O caminhoneiro Luiz teme o robô que vai tomar seu lugar – por alceu sperança / cascavel.pr



O Luiz tem mais de 40 anos. Honesto, bom motorista de caminhão, não pretende se encher de rebites porque tem filhos pequenos e não quer deixá-los órfãos ou aguentando um pai maluco.

Também já não está disposto a ficar a vida inteira correndo mundo e gostaria de mudar de profissão, mesmo porque em muitos casos ou você muda de profissão, ou um robô entra e muda você dali para o olho da rua.

Mas onde o Luiz será treinado para a nova profissão, se precisa correr mundo com o caminhão do patrão para sustentar a família? E treinado para que profissão?

Ele talvez tivesse vocação, bem apuradinho, para fazer o mesmo que o Antônio Ermírio ou o Bill Gates, mas nem pensa nisso. Bastaria “ganhar” (na verdade, quem ganha são sempre o banco e o governo) o suficiente para sustentar a família e acompanhar o crescimento dos piás.

Mas não dá: onde o Luiz bate em busca de um emprego na cidade, esbarra na maldição dos 40 anos. No campo? Teme entrar no MST e levar tiro de jagunço.

Não fuma nem bebe, mantém uma alimentação frugal, mas está velho num País cuja expectativa de vida cresce, num conjunto demográfico a cada minuto mais velho. Há meninos de dez anos que o crack tornou em cem, mortos-vivos em plena infância. Ai do Júnior se cair nessa!

Onde até poderia haver um emprego para Luiz, mesmo sendo “velho”, esbarra na qualificação. Quando menino, teve que deixar a escola para reforçar a renda dos pais, com vários filhos, ainda na roça.

Expulsos do campo (e dê-lhe máquina!), não sabiam o que fazer na cidade. Todos aqueles braços, antes úteis na lavoura de café, agora são bocas famintas numa cidade sem cafezais e com cafeterias caras.

O Luiz quer trabalhar, ter satisfação no trabalho, aprender uma nova profissão, lidar com o mouse, não com a Mauser. Mas não encontra quem lhe estenda a mão e a oportunidade de se reciclar, renovar, mudar de vida. Desde os 17 é motorista e pensa que vai morrer assim, se precisar se entupir de estimulantes para fazer jornadas cruéis de trabalho.

Seu xará, Gonzaguinha, cantava que o homem é o trabalho e sem trabalho o homem não vive. É isso: querem matar o Luiz! Não deixam o homem trabalhar no que gosta, é obrigado a se danar em cargas horárias terríveis, longe da família, que sente sua ausência.

Não deixam o homem mudar de vida, progredir, melhorar. Lê a Constituição, com a ajuda do filho com melhor escolaridade que ele, e mesmo nenhum dos dois conseguindo entender certas frases, sabem que a lei lhes assegura uma pilha de direitos: à casa própria, por exemplo. Mas vivem em casa alugada.

Aí vem aquele doutor da OAB e lhe diz, na reunião de pais e professores, que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tão odiados pelos escravocratas sedentos de sangue, obriga os governantes a arranjar emprego para quem não tem. Vem o padre e diz que o trabalho é sagrado: foi dado por Deus para que os homens se enobreçam e se salvem com ele. Será que toda essa gente também quer matar o Luiz?

O que Luiz vê é a máquina entrando e dez homens e mulheres saindo. O robô entrando e outros dez na rua. O computador entrando e dez, vinte ao sagrado deus-dará.

Por que essa tamanha diferença entre a realidade que Luiz vê e aquilo que a TV diz (recordes de novos empregos), que a OAB diz (os direitos estão garantidos) e o padre fala (os direitos são sagrados)?

Agora vêm o Ipea e a Fundação Getúlio Vargas, achando bonito o que fez aquele tal de Nico Sarkozy, querendo que Luiz trabalhe até os 70 anos, pois se aposentar-se aos 65 vai virar pinguço, mesmo não bebendo uma gota. E mesmo não conseguindo um novo emprego hoje, aos 40 e tantos anos.

O Luiz pergunta: “Onde foi que eu errei?” Não foi você que errou, Luiz. Foram eles que erraram e continuam errando com você e sua família.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: