Arquivos Diários: 14 novembro, 2010

Roberto na tocaia – por amilcar neves / florianópolis


Videira, SC – A escola pública, à noite, com dificuldade por causa do trabalho de dia pra ajudar no sustento de casa e pra poder ir às aulas. Um trabalho incompleto durante a semana que precisa pagar no sábado, todos os sábados, até as duas da tarde. Ajudante de cozinha: o serviço pesado na pizzaria e a vontade muitas vezes de largar tudo e se mandar pra longe. Coisa de adolescente. E de gente.


Uma teimosia, no entanto, de continuar a viver, de brigar, lutar e resistir na esperança de algo que Roberto não consegue definir. Talvez só a glória de sobreviver, mas a ansiedade por algo diferente, por um mundo outro, nem melhor nem pior, mas outro, diverso, fascinante, perigoso, desconhecido. O delírio, talvez, de ser vários ao mesmo tempo, de viver vidas múltiplas em paralelo, de sair um pouco de si e esconder-se sob outros nomes em outros lugares, em outras aventuras com outras mulheres, maravilhosas e insinuantes, fantásticas e misteriosas, com outros bandidos, com grandes amigos – e voltar então para o seu mundo e a sua vida muito mais rico, inquieto e cheio de perguntas inconvenientes.


Livros, falou a professora em sala de aula, muitos e muitos livros vocês poderão ver, tantos livros novinhos em folha, juntos, como vocês jamais imaginaram na vida que pudessem existir. A primeira feira do livro de Videira, ela disse, e a diretora suspendeu as aulas na sexta-feira pra ninguém ter desculpa de não ir.


Roberto foi. No auditório, um sujeito começou a falar. Um cara do Paraná. Um deputado federal. Um indivíduo de nome Marcelo Almeida. O deputado dos livros, falaram. E ele falou de livros. Só de livros. Contou as histórias que os livros contam. E foi espalhando os livros pela mesa: oito, dez, doze livros, não parava mais. Livros que li recentemente, falou, e dos quais gostei muito. Outros mundos: diversos, fascinantes, perigosos e desconhecidos. Outras vidas, outros nomes, outros lugares, mulheres sedutoras, grandes bandidos. No fim, deixou tudo, as histórias que contou e os livros que leu, para a Biblioteca Municipal Euclides da Cunha.


Fascinado com a estonteante abertura de horizontes, Roberto tomou coragem e pediu um autógrafo no caderno pro amigão Marcelo. Conseguiu – o que lhe significou o passaporte para frequentar a biblioteca e começar a explorar os caminhos que os livros guardam sem segredo, posto que basta lê-los.

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Amilcar Neves é escritor com sete livros de ficção publicados, diversos outros ainda inéditos, participação em 32 coletâneas e 44 premiações em concursos literários no Brasil e no exterior.

LUIZ FELIPE LEPREVOST entrevistado – “Embaixo dessa neve mora um coração” – curitiba

Aos 31 anos, Luiz Felipe Leprevost se destaca na nova geração de dramaturgos paranaenses e planeja dirigir uma peça

Neto de Dalton Trevisan, filho de Manoel Carlos Karam, sobrinho de Jamil Snege e mau aluno de Le minski. Meio por brincadeira, Luiz Felipe Leprevost reinventa a própria genealogia, em tributo à tradição literária paranaense. Há uns dois anos, o escritor vem capturando a atenção de leitores e espectadores como uma voz singular da nova geração de dramaturgos curitibanos, autor também de prosa e poesia.

O rapaz de 31 anos pode ser reconhecido pelos títulos mais compridos (e inusitados) que já se viu na cidade. Na Verdade Não Era um Sinal de Vá Tomar no Cu foi sua primeira peça encenada, inaugurando uma parceria produtiva com a diretora Nina Rosa Sá. Na segunda temporada, o nome sofreu um corte drástico para evitar confusão com montagens cujo apelo é a baixaria. Nada a ver com o trabalho minucioso que realiza com a linguagem, experimentando estilos e formulando situações nas quais se ouve ecos da vida em Curitiba.

Nas prateleiras de livrarias como a do Lucca Café, onde encontrou a reportagem da Gazeta do Povo para uma longa conversa, há exemplares de seus livros de contos publicados, Inverno dentro dos Tímpanos (2008) e Barras Antipânico e Barrinhas de Cereal (2009). Em 2011, virá um terceiro, também criativamente batizado: Manual de Putz e Pesares. “O mais sangrento até agora”, avisa.

Neve

Leprevost agora escreve uma trilogia de novelas iniciada por A Neve Não Tem Gosto de Algodão Doce, à procura de editora, e já transformada em roteiro para longa-me tragem.

