O LAR E O BAR por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Pesquisa-se, por conta da lei que bane o álcool à beira de estradas e do recenseamento do IBGE, quantos são os bares do Brasil.

Os pesquisadores chegaram a uma conta próxima do milhão – 976 mil bares, 3 milhões de empregados, mais os donos. Sem contar, é claro, os mais de cem bares “temporários” abertos em Floripa a cada verão.

Uma conta bem modesta. Depois de cinco anos de Yeltsin, 15 de Vladimir Putin e cinco de Medvedev, “Mama” Rússia abriga nada menos do que 8 milhões de bares, aí incluídos os botequins dos romances de Dostoievski e Tolstoi. Nos EUA, são 3 milhões de bares. E na Escócia, pequenininha como é, são mais de 400 mil “balcões”. Parece que todos os Johnnie Walkers da Terra já acordam chupando aquele magnífico líquido cor de âmbar – e usando aquele proverbial kilt xadrez…

Na verdade, bar no Brasil é o que não falta. Todo dia estão abrindo ou fechando um. Em 1796 – conta mestre Oswaldo Cabral, no seu magnífico Memória de N. S. do Desterro –, a vila possuía 666 casas, um triplo seis – esse número demoníaco. Dessas vivendas, 18 eram lojas do comércio e 44 eram botequins. Ou seja: um boteco para cada 85 dos seus 3.757 habitantes. Vale dizer: a turma era boa de copo.

Em torno de uma mesa de bar, já se conspirava contra o governo ou… contra os maridos de mulheres bonitas. Nos bares, edificavam-se calúnias, ateavam-se infâmias, blasfemava-se contra Deus e o próximo. Nem por isso, os botecos cerravam suas portas por causa da presença de bêbados.

O problema, a sério, não é a quantidade de bares. Mas a qualidade dos bêbados…

Sendo os conventos e os mosteiros as casas da virtude, esses altares não são, contudo, infensos a Belzebus. Assim como não é impossível que algum arcanjo tenha ido parar no inferno – por erro no endereçamento do código postal.

Ainda não adquirimos a maioridade etílica de uma Rússia, uma Alemanha, uma Inglaterra – onde os bêbados não somente são cidadãos respeitáveis como presidem a República (Yeltsin, nos anos 1990); fundam a Oktoberfest (o príncipe Ludwig da Baviera no século 19); ou salvam o império britânico do nazismo, como o velho e esponjoso Churchill nos anos da Segunda Guerra Mundial.

Não há nada como um boteco bem brasileiro, onde se bebe em pé, no balcão, de forma que o copo se transforme num aposto verbal, uma extensão da própria linguagem. Nem se poderia, a não ser num botequim nacional, encomendar a cerveja da rua, comandando ao barman:

– Mais duas louras!

Se elas chegarem requebrando os quadris, melhor ainda.

Essas casas, os bares, são, sem dúvida, muito menos corruptas do que muita Casa Civil.

  • Sem controle

“Controle social de mídia” – inconstitucional, por agredir o artigo 5º da Carta de 1988, protetor da livre expressão e manifestação de pensamento – é inspiração de tutela autoritária, cultivada por teóricos do “aparatchik” soviético, como o ministro Franklin Martins. Liberdade de imprensa é requisito básico para uma democracia substantiva, sem adjetivos. Mas o substantivo “honestidade” informativa deveria ser, também, apanágio da imprensa. Por exemplo: jornais com nome a zelar, como o The New York Times, habituaram-se a publicar, em editorial, sua preferência por um candidato em majoritárias presidenciais.

  • Honesta liberdade

Imagine-se um grande jornal brasileiro, como o Estadão, publicar editorial informando sua preferência por José Serra, o que, por óbvio, transparece na opinião do jornal. Seria muito mais honesto. Sem prejuízo, como faz o NYT, do noticiário contemplar igualmente as candidaturas preferenciais. O leitor saberia como “ler” o veículo. Veja é Serra; Carta Capital é Dilma. Mas o espaço do “fatual” seria devidamente equilibrado. Utopia? A pior solução já se sabe qual é: a ditadura do Estado liberticida, em que a única opinião publicável é a do poder.

  • Lá e aqui

As democracias mais amadurecidas também dão tratamento cuidadoso às pesquisas dos institutos de opinião. O New York Times, por exemplo, não publica pesquisas de um só instituto. Prefere publicar uma “média” de todas, evitando as induções de voto.

No Brasil, as pesquisas só faltam substituir a eleição propriamente dita.

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