovo a submissão de Bernarda. Ao lado de Constantin sua vida será erma, depois da atroz cena da carta anônima. Prova-o a maneira de avançar o braço e procurar apoio na parede inexistente no proscênio.)

Na cena final Bernarda volta corretamente vestida pela porta da esquerda, no fundo do palco, e vem para a direita do proscênio. Constantin, corretamente vestido e de três quartos de perfil para o público, está no local do milagre. Bernarda esconde as lágrimas abaixando os olhos numa reiteração das anteriores (Falsas!) reconciliações.

Cada noite Abeillard espera que ela, em vez de separar os lábios suculentos para o beijo e pousar suas alvas mãos de mármore nos ombros de Constantin (o que me permite adivinhar o doce vale de sua axila), continue andando, o deixe para trás sob a luz potente de um único spot (aumentando assim o efeito de vazio), e numa atitude altiva e corajosa (Por que esse olhar apreensivo na minha direção?), sem veneno nem punhais, abandone definitivamente a casa descendo os três degraus que levam à platéia (defronte à minha poltrona).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: