Arquivos Diários: 9 novembro, 2010

O LOUCO de vera lucia kalahari / portugal

 

 

Chamavam-lhe louco…

 

Porque vivia a vida que Deus lhe dera

 

Fazia o que lhe aprouvera

 

Sem receios, sem ofensas

 

E sem promessas suspensas.

 

O seu Deus verdadeiro

 

Era a sua consciência

 

E com ela estava bem.

 

Não queria mal a ninguém,

 

Não roubava, o alheio não cobiçava,

 

Não pregava liberdade

 

Em longos discursos cansados,

 

De serem lidos, relidos,

 

E nunca serem cumpridos.

 

Não ouvia maledicências

 

E não tinha, nem consentia,

 

Em ódios, segregações sociais…

 

Em nenhuma hora aplaudia os comícios sindicais

 

E nem sequer conhecia

 

Livros,. Leis e outros mais.

 

Para ele a melhor Lei,

 

Era a que fosse verdadeira.

 

Nunca uma Lei ditada apenas pela razão

 

De sábia e douta carreira,

 

Mas a Lei do coração.

 

E porque era tudo isto,

 

Do princípio até ao fim,

 

Honesto, recto, leal,

 

Não farsante, adulador, ou outras coisas assim,

 

Não o consideravam um homem.

 

Era um louco. Nada mais.

 

 

QUEM É CUIDADOR? por marilice costi / porto alegre


Todos os dias, recebemos informações excessivas. Imagens jogadas aos nossos olhos, vindas, em grande parte, de registro de algum tipo de agressão. Se antes, tínhamos medo de doentes mentais, hoje, os ditos sadios agridem no trânsito, nos condomínios, no trabalho, nas escolas, nos lares. A sociedade adoecida.

A desmanicomialização, os projetos de inserção – atendimento, medicamento, moradia e o direito a um salário mínimo – deram cidadania a muitos portadores de sofrimento psíquico. Sua integração resulta de muitos cuidadores em ação. Tudo bem? Apenas o início.

Resultado dos avanços da medicina, também os idosos esticam a vida e tornam-se um gargalo na previdência. Aposentadorias cobrem despesas com cuidadores?

Além disso, catástrofes climáticas resultando em degradação ambiental, migração, desemprego, vetores, epidemias, pânico social. Na hora dos vendavais, dos tsunamis, não existe rico nem pobre. Só humanos. Nosso grupo.

Quem cuidará de tantos? Nós. Nascemos sendo cuidados e nos tornamos cuidadores. E precisamos nos preparar para cuidar durante mais tempo e aceitarmos o cuidado em nós. Idoso não consegue cuidar de idoso!

Para cuidar é preciso ter empatia, doar-se, aprender a cada dia, ser solidário, articular-se em complexidades e estabelecer limites. O próprio. Um cuidador não deve estar só. Precisa de redes de apoio, descanso e lazer.

Iniciei a revista O CUIDADOR pensando em apoiar mães de pessoas com transtorno psíquico. Logo, percebi um exército desarmado: homens, avós, tios, irmãos, muitas mulheres, além de profissionais de múltiplas áreas. Milhares de cuidadores silenciosos. E os que não querem cuidar, que não aceitam em si para o que fomos feitos. Pagar um cuidador para se ver livre do cuidado é diferente de contratar um para cuidar melhor de quem amamos.

Está em regulamentação a profissão de cuidador, importante! Contudo, é preciso mídia comprometida, escola humanizada a focar não só no cuidador de idosos – um nicho no mercado – mas de muitos seres frágeis. A maioria pode pagar um cuidador?

Postos de saúde, escolas, abrigos, casas geriátricas, pensões protegidas? O papel dos órgãos públicos? Dos políticos? De empresários? Fazer valer planos diretores, impedir a ocupação de áreas de risco, apoiar e estimular redes de cuidadores, valorizar o Terceiro Setor.

Há décadas, a meta do patrimônio histórico era impedir que casas de pedras virassem fundações de novas casas. Hoje, não podemos projetar nem 10 anos à frente. É preciso agir agora, mobilizar a sociedade e compartilhar a sabedoria do cuidado. E acolher o cuidador, pois sem cuidar de si não poderá cuidar bem de outro.

E orgulhar-se ao exercer a humanidade. Todos somos cuidadores ou seremos cuidados por algum! Não é melhor cuidar?

 

MARILICE COSTI é arteterapeuta e arquiteta, editora-chefe da revista O CUIDADOR

http://www.ocuidador.com.br