Arquivos Diários: 18 novembro, 2010

VÊNUS NO ESPELHO de josé delfino silva neto / natal

 

 

 

 

 

Deitada no quarto em penumbra

Entre lençóis de linho encoberta

Enroscada desnudado em ter-te

Inalcançável como uma asa

Refletida faz-te e semeada

Em chão de pedras batidas

Pontos de luz fogaréu ao longe

No quadro antigo em claro-escuro

O riacho em cheia parecendo rio

Em faces de espelhos d´água  onde

Meu fogo afoga-se sem guarida

Como se  irreal imagem fosse

Vertida em desconsolo imenso

No vazio do meu gesto em ver-te

Vinga o meu sofrimento

 

 

SOLIDÃO de omar de la roca / são paulo

 

Sacrifiquei as lúdicas palavras,

querendo apurar meus sentidos.

Suprimi o duplo sentidos das palavras,

Mas sem ele as palavras  ficaram ocas.

Pobres palavras, meio mortas de cansaço

mas de um cansaço meu e não delas.

Serei eu o meio morto ?

Aguardando as palavras me acordarem?

Do sono agitado, de sonhos cansados,

que se repetem a cada dia mas não se realizam?

Sacrifiquei as poéticas palavras,

Achando que algum sentido faria,a falta delas, a sua ausência.

Mas ausências são raramente boas e sem sentido as vezes.

E cismei, para que ?

Que sentido posso eu fazer se não puder surpreender  as pessoas?

Criar mundos ambivalentes onde o sonho corre descalço numa estrada de pedras?

Continuar questionando se posso ou não, se quero ou não ?

Se irei ou não ? Ou como farei ?

Se posso continuar por ai, sem medo de ferir e ser ferido?

Tentei reviver as palavras mortas.

Consegui apenas reviver alguns segmentos. Não sei se os melhores.

Não sei se conseguirei reuni-los novamente na mesma folha,

E pior , não sei se ainda farão sentido.

Ou se seguirão assim , escondendo o rosto ,

mostrando apenas um olho exausto.

Se arrastando na meia escuridão.

 

 

VERA LUCIA KALAHARI (sem titulo) / portugal

No deserto onde nasci, nesse Namibe das mil miragens, aprendi a falar
sem precisar das palavras, porque elas, muitas vezes, são pobres e
inúteis…Sim, significam as coisas banais e insignificantes da vida:
o camelo, o oásis, as tâmaras, o albornoz….
Quando sentimos alguma coisa profunda em nosso coração ,só o coração
saberia dizer o que as palavras não podem… Mas o coração só sabe as
sílabas da sua pulsação… Repousa a cabeça no meu peito, na solidão
da minha tenda, e ouve-o pulsar… Ouvirás o vento varrendo as areias,
curvando as palmeiras, secando as fontes, sepultando as caravanas.
E nas suas curtas sílabas, compreenderás todas as palavras que não
vale a pena serem ditas.
Esta é uma pequena alegoria que faço à mudança que tem que ser feita,
no deserto que é a vida…Quando aprenderes a encostar a cabeça num
ombro acolhedor e sentires que amas esse amigo, com a mesma ternura
que amarás uma árvore em cuja sombra, depois de longa caminhada ao sol
ardente pelas dunas solitárias, te dará a doçura da sua sombra
benfazeja, aí residirá a mudança. Saberás que ele não te poderá dar
senão a mesma frescura dos ramos dessa árvore acolhedora, nada mais…
Que somos na natureza seres diferentes, separados em mundos
diferentes, mas o amor junta-nos ali… E o amor é isso mesmo: Que
importa que linguas diferentes não nos nos deixem comunicar que as
mãos estejam distantes para uma carícia…Basta essa sombra da árvore
que acolhe um momento nossos destinos obscuros, errando pelos sóis do
deserto…
É aí que residirá o futuro da humanidade, nestes tempos de mudança.
Por isso, resta-nos ajoelhar e beijar a sombra silenciosa e
acolhedora, que, sem saber, aqueles que sabem amar trouxeram também
aos sois do nosso deserto.

P.S.  Dedicado ao meu amigo e grande poeta, João Batista do Lago