O título provisório da segunda novela, nem o autor recorda. Basta saber que se envereda pelo território familiar, ainda pouco explorado em sua obra. A terceira parou no esboço, por enquanto, mas já carrega em comum com as anteriores um protagonista nascido em 1975, o “mítico” ano da neve.

Contudo, o autor renega o estereótipo do curitibano frio. “Em baixo dessa neve mora um coração”, diz, lembrando um verso da canção “Luiza”, de Tom Jobim. Aliás, não faltam citações nas suas falas, e elas se encaixam entre as ideias naturalmente.

A cidade impregna sua obra cedendo lugares, hábitos e personagens. Foi no bairro de Santa Quitéria que ainda garoto despertou seu imaginário urbano e criou gosto pela rua. Morou no Batel e, hoje, em Santa Felicidade, lamenta que o curitibano pouco frequente os espaços públicos.

Filho de empresário e psicóloga, Leprevost não tinha em casa a tradição literária. O apelo dos li vros veio da biblioteca que a família herdou do avô. Estava com 13 anos e se encantou pela coleção que recobria paredes. Já a vocação política do irmão Ney Leprevost não o atingiu. “Como diria Drum mond, faço política olhando pela janela do mundo. Coloco o melhor de mim na arte”, diz.

Essa arte, a escrita, exige solidão. Ele a concilia com o apreço pela troca de ideias. Se é corriqueiro vê-lo desfrutar da vida cultural da cidade, entre amigos como o dramaturgo e diretor Alexandre França, há em seus personagens o inverso, uma misantropia, comum a alguns de seus autores prediletos, como John Fante – outro é Scott Fitzgerald, e a leitura atual, a Nobel Herta Müller.

Nada o deixa mais perplexo do que o modo como as pessoas se en contram e depois se desencontram: os “cataclismas afetivos”, como diz. “Em que ponto paramos de nos ouvir e a voracidade do dia a dia nos tornou mais difíceis?”, pergunta. Talvez seja a questão mais premente em seus escritos.

Ator

Entre prosa, teatro e poesia, Le prevost se considera um contador de histórias. O teatro veio apenas “injetar carne nos fantasmas” – agora cita o dramaturgo alemão Heiner Müller.

O mais curioso foi que primeiro enfrentou as inquietações de ser ator. Por isso, até hoje, acha que quem escreve seus textos teatrais é o ator dentro de si.

A atração pelo teatro chegou tarde, a partir de uma oficina no espaço Pé no Palco, da qual seguiu para um grupo de estudos sobre Chekhov, até se decidir por largar a faculdade de Jornalismo – a de Direito já havia sido abandonada – para es tudar atuação na Casa das Artes de Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

Sem modéstia, Leprevost se diz “muito bom ator”. Mas parou de atuar. O motivo? “O personagem não existe, é a sua mente, o seu corpo”, responde.

Essa sensação cresceu ao interpretar Lucky numa montagem carioca de Esperando Godot, dirigida pela professora Celina Sodré. “O Lucky me assombrou por muito tempo, a partitura física ficou marcada no meu corpo. O ator escreve em si mesmo”, concluiu, e desde então passou a ter medo de atuar.

Celina, a propósito, foi daquelas mestres que modificam a vida, para que a nova vida mude a arte. Outro foi o poeta Chacall, que co nheceu no Centro de Experi men tação Poética. A partir dali começava uma rotina insana com aulas de teatro durante o dia, espetáculos à noite e encontros artísticos madrugada adentro, até sucumbir à estafa e retornar a Curitiba, transformado.

Aqui, ganhou projeção como dramaturgo, e a parceria com a diretora Nina Rosa Sá se fortaleceu. Ela dirigiu suas Pecinhas para uma Tecnologia do Afeto, além de Com Amor, apresentada na 6.ª Mostra Cena Breve. Sem tanto diálogo com o autor, o Pé no Palco montou Já Viu como um Pinguim Anda?, uma colagem de textos do blog Notas para um Livro Bonito.

Ele gostaria de viver mais intensamente a rotina dos grupos de teatro. O problema é que, nessas situações, se intromete na direção mais do que deveria. Na verdade, já escreve ensaiando: lê em voz alta atrás da musicalidade das frases. Melhor ainda quando sabe previamente quem fará o papel. Daí aproveita o que conhece da personalidade do intérprete para provocá-lo.

No ano que vem, pela segunda vez na vida, Leprevost vai mesmo dirigir uma peça: O Butô de Mick Jagger. Deve estreá-la no Festival de Curitiba, dentro de uma mostra planejada com colegas do Núcleo de Dramaturgia do Sesi Paraná, que ele frequenta e reconhece: tem aquecido a cena autoral de teatro na cidade. Com textos de iniciantes e outros de linguagem já apurada, como os seus.

GP-LUCIANA ROMAGNOLLI

BEIRA-MAR de manoel de andrade / curitiba

 

 

 

 

 

 

 

 

Tudo abeirou minha infância

beira do rio, beira-mar,

orla branca de esperança

no leste do meu olhar.

 

Meu batelão emborcado

à beira de me afogar,

eu sobre a ponte abeirado

puxando minhas puçás.

 

Beirando todas as rotas,

nas asas das gaivotas

meus olhos cruzavam o mar;

 

sonhava à beira do cais

com um barco, nada mais,

e eu no mundo a navegar.

 

 

 

 

Curitiba, novembro de 2004.

 

 

O caminhoneiro Luiz teme o robô que vai tomar seu lugar – por alceu sperança / cascavel.pr



O Luiz tem mais de 40 anos. Honesto, bom motorista de caminhão, não pretende se encher de rebites porque tem filhos pequenos e não quer deixá-los órfãos ou aguentando um pai maluco.

Também já não está disposto a ficar a vida inteira correndo mundo e gostaria de mudar de profissão, mesmo porque em muitos casos ou você muda de profissão, ou um robô entra e muda você dali para o olho da rua.

Mas onde o Luiz será treinado para a nova profissão, se precisa correr mundo com o caminhão do patrão para sustentar a família? E treinado para que profissão?

Ele talvez tivesse vocação, bem apuradinho, para fazer o mesmo que o Antônio Ermírio ou o Bill Gates, mas nem pensa nisso. Bastaria “ganhar” (na verdade, quem ganha são sempre o banco e o governo) o suficiente para sustentar a família e acompanhar o crescimento dos piás.

Mas não dá: onde o Luiz bate em busca de um emprego na cidade, esbarra na maldição dos 40 anos. No campo? Teme entrar no MST e levar tiro de jagunço.

Não fuma nem bebe, mantém uma alimentação frugal, mas está velho num País cuja expectativa de vida cresce, num conjunto demográfico a cada minuto mais velho. Há meninos de dez anos que o crack tornou em cem, mortos-vivos em plena infância. Ai do Júnior se cair nessa!

Onde até poderia haver um emprego para Luiz, mesmo sendo “velho”, esbarra na qualificação. Quando menino, teve que deixar a escola para reforçar a renda dos pais, com vários filhos, ainda na roça.

Expulsos do campo (e dê-lhe máquina!), não sabiam o que fazer na cidade. Todos aqueles braços, antes úteis na lavoura de café, agora são bocas famintas numa cidade sem cafezais e com cafeterias caras.

O Luiz quer trabalhar, ter satisfação no trabalho, aprender uma nova profissão, lidar com o mouse, não com a Mauser. Mas não encontra quem lhe estenda a mão e a oportunidade de se reciclar, renovar, mudar de vida. Desde os 17 é motorista e pensa que vai morrer assim, se precisar se entupir de estimulantes para fazer jornadas cruéis de trabalho.

Seu xará, Gonzaguinha, cantava que o homem é o trabalho e sem trabalho o homem não vive. É isso: querem matar o Luiz! Não deixam o homem trabalhar no que gosta, é obrigado a se danar em cargas horárias terríveis, longe da família, que sente sua ausência.

Não deixam o homem mudar de vida, progredir, melhorar. Lê a Constituição, com a ajuda do filho com melhor escolaridade que ele, e mesmo nenhum dos dois conseguindo entender certas frases, sabem que a lei lhes assegura uma pilha de direitos: à casa própria, por exemplo. Mas vivem em casa alugada.

Aí vem aquele doutor da OAB e lhe diz, na reunião de pais e professores, que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tão odiados pelos escravocratas sedentos de sangue, obriga os governantes a arranjar emprego para quem não tem. Vem o padre e diz que o trabalho é sagrado: foi dado por Deus para que os homens se enobreçam e se salvem com ele. Será que toda essa gente também quer matar o Luiz?

O que Luiz vê é a máquina entrando e dez homens e mulheres saindo. O robô entrando e outros dez na rua. O computador entrando e dez, vinte ao sagrado deus-dará.

Por que essa tamanha diferença entre a realidade que Luiz vê e aquilo que a TV diz (recordes de novos empregos), que a OAB diz (os direitos estão garantidos) e o padre fala (os direitos são sagrados)?

Agora vêm o Ipea e a Fundação Getúlio Vargas, achando bonito o que fez aquele tal de Nico Sarkozy, querendo que Luiz trabalhe até os 70 anos, pois se aposentar-se aos 65 vai virar pinguço, mesmo não bebendo uma gota. E mesmo não conseguindo um novo emprego hoje, aos 40 e tantos anos.

O Luiz pergunta: “Onde foi que eu errei?” Não foi você que errou, Luiz. Foram eles que erraram e continuam errando com você e sua família.