Arquivos Diários: 20 setembro, 2010

À REVOLUÇÃO FARROUPILHA homenagem dos gaúchos fora de casa

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O TESOURO & A HISTÓRIA DE UM AMOR EXTRATERRESTRE de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


Duas horas da madruga. A lua deitava por trás da mata, do lado de lá do rio Iguaçu. Já havíamos cavado mais de metro e meio de terreno pedregoso. Nada do tesouro que vi no pêndulo de aliança, com fio de costura. É faço isso de vez em quando: acionar um pêndulo com a aliança presa num fio, nos lugares mais estranhos. Ali, as margens do rio, é que pude ver na fúria do pêndulo nos movimentos do relógio, o tesouro subterrâneo. Provavelmente um caixote ou panela de barro, cheia de moedas de ouro. Moedas, barras de ouro, relicários em jóias e até diamantes. Dá mais certo que com qualquer aparelho tecnologicamente sofisticado. Já acertei várias, mas tudo rapela. Moedas da coroa portuguesa e patacões de pouco valor econômico. Dessa vez acertamos no alvo, eu, o Landio Kanigoski e o Charles Soboleski. O Landio bebe muito, e já estava a meio litro de Jamel, quando batemos no casco do tesouro. Pedi ao Charles pra sair de lado, e aventei de amarrarmos o Landio que laborava com um enxadão perigoso. Muito perigoso. Bêbado, já dava sinais de transtorno psíquico. Os olhos giravam dum lado ao outro. Acho, pressentia a riqueza em suas mãos e de repente já pensava em apoderar-se sozinho do achado. Era um perigo pra nós. Não deu tempo, sequer de amarrar bem o Landio Kanigoski. A supernave que apareceu ali, primeiro sobre o meio do rio Iguaçu e depois vagando pela margem onde perfurávamos, perto em torno de 60 metros, apavorou e truncou tudo. Aquietamos com o bebum, dando trabalho, sob uns sarandis no barranco e prestamos atenção na nave, agora estacionada a menos de 5 metros de altura no capim seco da fazenda. Uma esteira longa e luminosa desceu do trambolho. O som era suave e penetrante. Uma névoa fina, envolveu a parafernália pratametálica. Sobre a esteira, uma mulher de metro e oitenta, pele clara, mas não loira, desfilou alguns metros. Do nada, surgiu um homem magro, todo de negro. Um traje bizarro, de botões luminosos na lapela do casaco e nas laterais das calças e botas. Dava pra ver o rosto do vivente, moreno, nariz adunco e olhos fundos. No encontro com a pele marfim, claríssima, beijaram-se. O Charlinhos Soboleski, disse: eu conheço aquele cara, é o Jarbas de tal, da Bandeirantes, aqui de Quedas. Falei, não viaja Charles, esse cara não existe. Isso aí é alucinação nossa… por causa do buraco que abrimos na fazenda do homem aqui, sem licença. O bebum, se alterou e: deixa que eu me acerto com esse aí… eu… eu. Demos um chega pra lá nele e o enliamos em aperto com uma corda comprida nos caules do sarandi. Os amantes, na esteira luminosa e longa, no maior transe. Um som diferente, tomava o ar, quase uma música eletrônica. Falei pro Charlinhos, que deveríamos, deixar picareta e enxadas ali e cair fora. A cerca era perto, e a camionete aparecia estacionada numa lombada de chão batido. O Charles, observou que os amantes entravam na nave. Ela linda. Exuberante, no balanço e andar. A esteira ia sendo recolhida com vagar. A nave levantou vôo, primeiro em vertical e depois meio de lado, costeando a barranca do rio. O mistério. Matutamos. Quem era aquele cara estranho!? Parece até, usava um revólver niquelado na cinta. E a moça, linda de matar. Pescoço comprido, fino e claro. Orelhas pontudas como personagem do Guerra nas Estrelas. Sobrancelhas bem definidas. Testuda. A boca, dá licença, desenhada em carmim. Lábios finos e perigosos. Pele marfim, clara, claríssima, roupa colante como escama de peixe. Pareciam mesmo, escamas de peixes pelo tórax, cintura e pernas. Cabelos longos, seios grandes, cinturão azul, translúcido. Me belisca disse o Charlinhos Soboleski, isso não pode ser verdade. Eu disse calma Charlinhos. Calma. Como diz o nosso amigo Betão da Pedreira. Deixa quieto. Xá quieto. O Landio Kanigoski, resmungou algo incompreensível. Ainda amarrado nos galhos, só pedia mais uns goles da boa. A garrafa da Jamel tombada de lado no mato. Demos uma talagada da outra, a do Sr. Stachelski, nossa de Kedas a ótima, num litro branco. Tirei a linha do pêndulo, pus a aliança no dedo e joguei uma pedra no imenso buraco que fizemos na fazenda do homem. Deu um estouro na tampa do truvisco miliardário. Tava ali o negócio. Tava ali o compensário de privações passadas, o tal de sempre querer e nunca poder. Quando o Charlinhos abaixou-se pra abrir a tampa cinza, corroída de tempo e ornada de formigas verdes, ouvimos novamente o som estridente da supernave que havia aportado a pouco ali e nesse instante retornou. No mesmíssimo lugar, a esteira estendeu-se luminosa, e de dentro da belíssima composição metálica, saiu o cara de preto, (horrível composição) como se caminhasse sobre uma ponte. A arma, tipo revólver niquelada, lampiando na escuridão. Era o demo… A bela, acompanhou-o por alguns metros, beijaram-se e ela retornou ao interior da nave. O Landio, esbravejava, pra que o soltássemos. Empurramos umas pás de terra sobre o tampo do tesouro e não vimos mais nada. Aliás, consegui juntar o talão de cheque, a chave do carro, um cartão de telefone celular e umas moedas que me caíram do bolso. Depois não vi mais nada. Algo, nos tirou de nós. Um som fino, nos tomou e desmemoriou. Nos fez dormir, quedar silente. Quando acordamos, o bêbado ainda estava bêbado e brigão. O buraco, reaberto, e nem tium do tampo do tesouro, ou mesmo tesouro que juramos havíamos batido em cima. Será que o cara de negro, amante da bela extraterrena, nos surrupiou o negócio!? Será o comandante invisível da navemãe, num jato de luz aspirou o moedário pra dentro do engenho!? É só o que falta, (pensei) extraterrestres nos passarem a perna… tudo frustrado, quando batemos encima da coisa. Perguntas e respostas ficaram no ar. Ficam. Ficarão pra sempre. A nave já era pra nós. Nem sinal nos céus nebulosos. Passava das quatro e meia. O dia quase clareando. Varamos a cerca de arame liso da fazenda, com o bebum pronunciando palavras ininteligíveis, como se dominasse uma outra língua. Muitos xis e erres nos compostos de palavras. Jogamos os instrumentos de trabalho na carroceria da camionete e vazamos dali. O Charlinhos ainda insiste que o cara de negro, aparecido do espaço, sobre a esteira da supernave, era conhecido de algum lugar. Algum lugar, de que lugar!? Só Deus sabe. Falei: Charlinhos foi tudo alucinação nossa, coisa emanada do próprio tesouro que encontramos ou eu acho apareceu pra nós. Essa mulher não existe, esse cara não existe, essa nave é coisa ruim que nos tomou inteiros. O Charlinhos, não, não e não. Eu vi, eu conheço o cara Jairo. Esse cara tinha uma bodega, perto da Barra do Mato Queimado, e coisa e tal. O Landio, estirado na carroceria da camionete, compunha belos textos em língua extraterrestre. Poemas até, parece, feitos de xis e erres, emendados com soluços e arrotos, próprios de quem bebeu um pouco demais. Ficou pra nós a estampa da bela, atordoante em estética Et, que nenhuma poesia, filosofia, estética propriamente terrena teria condições de configurar, compor. Ousei, outra explicação ao fenômeno: Charlinhos, isso aí é coisa do tranho, o furfulhoso, o rebodoquenho’s… foi uma ilusão coletiva que tivemos. Ilusão, alucinação, zonzeira… e tudo era nada, só quartzo, pedra branca esmigalhada no enxadão e picareta. Além do mais a cachaça Jamel e a do Stachelski, se estranharam e deu pane em nós. Misturamos demais… com vinho e aquele litro amarelão de plasma de besouro, de três e cinqüenta reais.

O Charlinhos, não. Não e não. Foi tudo fato pra ele. Bebi só hoje. Não costumo beber, misturar, não fumo e não alucino a toa, falou. Depois dessa recolhi o pêndulo e o ímpeto de aventurar novamente os tesouros escondidos por jesuítas e aventureiros, às margens do rio Iguaçu. Tínhamos plano duma outra incursão em poucos dias, próximo à Foz do Chopim. Plano abortado de vez. Quem sabe, o maior tesouro, foi vermos a bela, clara, claríssima, lunática, transreal, extensiva em beleza na esteira, antes do aparecimento do cara de negro, chapéu de corvo, revólver niquelado, olhos úmidos e fundos, lampiado das trevas como o capeta em forma de gente.

O LAR E O BAR por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Pesquisa-se, por conta da lei que bane o álcool à beira de estradas e do recenseamento do IBGE, quantos são os bares do Brasil.

Os pesquisadores chegaram a uma conta próxima do milhão – 976 mil bares, 3 milhões de empregados, mais os donos. Sem contar, é claro, os mais de cem bares “temporários” abertos em Floripa a cada verão.

Uma conta bem modesta. Depois de cinco anos de Yeltsin, 15 de Vladimir Putin e cinco de Medvedev, “Mama” Rússia abriga nada menos do que 8 milhões de bares, aí incluídos os botequins dos romances de Dostoievski e Tolstoi. Nos EUA, são 3 milhões de bares. E na Escócia, pequenininha como é, são mais de 400 mil “balcões”. Parece que todos os Johnnie Walkers da Terra já acordam chupando aquele magnífico líquido cor de âmbar – e usando aquele proverbial kilt xadrez…

Na verdade, bar no Brasil é o que não falta. Todo dia estão abrindo ou fechando um. Em 1796 – conta mestre Oswaldo Cabral, no seu magnífico Memória de N. S. do Desterro –, a vila possuía 666 casas, um triplo seis – esse número demoníaco. Dessas vivendas, 18 eram lojas do comércio e 44 eram botequins. Ou seja: um boteco para cada 85 dos seus 3.757 habitantes. Vale dizer: a turma era boa de copo.

Em torno de uma mesa de bar, já se conspirava contra o governo ou… contra os maridos de mulheres bonitas. Nos bares, edificavam-se calúnias, ateavam-se infâmias, blasfemava-se contra Deus e o próximo. Nem por isso, os botecos cerravam suas portas por causa da presença de bêbados.

O problema, a sério, não é a quantidade de bares. Mas a qualidade dos bêbados…

Sendo os conventos e os mosteiros as casas da virtude, esses altares não são, contudo, infensos a Belzebus. Assim como não é impossível que algum arcanjo tenha ido parar no inferno – por erro no endereçamento do código postal.

Ainda não adquirimos a maioridade etílica de uma Rússia, uma Alemanha, uma Inglaterra – onde os bêbados não somente são cidadãos respeitáveis como presidem a República (Yeltsin, nos anos 1990); fundam a Oktoberfest (o príncipe Ludwig da Baviera no século 19); ou salvam o império britânico do nazismo, como o velho e esponjoso Churchill nos anos da Segunda Guerra Mundial.

Não há nada como um boteco bem brasileiro, onde se bebe em pé, no balcão, de forma que o copo se transforme num aposto verbal, uma extensão da própria linguagem. Nem se poderia, a não ser num botequim nacional, encomendar a cerveja da rua, comandando ao barman:

– Mais duas louras!

Se elas chegarem requebrando os quadris, melhor ainda.

Essas casas, os bares, são, sem dúvida, muito menos corruptas do que muita Casa Civil.

  • Sem controle

“Controle social de mídia” – inconstitucional, por agredir o artigo 5º da Carta de 1988, protetor da livre expressão e manifestação de pensamento – é inspiração de tutela autoritária, cultivada por teóricos do “aparatchik” soviético, como o ministro Franklin Martins. Liberdade de imprensa é requisito básico para uma democracia substantiva, sem adjetivos. Mas o substantivo “honestidade” informativa deveria ser, também, apanágio da imprensa. Por exemplo: jornais com nome a zelar, como o The New York Times, habituaram-se a publicar, em editorial, sua preferência por um candidato em majoritárias presidenciais.

  • Honesta liberdade

Imagine-se um grande jornal brasileiro, como o Estadão, publicar editorial informando sua preferência por José Serra, o que, por óbvio, transparece na opinião do jornal. Seria muito mais honesto. Sem prejuízo, como faz o NYT, do noticiário contemplar igualmente as candidaturas preferenciais. O leitor saberia como “ler” o veículo. Veja é Serra; Carta Capital é Dilma. Mas o espaço do “fatual” seria devidamente equilibrado. Utopia? A pior solução já se sabe qual é: a ditadura do Estado liberticida, em que a única opinião publicável é a do poder.

  • Lá e aqui

As democracias mais amadurecidas também dão tratamento cuidadoso às pesquisas dos institutos de opinião. O New York Times, por exemplo, não publica pesquisas de um só instituto. Prefere publicar uma “média” de todas, evitando as induções de voto.

No Brasil, as pesquisas só faltam substituir a eleição propriamente dita.