DEUS IMPERFEITO de zuleika dos reis / são paulo



Palavras criaram espelhos

em cada espelho

o rosto do outro projetado.

Palavras criaram lagos

em cada lago

a imagem de outro Narciso.

Palavras pararam

ponteiros dos relógios

enovelaram o mundo.

Palavras reviraram a vida

tão de dentro

que as árvores revelaram

o rosto do Sonho.

Palavras entre sonho e vida

de sinais trocados

teceram a história

que não explica o Abismo.

Assim, as horas ocultas:

Palavras.

Assim, eterno retorno do Mundo sem Memória:

Palavras.

Tempo inexistente anjo que se repete no Portal:

Palavras.

Sonho exausto querendo acordar de si mesmo:

Palavras.

Palavras desde sempre tardias a forjarem

organismos … de palavras.

Palavras:

Demiurgas de Simulacro.

Palavras:

Deus Imperfeito.

Palavras:

Sem perdão possível.

4 Respostas

  1. Está certo,querida, tens toda razão; o problema é convencer da verdade disso uma romântica incurável que me habita desde sempre e que me torna uma pseudo-racional para sempre. Quem sabe eu ainda venha a me tornar uma mulher mais razoável só que, se e quando isso ocorrer, terei abdicado da minha maior riqueza que é, simultaneamente, a minha danação.
    Beijo de todo carinho da tua amiga-irmã
    Zuleika.

  2. Não me conformo quando te comparas a Penélope, à espera do seu Ulisses, porque, na verdade, já não existem Ulisses na terra… Encontras hoje homens que se lhes possam comparar em astúcia e valentia? Imaginação para idealizarem um cavalo de Tróia? Penso que a única semelhança que possa haver, é a sua inconstancia, porque lembra-te que passou sete anos na agradável companhia de uma ninfa, Calipso… E quando por fim regressou a Ítaca, encontrou uma Penélope rodeada de pretendentes o que também quer dizer alguma coisa…
    Portanto, vive a realidade e goza o teu dia-a-dia da melhor forma que puderes, porque a história ou mitologia do futura, não vai encontrar nenhum Ulisses para servir de exemplo. Nem nenhuma Penélope…
    Beijos.

  3. Ah, querida, eu admiro tanto o trabalho paciente das tecelãs, grata por me comparares com elas. É, só me resta, de tudo, estar a tecer, um pouco como eterna Penélope sem esperança qualquer da volta real, efetiva, de Ulisses mas, a tecer, mesmo sem esperança, porque é o que me resta a fazer.
    Beijo grande da tua Zuleika, aqui, de aquém-mar.

  4. Há palavras que nada dizem… Mas as tuas, são de tal maneira profundas, que em cada palavra transparece as dúvidas e as mágoas que marcaram o teu caminho. Palavras
    como uma tela bordada, urdida por uma hábil tecedeira que deixa ali, as imagens da sua realidade.
    Beijos muitos, querida Zuleika.
    Vera Lucia

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