O TESOURO & A HISTÓRIA DE UM AMOR EXTRATERRESTRE de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


Duas horas da madruga. A lua deitava por trás da mata, do lado de lá do rio Iguaçu. Já havíamos cavado mais de metro e meio de terreno pedregoso. Nada do tesouro que vi no pêndulo de aliança, com fio de costura. É faço isso de vez em quando: acionar um pêndulo com a aliança presa num fio, nos lugares mais estranhos. Ali, as margens do rio, é que pude ver na fúria do pêndulo nos movimentos do relógio, o tesouro subterrâneo. Provavelmente um caixote ou panela de barro, cheia de moedas de ouro. Moedas, barras de ouro, relicários em jóias e até diamantes. Dá mais certo que com qualquer aparelho tecnologicamente sofisticado. Já acertei várias, mas tudo rapela. Moedas da coroa portuguesa e patacões de pouco valor econômico. Dessa vez acertamos no alvo, eu, o Landio Kanigoski e o Charles Soboleski. O Landio bebe muito, e já estava a meio litro de Jamel, quando batemos no casco do tesouro. Pedi ao Charles pra sair de lado, e aventei de amarrarmos o Landio que laborava com um enxadão perigoso. Muito perigoso. Bêbado, já dava sinais de transtorno psíquico. Os olhos giravam dum lado ao outro. Acho, pressentia a riqueza em suas mãos e de repente já pensava em apoderar-se sozinho do achado. Era um perigo pra nós. Não deu tempo, sequer de amarrar bem o Landio Kanigoski. A supernave que apareceu ali, primeiro sobre o meio do rio Iguaçu e depois vagando pela margem onde perfurávamos, perto em torno de 60 metros, apavorou e truncou tudo. Aquietamos com o bebum, dando trabalho, sob uns sarandis no barranco e prestamos atenção na nave, agora estacionada a menos de 5 metros de altura no capim seco da fazenda. Uma esteira longa e luminosa desceu do trambolho. O som era suave e penetrante. Uma névoa fina, envolveu a parafernália pratametálica. Sobre a esteira, uma mulher de metro e oitenta, pele clara, mas não loira, desfilou alguns metros. Do nada, surgiu um homem magro, todo de negro. Um traje bizarro, de botões luminosos na lapela do casaco e nas laterais das calças e botas. Dava pra ver o rosto do vivente, moreno, nariz adunco e olhos fundos. No encontro com a pele marfim, claríssima, beijaram-se. O Charlinhos Soboleski, disse: eu conheço aquele cara, é o Jarbas de tal, da Bandeirantes, aqui de Quedas. Falei, não viaja Charles, esse cara não existe. Isso aí é alucinação nossa… por causa do buraco que abrimos na fazenda do homem aqui, sem licença. O bebum, se alterou e: deixa que eu me acerto com esse aí… eu… eu. Demos um chega pra lá nele e o enliamos em aperto com uma corda comprida nos caules do sarandi. Os amantes, na esteira luminosa e longa, no maior transe. Um som diferente, tomava o ar, quase uma música eletrônica. Falei pro Charlinhos, que deveríamos, deixar picareta e enxadas ali e cair fora. A cerca era perto, e a camionete aparecia estacionada numa lombada de chão batido. O Charles, observou que os amantes entravam na nave. Ela linda. Exuberante, no balanço e andar. A esteira ia sendo recolhida com vagar. A nave levantou vôo, primeiro em vertical e depois meio de lado, costeando a barranca do rio. O mistério. Matutamos. Quem era aquele cara estranho!? Parece até, usava um revólver niquelado na cinta. E a moça, linda de matar. Pescoço comprido, fino e claro. Orelhas pontudas como personagem do Guerra nas Estrelas. Sobrancelhas bem definidas. Testuda. A boca, dá licença, desenhada em carmim. Lábios finos e perigosos. Pele marfim, clara, claríssima, roupa colante como escama de peixe. Pareciam mesmo, escamas de peixes pelo tórax, cintura e pernas. Cabelos longos, seios grandes, cinturão azul, translúcido. Me belisca disse o Charlinhos Soboleski, isso não pode ser verdade. Eu disse calma Charlinhos. Calma. Como diz o nosso amigo Betão da Pedreira. Deixa quieto. Xá quieto. O Landio Kanigoski, resmungou algo incompreensível. Ainda amarrado nos galhos, só pedia mais uns goles da boa. A garrafa da Jamel tombada de lado no mato. Demos uma talagada da outra, a do Sr. Stachelski, nossa de Kedas a ótima, num litro branco. Tirei a linha do pêndulo, pus a aliança no dedo e joguei uma pedra no imenso buraco que fizemos na fazenda do homem. Deu um estouro na tampa do truvisco miliardário. Tava ali o negócio. Tava ali o compensário de privações passadas, o tal de sempre querer e nunca poder. Quando o Charlinhos abaixou-se pra abrir a tampa cinza, corroída de tempo e ornada de formigas verdes, ouvimos novamente o som estridente da supernave que havia aportado a pouco ali e nesse instante retornou. No mesmíssimo lugar, a esteira estendeu-se luminosa, e de dentro da belíssima composição metálica, saiu o cara de preto, (horrível composição) como se caminhasse sobre uma ponte. A arma, tipo revólver niquelada, lampiando na escuridão. Era o demo… A bela, acompanhou-o por alguns metros, beijaram-se e ela retornou ao interior da nave. O Landio, esbravejava, pra que o soltássemos. Empurramos umas pás de terra sobre o tampo do tesouro e não vimos mais nada. Aliás, consegui juntar o talão de cheque, a chave do carro, um cartão de telefone celular e umas moedas que me caíram do bolso. Depois não vi mais nada. Algo, nos tirou de nós. Um som fino, nos tomou e desmemoriou. Nos fez dormir, quedar silente. Quando acordamos, o bêbado ainda estava bêbado e brigão. O buraco, reaberto, e nem tium do tampo do tesouro, ou mesmo tesouro que juramos havíamos batido em cima. Será que o cara de negro, amante da bela extraterrena, nos surrupiou o negócio!? Será o comandante invisível da navemãe, num jato de luz aspirou o moedário pra dentro do engenho!? É só o que falta, (pensei) extraterrestres nos passarem a perna… tudo frustrado, quando batemos encima da coisa. Perguntas e respostas ficaram no ar. Ficam. Ficarão pra sempre. A nave já era pra nós. Nem sinal nos céus nebulosos. Passava das quatro e meia. O dia quase clareando. Varamos a cerca de arame liso da fazenda, com o bebum pronunciando palavras ininteligíveis, como se dominasse uma outra língua. Muitos xis e erres nos compostos de palavras. Jogamos os instrumentos de trabalho na carroceria da camionete e vazamos dali. O Charlinhos ainda insiste que o cara de negro, aparecido do espaço, sobre a esteira da supernave, era conhecido de algum lugar. Algum lugar, de que lugar!? Só Deus sabe. Falei: Charlinhos foi tudo alucinação nossa, coisa emanada do próprio tesouro que encontramos ou eu acho apareceu pra nós. Essa mulher não existe, esse cara não existe, essa nave é coisa ruim que nos tomou inteiros. O Charlinhos, não, não e não. Eu vi, eu conheço o cara Jairo. Esse cara tinha uma bodega, perto da Barra do Mato Queimado, e coisa e tal. O Landio, estirado na carroceria da camionete, compunha belos textos em língua extraterrestre. Poemas até, parece, feitos de xis e erres, emendados com soluços e arrotos, próprios de quem bebeu um pouco demais. Ficou pra nós a estampa da bela, atordoante em estética Et, que nenhuma poesia, filosofia, estética propriamente terrena teria condições de configurar, compor. Ousei, outra explicação ao fenômeno: Charlinhos, isso aí é coisa do tranho, o furfulhoso, o rebodoquenho’s… foi uma ilusão coletiva que tivemos. Ilusão, alucinação, zonzeira… e tudo era nada, só quartzo, pedra branca esmigalhada no enxadão e picareta. Além do mais a cachaça Jamel e a do Stachelski, se estranharam e deu pane em nós. Misturamos demais… com vinho e aquele litro amarelão de plasma de besouro, de três e cinqüenta reais.

