Arquivos Diários: 25 novembro, 2010

Deus me livre de mim! – por edival lourenço

A razão é um atributo do Homo sapiens, uma especificação de fábrica que nos distingue da fauna geral. A razão nos leva a certas práticas que são tipicamente humanas, tais como a cultura, o desenvolvimento do conhecimento e sua acumulação, a reflexão sobre as próprias atitudes e aprender com os erros próprios e dos outros, principalmente a melhoria da condição de vida através da capacidade empreendedora. Talvez seja por isso que  ainda nos primórdios da civilização essa capacidade foi reconhecida e legitimada como um mandamento divino. Daí o Deus de Abraão ter ordenado em suas primeiras manifestações formais: Crescei e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.

Este é por certo o mandamento que o homem mais vem cumprindo à risca. Até com certo garbo e arrogância. Porque aqueles outros (não matarás, não roubarás, não desejarás a mulher do próximo, respeitarás pai e mãe, não levantarás falso testemunho etc) o ser humano, como coletividade, não tem dado a mínima. E parece que enquanto mais avança no desenvolvimento das ferramentas, esses ditames ancestrais, que bem poderiam ser perenes, vão caindo no esquecimento coletivo. Já na questão de dominar a terra, de avançar sobre os bens naturais, sem ao menos os importar com os malefícios que nossas ações possam nos trazer, seja para a nossa geração, seja para as gerações futuras, temos sidos convictos, muito além da conta.

Nosso instinto empreendedor está eivado de pulsões de vandalismo. Estudos biológicos comprovam que a parte do cérebro que comanda o nosso senso empreendedor está acondicionada juntamente com resquícios evolutivos de propensão  vandalista,  do tempo em que as aves eram o tope da linha da criação animal. As aves são vândalas por princípio. Uma galinha, por exemplo, é capaz de jogar tudo pro alto e por terra, numa ciscação medonha, se tiver esperança de encontrar um grão que seja de cereal num ambiente. Outro dia, caminhando pelo Parque Vaca Brava, pude perceber que as flores de um ipê amarelo caiam metodicamente, uma depois da outra, numa sequência frenética e desesperada. Observei que entre a ramada havia um periquito ordinário, cortando flor por flor, numa fúria incontida. Observei, ou deduzi  que ele não tirava nenhum proveito derrubando as flores daquele modo. Aquilo apenas atendia à ânsia de empreendedorismo vândalo das aves, ao instinto de promover a bagaceira. Os agricultores sabem que quando as maritacas atacam os arrozais o estrago é total. Não porque elas comem tudo, mas porque elas derrubam os cachos, comendo alguns grãos, aqui e ali. Daí ser preciso vigiar a roça com argumentos de fogos ou alguns espantalhos em forma de palhaços Tiririca, distribuídos em pontos estratégicos.

Nós humanos somos assim. Com relação ao planeta, o suporte de nossa vida, nós somos a galinha ciscadeira, o periquito na florada do ipê amarelo, a maritaca no arrozal maduro. Somos o bicho feroz de nós mesmos. Um ladrão quando mata alguém para lhe retirar um simples par de tênis, ou um empreendedor que aterra as nascentes de um córrego para que o loteamento dê umas unidades a mais, está cumprimento esses comandos infelizes de cérebro de galinha, que também são nossos. Com a diferença que a galinha não tem os dispositivos da razão para lhe sofrear os instintos tóxicos e o Homo sapiens tem essa reserva moral a que pode recorrer, quando quiser, para orientar eticamente suas atitudes.

No entanto, o Homo sapiens, é um animau çinixtro, pois mesmo tendo os meios adequados para agir com correção e ética, ele se deixa convenientemente dominar por seus instintos de galinha. Está mais ligado no que julga ser o bem-estar pessoal imediato em detrimento do bem-estar coletivo duradouro. Se for possível apresentar lucro no balanço no final do mês, não se importa em causar prejuízo perpétuo para a vida, em todos os seus quadrantes.

O vandalismo de autoaniquilamento do Homo sapiens é um projeto coletivo que perpassa a todas as instituições humanas. A religião, a política, a economia, o mercado, tudo. Aliás, as religiões, pelo menos as de orientação cristã, têm se esmerado na criação das condições que levem o homem à autodestruição. Para essas religiões, o ser humano caminha fatalmente para um momento de Apocalipse, da revelação final. Não tem como torcer. Crescer e multiplicar-se etc. são o modus operandi dessa máquina escatológica, que haverá de aniquilar a todos, criando assim as condições propícias para que o Messias, um Deus super-herói pimpão, todo poderoso e socorrista nos redima da desgraça final. Quando já não tiver ficado pedra sobre pedra e houver estabelecido o choro coletivo e o ranger de dentes geral.

Depois desse susto imenso e desse protagonismo espetacular, será edificado seu reino pacífico e ordeiro, sem os tais instintos de galinha que contaminam a razão humana em nossa condição pré-apocalipse. Um reino quiliásmico (de mil anos). Todo mundo fará parte desse reino: cristãos, judeus, espiritistas, muçulmanos, budistas, animistas. Até os ateus terão seu lugar e ficarão por ali, meio vendidos, com cara de budão.  Os vivos e os mortos de todos os tempos serão convocados, inclusive os fetos vítimas de aborto. Os mortos serão plenamente restabelecidos em sua conformação de carne e osso e os vivos mantidos como se acham, num botox integral e definitivo. Onde haverão de se abrigar tanta gente? Pelo menos o Apocalipse de João não dá pistas de que vá haver espaço físico pra todo mundo. O livro medonho fala de uma Nova Terra, sem dar conta de que haverá algum planeta salubre em anexo, ou mesmo um pedaço em forma de aplique a este que temos o costume de habitar e afligir. Didaticamente, a ordem de arrasar o planeta está no primeiro livro da Bíblia e a superstição de que seremos salvos numa ação espetacular está no último.

Esse utopismo desbragado, que está na base de nossa cultura (considerando que do ponto de vista sociológico até ignorância é cultura), legitima qualquer ação humana que seja para dar relevo e implemento ao nosso desenvolvimentismo teleológico (com uma finalidade previamente estabelecida: o Apocalipse). Podemos destroçar os biomas, como a mata atlântica, o cerrado, o mangue, as coxilhas, a mata amazônica. Podemos derramar petróleo no mar, sem culpa, nem dó. Podemos atufar ruas e vias do mundo com nossos carrões irados, defecando veneno. Podemos mudar de discurso num repente, como o governo brasileiro que defendia o etanol com fervor apostólico pela sua baixa toxidade ao meio ambiente, mas foi só pintar o petróleo do pré-sal, acenando com a possibilidade de uma grana mais avultada, que o discurso mudou num passe de mágico.

Por dindim podemos puir nossa camada de ozônio com nossos gases peçonhentos, podemos rebentar com o equilíbrio climático, podemos emporcalhar a água, podemos moer a pau as condições favoráveis à vida. Afinal estamos apenas cumprindo o mandamento de crescer e multiplicar, dando vazão ao nosso instinto predatório de galinha e nos aproximando da revelação final, para o exercício do protagonismo divino. Para isso serve mais o instinto ancestral do que a razão adquirida já na condição humana.

Não consigo me ver no espelho de minha consciência sem me assustar: Deus me livre de mim.

 

RUDI BODANESE e sua arte / ilha de santa catarina

 

 

 

MÍDIA, golpes e tortura – por emiliano josé / são paulo

 

No Brasil a Casa Grande não descansa. E a principal voz da Casa Grande no Brasil é a mídia hegemônica, aquele grupo de poucas famílias que se pretende o intérprete da realidade brasileira, apesar de há muito ter deixado de sê-lo. A um jornalismo sério, que tivesse compromisso com a história, a um jornalismo que tivesse alguma ligação, tênue que fosse, com a idéia de democracia, que se preocupasse com a educação das novas gerações, caberia discutir a monstruosidade da tortura, mostrar o que ela tem de lesa-humanidade. Mostrar que qualquer processo que envolva tortura não merece qualquer crédito. Mas esse não é o jornalismo brasileiro. O artigo é de Emiliano José.

Emiliano José

Talvez pudéssemos inverter um pouco a ordem das coisas: que tal, ao invés de divulgar o relato de processos do STM sobre pessoas covardemente torturadas, como o faz agora o secretariado da mídia golpista brasileira, perguntássemos sobre qual o papel dessa mesma mídia na implantação da ditadura militar?

Não seria algo elucidativo, educativo para as novas gerações? Que tal compreender a verdadeira natureza de nossa mídia hegemônica para, então, entender por que, nesse momento, usando processos inteiramente submetidos à ordem castrense, ao terror ditatorial, tenta atingir a presidente da República, recentemente eleita, numa espécie de vingança pela derrota que sofreu? Perguntar por que ela não se conforma com essa nova derrota, a terceira derrota da mídia nas últimas eleições, derrotada pela opinião pública brasileira. Com que direito quer um terceiro turno, ilegítimo, revelador apenas de seus ressentimentos?

Eu insisto: no Brasil a Casa Grande não descansa. E a principal voz da Casa Grande no Brasil é a mídia hegemônica, aquele grupo de poucas famílias que se pretende o intérprete da realidade brasileira, apesar de há muito ter deixado de sê-lo. Não vou retroceder muito no tempo. Não vou esmiuçar o papel destacado de nossa mídia na tentativa de golpe contra o presidente Getúlio Vargas. O quartel-general do golpe era permanentemente orientado pela mídia. A mídia hegemônica de então e o golpe já quase consumado foram derrotados pelo suicídio do presidente.
O que pretendo mesmo é refrescar a memória ou informar um pouco que seja sobre o papel de nossa mídia no golpe de 1964. Não se trata apenas de ela ter elaborado todo o discurso que deu sustentação ao golpe contra o presidente Jango Goulart. Não se trata disso somente.

Trata-se do fato, por demais evidente, e há vasto repertório bibliográfico a respeito, de que a mídia participou diretamente das articulações golpistas. Ela derrubou Goulart lado a lado com os militares golpistas. Reuniu-se com eles para preparar o golpe. Não tem como se defender disso. É algo que hoje já pertence à história.

Com isso se quer dizer, e creio que é preciso insistir nisso, que a mídia hegemônica brasileira foi um ator fundamental na construção de uma ditadura sanguinária, terrorista no Brasil, a mesma que vai torturar covardemente homens, mulheres, crianças, que vai desaparecer com pessoas depois de desfigurá-las, provocar suicídios, que será capaz de todas as crueldades, perversidades para garantir a sua continuidade no poder por 21 anos.

A Rede Globo, criada lá pelos finais de 1969, não foi uma simples iniciativa empresarial. Foi um empreendimento político. Com a Rede Globo pretendeu-se unificar o discurso da ditadura, justificar tudo ela pretendesse, inclusive os assassinatos, o terrorismo que ela praticava cotidianamente. Inúmeras vezes assistíamos, no Jornal Nacional, notícias dando conta do atropelamento de companheiros, da morte de um militante por outro, versões montadas pela repressão para justificar a morte nas masmorras da ditadura. A Rede Globo encarnava e ecoava a voz do terror, foi criada para tanto.

E o grupo Globo é apenas parte de toda uma estrutura midiática que deu sustentação à ditadura, embora talvez, então, a parte mais importante. Não é difícil lembrar do terrível, do terrorista general Garrastazu Médici, ditador, que dizia que bastava assistir ao Jornal Nacional para perceber como tudo caminhava às mil maravilhas no Brasil. O Jornal Nacional era o diário oficial da ditadura.

Por isso, não há como nos surpreendermos com a tentativa, canhestra, de tentar desqualificar a presidente Dilma, pinçando aspectos do vasto processo buscado nos arquivos do STM, como a matéria de 19 de novembro, de O Globo. Não nos surpreendemos, mas não há como não nos indignarmos. É a voz da ditadura que volta, são os mesmos métodos que voltam, embora, agora, por impossibilidade, a tortura física não possa voltar.

A um jornalismo sério, que tivesse compromisso com a história, a um jornalismo que tivesse alguma ligação, tênue que fosse, com a idéia de democracia, que se preocupasse com a educação das novas gerações, caberia discutir a monstruosidade da tortura, mostrar o que ela tem de lesa-humanidade, mostrar a necessidade de evitar que ela exista, inclusive nas cadeias brasileiras de hoje. Mostrar que qualquer processo que envolva tortura não merece qualquer crédito. Mas, não.

O jornalismo realmente existente vai pinçar aspectos no processo que eventualmente desgastem a presidente da República. Nos próximos dias, a mídia golpista vai se debruçar sobre isso, podem anotar. É a tentativa do terceiro turno, evidência do ressentimento pela terceira derrota – a mídia perdeu em 2002 e 2006, quando Lula venceu, e perdeu agora, com a vitória de Dilma. Não se conforma, A Casa Grande não descansa.

