Arquivos Diários: 20 novembro, 2010

“Brunch à Moda do Box 32 by Beto Barreiros no Costão Golf” / ilha de santa catarina

Domingo é dia do “Brunch à Moda do Box 32 by Beto Barreiros”, com a equipe de chefs do Costão Golf. É também o dia que Iolanda e Fernando Marcondes de Mattos receberão os amigos para um brinde pela conquista pelo sexto ano consecutivo do melhor Resort de praia do Brasil.  Começa às 12:00 horas. R$ 53,00 por pessoa.   É necessário fazer reserva  pelos telefones 48 3209 1095 e 3269 3606. Rua Dário Manoel da Costa, 2548, Ingleses

O menu degustação terá de entradas:

Presunto espanhol Pata Negra, saladas de folhas crocantes, tomate seco com mussarela de manga, camarões marinados, beringelas marinadas, vinagrete de polvo, capponata italiana, patês de queijo, presunto e tomate seco, pães e torradas.

Pratos principais:

Bacalhau ao forno com tomate seco e bouquet de brócolis, Caldeirada de Frutos do Mar da Costa Catarinense, Carne de Sol de filé com queijo coalho e manteiga de garrafa, Risoto de grãos, Filé de peixe ao bisque de camarão trufado, batatas coradas com ervas e lascas de pecorino e espaguette de legumes com palmito pupunha.

Sobremesas:

Mini Pâtisserie com cinco sabores diferentes e muitas frutas da estação.

ELOGIO DE JACK por jorge lescano / são paulo

 

 

para Sandra Esteves

 

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Era uma vez um menino chamado Daniel.

A bem da verdade, em sua certidão de nascimento constava Pedro Daniel Nananá Nananá de Nonô, mas toda a aldeia o conhecia pelo clássico e híbrido apelido de Chapeuzinho Vermelho.

Em tempo, era uma época em que Lenhadores Corajosos e Alfaiates Vivaldinos perambulavam por aqui e acolá. Não esquentavam cadeira na França nem na Alemanha, sequer na Dinamarca. Parecia até que não tivessem o que fazer em prol da comunidade ou em proveito próprio, a menos que suas funções se limitassem às de coadjuvantes em histórias de Princesas Dorminhocas e Sapos Espertinhos, ou a costurar vestes sutis para o Imperador, se acreditarmos no filho de Anders. Época aquela deveras prazerosa, digam o que quiser os defensores do sindicalismo e da industrialização e da aposentadoria ao completar o segurado meio século de existência. Época, também, em que a especulação imobiliária ainda não atingira o interior do reino. Destarte, cada Ogro possuía seu Castelo Branco no planalto, mor de avistar o que corria pelo Gigante Adormecido, toda Fada tinha uma aldeiazinha para exercer sua profissão e, poderíamos dizer, não havia vilarejo cadastrado que não contasse com seu timinho de anões. Época feliz e eu não sabia!

Secundus, por que Diabos um garoto que tem dois nomes tão singelos como Pedro e Daniel, é reduzido à condição de chapéu, e ainda por cima, VER-ME-LHO!, sabendo-se das emoções negativas que tal cor provoca em todos aqueles que não estão apaixonados, hein?

Eu vos direi já já. Acontece que o garoto, traquinas que era, feito todos os garotos na puberdade, em certa ocasião, na qual tinha saído com seu avô paterno para caçar um Lobo Mau, animal de estimação que o velho compositor desejava conservar numa partitura, achou por bem surrupiar a mencionada peça de guarda-roupa, ou figurino, como quiserdes, de uma meninazinha não muito chegada a ouvir conselhos maternos, meninazinha esta que atinou a passar pelas imediações da trilha palmilhada por nossos músicos no interior úmido da Floresta Encantada. Ela, a meninazinha do período, ia ao encalço da moradia da genitora de sua própria genitora. Levava-lhe na cesta bolo, esfiha, chá de boldo e uma manguacinha de alambique muito apreciada pelas três. Há quem considere isto uma compensação, pois terão notado, sem dúvidas, a ausência de homens na família.

O reprovável comportamento do garoto foi bem feito para a mãe dele, deixem-me que lhes diga antes que me esqueça. Ela, como muitas outras mães, acreditava que por denominar o herdeiro de suas dívidas com dois nomes sérios, o de um profeta semítico, e o de um dos apóstolos de Nosso Senhor Jota Cristo, garantem-se contra as dores de cabeça próprias de sua função de parentesco, o que cunhou a famigerada expressão Ser Mãe é sofrer no Paraíso, e fazem como Pilatos, para não perdermos o tom bíblico do parágrafo.

O fato de o menino ter-se apropriado indevidamente do chapéu, que aliás não era chapéu e sim capuz, segundo o ilustrador, não seria coisa de muita monta. Porém, eis que um tio da pirralha, de nome Charles, o tio, claro, se bem me recordo, acabou levando o assunto ao conhecimento da autoridade policial da comarca.