O Charlinhos, não. Não e não. Foi tudo fato pra ele. Bebi só hoje. Não costumo beber, misturar, não fumo e não alucino a toa, falou. Depois dessa recolhi o pêndulo e o ímpeto de aventurar novamente os tesouros escondidos por jesuítas e aventureiros, às margens do rio Iguaçu. Tínhamos plano duma outra incursão em poucos dias, próximo à Foz do Chopim. Plano abortado de vez. Quem sabe, o maior tesouro, foi vermos a bela, clara, claríssima, lunática, transreal, extensiva em beleza na esteira, antes do aparecimento do cara de negro, chapéu de corvo, revólver niquelado, olhos úmidos e fundos, lampiado das trevas como o capeta em forma de gente.

3 Respostas

  1. Dr. Jairo parabens pela linda historia, li e gostei muito, um abraço de seu amigo e grande admirador de suas obras, que da qual eu me inspirei em escrever também.

  2. Olá Jairo Fico feliz em saber de mais um conterrâneo do sudoeste se dedica as letras… seu texto traz a tona minha adolescência recheada de historias de meu avô e os acampamentos nos lagos do iguaçu em São Jorge D´Oeste.
    abraço.

  3. História de ficção,com cheiro das terras do Iguaçu!só o Jairo faz esta costura,sem aparecer a linha.

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