Nem sei, nem vou procurar saber sobre todo o processo que envolveu a presidente. Escrevi vários livros sobre a ditadura, inclusive sobre Carlos Lamarca e Carlos Marighella, que tangenciam organizações revolucionárias pelas quais a presidente Dilma passou – e que orgulho ter militado em organizações revolucionárias. Não me detive, no entanto, na trajetória específica da presidente Dilma Roussef, nem caberia.

Mas será que os jornalistas que têm feito o papel de pescadores de leads e subleads negativos, de títulos desqualificadores da presidente têm alguma noção do que seja a tortura? Imagino que não, até porque só obedecem ordens, a pauta é previamente pensada, ordenada, e depois se faz a matéria.

Repito aqui o que escrevi em um dos meus livros, valendo-me das contribuições do psicanalista Hélio Pellegrino. A tortura nunca é mero procedimento técnico destinado à coleta rápida de informações. É também isso, mas nunca apenas isso. Ela é a expressão tenebrosa da patologia de todo um sistema social e político, expressão da ditadura militar de então. Ela visa à destruição do ser humano.

À custa de um sofrimento corporal inimaginável, teoricamente insuportável, a tortura pretende separar corpo e mente, instalar a guerra entre um e outro, semear a discórdia entre ambos. O corpo torna-se um inimigo – com sua dor, atormenta o torturado, persegue o torturado. A mente vai para um lado, o corpo sofrido para outro. O torturado fica exposto ao sol e à chuva, ao desabrigo absoluto, sem chão, entregue às ansiedades inconscientes mais primitivas. E apesar disso, tantas vezes, tantos de nós, quando não fomos trucidados e mortos na tortura, resistimos a esse terror, e saímos inteiros, ou quase inteiros, dessa situação-limite.

O que vale um processo feito sob a ditadura? O que valem declarações tiradas sob tortura? Responderia que valem apenas para revelar o que foi o terror, para revelar o que fizeram com as vítimas desse terror. Por que nos impressionamos e nos indignamos tanto com as vítimas do nazi-fascismo, inclusive nossa mídia, impressão e indignação justas, e somos, lá eles como costumam dizer os baianos, tão condescendentes com o terror da ditadura, com as torturas dos assassinos do período 1964-1985?

Eu compreendendo por que a mídia age assim com a nossa memória histórica, e já o disse antes: age assim pela simples razão de que ela tem tudo a ver com a gênese da ditadura, porque dela não pode se apartar, lamentavelmente. Por isso, nos preparemos para a luta dos próximos dias: ela vai buscar nos porões da ditadura o que possa servir aos seus propósitos de lutar contra o governo democrático, republicano e popular da presidente Dilma. E nos encontrará onde sempre estivemos: na luta intransigente, isso mesmo, intransigente, a favor da democracia, dos direitos humanos, e contra toda sorte de crimes contra a humanidade.

(*) Jornalista, escritor.


 

Dubai, o emirado dos recordes ! – por laura antunes / são paulo

Prédios de Dubai que parecem de brinquedo, vistos do observatório do 124º andar do Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo / Foto: Laura Antunes

Era uma vez um longínquo vilarejo num deserto das arábias que decidiu tornar real até a mais inimaginável miragem. No espaço de duas décadas, Dubai, o mais famoso dos sete Emirados Árabes Unidos, tomou para si o título de capital dos superlativos ao erguer uma estação de esqui na neve, uma ilha artificial em formato de palmeira com 500 quilômetros de orla, um conjunto de ilhas formando os cinco continentes, hotéis que reproduzem uma vela de barco ou uma onda… Como não era o bastante, Dubai conseguiu se superar ao inaugurar num mesmo endereço o prédio mais alto do mundo (com o observatório externo mais alto do mundo), construído ao lado do recém-inaugurado maior shopping do mundo – onde fica a maior parede transparente do mundo – e vizinho a uma das estações do novíssimo maior metrô automatizado do mundo. Um monumental lago artificial completa o complexo arquitetônico, onde acontece diariamente o balé das águas, que atrai milhares de turistas atônitos, pois o show termina, claro, com outro recorde: o jato de água mais alto do mundo! É só? Imagina… O lugar abrigará em breve a maior sobreposição de viadutos do mundo (15, ao todo). E, como Dubai não se cansa de surpreender, o próximo projeto megalômano já está a caminho: um prédio residencial, onde todos os apartamentos vão girar em seu eixo.