FRATURAS de josé delfino / natal

 

 

ah as palavras

num  vai e vem

em  minha mente

se  abrem e fecham

em  copas como lábios

como  portas

como dedos de  mãos

que vagas imitam

em arco envergam-se

sobem e descem

às folhas de papel

se curvam se rendem

e escrevem

e não dizem

[…]

é  que elas se escondem

nos  vãos da casa

na  janela no telhado

debaixo  da escada

nas  frestas do chão

em utensílios  de pouco

ou nenhum valor

esquecidas  em armários

em quartos de despejo

em  malas e cartas

em  velhas compoteiras

no oco de elefantes

de falsa porcelana

em cima das  geladeiras

[…]

como e lembradas são

à  paisagem inglesa partida

das  xícaras de chá trincadas

amanhã de cacos esquecida

no fundo das cristaleiras

[…]

no varal do guarda-roupa

onde  pendurados  cabides

enrolados em trapos

imitam as curvas

dos teus pequenos seios

tuas ancas estreitas

 

[…]

brancas em quadros

negros expostas estão

soltas nas ruas

sem eira nem beira

em  castelos de cartas

se encobrem

em torres de babel

se confundem

como a água na  sede

como o fruto  na  fome

como a dor esquecida

na cicatriz de um antigo corte

[…]

difícil achá-las

questão de segui-las

vazar a vista  enxergar sonhos

achar nos olhos a cegueira

em quadros objetos  pessoas

procurar  bem

[…]

lugares onde nenhuma esteve

ir e acaso encontrando-as

ouvi-las

e fazê-las tangíveis

corpóreas palpáveis

[…]

mas amiúde nem tudo

é tangível e pior

numa foto ou num quadro

detalhes de coisas

discretas invisíveis quase

indizíveis são

 

[…]

tangível é o meu peito

onde elas se acoitam

e dentro  dele um relógio

a consoante e vogal afeito

que bate bate e bate

a três por quatro pulsando

dodecafonicamente  às vezes

em semitons de violão

o descompasso

 

[…]

 

tictac  tic tac  tictic  tac

que eu só  percebo

e não se escutam

a não ser quando repousam

cabeças  entre mamilos ou

ouvidos sobre o meu coração

[…]

mas lá estão escondidas

na força do vento

na inclinação da árvore

na dança do grão de areia

na forma da nuvem

no vazio do bolso

no sabor da conserva

no fermento da raiz

no tempero da panela

na mistura dos legumes

no iogurte no mel

no correr da água

na lágrima recente

no mercado persa

na harmonia em desordem

na tela do cinema

na catacumba caiada

embaixo da folha em branco

[ …]

no desejo invisível

ao ver teu ventre exposto

nas partes visíveis

de púbis encobertos

no dormido despertar

dos teus olhos se abrindo

[…]

e se vão e se perdem

em gritos gagos

no céu da tua boca

em cheiros e cores

na flor do desejo

no fogo-fátuo

do fálico carinho

no azul dos anos

no vermelho das vulvas

na selva dos teus pelos

meu negro crespo pente

[…]

e se acham e se queimam

no sol da pauta musical

na tua língua calada

no moinho de vento

no grito dos pássaros

no Beethoven surdo

na cabeça do alfinete

no falso desvelo

passado a limpo

no final do pesadelo

[…]

no meu ódio mudo

a inimigos vivos

nas minhas córneas

embaçadas de saudade

no desgosto de ver

um amigo morto

[…]

até no barulho do ido tempo estão

num largo de catedral

mas essas pararam no tempo

e se encantaram para sempre

ao meu lado sorrindo

ao som de um sino a tocar

degraus molhados eu subindo

vendo no céu passar

um avião

 

 

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