Um jornalista presente na delegacia tornou-o famoso. Ao evento em pauta, não ao tio, após alguns retoques sensacionalistas bem ao gosto dos leitores do seu pasquim. Agora que me lembro, acho que era o jornalista que se chamava Charles, não o tio. Sim!

No B.O consta apenas que na tarde ensolarada do domingo próximo passado, isto escreveu o jornalista, que dizia ter pendores de poeta, o meliante, suspeito que a deixa é do escrivão, com o intuito de, desde o início, incriminar o réu, e/ou predispor o rábula desavisado contra a indefesa criatura, o meliante, prossegue o texto cruel, cognominado Pedro Daniel Nananá Nananá de Nonô, filho de Fulana e Sicrano, residentes todos os três mais o avô paterno do indiciado, dito Perengano, residente, digo, por enquanto, na rua Taletal desta megalópole, furtou a peça de vestuário supracitada, sem atenuante, o ato, não o chapéu, digo, diz o auto, sem nenhuma atenuante de ordem prática que justifique seu ato.

Com efeito, na ocasião, o larápio gozava de invejável posição social na aldeia, filho que era do Pizzaiolo-mór do Rei. Esta circunstância arredondará nossa narrativa, podeis crer.

Pedro Daniel gostava pouco de tomar banho. Achava o ritual extravagante, alheio aos seus costumes, com um quê de libertino, além de úmido, imaginai Vossas Mercês o que desejardes.

Não!, o jornalista era Jacob ou Wilhelm, e era irmão do delegado de plantão ou do tio, ou este e o delegado eram irmãos entre si e ele era  irmão do grego, não tenho certeza. É, havia um cego no princípio. Esqueci o nome do mero grego do início da história, graças a Zeus! Não podem querer que lembre de tudo, não é?

Então, pela sua atitude, de todo contrária à higiene pessoal, um modo sutil de desforra às pressões sociais, sugeriu o pediatra local, ou a forma de partilhar seu corpo, na visão de um  psicanalista, Pedro Daniel somente acedia a tomar banho se sua mãe, sentada à beira da tina, se penitenciasse lendo em voz alta, para que a vizinhança ouvisse, histórias infantis, ou as assim classificadas pela industria editorial emergente. Se a boa mulher não cumprisse a tarefa a gosto do mandrião, este chorava à portuguesa.

Tal estilo de lamúria era a preferida não apenas pelo facto do miúdo, de forma subliminar, certamente, haver sido condicionado pela família, pela história da literatura, pelo contexto social, que sei eu!, condicionado, diz o relatório, para reproduzir ipsis líteris, os traços marcantes de sua cultura, como pela instância, não menos profícua e familiar, dele apreciar superlativamente a iguaria itálica da qual, como foi apontado algures, o autor dos seus dias era exímio fabricante. Sim, senhoras e senhores, o delinqüente juvenil amava a pizza à lusitana! É de conhecimento público que tal modalidade prima pelo abuso de cebola em detrimento de outros pertences mais apetitosos para o paladar infantil, os quais sejam, ovo cozido, presunto e azeitonas pretas graúdas, cujo caroço, se bem aproveitado no estilingue, pode fazer misérias nas janelas da vizinhança, como Vossas Mercês estão fartas de saber.

O caso do jurista ou jornalista, não sei bem, talvez exija investigação mais demorada, pois não seria negócio de somenos.

Então, toda tarde de domingo ensolarado, estabelecia-se entre as duas gerações um tácito combate naval. Isto poderia explicar, por vias tortas, aquele primeiro ato delituoso de quem, com o passar dos anos, e após breve carreira de instrutor de lobos na requintada arte da literatura, segundo constata a vasta resenha policial concernente, viria a ser o tristemente célebre Jack, o Estripador.

Nada mal para um franzino garoto de aldeia, pelo qual ninguém dava uma rúpia furada, hein?

 

Há quem diga que Pedro (Daniel) era o próprio Lobo, e que seu sobrenome era Prokofiev. Todavia, nós não acreditamos em  Lobisomem, ainda que exista, anotou à socapa o escrivão de polícia. Algum cronista apresenta Pedro Daniel arrependido. Nesse relato, o facínora teria reencontrado, em suas andanças pelas estepes do Velho Mundo, a Meninazinha do Capuz Vermelho, agora uma starlet de grande sucesso no show-business. Desposou-a imediatamente para agradar Propp e foram morar no Castelo Branco do Rei Bonachão. Acredita-se que ambos foram felizes para Todo-o-Sempre. Contudo, o diretor de teatro Serguéi Korrêa (para manter o clima russo), continuou a escrever o escrivão, afirmava que a versão anterior é mentirosa e foi divulgada pelo indiciado Jack, o Estripador, mor de ocultar seu assassinato de Lulu. Fato este, aliás, já denunciado pelo dramaturgo alemão Frank Wedekind (1864-1918).

Com gesto discreto mergulhou a caderneta no mais profundo dos bolsos internos de sua japona, sorrateiramente saiu do recinto.