Arquivos Mensais: dezembro \28\UTC 2010

PORQUE AS PESSOAS GRITAM? – por mahatma gandhi

Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta a seus discípulos:

– Por que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?
– Gritamos porque perdemos a calma, disse um deles.
– Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao seu lado? – Questionou novamente o pensador.
– Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça, retrucou outro discípulo.

E o mestre volta a perguntar:

– Então não é possível falar-lhe em voz baixa?
Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador. Então ele esclareceu:
– Vocês sabem  porque se grita com uma pessoa quando se está aborrecida? O fato é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, seus corações se afastam muito.
Para cobrir esta distância precisam gritar para poderem escutar-se mutuamente.

Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para ouvir um ao outro, através da grande distância.
Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão enamoradas?
Elas não gritam.
Falam suavemente.
E por quê?
Porque seus corações estão muito perto.
A distância entre elas é pequena.
Às vezes estão tão próximos seus corações, que nem falam, somente sussurram.
E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer sussurrar, apenas se olham, e basta.
Seus corações se entendem.

É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas.
Por fim, o pensador conclui, dizendo:
“Quando vocês discutirem, não deixem que seus corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta”

O MINISTÉRIO DILMA – por marcos coimbra / são paulo

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O Ministério Dilma
26/12/2010

Por mais que a esperemos, é sempre surpreendente a má vontade de nossa “grande imprensa” para com o governo Dilma. No modo como os principais jornais de São Paulo e do Rio têm discutido o ministério, vê-se, com clareza, seu tamanho.

A explicação para isso pode ser o ainda mal digerido desapontamento com o resultado da eleição, quando, mais uma vez, o eleitor mostrou que a cobertura da mídia tradicional tem pouco impacto nas suas decisões de voto. Ou, talvez, a frustração de constatar quão elevadas são as expectativas populares em relação ao próximo governo, contrariando os prognósticos das redações.

As críticas ao ministério que foi anunciado na última semana estavam prontas, qualquer que fosse sua composição política, regional ou administrativa. Se Dilma chamasse vários colaboradores do atual governo, revelaria sua “submissão” a Lula, se fossem poucos, sua “traição”. Se houvesse muita gente de São Paulo, a “paulistização”, se não, que “dava o troco” ao estado, por ter perdido a eleição por lá. Se convidasse integrantes das diversas tendências que existem dentro do PT, que se curvava às lutas internas, se não, que alimentava os conflitos entre elas. E por aí vai.

Para qualquer lado que andasse, Dilma “decepcionaria” quem não gosta dela, não achou bom que ela vencesse e não queria a continuidade do governo Lula. Ou seja, desagradaria aqueles que não compartilham os sentimentos da grande maioria do país, que torce por ela, está satisfeita com o resultado da eleição e quer a continuidade.

Na contabilidade matematicamente perfeita da “taxa de continuísmo” do ministério, um jornal carioca foi rigoroso: exatos 43,2% dos novos integrantes do primeiro escalão ocuparam cargos no governo Lula (o que será que quer dizer 0,2% de um ministro?). E daí? Isso é pouco? Muito? O que haveria de indesejável, em si, em uma taxa de 43,2%?

Note-se que, desses 16 ministros, apenas oito tinham esse status, sendo os restantes pessoas que ascenderam do segundo para o primeiro escalão. A rigor, marcariam um continuísmo menos extremado (se é isso que se cobra da presidente). Refazendo as contas: somente 21,6% dos ministros teriam a “cara de Lula”. O que, ao contrário, quer dizer que quase 80% não a têm tão nítida.

Para uma candidata cuja proposta básica era continuar as políticas e os programas do atual governo, que surpresa (ou desilusão) poderia existir nos tais 43,2%? Se, por exemplo, ela chamasse o dobro de ministros de Lula, seria errado?

Isso sem levar em consideração que Dilma não era, apenas, a representante abstrata da tese da continuidade, mas uma profissional que passou os últimos oito anos trabalhando com um grupo de pessoas. Imagina-se que tenha desenvolvido, para com muitas, laços de colaboração e amizade. Mantê-las em seus cargos ou promovê-las tem muito a ver com isso.

No plano regional, a acusação é quanto ao excesso de ministros de São Paulo, nove entre 37, o que justificaria dizer que teremos um “paulistério”, conforme essa mesma imprensa. Se, no entanto, fizéssemos aquela aritmética, veríamos que são 24,3% os ministros paulistas, para um estado que tem 22% da população, se for esse o critério para aferir excessos e faltas de ministros por estados e regiões.

Em sendo, teríamos, talvez, um peso desproporcionalmente positivo do Rio (com seis ministros nascidos no estado) e negativo de Minas (com apenas um). Há que lembrar, no entanto, que a coligação que elegeu a presidente fez o governador, os dois senadores e a maioria da bancada federal fluminense, o oposto do que aconteceu em Minas. O PMDB saiu alquebrado e o PT ainda mais dividido no estado, com uma única liderança com perspectiva sólida de futuro, o ex-prefeito Fernando Pimentel, que estará no ministério.

Para os mineiros, um consolo, não pequeno: a presidente Dilma nasceu em Belo Horizonte. Os ministros são poucos, mas a chefe é de Minas Gerais.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi, o mesmo que, por discordar dos métodos imorais do DataFalha e do IBOPE, teve sua sede invadida em Belo Horizonte por agentes do PIG.
Deu no que deu.

por Marcos Coimbra*, no C Br

O PLANO DIVINO – por belmiro valverde jobim castor / curitiba


Nenhum sábio arriscaria pensar que aquele profeta e visionário pudesse um dia influenciar mais do que um punhado de apóstolos semianalfabetos, quanto mais mudar a história do mundo

Estava procurando um tema para esta crônica de Natal e tinha de ser especial: nada de falar em apagão aéreo (que preguiça ver a Anac aconselhando os passageiros a ficar em casa até descobrir se os aviões irão decolar ou não…), nem no ministério da presidenta eleita, Dilma Rousseff, muito menos nos juros e na carga fiscal que pesam no lombo dos brasileiros. Tudo isso empalidece frente ao significado do Natal, à sua transcendência insuperável. O Brasil prosperará ou enfrentará tempos difíceis, juros subirão e cairão, seremos sangrados em maior ou menor escala pelo apetite voraz dos governantes, alguns ministros verão seus currículos se transformarem em biografias, enquanto os de outros escorregarão para a pasta dos prontuários policiais. Nada disso tem significado permanente, serão apenas episódios fugazes de nossa trajetória nacional.

Corre uma anedota na internet que afirma que, se vivesse hoje, Jesus Cristo não poderia transmitir Seus ensinamentos: não fossem duas breves citações do historiador Flavius Josephus, não teria nem como comprovar sua existência; não tinha curso superior, nem currículo Lattes, não falava uma segunda língua, nunca publicou um artigo em revistas científicas e os textos atribuídos a ele foram, na realidade, escritos dezenas de anos após sua morte por alguns de seus amigos e admiradores.

No entanto, a prova definitiva da divindade do Cristo vem da absoluta improbabilidade – à luz da ciência humana – do cristianismo se transformar em algo mais do que a pregação solitária de um pescador pobre, perdido nas lonjuras de uma colônia menor do Império Romano. Nenhum sábio arriscaria pensar que aquele profeta e visionário pudesse um dia influenciar mais do que um punhado de apóstolos semianalfabetos, quanto mais mudar a história do mundo. O fato de tê-la mudado na profundidade e na extensão que fez desafia a sabedoria humana e é, para mim, a prova definitiva de Sua divindade. Por isso há alguns anos escrevi uma crônica denominada “O Business Plan”, que repito parcialmente a seguir.

“Fico pensando o que seria do céu se o Senhor resolvesse recorrer à “sabedoria” de consultores de empresas antes de mandar Seu filho à Terra. “Senhor” – ponderou o primeiro consultor – “com o devido respeito, parece-nos que existem alguns pontos duvidosos da maior importância, como a questão geográfica e geoestratégica. O centro econômico e político do mundo está situado em Roma, que irradia influências para as outras regiões. Portanto, se quisermos gerar um efeito multiplicador realmente importante, a “Operação JC” (consultores adoram abreviações e acrósticos) terá de ser em Roma mesmo; só numa segunda etapa, ser multiplicada para o resto do Império Romano e depois para o restante do mundo conhecido. No entanto, vejo que o Senhor está pensando em lançar o projeto na Palestina, uma área periférica do Império onde não existe nenhum potencial de trendsetting. Essa – com o devido respeito – é uma decisão arriscada”.

“Nada contra a Palestina” – engatou o segundo consultor – “mas temos de ser realistas: o que se sabe da região é que os grupos locais se detestam mutuamente e estão permanentemente em conflito, o que inviabiliza qualquer tentativa de criar um clima favorável para utilizar as técnicas do ‘viral marketing’. Os efeitos da operação podem demorar três, quatro séculos, até atingirem o centro do poder no mundo, o que é um prazo demasiado longo. E há ainda o problema do meio e da mensagem. A língua, por exemplo, pois o aramaico é pouco conhecido. Chequei também os currículos dos que vão participar e são todos gente muito simples, pescadores analfabetos… Será que estarão à altura da complexidade toda de uma operação desse porte e com objetivos tão vastos?”

Na saída da reunião, os consultores comentavam: “acho que o convencemos…” “Também, pudera, os nossos argumentos eram muito fortes.” Na antessala cruzaram com um conhecido. “Oi Gabriel! Que é que anda inventando por aqui?” “Não sei. O Senhor mandou me chamar com urgência. Pelo jeito é coisa muito importante!”

Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do doutorado em Administração da PUCPR.

 

 

MAMÃE NOEL – por martha medeiros / porto alegre

Sabe por que Papai Noel não existe? Porque é homem. Dá para acreditar que
um homem vai se preocupar em escolher o presente de cada pessoa da família,
ele que nem compra as próprias meias? Que vai carregar nas costas um saco
pesadíssimo, ele que reclama até para colocar o lixo no corredor? Que
toparia usar vermelho dos pés à cabeça, ele que só abandonou o marrom depois que conheceu o azul-marinho? Que andaria num trenó puxado por renas, sem ar-condicionado, direção hidráulica e air-bag? Que pagaria o mico de descer por uma chaminé para receber em troca o sorriso das criancinhas? Ele
não faria isso nem pelo sorriso da Luana Piovani! Mamãe Noel, sim, existe.

Quem é a melhor amiga do Molocoton, quem sabe a diferença entre a Mulan e a
Esmeralda, quem conhece o nome de todas as Chiquititas, quem merecia ser
sócia-majoritária da Superfestas? Não é o bom velhinho.

Quem coloca guirlandas nas portas, velas perfumadas nos castiçais, arranjos
e flores vermelhas pela casa? Quem monta a árvore de Natal, harmonizando
bolas, anjos, fitas e luzinhas, e deixando tudo combinando com o sofá e os
tapetes? E quem desmonta essa parafernália toda no dia 6 de janeiro?

Papai Noel ainda está de ressaca no Dia de Reis. Quem enche a geladeira de
cerveja, coca-cola e champanhe? Quem providencia o peru, o arroz à grega, o
sarrabulho, as castanhas, o musse de atum, as lentilhas, os guardanapinhos
decorados, os cálices lavadinhos, a toalha bem passada e ainda lembra de
deixar algum disco meloso à mão?

Quem lembra de dar uma lembrancinha para o zelador, o porteiro, o carteiro,
o entregador de jornal, o cabeleireiro, a diarista? Quem compra o presente
do amigo-secreto do escritório do Papai Noel? Deveria ser o próprio, tão
magnânimo, mas ele não tem tempo para essas coisas. Anda muito requisitado
como garoto-propaganda.

Enquanto Papai Noel distribui beijos e pirulitos, bem acomodado em seu
trono no shopping, quem entra em todas as lojas, pesquisa todos os preços,
carrega sacolas, confere listas, lembra da sogra, do sogro, dos cunhados,
dos irmãos, entra no cheque especial, deixa o carro no sol e chega em casa
sofrendo porque comprou os mesmos presentes do ano passado?

Por trás do protagonista desse megaevento chamado Natal existe alguém em
quem todos deveriam acreditar mais.

.

foto de Leticia Remião.

NATAL – de philomena gebran / rio de janeiro

Tudo é normal nesta época.

Grandes euforias falsas alegrias

Salas iluminadas mesas arrumadas

Camas abandonadas

Árvores de papel.

Sorrisos de papai Noel

Tudo planejado em mágica imaginação.

Tudo sem fantasia. Tudo sem criação

Todos perfumados

Postados conformados.

Hoje ontem amanhã

Sem a menor emoção

Roupa nova inaugurada

Risos estrangulados

Tudo sempre igual no fatal natal.

 

A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA de zuleika dos reis / são paulo

A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA

 

 

O Natal nos liga à origem do Tempo Sagrado, onde está o Ser a Quem pertencemos, o Ser de Quem somos parte, independente do fato de termos clara em nós tal Ciência.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano como Recordação e Presença; vem para nos lembrar de que a Vida não tem fronteiras, nem de espaço, nem de tempo.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos mostrar que a Vida apenas É, a iluminar-nos desde Sempre, desde o Âmago, desde o Centro.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos incinerar das nossas misérias, por segundos que seja; para nos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Coragem Desmedida para nos deixarmos incinerar, por segundos que seja, para nos deixarmos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Desmedida Coragem, para que ousemos duvidar do brilho mais do que nunca ofuscante do Imediato Real, do brilho que, se descuidarmos, nos fará passar totalmente em branco este Tempo de Recordação e de Presença da Criança Sagrada, que vem para nos Lembrar. Que vem para nos Lembrar, para nos lembrar de Nós.

 

Ainda na manhã de 22 de dezembro de 2010.

 

JULIO SARAIVA e sua poesia / são paulo

elegia a nós dois

não há ossos partidos

não há cinzas

só o frio das palavras expulsas da boca

um solo de adeus que constrange

um olhar escondido em nuvens

chuvas que machucam a memória dos livros

páginas que não lemos

.

não há ossos partidos

não há cinzas

só restos de alegorias   sobras de carnavais

& medos

velhos pierrôs exibindo sorrisos estrangulados

olhares antigos anunciando a cegueira

sei que as malas já estavam prontas

mesmo quando a ideia de partir não havia

urubus rondavam a casa

voos incertos além muito além das asas

coelhos fugiam da cartola

para desespero do mágico

.

não há ossos partidos

não há cinzas

não há nada

além do retrato feito a carvão

de um capitão bêbado

o cachimbo no canto da boca

o olhar sujo de quem há anos não dorme

querendo dizer que o atlântico é bem maior

do que qualquer adeus

.

o capitão está certo

do mar nunca se sabe

: navegar é impreciso


auto-retrato II

sou o silêncio de um navio cansado

poço fundo de tantos pesadelos

se sonho sonhos bons mesmo sem tê-los

sou conde num castelo abandonado

.

mas assim vou vivendo no ora-veja

debaixo das cinzas de quarta-feira

e fazendo da vida brincadeira

dou-me a qualquer mulher – se me deseja

.

se penso frevo canto marcha-rancho

e rio-me de mim  – sinto-me ancho

sabendo enfim que a merda desta vida

.

não me fez quixote fez-me sancho

e mesmo olhando o sangrar desta ferida

valeu-me a vida embora tão fodida


SKYLINE PIGEON – de omar de la roca / são paulo


 

É notável como uma musica pode despertar na gente sentimentos por vezes adormecidos ou que fizemos questão de esconder de nos mesmos.

Nestes anos todos tive poucas oportunidades de ouvir musica ao vivo.Uma vez no MASP,onde ouvi um pedaço de uma apresentação de cravo ( que minha companhia detestava ),uma apresentação de musica renascentista ( que minha companhia detestava ),um show de musica irlandesa ( da qual todos gostamos ).Um ensaio no teatro de Campos do Jordão.Algumas das quais não me lembro agora.Enfim,poucas oportunidades.

Nesta manhã molhada,a garoa me fez lembrar de antigamente, caindo continua e triste.Fiz as visitas que tinha que fazer,almocei e acabei me refugiando dela ( a garoa ) num dos shoppings da Paulista.Haveria a apresentação de um coral e um saxofonista ( com um nome pomposo inventado ).O coral embora afinado,não ousou muita coisa.Ficou nas musicas natalinas e uma do Renato Russo ( …o sol vai brilhar amanhã…).Isso ate onde eu ouvi.Mas a surpresa veio quando ouvi os primeiros acordes da gravação que o saxofonista acompanhava e que abriu o show.Skyline Pigeon de Elton John.Ha muito tempo, logo que foi lançada, eu decorei a letra.E fui cantando,sem voz mesmo, e me dando conta dos versos “ me deixe voar para terras distantes,sobre campos verdes, arvores e montanhas, flores e fontes nas florestas “ em tradução livre.Acabou que me pegou de jeito  trazendo a tona sentimentos anestesiados. Precisei respirar fundo para não chorar. Foi meio que como um presente.Uma coisa inesperada.Depois o coral de senhorinhas cantou mais algumas musicas conhecidas,sem muito brilho.

A garoa havia passado.Continuei a caminho do escritório. Na marquise do Sesi uma banda marcial do interior de São Paulo.Um pouco estridente,pra quem estava com dor de cabeça,mas corretos na sua juventude.Só não gostei de Pretty Woman, embora goste da musica.

Queria que tivessem tocado, qualquer um dos dois,The Long and Winding Road “ aquela que levava a porta de alguém” e que quando foi lançada eu achava que era uma rua que ventava muito.Mais tarde descobri o significado de “winding” andando por longos e tortuosos caminhos.Sempre foi uma de minhas favoritas.Mas acho que vai ficar para a próxima.

Mas agradeço aos presentes inesperados. Me  mostraram que ainda sou capaz de me emocionar,quando a tecla correta é apertada.Quando perdemos a vergonha de sentir uma lágrima correr solta e não temos que dar conta dela a ninguém.Que ninguém esta prestando atenção a você. Quando o sentimento te pega de jeito e te mostra que por mais controlado que você seja ( Hold your horses – Segure seus cavalos ) e segure suas sensações,sentimentos,pensamentos,palavras e ações, ele prevalece quando a cor certa aparece e toma conta da tela em branco.

 


“NÃO CHORES POR MIM ARGENTINA” nós também temos um “SUPREMO”

Ex-ditador argentino Jorge Videla é condenado à prisão perpétua

Um dia antes do veredicto, ex-ditador havia assumido culpa por seus atos.
Ex-general foi julgado com colegas pela execução de 31 presos políticos.

Da France Presse

O ex-ditador argentino Jorge Videla (1976-81) foi condenado nesta quarta-feira (22) à prisão perpétua, considerado culpado pelo homicídio de opositores e outros crimes contra a humanidade, em um julgamento contra 30 líderes do regime civil-militar.

O ex-general, de 85 anos, já havia sido condenado à prisão perpétua em 1985 durante um processo histórico da junta militar por crimes cometidos durante a ditadura (1976-1983), que fez 30.000 desaparecidos, segundo as organizações de defesa dos direitos do homem.

O ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla, durante julgamento pela morte de 31 prisioneiros políticos em Córdoba, na Argentina, nesta terça (21) Argentina
O ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla, durante julgamento pela morte de 31 prisioneiros políticos em Córdoba, na Argentina, na terça (21) Argentina (Foto: Diego Lima / AFP)

Mas a pena foi anulada em 1990 por decreto do ex-presidente Carlos Menem, que, por sua vez foi declarada inconstitucional em 2007 – decisão esta confirmada pela Corte Suprema em abril. O tribunal também suprimiu, em 2005, a lei de anistia para os crimes da ditadura.

A partir daí, vários processos foram abertos contra Jorge Videla, católico fervoroso que fazia-se de moderado, até liderar o golpe de 24 de março de 1976 e de dirigir o país até 1981. Estes anos foram os mais duros do regime militar.

Em Córdoba (centro), o ex-general estava sendo julgado desde o início de julho junto com outros 29 repressores pela execução de 31 presos políticos.

Entre os julgados está o ex-general Luciano Menendez, já condenado à prisão perpétua por três vezes, em processos por violação aos direitos do homem.

Segundo o magistrado Maximiliano Hairabedian, há provas suficientes reunidas “para afirmar que (Jorge Videla) era o mais alto responsável pela elaboração de um plano de eliminação dos oponentes, aplicado pela ditadura militar”.

Roubo de bebês
Processado por roubos de bebês de presos políticos, um crime não acobertado pelo perdão de 1990, Videla foi colocado em prisão domiciliar de 1998 a 2008, até ser transferido para uma unidade prisional em detenção preventiva, enquanto aguardava os múltimos julgamentos.

A partir de 2001, foi também processado por sua participação no Plano Condor, coordenado pelas ditaduras de Argentina, Chile, Paraguai, Brasil, Bolívia e Uruguai para eliminar opositores.

“Assumo plenamente minhas responsabilidades. Meus subordinados limitaram-se a cumprir ordens”, destacou Videla no tribunal de Córdoba, um dia antes da divulgação do veredicto.

No depoimento final de 49 minutos que leu pausadamente, o ex-ditador, de 85 anos, disse que assumirá “sob protesto a injusta condenação que possam me dar”.

“Reclamo a honra da vitória e lamento as sequelas. Valorizo os que, com dor autêntica, choram seus seres queridos, lamento que os direitos humanos sejam utilizados com fins políticos”, disse Videla.

Depois apontou para o governo da presidente Cristina Kirchner, assinalando que as organizações armadas dissolvidas “não mais precisam da violência para chegar ao poder, porque já estão no poder e, daí, tentam a instauração de um regime marxista à maneira de (Antonio) Gramsci” (téorico marxista italiano).

Videla, como comandante da ditadura (1976-81), e Luciano Menéndez, 83 anos, como ex-chefe militar com jurisdição em 11 províncias, são os dois militares de mais alta patente acusados pelo assassinato de 31 presos políticos numa prisão de Córdoba.

Até o momento, 131 repressores foram sentenciados por crimes de lesa-Humanidade durante a ditadura argentina (1976/83).

 

PROF. SERGIO NOGUEIRA: “Temas Polêmicos”

1. O alcoólatra e o alcoólico

A palavra álcool é de origem árabe e “latra” vem do grego. A raiz grega “latria” significa “adoração” (idolatria = adoração de ídolos; egolatria = adoração de si mesmo, do próprio “eu”). Assim sendo, alcoólatra é “quem adora álcool”, é o “viciado em bebidas alcoólicas”.
A Associação dos Alcoólicos Anônimos (AAA) deveria ser chamada de “Associação dos Alcoólatras Anônimos”. A troca de alcoólatra por alcoólico se deve, provavelmente, à carga negativa que a palavra alcoólatra apresenta: é como se fosse sinônimo de “doente irrecuperável, viciado sem salvação”. O uso de alcoólico por alcoólatra é praticamente um eufemismo, ou seja, uma forma mais suave de dizer a mesma coisa.
De eufemismos a nossa linguagem está cheia: “faltar com a verdade ou dizer inverdades” por mentir; “enriquecer por meios ilícitos” por roubar; “descansar, entregar a alma ao Criador e bater as botas” por morrer; “tumor maligno” por câncer; “portador do vírus da Aids” por aidético…
É interessante observar que o uso de eufemismos se dá por vários motivos: ironia, medo de ser grosseiro, atenuar o fato, ridicularizar o caso… O aspecto psicológico está sempre presente.
Alcoólico, na sua origem, é um adjetivo e significa “relativo ao álcool ou o que contém álcool”. Daí as bebidas alcoólicas, ou seja, bebidas que contêm álcool. Entretanto é importante observar que os dicionários Aurélio e Houaiss consideram alcoólico como sinônimo de alcoólatra também.
Portanto, no caso dos “Alcoólicos Anônimos”, a opção por alcoólico não está errada. É uma questão eufêmica, ou seja, a preferência por uma palavra de carga mais leve, mais suave.
Outra curiosidade é a palavra alcoolista, também registrada em nossos dicionários como uma forma menos usada. Seria uma alternativa para alcoólico, pois me parece que alcoolista não tem a carga negativa de alcoólatra.
Por fim, a ortografia. Em álcool, o acento agudo se deve ao fato de a palavra ser proparoxítona. Alcoólico e alcoólatra também são palavras proparoxítonas. O detalhe é o acento agudo no segundo “ó”.
Certa vez, ao entrar numa pequena cidade do interior de São Paulo, encontrei uma placa: “Aqui tem Alcóolicos Anônimos”. O acento agudo no primeiro “ó” indica a possibilidade de que o autor da placa estivesse de porre.

2. Elipse ou eclipse

O eclipse é aquele fenômeno em que há o ocultamento do Sol ou da Lua. Nós sabemos que eles estão lá, mas não os vemos.
A elipse é uma figura de estilo semelhante. Ocorre quando um termo fica oculto, mas nós sabemos qual é. A elipse mais conhecida é a do sujeito. É o famoso sujeito oculto. Não é necessário dizermos que “nós solicitamos aos senhores que…” Basta “solicitamos”. Pela desinência do verbo (-mos), já sabemos que o sujeito da oração só pode ser “nós”.
Outra elipse interessante é aquela em que usamos uma pausa (=vírgula) para marcar a supressão do verbo, para evitar a repetição: “Ele não nos entende nem nós, a ele”. Nesse caso, também chamada de zeugma, a vírgula substitui a forma verbal: “nem nós entendemos a ele”.
A elipse também ocorre em várias expressões do dia a dia, como: “querem cassar o senador”; “ele só nadou a prova dos 100 metros livre”.
No primeiro caso, subentende-se “cassar o mandato do senador”; e no último, “100 metros nado (ou estilo) livre”.
É importante observar que a boa elipse é aquela que não prejudica a clareza da frase.
Leitor reclama e quer saber a minha opinião a respeito do que ele julga ser um péssimo hábito: o de agradecer dizendo “obrigado eu”.
É como eu costumo afirmar: não devemos reduzir tudo à simplista discussão de certo ou errado.
Num agradecimento, o uso da palavra “obrigado” já caracteriza uma abreviação, pois se origina da frase “estou obrigado a retribuir-lhe o favor”. Em razão disso, a mulher deve dizer “obrigada”.
Assim sendo, a expressão “obrigado eu” não está errada. É apenas uma forma popular, abreviada e até certo ponto carinhosa, de dizer que “quem está obrigado a agradecer sou eu”.

3. Ele corre risco de vida ou de morte?

Temos agora uma seleção de casos incoerentes ou absurdos. São situações semelhantes ao do famoso “correr atrás do prejuízo”. Só louco corre atrás do prejuízo. Do prejuízo eu fujo. Eu corro “atrás do lucro”.
Outro caso curioso é o “correr risco de vida”. Rigorosamente, nós corremos “risco de morte”. Nós não corremos “o risco de viver”, e sim “o risco de morrer”. Nós sempre corremos o risco de alguma coisa ruim. Ninguém “corre o risco de ser promovido”, mas corre o risco de ser demitido. Ninguém “corre o risco de ganhar na loteria”, mas corre o risco de perder todo o dinheiro no jogo, de ser roubado, de ir à falência…
Não é uma questão de certo ou errado. É apenas curioso. Trata-se de mais uma elipse. Eu sei que está subentendido: “correr o risco de perder a vida”. Portanto, as duas formas são corretas.
Parecidíssimo com o caso anterior é a tal da “crise do desemprego”. Ora, na verdade, quem está em crise é o EMPREGO. Infelizmente, o desemprego vai bem. Creio que hoje nós vivemos uma “crise de emprego”.
Também merece destaque a tal mania de “tirar a pressão”. Se eu “tirar a pressão”, morro. É melhor medir ou verificar a pressão.
O assunto é muito interessante e ainda haveria muitos outros casos para analisar. Vou deixar mais alguns para você “quebrar sua cabeça”:
“Dividiu o bolo em três metades”;
“O anexo segue em separado”;
“Eram dois homossexuais e uma lésbica”;
“Estou preso do lado de fora”;
“Por favor, me inclua fora disso”…

 

“ESSE É O CARA”: Dom Manuel Edmilson da Cruz RECUSA homenagem do SENADO brasileiro (sic) / brasilia

Bispo recusa homenagem do Senado em protesto contra aumento

Dom Manuel Edmilson da Cruz receberia comenda de Direitos Humanos.
“Quem assim procedeu não é parlamentar, é para lamentar”, disse.


Dom Manuel da Cruz durante sessão especial no Senado Federal nesta terça-feira (21)
Dom Manuel da Cruz durante sessão especial
no Senado Federal nesta terça-feira (21)
(Foto: J. Freitas / Agência Senado)

O bispo de Limoeiro do Norte (CE), Dom Manuel Edmilson da Cruz, recusou nesta terça-feira (21) receber uma comenda do Senado Federal. Ele afirmou que sua atitude era para protestar contra o aumento salarial de 61,8% aprovado pelos parlamentares em causa própria. A homenagem recusada por ele é a Comenda dos Direitos Humanos Dom Helder Câmara.

A recusa do bispo foi feita em um discurso no plenário do próprio Senado. Ele criticou os parlamentares por aprovar o aumento deste montante para o próprio salário. “Quem assim procedeu não é parlamentar, é para lamentar”, disse.

O religioso afirmou que a comenda que lhe foi oferecida não honra a história de Dom Helder Câmara, que teve atuação destacada na luta pelos direitos humanos durante o regime militar.

“A comenda hoje outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi Dom Helder Câmara. Não representa. Desfigura-a, porém. Sem ressentimentos e agindo por amor e por respeito a todos os senhores e senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la. Ela é um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão, à cidadã contribuinte para o bem de todos, com o suor de seu rosto e a dignidade de seu trabalho”, afirmou o bispo.

Ele destacou que o aumento dado aos parlamentares deveria ter como base o reajuste que será concedido ao salário mínimo, de cerca de 6%. “O aumento a ser ajustado deveria guardar sempre a mesma proporção que o aumento do salário mínimo e da aposentadoria. Isso não acontece. O que acontece, repito, é um atentado contra os direitos humanos do nosso povo”.

O senador José Nery (PSOL-PA) disse compreender a atitude do bispo. “Entendemos o gesto, o grito, a exigência de Dom Edmilson da Cruz”. Nery, que foi um dos três senadores a se manifestar na votação de forma contrária ao aumento, deu prosseguimento a sessão após a atitude do religioso.

G1

DA TELA PARA A PLATEIA – por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Nunca vi um personagem das telas sair da projeção e invadir a vida, como o garoto Totó (Salvatore Cascio), em Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore.

Outro ser vindo do celuloide para a vida foi Mia Farrow, em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen. Mas, de tanto ir ao cinema, assisti, no Ritz , em 1954, talvez, ao primeiro filme em Cinemascope – tela alongada, um espanto para a época. Em cartaz, The Robe, ou O Manto Sagrado, com Richard Burton, Jean Simmons e Victor Mature.

Fosse um épico, um bíblico ou uma chanchada, lá estava o eterno “Totó” – eu mesmo – assistindo a dois Sansão e Dalila, o drama e a comédia. O hollywoodiano, com o mesmo Victor Mature e Hedy Lamarr, e o seu pastiche tupiniquim, com Oscarito no papel do forçudo herói.

Pelos nomes dos cinemas que frequentou, cada espectador ilhéu pode contar a sua própria história de vida. Não peguei o Odeon, que até o final dos anos 1940 aproveitava a plateia do Teatro Álvaro de Carvalho para albergar uma tela da sétima arte.

Em compensação, acompanhei todos os épicos do Ritz, em meados dos anos 1950: O Manto Sagrado, Os Dez Mandamentos, Sansão e Dalila, O Rei dos Reis, Spartacus, Demétrio e o Gladiador, Ben-Hur.

E houve o Cine São José – joia do tempo em que os cinemas se chamavam “Palace” e justificavam o nome, sem imaginar que um dia acabariam servindo de sacristia para bispos e bispas da Igreja Renascer. Do cinema da Rua Padre Miguelinho, inaugurado em 1956, muito me marcaram comédias como Gigi (Audrey Hepburn e Louis Jourdan) e Quanto Mais Quente Melhor – talvez a melhor comédia do mundo, dirigida por Billy Wilder, com geniais atuações dos astros Marilyn Monroe, Jack Lemmon, Tony Curtis – e do coadjuvante Joe E. Brown, o milionário que diz a Lemmon estar “apaixonado”, mesmo ao ser informado de que “ela”, na verdade, é “ele”:

– Ninguém é perfeito! – conforma-se Brown, espalhando pela tela o seu bocão, depois de dançar com Lemmon para uma orquestra de olhos vendados.

Do Cine Imperial, que me fascinava pela iluminação indireta, vinda de nichos avermelhados, lembro-me de uma mistura de “soap-ópera” e musical – chatinho, para um garoto afeito aos bangue-bangues: Hey Lilli, com a “órfã” Leslie Caron, contracenando com Mel Ferrer, Jean-Pierre Aumont e Zsa-Zsa Gabor.

Mas ali na Rua João Pinto tive a ventura de assistir a clássicos importantes, como O Salário do Medo, de Henri-Georges Clouzot, com Yves Montand no papel do motorista cujo caminhão transporta nitroglicerina pelas escarpas dos Andes.

O Cine Imperial funcionou com este nome até 28 de fevereiro de 1958 – está fazendo 50 anos! Reabriu somente em 12 de abril de 1969, como informa o “sabe-tudo” de cinemas, seriados e cartazes, o catedrático Osni Machado. O Cine Coral, então inaugurado, durou até 2 de janeiro de 1986. Seis meses depois, o velho “Imperial” reabriria mais uma vez, teimoso, com o nome de Cine Carlitos. Até morrer, definitivamente, em 9 de setembro de 1992, já atropelado pelos cinemas dos shoppings, o Itaguaçu e o prestes a ser inaugurado, Beiramar.

Nada como as salas climatizadas, o som Dolby Stereo, as imagens digitalizadas. Mas o glamour das velhas salas remete à infância dos cinquentões e sessentões. E a profissões extintas, como a de “lanterninha”.

O acendedor de lanternas no escurinho do cinema ganhava gorjetas e gozava da regalia de trabalhar no ar-condicionado, durante os meses quentes do verão.

E ainda assistia a um interessante espetáculo paralelo: o “filme” fora das telas. Os namorados se beijando com ardor, enquanto o filme servia apenas de “inspiração”.

Os tempos são outros, os filmes são outros – até o namoro ficou diferente. Já não há personagens da “tela” se mudando para a plateia, trazendo “personagens” – ou beijos.

 

NOVEMBRANDO CURITADOR – de “nero” / curitiba

Viver em Curitiba é comer caviar e passar mal.
Viver em Curitiba é atravessar a espada de bronze no peito aberto.
Viver em Curitiba é incerto.
É levar. É receber. Não ter voz ativa.

Curitiba é sombria.
Fechada. Canalha. Pequenina.
Viver em Curitiba é ter lombriga.
Tênia solitária atada ao “eixo” Rio-São Paulo.

Viver em Curitiba é não ter palco.
É ser palhaço. Molango. Muleta. Malaco.
Viver em Curitiba é perder o tom por não ter como
empinar a pipa
sem cerol,
é como dar o cú:
Dói. Ninguém valoriza. Todo o mundo ridiculariza.
Sai pela culatra em ré bemol.

Curitiba
é uma prostituta de pernas abertas
a procura de sol.

WORKSONG II – de jorge barbosa filho / curitiba

 

 

bala perdida que acaba com a vida

vazia da classe média de todos santos

quantos? nunca lutaram por nada

e se dizem no direito da praça

vestindo-se num luto branco, prantos.

choram seus anjos e defuntos

infundos, e não sabem que a dita

é muito maldita, por puro engano.

 

posam bonitos nas fotografias,

dizem-se comunistas e socialistas

mas capitalistas, por enquanto!

suas olheiras são púrpuros encantos

e como ratos vão entrando pelos canos.

entupindo as veias fatais da vida,

na Tv com diversas entrevistas

clamando paz e porradas por todos os cantos.

 

você não gosta que eu chore,

mas quer que eu melhore, por tanto.

trabalho-me, malho-me, ralo-me e valho-me

da força que coloquei neste amor,

nem de longe sabes o quanto.

ainda pedes-me que implore

para escaparmos deste bando, banzo.

porém, esculhambo tudo tocando

meu banjo cotidiano, tanjo?

 

me arranja mulheres que nunca vi

e colheres para cheirar o meu ranço.

vinhos, vaginas e vícios, até quando?

incrimina-me de coisas que nunca fiz!

mesmo assim sou feliz e sambo, no tranco.

não te sei, mesmo assim, deveras!

só me levas porque sempre te amo.

te adianto: se insistires nestas teclas

com certeza, abandonarei o piano.

 

inferno os céus com poesias.

e as estrelas, são puros acalantos

viro-me  e brilho-me de preto e banto,

num eterno balanço no branco

que planto, e índio, desde o avesso.

digam-me sinceramente que sou negro.!

olhos verdes, azuis, vesgos e degradês.

posso te dizer que não te agradei,

 

pois é a ultima vez que te canto!

 

MÁRIO QUINTANA e o OLHAR / porto alegre

A RENDIÇÃO DE BREDA (1625) – por jorge lescano / são paulo

A RENDIÇÃO DE BREDA (Breda, 1625)

A RENDIÇÃO DE BREDA (Madrid, 1635)                          A RENDIÇÃO DE BREDA (São Paulo, 1995)

 

 

 

 

 

Para Abelardo Rodrigues


Antes, a pintura tinha outras funções,

podia ser religiosa, filosófica, moral.

Desde Coubert,

acredita-se que a pintura é endereçada à retina.

É absolutamente ridículo.

Isso tem que mudar; não foi sempre assim

Marcel Duchamp.

A  batalha acabou. Os comandantes se encontram no campo; as tropas que os rodeiam não têm ar belicoso, talvez cansado. O chefe holandês, conde Justino de Nassau, inclina-se diante do marquês Ambrogio Spinola e lhe entrega a chave da cidade. O espanhol pousa sobre o ombro esquerdo daquele sua mão direita, parece sorrir para si. Representação plástica, talvez, dos termos tolerantes da capitulação. Há algo de reconciliação na atitude de ambos; de fato, deixaram de ser rivais: um é o vencedor, o outro o vencido.

Breda foi tomada depois de dez meses de assêdio. O incêndio sobre o qual se recortam as cabeças das tropas holandesas ocorre, presumivelmente, na cidade ocupada, porém, este já não é um problema de Nassau: a administração, agora, será de Spinola. Isto os identifica, daí o gesto conciliatório e o sorriso esboçado. Intui o espanhol que a vitória não é definitiva e por isso se mostra cauteloso? O gesto de Nassau é duplamente simbólico. Entrega momentaneamente a chave (o poder) de uma cidade, contudo, destruída no nível institucional, arquitetônico, urbanístico, populacional. Toda a significação de Breda está em sua mão direita. Na mão esquerda de Spinola o bastão de mando e o chapéu, pois ambos descobriram a cabeça em sinal de respeito pelo outro.

A cidade era um baluarte de importância na luta contra a opressão espanhola. Esta a única razão da presença de Nassau no quadro, e a cena toda, do ponto de vista pictórico, existe apenas para conter o pequeno hexágono irregular e luminoso no qual se inscreve seu gesto. Gesto que se projeta dentro do campo espanhol na diagonal da grande bandeira axadrezada.

A quem olham os quatro soldados (dois espanhóis, dois holandeses)? O chapéu do holandês do segundo plano, na extrema esquerda do quadro, em trajes verde-oliva e ainda portando seu mosquetão no ombro, não oculta, antes desvenda o olhar (sublinhado pela mancha branca da gola da figura de ocre, de costas para o espectador) de outro soldado. Seu único olho visível parece nos interrogar, contrastando com o olhar surpreso e tenso do primeiro. Na região intermediária, entre o centro e a margem direita, desenha-se uma concha formada pelo contorno posterior do crânio, a gola e o ombro de Spinola, contorno este que se prolonga no brilho da manga de uma figura de costas (a cabeça em escorço), a garupa, a sela e a cabeça do majestoso cavalo do primeiro plano, voltada para o interior da cena e espelhada — visão frontal — pela cabeça do cavalo do lado holandês. Da concha surge o olhar do primeiro soldado espanhol. O segundo (o próprio Velázquez?)  nos observa de três quartos de perfil na margem direita. Estes dois personagens — a nitidez das feições e a “hierarquia” luminosa, permite-nos supor sejam retratos de personalidades contemporâneas do artista — encaram confiantes o espectador.

Todos os olhares, ao convergirem no observador, formam um triângulo projetado para fora do quadro, incluindo aquele na composição. Assim, somos testemunhas, se não cúmplices, do fato histórico. Do lado espanhol há ainda o olhar de um homem de traços rijos (diferentes das curvas que modelam os outros dois) dirigido frontalmente ao espectador. A cor “baixa” deste rosto — mais próxima da cor siena — acentua sua expressão séria. Ele está entre o primeiro espanhol e a cabeça em escorço. Contemplamos este olhar e nos parece enigmático. Ficamos indecisos sobre seu objeto.  Se num primeiro momento julgamos estar dirigido a nós, ao nos aproximarmos — nosso olhar no olhar dele — temos a impressão de que está concentrado na cabeça em escorço. Este olhar se encontra na mesma altura — aproximadamente a dois terços da altura do quadro, a contar de sua base — do olho do holandês semi-oculto pelo chapéu do soldado verde-oliva, um pouco abaixo da linha que limita um acidente do terreno. Esta linha é acentuada pela arma de um espanhol que no terceiro plano — a partir de Spinola — a mantém no ombro, como um reflexo do holandês da extrema esquerda. As costas da figura localizada atrás daquele espanhol, reproduzem a cor verde-oliva das vestes do holandês, porém mais escura, para sugerir profundidade. Percebida esta equivalência cromática, não podemos deixar de acompanhar a linha — criada por nosso olhar — que liga as duas figuras numa nova perspectiva, linha que passa por cima das cabeças dos comandantes, unindo, identificando, se quisermos, as tropas dos exércitos inimigos.

Os comandantes, embora partilhem o mesmo plano do quadro, pertencem a categorias diferentes. Sabe-se que Velázquez  chegou a conhecer pessoalmente Ambrogio Spinola — viajou com ele para a Itália –, mas que nunca vira Justino de Nassau. Talvez isto explique a penumbra que envolve suas feições. É de presumir que, para retratá-lo, usasse como referências gravuras e descrições verbais; então, enquanto a figura de Spinola é uma representação baseada na experiência direta, a de Nassau é uma reconstituição documental. Sua ação no quadro confirma tal gênese. Ambos estão “momentaneamente” congelados pela vontade do pintor, quem lhes deu forma e significado, e através daquela vontade permanecem imóveis na retina do espectador. Este, por sua vez, e dependendo das informações que tiver (históricas, plásticas), poderá atribuir aos protagonistas uma hierarquia, solidária com a opção e a importância que der a estas informações.



Nos anos seguintes, a administração catastrófica do Conde Duque de Olivares conduziu a Espanha à decadência.  Essa administração, porém, caracterizou-se pela suntuosidade, evidenciada na construção do Palácio do Bom Retiro e no aumento do patrimônio artístico.

A construção do palácio afasta completamente o rei Filipe IV dos negócios estatais e o monarca passa a dedicar-se à organização de uma galeria iconográfica que deverá mostrar as batalhas ganhas nos primeiros anos de seu reinado. Seu orgulho de rei da Áustria, expoente do catolicismo e neto de Filipe II, encontra nessa obra plena realização.

Além de Velázquez, outros pintores compunham o grupo encarregado da realização da obra monumental: Vicente Craducho, Eugenio Caxés, Juan de la Corte, Juseppe Leonardo, Mayno e Francisco Zurbarán. A cada um deles é atribuído um tema histórico especial. A Velázquez coube representar A Rendição de Breda, cidade holandesa que capitulou frente aos espanhóis em 1625.

Para a realização do quadro, denominado As Lanças, Velázquez inspirou-se na comédia histórica de Calderón de la Barca, escrita dez anos antes. Com poucas figuras e um par de cavalos, Velázquez criou a ilusão de dois grandes exércitos, à direita o espanhol, com suas compridas lanças, à esquerda o holandês. […] O fundo é uma ampla extensão de planície, limitada pelo mar. A luz do sol que ilumina a cena está concentrada sobre os dois generais. Um brilho intenso cai sobre o rosto triunfante mas bondoso de Spinola, enquanto os traços melancólicos de Nassau estão quase imersos na sombra — lampejo de gênio artístico e também de generosidade humana. Na perspectiva,  ressalta a fileira de lanças altas e finas, como uma floresta de galhos secos. A composição vigorosa e o complexo cromatismo atestam a superação de conceitos estéticos que Velázquez, sempre em renovação, logo levará a conquistas pioneiras.

(Mestres da Pintura, Velázquez; S.P., Abril, 1977; pp. 13/14)


Velázquez não teve escolha, os dois personagens já haviam morrido quando iniciou a obra. Deste modo, a representação de ambos seguiu um processo semelhante: Velázquez deve ter recorrido a imagens, se as havia, e às suas lembranças, para reconstituir as feições do militar espanhol. Neste ponto, o valor histórico dos retratos é equivalente: frutos da memória. Podemos pensar que as referências sobre Nassau deverão ter sido mais numerosas que aquelas sobre Spinola, pois para este o pintor terá confiado em sua memória visual. O retrato de Nassau, portanto, poderia ser um documento mais confiável (porque produto da pluralidade) que o de Spinola.Talvez o artista soubesse que sua batalha  individual para documentar estava fadada à retratação.  O triunfo tardio do espanhol — na tela  — se corresponde com o de Velázquez: o tema do seu quadro será contestado pela história político-militar: dois anos após a conclusão da obra (1635) os holandeses reconquistaram Breda definitivamente.

Os protagonistas do quadro ocupam, na superfície pictórica, o mesmo espaço. Se a morte no se interpusesse — impedindo inclusive que eles vissem a obra — poderíamos imaginá-los trocando de lugar, desnorteando o artista e o espectador. Não seria impossível então que a mão de Velázquez se detivesse. Indecisa, interromperia o vôo da paleta à tela, e com tal gesto suspenderia indefinidamente o desfecho da batalha e nosso olhar num ponto neutro do tempo-espaço: a-histórico.

O arranjo da cena (a composição do quadro) raramente corresponde à realidade factual. Este caso não será diferente: Velázquez pintou o quadro dez anos após o acontecimento que, aliás, não presenciou. O que vemos, então, é a “reconstituição sensível” de u fato, não um documento. Vale lembrar, contudo, que em livros de divulgação artística afirma-se — sem dar nomes — que “o quadro é considerado por muitos peritos como o maior quadro histórico do mundo”.

No ângulo inferior direito, onde esperaríamos encontrar a assinatura do artista (provavelmente esta convenção é posterior à obra), vemos a representação de uma folha de papel ligeiramente amarelada, retângulo luminoso porém, em contraste com as cores próximas. O condicionamento do olhar quer ver algo escrito (os termos tolerantes da capitulação?). As dimensões reduzidas de nossa reprodução não nos permitem conferir se o pintor escreveu de fato (uma carta?), ou se apenas se limitou a sugerir a escrita. Preferimos a segunda hipótese. Ela nos permite aventurar a seguinte afirmação: Velázquez nega à sua obra valor documental e o faz dentro da própria obra.

O lugar que ocupa a folha de papel estaria reservado à sua assinatura e à data de realização do quadro — documento, prova de autenticidade do mesmo. A folha em branco no lugar destes dados indica anonimato. Outra interpretação da mesma hipótese poderia ser: a folha encobre “acidentalmente” a identidade do autor. Será este um depoimento por omissão?

A obra, já “anônima”, poderá incluir detalhes que não pertençam à realidade documentada, detalhes estes de diferentes categorias e com diversas funções: históricas (lembremos que Velázquez nunca viu Nassau pessoalmente nem presenciou a cena que retrata) ou estéticas. Esta segunda função parece evidente em relação à folha branca. A luz do manuscrito representado cria uma diagonal com as lanças do lado esquerdo do quadro, onde uma bandeirola atrai o olho para o conjunto. A diagonal corta aquela outra, formada pelo motivo das armas nos ombros dos dois soldados.

O ponto de cruzamento deste X — atrás da cabeça de Nassau — indicaria um “ponto morto”, neutro  ou, se quisermos, o grau zero da percepção do quadro, o marco a partir do qual o espectador percorrerá a superfície pintada criando os “espaços” sugeridos pelas linhas e as cores. É, também, o fim da interpretação histórica (este X seria outro modo pelo qual Velázquez desautoriza a interpretação documental).  Simultaneamente, aí principia a obra pictórica, para a qual o tema é um pretexto. Será a partir deste “ponto cego” indicado pelo X, que o olhar , agora liberado, descompromissado com o documento, iniciará seu caminho de reconhecimento da tela como suporte da obra ficcional.

A rendição de Breda, a histórica, a real, talvez pudesse ser esquecida ou ignorada. Não o permite esta outra, concreta em sua realidade de tela, tinta, linhas e cores, significando gestos humanos e acidentes geográficos e nuvens e um ar enrarecido no qual ainda sentimos o fragor da batalha que já teve seu desfecho. Ainda que a rendição de Breda não tivesse acontecido, o quadro impõe sua realidade e se objetiviza como fato histórico. A representação é sua essência, seu “ser”.

Se a entidade Velázquez não tivesse a consistência de vida atestada por documentos, a simples atribuição desta obra a tal entidade bastaria para torná-la real, pois a obra cria seu autor.

A possibilidade de que o quadro “original” pudesse não existir, não é óbice para a concretude e significação desta “reprodução”. Aliás, a inexistência daquela, transformaria esta (apesar do número de cópias) em original. A não existência de um quadro pintado a óleo por um artista espanhol do século XVII de nome Diego Velázquez, que ocupa uma determinada superfície (3×3,60 m.) numa parede do Museu do Prado, em Madri, não desautorizaria a “cópia”. E esta bastaria para significar Diego Rodríguez de Silva y Velázquez — figura e caráter — porque a ele atribuída.

Ao mesmo tempo — no mesmo nível — a existência deste texto poderá fazer desnecessária a obra de Velázquez, o fato histórico que veiculam e os próprios autores (do quadro, do texto), tornando-nos cúmplices de uma aventura próxima do encantamento. Apenas isto (?) justifica ou separa (ou integra?) a arte da mera realidade, ou o que assim denominamos por convenção de linguagem. A obra se situa no limite entre ficção e realidade. É real enquanto suporte de uma imagem. Também a imagem é real: linhas, cores, texturas ou palavras, criando visualmente ou através do discurso, espaço, volumes, atmosfera, tempo. Mas ela será apenas referência, documento, se admitirmos como original um fato extra-artístico, algo que já não está ali, ou que, permanecendo, não é a própria obra.

Apesar do exposto, A Rendição de Breda poderá ser um documento: da necessidade e capacidade do homem imaginar a história e o seu significado.

E AGORA, BRASIL? – por fábio konder comparato / são paulo

A Corte Interamericana de Direitos Humanos acaba de decidir que o Brasil descumpriu duas vezes a Convenção Americana de Direitos Humanos. Em primeiro lugar, por não haver processado e julgado os autores dos crimes de homicídio e ocultação de cadáver de mais 60 pessoas, na chamada Guerrilha do Araguaia. Em segundo lugar, pelo fato de o nosso Supremo Tribunal Federal haver interpretado a lei de anistia de 1979 como tendo apagado os crimes de homicídio, tortura e estupro de oponentes políticos, a maior parte deles quando já presos pelas autoridades policiais e militares.

O Estado brasileiro foi, em conseqüência, condenado a indenizar os familiares dos mortos e desaparecidos.

Além dessa condenação jurídica explícita, porém, o acórdão da Corte Interamericana de Direitos Humanos contém uma condenação moral implícita.

Com efeito, responsáveis morais por essa condenação judicial, ignominiosa para o país, foram os grupos oligárquicos que dominam a vida nacional, notadamente os empresários que apoiaram o golpe de Estado de 1964 e financiaram a articulação do sistema repressivo durante duas décadas. Foram também eles que, controlando os grandes veículos de imprensa, rádio e televisão do país, manifestaram-se a favor da anistia aos assassinos, torturadores e estupradores do regime militar. O próprio autor destas linhas, quando ousou criticar um editorial da Folha de S.Paulo, por haver afirmado que a nossa ditadura fora uma “ditabranda”, foi impunemente qualificado de “cínico e mentiroso” pelo diretor de redação do jornal.

Mas a condenação moral do veredicto pronunciado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos atingiu também, e lamentavelmente, o atual governo federal, a começar pelo seu chefe, o presidente da República.

Explico-me. A Lei Complementar nº 73, de 1993, que regulamenta a Advocacia-Geral da União, determina, em seu art. 3º, § 1º, que o Advogado-Geral da União é “submetido à direta, pessoal e imediata supervisão” do presidente da República. Pois bem, o presidente Lula deu instruções diretas, pessoais e imediatas ao então Advogado-Geral da União, hoje Ministro do Supremo Tribunal Federal, para se pronunciar contra a demanda ajuizada pela OAB junto ao Supremo Tribunal Federal (argüição de descumprimento de preceito fundamental nº 153), no sentido de interpretar a lei de anistia de 1979,
como não abrangente dos crimes comuns cometidos pelos agentes públicos, policiais e militares, contra os oponentes políticos ao regime militar.

Mas a condenação moral vai ainda mais além. Ela atinge, em cheio, o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria-Geral da República, que se pronunciaram claramente contra o sistema internacional de direitos humanos, ao qual o Brasil deve submeter-se.

E agora, Brasil?

Bem, antes de mais nada, é preciso dizer que se o nosso país não acatar a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, ele ficará como um Estado fora-da-lei no plano internacional.

E como acatar essa decisão condenatória?

Não basta pagar as indenizações determinadas pelo acórdão. É indispensável dar cumprimento ao art. 37, § 6º da Constituição Federal, que obriga o Estado, quando condenado a indenizar alguém por culpa de agente público, a promover de imediato uma ação regressiva contra o causador do dano. E isto, pela boa e simples razão de que toda indenização paga pelo Estado provém de recursos públicos, vale dizer, é feita com dinheiro do povo.

É preciso, também, tal como fizeram todos os países do Cone Sul da América Latina, resolver o problema da anistia mal concedida. Nesse particular, o futuro governo federal poderia utilizar-se do projeto de lei apresentado pela Deputada Luciana Genro à Câmara dos Deputados, dando à Lei nº 6.683 a interpretação que o Supremo Tribunal Federal recusou-se a dar: ou seja, excluindo da anistia os assassinos e  torturadores de presos políticos. Tradicionalmente, a interpretação autêntica de uma lei é dada pelo próprio Poder Legislativo.

Mas, sobretudo, o que falta e sempre faltou neste país, é abrir de par em par, às novas gerações, as portas do nosso porão histórico, onde escondemos todos os horrores cometidos impunemente pelas nossas classes dirigentes; a começar pela escravidão, durante mais de três séculos, de milhões de africanos e afrodescendentes.

Viva o Povo Brasileiro!

.

Fábio Konder Comparato

(Santos, 8 de outubro de 1936) é um advogado, escritor e jurista brasileiro, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

É professor titular aposentado (em 2006) da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, doutor em Direito pela Universidade de Paris e doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra. Em 2009, recebeu o título de Professor Emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

PASSOS na CHUVA – de tonicato miranda /curitiba


 

para a mulher amada

 

nada sei da poesia se não estou triste

qual pássaro sem pressa de voar

que a qualquer um é permitido apanhar

vou deslizando pernas sobre pernadas

entrelaçando saudades e passadas

as penas recolhidas, totalmente amassadas

espero o acaso do susto, o fim, um nada

as ruas seguem tristes de gente e casais

somente nos desvãos ouve-se um ui, dois ais

são as sobras da sociedade, enroladas

em cobertores e nas garrafas preciosas

onde a cachaça é o gole mais ardente

o suporte para vencer a madrugada

mas nem isto me enternece ou me fenece

sigo em passos mansos, sem descansos

de poça em poça, de pedra em pedra

num logo caminhar lento, sem vento

sem nada a transportar ao minuto futuro

porque estou triste e apaixonado por ela

e dela nada quero a não ser sua vida

para vampirar como lobisomem tosco

a se entregar num copo onde o fundo

é o espelho e o arrependimento tardio

o lago mais fugidio a enrolar o estômago

a fundir a tristeza na gastura, lá no âmago

do corpo conspurcado com o rigor do gim

ele o único companheiro dela em mim

capaz de apaziguar esta minha vontade

de não mais caminhar sob a chuva

não mais tropeçar na miséria de ser triste

porque a bebida sempre corta em riste

e toda a tristeza em mim já virou alpiste

ela apaga meus rastros e todos passos

dados nas praças, em toda calçada

mesmo assim ainda gritarei: onde estás?

quando deixei de vibrar em ti minha amada?

onde estás agora repito, venha: corro perigo

não deixe este gole triste acabar comigo

 

 

NATAL no BE HAPPY (Porto Alegre) CONVIDA:

SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA convida:

Sentença da Corte IDH: Brasil é obrigado a investigar e punir os crimes da ditadura militar

Rio de Janeiro, São Paulo e Washington DC, 14 de dezembro de 2010 – A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), em uma sentença histórica notificada hoje, determinou a responsabilidade internacional do Brasil pelo desaparecimento forçado de, pelo menos, 70 camponeses e militantes da Guerrilha do Araguaia entre os anos de 1972 a 1974, durante a ditadura militar brasileira. Conforme compromisso assumido internacionalmente, é obrigatório e vinculante o pleno cumprimento desta sentença pelo país. 

Esta é a primeira sentença contra o Brasil por crimes cometidos durante a ditadura militar, que permite discutir a herança autoritária do regime ditatorial e contribui para o estabelecimento de uma cultura do “Nunca Mais” no país.
O Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), o Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro (GTNM-RJ) e a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São Paulo (CFMDP-SP) atuam, desde 1995, em representação das vítimas e de seus familiares na denúncia internacional perante o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos.

Ao longo do processo comprovaram cabalmente a responsabilidade internacional do Brasil pelo desaparecimento forçado das vítimas, pela total impunidade em relação a estes crimes e pela ausência de procedimentos eficazes para o estabelecimento da verdade no país. Assim, solicitaram diversas medidas de reparação, que abrangiam desde o conceito de reparação integral às vítimas e seus familiares, até medidas mais amplas, especialmente no que tange ao direito à verdade e à justiça, em relação à sociedade brasileira como um todo. Os fatos, as violações e as reparações mais destacadas que estabelece a sentença são as seguintes:

A Corte Interamericana determinou que as vítimas do presente caso foram desaparecidas por agentes do Estado. A sentença estabelece que o Brasil violou o direito à justiça, no que se refere à obrigação internacional de investigar, processar e sancionar os responsáveis pelos desaparecimentos forçados em virtude da interpretação prevalecente da Lei de Anistia brasileira, a qual permitiu a total impunidade deste crimes por mais de 30 anos.

A Corte determinou que esta interpretação da Lei de Anistia, reafirmada recentemente pelo Supremo Tribunal Federal, contraria o Direito Internacional. Nas palavras da Corte: “As (aquelas) disposições da Lei de Anistia brasileira que impedem a investigação e sanção de graves violações de direitos humanos são incompatíveis com a Convenção Americana, carecem de efeitos jurídicos e não podem seguir representando um obstáculo para a investigação dos fatos do presente caso (Araguaia)”.

Assim, a Corte requereu que o Estado remova todos os obstáculos práticos e jurídicos para a investigação dos crimes, esclarecimento da verdade e responsabilização dos envolvidos. Também, o Tribunal reafirmou o alcance geral de sua decisão exigindo que as disposições da Lei de Anistia, que impedem as investigações penais, não possa representar um obstáculo a respeito de outros casos de graves violações de direitos humanos.

Quanto à ausência de informação oficial a Corte avançou substancialmente os parâmetros exigidos para proteção do direito de acesso à informação, incluindo o princípio da máxima divulgação e a necessidade de justificar qualquer negativa de prestar informação. A Corte também afirmou que é essencial que o Brasil adote as medidas necessárias para adequar sua legislação sobre acesso à informação em conformidade com o estabelecido na Convenção Americana.

Finalmente, no que se refere à negativa do Estado, por mais de três décadas, de garantir o direito à verdade aos
familiares dos desaparecidos, a Corte Interamericana determinou que, em virtude do sofrimento causado aos mesmos, o Estado brasileiro é responsável por sua tortura psicológica e, entre outras coisas, determinou como medidas de reparação: a obrigação de investigar os fatos; a obrigação de realizar um ato publico de reconhecimento de sua responsabilidade; o desenvolvimento de iniciativas de busca e a continuidade na localização dos restos mortais dos desaparecidos; a sistematização e; a publicação de toda a informação sobre a Guerrilha do Araguaia e as violações de direitos humanos ocorridas durante o regime militar no Brasil.

Portanto, a sentença da Corte IDH no caso Gomes Lund e outros (Guerrilha do Araguaia) é paradigmática porque permitirá a reconstrução da memória histórica para as gerações futuras, o conhecimento da verdade e, principalmente, a construção, no âmbito da justiça, de novos parâmetros e práticas democráticas.
Segundo Vitória Grabois, familiar e vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/ RJ: “A falta de informação por mais de 30 anos causou aos familiares dos guerrilheiros do Araguaia angústia, sofrimento e desconfiança nas instituições brasileiras. A sentença da Corte renova nossa esperança na justiça.”

Nas palavras de Beatriz Affonso, diretora do programa do CEJIL para o Brasil: “Esperamos que a administração de Dilma Roussef demonstre que os governos democráticos não podem fechar os olhos aos crimes do passado e que se empenhe em saldar a dívida histórica do país. Já o Poder Judiciário, que é parte do Estado brasileiro, deve cumprir a decisão promovendo a investigação dos crimes cometidos durante a ditadura. Todos os cidadãos brasileiros devem ter certeza de que hoje, na democracia, a lei está ao alcance de todos, inclusive os agentes públicos e privados, civis e militares envolvidos em nome da repressão em crimes contra os cidadãos.”
Segundo Criméia Schmidt de Almeida, familiar e Presidente da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos de São Paulo: ” Essa sentença pode significar um passo importante na verdadeira redemocratização do país, eliminando os entraves ditatoriais que ainda persistem nas práticas dos agentes públicos. Como familiar espero que possa significar um ponto final a tantas incertezas que há quase 40 anos marcam com angústia a nossa vida”

Neste sentido Viviana Krsticevic, diretora executiva do CEJIL disse: “América Latina tem avançado significativamente na resolução dos crimes contra a humanidade cometidos por governos ditatoriais. O Brasil, no entanto, ainda está em dívida com os familiares e a sociedade no estabelecimento da verdade e da justiça relacionadas a este tema. Esta sentença representa uma oportunidade única para que o Brasil demonstre que é capaz de liderar tanto no âmbito internacional como nacional os temas relacionados aos direitos humanos e democracia. Para isto, o Brasil deve deixar sem efei tos os aspectos da lei de anistia que impedem a justiça frente a crimes contra a humanidade.”

A sentença está disponível no website da Corte Interamericana:
http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_219_por.pdf

Para mais informações:
Centro pela Justiça e o Direito Internacional:
Beatriz Affonso +55 21 2533 1660 ou 7843-7285
Viviana Krsticevic +1 202 319 3000 ou celular: 1-202-651-0706
Millie Legrain +1 202 319 3000
Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro: +55 21 2286 8762 ou 21 8103-5657
Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São Paulo: +55 11 3101-5549

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abaixo o deputado federal JAIR BOLSONARO   “O PORCO”

Discussão entre o Movimento Tortura Nunca Mais e o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), por causa do cartaz colado na porta do gabinete dele (foto), que manda o recado: “Desaparecidos do Araguaia – quem procura osso é cachorro”.

O Tortura Nunca Mais ameaça impetrar ação contra o deputado no Supremo.

Bolsonaro, militar conhecido por ser enfatizar suas convicções, disse que o cartaz não será retirado. “É a minha liberdade de expressão”. Foi posto lá para implicar com o ex-ministro José Dirceu, que disse uma vez, lembra Bolsonaro, “vamos atrás dos ossos”.

“É um absurdo, uma afronta, não só um insulto, é a maior falta de decoro”,protesta uma das dirigentes do Tortura, Rose Nogueira.

O deputado fecha no estilo-Bolsonaro: “São uns escrotos esses da esquerda, só veem a causa do justo bolso deles. Graças a Deus os militares não deixaramesse pessoal chegar ao poder”.

O grupo de São Paulo mandou carta para a Comissão de Direitos Humanos daCâmara, pedindo punição. O presidente da comissão, Luiz Couto (PT-PB), disse que “vai analisar” e que “é claro que teremos nossa posição sobre isso”. Pode levar o caso ao presidente Michel Temer.

 

A COMILANÇA, traça a fisiologia da decadência



É o preço da polêmica de uma época. Passados os anos, um filme pode se firmar como obra além das fronteiras do incômodo ou simplesmente desaparecer como referência. A Comilança é um raro título que cabe nos dois casos. Em 1973, ganhou fama pelo gosto duvidoso, pela escatologia e por outros excessos a mexer com os sentidos. Mas isso talvez seja coisa do passado, a não ser que nunca tivessem surgido realizadores como David Cronenberg. Melhor assim.

A distância e com surpresas escatológicas superadas, vem à tona o melhor da obra de Marco Ferreri, o diretor italiano que adorava embrulhar olhos e estômagos. Morreu em 1997. É bem verdade que sua vaga dificilmente será preenchida. Até porque se mostrou um arguto crítico de sua era, como se verá no filme que volta hoje às telas. Um crítico de recursos bem menos refinados que Buñuel, por exemplo, mas de inspiração nobre e objetivos afiados como o mestre espanhol. Também preocupado como ele com um elenco magistral, sabendo que sua obra poderia ruir sem intérpretes de valor. E não fez por menos.

Marcello Mastroianni, Michel Piccoli, Ugo Tognazi e Philipe Noiret respondem por seus próprios nomes nos personagens que interpretam. Nunca mais houve tal reunião de feras da arte. Um comandante de avião, um produtor de TV, um chefe de cozinha e um juiz. É tudo que se sabe desses homens de vida aparentemente estabilizada, bem-sucedida, que se encerram na mansão de um deles para um fim de semana orgiástico. Orgia sexual, como a situação é mais empregada, mas fundamentalmente gastronômica. Querem comer até morrer.

Antes de expressão popular, um objetivo literal. De cara, remete-se ao clássicoO Anjo Exterminador. Mas há a diferença básica entre a cena buñueliana e a proposta de Ferreri. Lá, os convivas de um jantar são deixados trancados a fenecer sem razão aparente, mas se angustiam e buscam a saída. Em La Grande Bouffe, os anfitriões se obrigam ao cárcere. Tem a intenção do fim iminente. Aceitam convidadas, sim, quando o piloto Mastroianni protesta por não ter direito ao último ato sexual. Prostitutas são contratadas para logo se descobrir que o homem é um garanhão. Mas elas são acessórios da cena, regalos para moribundos. A única figura feminina importante é a gordinha Andréa (Andréa Ferreol), professora que se sintoniza com o regime de engorda do grupo e talvez seu movimento final.

Ferreri é refinado, ainda que o grotesco de assistir Mastroianni em suas perversões sexuais ou Noiret em demonstrações infindáveis de prisão de ventre e conseqüentes gases possam sugerir o contrário. Sofisticação que está num cenário histórico que mais lembra um museu, na reprodução de cenas pictóricas do Renascimento, na citação literária de um poeta como o neoclássico Boileau ou de Brillat-Savarin, o estudioso que uniu gastronomia e filosofia no tratado A Fisiologia do Gosto. Também nas homenagens cinematográficas, de Raoul Walsh à torre da Pathé esculpida. Mas refinado, antes de tudo, por criar tal fachada e assim ser mais contundente na demonstração de decadência de seus burgueses, dos cavalheiros que representam a face brilhante da sociedade ocidental orientada para o sucesso e o dinheiro. Não por acaso, o mais lascivo de todos, Mastroianni, escolhe o quarto de decoração oriental, para onde mais cedo ou mais tarde irão todos, numa quebra até do clássico “ménage à trois”.

Não menos significativo, há um juiz e um homem da mídia, medalhões recorrentes onde grassa a corrupção, num caso, e as banalidades imperam, no outro. Pois bem. O juiz guarda em seu lar tentações libidinosas com a ama que o criou. E o produtor de TV surpreende ao expor inesperadas ambigüidades em sua opção sexual. Por fim, claro, a maior representação possível da degradação humana. É quase insuportável assistir à comilança a que se dedicam os protagonistas. Até pela inversão da regra básica do alimento como gerador da sobrevivência.

Os quatro cavaleiros do ocaso buscam justamente o contrário e não poupam esforços. É irônico, quase uma piada, o crédito para a casa Fauchon, o templo parisiense das iguarias, no início do filme. Come-se e bebe-se do melhor, e uma das maiores bandeiras do orgulho francês passa subitamente a ser repudiada. Ferreri, vale relembrar, é um italiano. Sua pátria também tem muito a dizer sobre o ato de comer. Mas essas são alusões, digamos, imediatas e até fáceis para olhares mais atentos. Ferreri as adora. Está em outros filmes, comoA Carne, em que o amante congela o cadáver de sua amada para devorá-lo aos poucos. Também na castração com uma faca por Gérard Depardieu emL’Ultima Donna. Mas é um realizador também capaz de maior elaboração.

Em certo momento, alguns cachorros começam a cercar a casa do quarteto. Surgem aos poucos, talvez atraídos pelo cheiro da morte ou mesmo da cozinha. Mas ao final é que se dá com mais clareza. Estão ali como espectadores do triste espetáculo. Melhor representação das baixezas humanas impossível.

OEA emitirá sentença sobre crimes da ditadura brasileira – por joão peres / são paulo

OEA emitirá sentença sobre crimes da ditadura brasileira

Eros Grau entrou para a História como relator da Anista aos torturadores 

Organizações de defesa de direitos humanos demandaram julgamento na corte da OEA


São Paulo – A Corte Interamericana de Direitos Humanos vai emitir até o começo da próxima semana sentença a respeito dos crimes cometidos pela ditadura brasileira (1964-85) na região do Araguaia. Porta-vozes do organismo máximo do Sistema Interamericano de Justiça, da Organização dos Estados Americanos (OEA), confirmaram a informação à Rede Brasil Atual.


A sentença está definida e a expectativa é de que a revisão do texto emitido pelos juízes seja concluída nos próximos dias. O passo seguinte é a notificação das partes envolvidas e, de imediato, a decisão da Corte se torna pública.


Os peticionários da ação são o Centro pela Justiça e o Direito Internacional (Cejil), o Grupo Tortura Nunca Mais e a Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos. A avaliação é de que são grandes as chances de condenação do Brasil tendo em vista a jurisprudência criada pela Corte nestes casos. Em geral, os Estados têm sido obrigados a reparar os erros do passado.


Além disso, o Supremo Tribunal Federal (STF) emitiu, em maio deste ano, um sinal bastante negativo ao decidir que a Lei de Anistia abarca também os crimes cometidos por torturadores. A indicação, neste caso, é de que o Estado não está trabalhando para reverter o legado de violações promovidos no período da ditadura.


O centro da questão é saber, em caso de condenação, qual será o alcance da medida. O Brasil, signatário de tratados internacionais de direitos humanos e dos tratados constitutivos da OEA, teria a obrigação de cumprir as determinações vindas da Corte, sediada em São José, na Costa Rica. Em casos anteriores, envolvendo outros países, houve a exigência de responsabilização pelo julgamento de crimes cometidos por regime totalitário e seus agentes, inclusive no âmbito penal.


Com isso, dizem juristas ligados aos peticionários, seria possível reabrir, em primeira instância, casos que haviam sido arquivados pela decisão do STF. Além disso, é possível que se imponha reparação às vítimas diretas da Guerrilha do Araguaia, realizada entre 1972 e 1975 na região central do país.


A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) encaminhou à Corte o pedido de condenação em diversos artigos, entre eles o que prevê o dever de adotar medidas efetivas para prevenir a tortura e o direito à proteção judicial das vítimas.

Nossa Senhora dos Capilares – de jorge barbosa filho /curitiba


Sou o lobisomem

devoto de Nossa Senhora dos Capilares,

a única que acha cabelo em ovo.

Ela é de origem portuguesa

e sua epifania se deu numa barbearia.

Tem pelos nas costas, usa bigode.

Uma Santa que nem o diabo pode.

Drag Queen beatificada,

padroeira dos bichos hisurtos,

dos hippies e das vassouras de pelo.

Santa de dar inveja aos carecas.

 

Pois tem vários cipós debaixo do braço,

perucas nas pernas e cultua suíças.

É a Santa que o Tarzan cobiça!

Nossa Senhora dos Capilares! Orai por nós!

Sua primeira oração foi “As Mentiras Cabeludas”

e posteriormente, “Sabão Cra –Cra”.

Protetora dos pelos do nariz, tufos na orelha,

da família circense, em especial, da Mulher Barbada.

Uma Santa de arrepiar os cabelos,

mas pelo sim e pelo não

é a Santa de minha devoção.

 

 

FELIZ NATAL de josé delfino silva neto / natal

Pudor, justiça, honra, liberdade,

Prazer, amor, carinho, congruência,

Verdade, encanto, enlevo, quintessência,

Nobreza, limpidez e igualdade.

Respeito, polidez, fraternidade,

Pureza, destemor, independência.

Vergonha, humildade, consistência,

Firmeza, esplendor, e fieldade.

Pintores, teatrólogos, sopranos,

Insanos, escultores, e mecenas,

Ar, fogo, terra, aves, oceanos,

Florestas, lua, sol, calor, camenas.

( Lá no fundo há corais gregorianos,

Mas já basta de idéias obscenas.)

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Feliz Natal !!!!!!


FESTIM DE CARGOS por heródoto barbeiro / são paulo

Estamos em plena temporada do festival de distribuição de cargos nos governos estaduais e federal. Os barões da política, donos de partido, financiadores de candidatos, pseudo líderes de categorias e outros estão sentados nas mesas reservadas para a divisão do botim. Para quem conseguiu um convite é uma oportunidade única de dar uma bocada na administração

dos recursos dos cofres públicos abarrotados com os impostos pagos por todos. Penetra nessa festa, que não é pobre como dizia o Cazuza, só com muita malandragem. A segurança é rígida e os leões de chácara e os lambe-botas estão de plantão para impedir que bagrinhos aproveitem festa de tubarão. Ainda assim, aventureiros de toda espécie, vigaristas, adesistas de undécima hora, vendedores de moralidade e ética tentam participar da razzia nos cargos públicos. Um espetáculo que certamente suplanta A Comilança, de Marco Ferreri.

A ascensão de partidos políticos ao poder faz parte da essência do processo democrático, uma vez que tem o aval da maioria para implantar o programa de governo que expôs durante a campanha eleitoral e foi escolhido como o melhor para o país. Alianças de partidos também fazem parte do processo, especialmente nos regimes parlamentares, quando um único partido não consegue ter maioria no Parlamento. Não é necessário em regime republicano, e o presidente pode muito bem governar com maioria oposicionista na Câmara e no Senado. O exemplo de Barak Obama é o mais recente, mas Bill Clinton e outros também governaram com minoria. Não se sabe de que cabeça diabólica surgiu a ideia que é necessário ter maioria no Congresso, para se governar. Para se conseguir essa maioria vale tudo, da cooptação a divisão de cargos e a ambicionada gestão das verbas públicas. As oligarquias tradicionais estão até o pescoço empenhadas na divisão. Vive-se por aqui um republicanismo parlamentarista mal costurado e que apresenta amplas brechas para a malandragem geral. Começa eleição, acaba eleição, tudo se repete e ao cidadão se promete uma reforma política que não chega nunca, como uma cenoura amarrada na frente do nariz de um burro. Um dia tudo isso vai mudar, talvez no sine die, ou no Dia de São Nunca…

Na hora de servir o prato principal, ministérios com mais ou menos verbas públicas, há um frisson geral. Fica com o partido majoritário no Congresso, com o partido da presidente, do vice, dos aliados, ou dos cooptados? Há cotas. Nessa hora os grupos armados puxam suas armas e cada um mostra o poder de fogo que possui. É o momento do ranger de dentes, de heresias políticas e ideológicas, blasfêmias, xingos, ameaças, enfim do vale tudo. Ninguém atira, ninguém quer estragar a festa, apenas conquistar a parte do botim que julga ter direito legítimo. E assim nascem os secretariados e o ministério. Atento o cidadão/eleitor/contribuinte acompanha atônito o noticiário sobre a dança das cadeiras, um espetáculo politicamente macabro, com um ou outro lance de humor negro, quando alguém dorme ministro e acorda sem ministério. As promessas da campanha que os cargos seriam preenchidos por técnicos competentes, honestos, éticos, comprometidos com o interesse público e não por políticos oportunistas foram esquecidas. Nem mesmo o eleitor se lembra. O ponto alto da festa é o início das concorrências públicas.

Heródoto Barbeiro é jornalista, apresentador do Jornal da CBN

 

DESESPERANÇA de vera lucia kalahari / portugal

O mundo não vale o nosso pranto…

Não vale sequer a nossa pena…

Não vale um grito,

Uma gota de sangue jorrada

Ao pisar de rudes espinhos.

Não vale um suspiro,  um amoroso encontro,

Uma simples palavra.

Não vale nada…

Porque o mundo não tem sentido.

Não ouve o choro dos famintos,

O gemido dos soldados,

As preces esperançosas

Das freiras em clausura,

O choro soluçante

Das mães chamando filhos…

Porque o mundo é fechado, vazio,

Cego aos sonhos dos que ainda sonham…

Por isso, assim acordados,

Sem imagens ilusórias,

Sem promessas e sem mentiras,

Saibamos compreender, entender,

E esquecer o mundo.

FERNANDO PY comenta os “Poemas para a Liberdade” de MANOEL DE ANDRADE / petrópolis.rj

Nos seus Poemas para a liberdade ( São Paulo: Escrituras, 2009; edição bilíngue português/espanhol; tradução do autor), o catarinense Manoel de Andrade tem o desassombro e a temeridade de cantar a luta armada contra a ditadura militar. Pode parecer um anacronismo, já que os militares brasileiros há muito deixaram de comandar os destinos do Brasil. Mas, na verdade, o caso de Manoel de Andrade é bem diverso. Perseguido pela ditadura, em 1969, devido à panfletagem do poema “Saudação a Che Guevara”, refugiou-se na Bolívia, onde se integrou ao movimento guerrilheiro. Em junho de 1970, publicou  na Bolívia, em espanhol, os Poemas para la libertad, cuja 2ª edição saiu na Colômbia, em setembro. Expulso tanto do Peru como da Colômbia, atravessou diversos países da América, publicando livros, promovendo debates, dando palestras e declamando seus poemas em teatros, sindicatos e universidades. Em janeiro de 1971, seu livro Canción de amor a América y otros poemas foi editado na Nicarágua e em El Salvador. Depois de vários êxitos no exterior, Andrade regressou anônimo  ao Brasil (1972), onde se manteve afastado da literatura durante trinta anos. Em 2002, participou da coletânea paranaense Próximas Palavras, e publicou Cantares em 2007. Esta edição dos Poemas para a liberdade é, que eu saiba,  a primeira editada do Brasil.

É claro que a poesia política do autor paga tributo aos grandes poetas latino-americanos que sempre se opuseram às ditaduras fascistas, especialmente Pablo Neruda. O tom dos poemas, sua oralidade intrínseca, o pendor para uma abordagem vívida das condições sociais e humanas da nossa época, são ingredientes básicos do volume. A eles, porém, não  está ausente um toque de lirismo, o lirismo de quem sabe que a poesia dita “engajada” não se sustenta apenas com uma mensagem libertária ou um repúdio incisivo a um estado de coisas intolerável.  O poeta soube dosar muito bem os materiais de que se utilizou, e o resultado é um livro coeso, muito bem realizado dentro do que ele se propôs, e que lhe confere uma posição de relevo em nossas letras. Parabéns.

(Tribuna de Petrópolis, 1º de outubro de 2010)

Fernando Py (Rio de Janeiro, 1935), é poeta, crítico literário e tradutor. Colaborou em vários jornais do país entre eles o Jornal do Brasil, Jornal da Tarde e o O Globo. Traduziu autores como Marcel Proust, Honoré de Balzac, Saul Bellow (Nobel em 1976) e outros. Tem vários livros publicado entre poesia e crítica. Atualmente assina a coluna “Literatura” no jornal Tribuna de Petrópolis, cidade onde vive.

JORGE LESCANO comenta em artigo de JULIAN ASSANGE (WikiLeaks)/ são paulo

Comentário:

C E R T O S   S I L Ê N C I O S


 

Há verdades perigosas e silêncios criminosos. Quando estas verdades atingem ou envolvem os donos do poder, os administradores dos meios de comunicação acusam os franco-atiradores de traição (sic), oportunismo, falta de ética, etc.. Este comportamento não se verifica apenas nos grandes eventos, lamentavelmente se dá também nas relações familiares e entre “amigos”. Todos conhecemos pessoas que são muito democráticas quando o amigo está disponível para ajudar, mesmo apenas ouvindo seus problemas, mas basta que a relação ameace se inverter, ainda que momentaneamente, e lá se vá o espírito de equidade. Creio que as atitudes públicas coincidem com as privadas, resta saber em qual destas esferas se manifestam primeiro. A democracia ocidental precisa do silêncio conivente para sobreviver. Mentir por omissão não é considerado crime, antes diplomacia, portanto é o mais comum dos crimes políticos. Omitir, ocultar, silenciar os erros e as agressões à credulidade pública é colaborar com elas. Neste momento em que a Comunidade Internacional (?) condena a ausência em Oslo de Liu Xiaobo, Prêmio Nobel da Paz de 2010, a “maior das democracias” (segundo sua própria opinião), não suporta a revelação dos seus meandros e procura um bode expiatório. É deplorável que a Suécia, país com imagem internacional de seriedade, justiça e liberdade sexual, se preste ao triste papel de donzela violada para tentar punir Julian Assange, cavaleiro andante da internet. Parece difícil salvar as aparências do Tio Sam.

VIVA  A  ÉTICA  POLITICAMENTE  INCORRETA!!!


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leia o texto comentado: AQUI

Premio Nobel de Literatura, uma impostura – por jorge lescano / são paulo

Todo prêmio é por bom comportamento.

Livro das cinzas e do vento

No dia 10 de dezembro, aniversário da morte de Alfred Nobel, serão entregues em Estocolmo, em pomposa cerimônia que inclui a presença do rei, os Prêmios Nobel (com acento no E).

O Nobel é o Roll-Roys dos prêmios literários. Como se sabe, não basta ter dinheiro para comprar este carro, os fabricantes precisam vasculhar a vida privada do comprador para decidir se ele merece tê-lo. Também o ganhador do Nobel deve dar provas de merecimento na vida privada. Para entrar na galeria dos premiados o comportamento moral, assim como as opiniões políticas, não é questão de somenos, devem coincidir com as da Comissão.

Os acadêmicos são pessoas que se levam a sério, e pessoas sérias não erram: a própria seriedade autoriza seu discernimento, daí toda a solenidade da premiação Nobel e sua aceitação internacional. Contribuem para o prestígio do Nobel a independência de julgamento da Comissão (a expressão é de um escritor brasileiro), bem como a promoção dos próprios contemplados.

Aceitar a autoridade da Academia Sueca é admitir que a crítica sueca seja a mais capacitada para julgar valores literários dentre as múltiples tendências concorrentes, contudo, a ausência da literatura sueca no plano internacional não parece justificar tal pontificado.

Autores de países que agora estão chegando à escrita poderão reivindicar o direito ao Prêmio junto com aqueles que fazem parte há séculos da tradição escrita? Um século de escrita em qualquer língua poderá concorrer com quatro, cinco, dez séculos de literatura?

A Academia sueca analisa as obras propostas em sua própria língua (ter dez obras traduzidas para o sueco é condição sine qua non para concorrer) depois de devidamente recomendadas por membros de instituições avalizadas em seus respectivos países, havendo passado, também, pelo crivo dos especialistas locais nas línguas originais das obras em apreciação.

Na primeira edição do prêmio, em 1901, Liev Tolstoi (Rússia) perdeu para Sully Proudhomme (França), Em 1903 o norueguês Henrik Ibsen perderia para seu compatriota Björnstjerne Björnson. Quem lê hoje, ou sequer sabe da existência destes premiados?

A lista é longa e abarca praticamente toda a história do Prêmio. Quem lê os dinamarqueses Karl Gjellerup e Henrik Pontoppidan (premiados em 1917), os suecos Verner von Heindenstam (1916) e Paar Lagerkvist (1951), o finlandês Emil Sillanpää (1939) e o islandês Haldor Laxness (1955), os noruegueses Knut Hamsun (1920) e Sigrid Undset (1928)? Em 1909, a sueca Selma Lagerlöff foi agraciada com o Prêmio e cinco anos mais tarde será eleita membro da Academia, cargo que exerceu por um quarto de século, participando na seleção do Prêmio Nobel de Literatura.

Seria verdadeiramente estranho que August Strindberg, o maior dos escritores suecos, nunca tenha sido cogitado para receber o prêmio se os historiadores do Nobel não revelassem que ainda que tivesse apresentada a sua candidatura, ela não teria chances, pois o Sr. Carl David af Wirsén, primeiro Secretário Perpétuo da Academia, falecido em 1912, apenas um mês depois de Strindberg, fora seu encarniçado inimigo desde que o dramaturgo o fizera objeto de amarga sátira em seu livro O novo reino. Isto para ficarmos nos escandinavos e até a década de 1950.

É verdade que entre os premiados há nomes de maior peso e evidência internacional que os citados, contudo, eles pouco ou nada devem ao Prêmio. O fato é que a obra de nenhum dos ganhadores de real importância literária precisava deste prêmio, assim como qualquer dos outros se tornou grande escritor por havê-lo recebido. Os mestres William Faulkner (1949) e Samuel Beckett (1969) convivem no mesmo espaço criado pelo Prêmio com Sir Winston Churchill (1953), porque o termo literatura não designa apenas as obras de ficção, diz a Academia, e inclui reportagens, biografias e discursos políticos, acrescemos. Isto para ficarmos na língua inglesa.

Tolstoi, além de ter sua candidatura impugnada por uma questão burocrática, recebe uma reprimenda moral do Sr. Wirsén, segundo este, as obras religiosas, políticas e sociológicas daquele autor se opunham à idéia de governo, recomendando em seu lugar uma anarquia inteiramente teórica, e mais: totalmente ignorante da crítica bíblica, reescreveu o Novo Testamento com espírito meio racionalista, meio místico. Os grandes painéis da vida russa do século XIX que são os romances Guerra e Paz e Ana Karenina foram relegados olimpicamente.

Coerente foi a decisão de Jean-Paul Sartre ao recusar o galardão em 1964: aceitá-lo significava admitir a autoridade da Academia Sueca sobre a sua obra. Isto, aliás, não abalou a moral dos senhores acadêmicos, que não levaram em consideração tal recusa ao declarar que a atitude deste autor não obedecia a uma desqualificação do prêmio, mas à sua coerência ideológica. O Secretário Perpétuo de turno frisou na ocasião que o Prêmio Nobel exprime a apreciação da obra de um autor e não depende absolutamente de sua eventual aceitação. Ou seja: a premiação obedece aos critérios de um pequeno clube de um país periférico no que diz respeito à literatura e sua decisão é incontestável.

O premiado mais recente (2010) do continente hispano-americano é o ex-peruano (naturalizou-se espanhol) Mario Vargas Llosa.  Os outros são: Gabriela Mistral (1945) e Pablo Neruda (1971) do Chile, Miguel Angel Astúrias (Guatemala, 1967), Gabriel García Marquez (Colômbia, 1982) e Octavio Paz (México, 1990).

Jorge Luís Borges, candidato perpétuo, afirmava que lhe negar o Prêmio era uma antiga tradição nórdica. Em entrevista disse que sem importar qual venha a ser a literatura escrita na Argentina no futuro, também a este país lhe chegará a hora de ter o seu Nobel. Profecia coerente e válida para todos os países, segundo podemos verificar na história do Prêmio. Chama a atenção que Borges, tão sutil na sua leitura, nunca tenha questionado o sistema pelo qual se escolhe o ganhador do Nobel e morresse presumivelmente magoado por não o ter recebido.

Entre nós não faltam autores que, sabedores da constituição do Prêmio, como quem não quer nada vão sugerindo sua candidatura em clubes de província por eles prestigiados com sua presença desinteressada.

Talvez o Prêmio Nobel seja atualmente a maior, se não única, contribuição da Suécia à literatura mundial. A premiação, tanto pelo seu valor pecuniário (mais de um milhão de dólares) quanto pela data em que é realizada a cerimônia, lembra presente de Papai Noel, personagem, aliás, de origem escandinava e que sem qualquer justificativa evangélica, nas proximidades do Natal invade as vitrinas das lojas de grande parte do mundo cristão.


ZULEIKA DOS REIS comenta “DIAS CONTADOS” livro de contos da poeta EUNICE ARRUDA / são paulo

Após muitos anos de trabalho consagrado como poeta, Eunice Arruda publica, em 2009,  Dias Contados, seu primeiro livro de contos.

Dias Contados: dias narrados;  Dias Contados: dias de seres sentenciados, a caminho da própria extinção.

Já no título, um dos eixos do livro: A morte. O outro eixo: A perda da identidade. Eixos entrelaçados, indissoluvelmente.

Doze contos e me parece que não por acaso. Vejamos algo da simbologia do número 12:

– 12 são os meses do ano.

– 12 são os Apóstolos.

– 12 são os signos do Zodíaco.

– Do número 3, símbolo da Trindade, multiplicado pelo número 4, símbolo da      Manifestação, surge o número 12.

– O 12, muitas vezes, indica o ciclo completo de um acontecimento.

Dos doze contos, cinco narrados por personagens mortos, sete por personagens vivos, vivos em permanente condição de perda, de um braço amputado à perda da imagem física de si mesmo para si mesmo e para os outros; da perda da liberdade à cisão permanente entre corpo e alma, sendo que o traço comum entre todos é a percepção da perda da própria identidade.

Lendo os contos de Eunice Arruda me veio a expressão ser-para-a-morte, de Heidegger, já que a morte é o denominador comum, a sempre presença no universo de cada um dos personagens.

O outro nome que me veio à mente foi Golem, vindo da tradição judaica, da Kábala, durante a leitura de Nem as gotas de chuva para mim, de todos, o conto mais instigante e enigmático. Nele, um homem volta do reino dos mortos com o próprio nome apagado da testa, o que me levou imediatamente ao mito do Golem.

No mito, o Golem inicial teria sido o próprio primeiro Adão, quando ainda recém-criado da terra, antes da alma lhe ter sido soprada pelo Deus. O Golem posterior seria um simulacro de ser humano, criado pelo homem, simulacro a quem é dado vida ao lhe ser escrita na testa a palavra Emeth, que significa Verdade. Se for retirada desta palavra a primeira letra surge Meth, que significa Está Morto, o que faz o Golem cair por terra. Segundo a Kábala, a letra é emanação do poder divino, é também a “assinatura” das coisas.

No conto Nem as gotas de chuva, o homem que volta do reino dos mortos sem nome na testa é um morto-vivo, um ser sem qualquer identidade.

 

Contos estáticos, em sua maioria; contos de atmosfera, não de ação. As ações são mostradas de forma embrionária; o que realmente importa são os estados do ser.

Em grande parte do tempo, presentes a estranheza, o insólito, o fantástico, talvez alguns elementos surrealistas, tudo através de uma linguagem clara e límpida como a da própria Eunice em seus poemas e a linguagem de Kafka.A se falar em surrealismo, diria que muito mais à Magritte do que à Salvador Dali. Há um quadro de Magritte chamado As afinidades eletivas que pode, a meu ver, ilustrar com muita propriedade tal afirmação: Uma  gaiola e dentro dela ovo que lhe ocupa todo o interior. Uma interpretação possível dirá que os pássaros já estão predestinados à escravidão, à ausência de liberdade, desde antes do nascimento. Voltando aos contos, penso que não se pode defini-los como fantásticos, ou surrealistas, ou de realismo mágico, ou kafkianos, ainda que apresentem várias de suas características.

A autora é grande poeta; segundo ela mesma, é essencialmente poeta, e tal condição vem inscrita também nos seus contos, da linguagem à estrutura circular, uma das características fundamentais da poesia. Contos via de regra alineares, que não seguem linha temporal, de um ponto definido no presente em direção ao futuro, do futuro a um ponto no passado, ou ambos. Como na poesia, o centro dos contos de Eunice Arruda está em todos os pontos, imantando tudo, todo o círculo, tornando tudo ponto de partida e ponto de chegada. O círculo: a poesia mágico-agônica da  roda onde gira a vida-morte,  em incessante intercâmbio.

 

Zuleika dos Reis

 

 

 

A BOMBA de carlos drummond de andrade


A bomba
é uma flor de pânico apavorando os floricultores
A bomba
é o produto quintessente de um laboratório falido
A bomba
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles
A bomba
é grotesca de tão metuenda e coça a perna
A bomba
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem
A bomba
não tem preço não tem lugar não tem domicílio
A bomba
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece
A bomba
não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está
A bomba
mente e sorri sem dente
A bomba
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados
A bomba
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada
A bomba
tem horas que sente falta de outra para cruzar
A bomba
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação
A bomba
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés
A bomba
faz week-end na Semana Santa
A bomba
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia
A bomba
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos
interplanetários
A bomba
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose,
de verborréia
A bomba
não é séria, é conspicuamente tediosa
A bomba
envenena as crianças antes que comece a nascer
A bomba
continua a envenená-las no curso da vida
A bomba
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais
A bomba
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba
A bomba
é um cisco no olho da vida, e não sai
A bomba
é uma inflamação no ventre da primavera
A bomba
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro,
cobalto e ferro além da comparsaria
A bomba
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.
A bomba
não admite que ninguém acorde sem motivo grave
A bomba
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos
A bomba
mata só de pensarem que vem aí para matar
A bomba
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe
A bomba
saboreia a morte com marshmallow
A bomba
arrota impostura e prosopéia política
A bomba
cria leopardos no quintal, eventualmente no living
A bomba
é podre
A bomba
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado
A bomba
pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo
A bomba
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade
A bomba
tem um clube fechadíssimo
A bomba
pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel
A bomba
é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris
A bomba
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos
de paz
A bomba
não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas
A bomba
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger
velhos e criancinhas
A bomba
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer
A bomba
é câncer
A bomba
vai à Lua, assovia e volta
A bomba
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação
em cadeia
A bomba
está abusando da glória de ser bomba
A bomba
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba
o instante inefável
A bomba
fede
A bomba
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina
A bomba
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve
A bomba
não destruirá a vida
O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.

JULIAN ASSANGE: “A VERDADE GANHARÁ SEMPRE” / londres

 

A WikiLeaks cunhou um novo tipo do jornalismo: o jornalismo científico. Trabalhamos com outros serviços informativos para trazer as notícias às pessoas, mas também para provar que é verdade. Por Julian Assange, publicado no The Australian

ARTIGO | 7 DEZEMBRO, 2010 – 19:00

JULIAN ASSANGE

Em 1958 o jovem Rupert Murdoch, então proprietário e editor de The News de Adelaide, escreveu: “na corrida entre segredo e verdade, parece inevitável que a verdade ganhe sempre”.

A sua observação talvez reflectisse a revelação do seu pai, Keith Murdoch, de que as tropas australianas estavam a ser sacrificadas desnecessariamente nas costas de Gallipoli por comandantes britânicos incompetentes. Os britânicos tentaram calá-lo, mas Keith Murdoch não se deixou silenciar e os seus esforços levaram ao fim da campanha desastrosa de Gallipoli.

Quase um século depois, a WikiLeaks está também a publicar destemidamente factos que precisam de ser publicados.

Cresci numa cidade rural de Queensland, onde as pessoas diziam o que lhes ia na alma de forma franca. Desconfiavam dum governo grande, como algo que pode ser corrompido se não for vigiado cuidadosamente. Os dias negros da corrupção no governo de Queensland, antes do inquérito Fitzgerald, são testemunho do que acontece quando os políticos amordaçam os meios de comunicação para não informarem a verdade.

Essas coisas calaram-me fundo. A WikiLeaks foi criada em torno desses valores centrais. A ideia, concebida na Austrália, era usar tecnologias Internet em novas formas de informar a verdade.

A WikiLeaks cunhou um novo tipo do jornalismo: o jornalismo científico. Trabalhamos com outros serviços informativos para trazer as notícias às pessoas, mas também para provar que é verdade. O jornalismo científico permite-nos ler uma história nas notícias, a seguir clicar online para ver o documento original em que é baseada. Dessa forma podemos ajuizar por nós mesmos: a história é verdadeira? O jornalista informou-nos com precisão?

As sociedades democráticas precisam de meios de comunicação fortes e a WikiLeaks é uma parte desses meios. Os meios de comunicação ajudam a que o governo se mantenha honesto. A WikiLeaks revelou algumas verdades difíceis sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão e sobre histórias incompletas da corrupção corporativa.

Houve quem dissesse que sou anti-guerra: para que conste, não sou. Às vezes as nações têm de ir à guerra, e há guerras justas. Mas não há nada mais errado do que um governo mentir ao seu povo sobre essas guerras e depois pedir a esses mesmos cidadãos e cidadãs que arrisquem as suas vidas e os seus impostos com essas mentiras. Se uma guerra for justificada, então digam a verdade e as pessoas decidirão se a apoiam.

Se você tiver lido alguns dos diários de guerra do Afeganistão ou do Iraque, algum dos telegramas da embaixada dos Estados Unidos ou alguma das histórias sobre as coisas que a WikiLeaks reportou, pondere como é importante para todos os meios de comunicação serem capazes de informar estas coisas livremente.

A WikiLeaks não é o único editor dos telegramas da embaixada dos Estados Unidos. Outros serviços informativos, incluindo o britânico The Guardian, o The New York Times, o El Pais em Espanha e a Der Spiegel da Alemanha publicaram os mesmos telegramas editados.

Mas é a WikiLeaks, como coordenador desses outros grupos, que apanhou com os ataques e acusações mais maldosos do governo dos Estados Unidos e dos seus acólitos. Fui acusado de traição, embora seja australiano, não um cidadão dos EUA. Houve dúzias de apelos graves nos EUA para que eu fosse “retirado” por forças especiais dos Estados Unidos. Sarah Palin diz que devo ser “acossado como Osama bin Laden”, um projecto de lei republicano apresenta-se ao Senado dos Estados Unidos tentando que me declarem “uma ameaça transnacional” e se desembaracem de mim consequentemente. Um conselheiro do gabinete do Primeiro-Ministro canadiano apelou à televisão nacional para que eu fosse assassinado. Um blogger americano pediu que o meu filho de 20 anos, aqui na Austrália, fosse raptado e mal-tratado por mais nenhuma razão senão para apanharem-me.

E os australianos devem observar sem qualquer orgulho a alcoviteirice ignominiosa desses sentimentos pela Primeira-Ministra Gillard e pela Secretária de Estado dos Estados Unidos Hillary Clinton, que não tiveram uma palavra de crítica para com os outros meios de comunicação. Isto acontece porque o The Guardian, o The New York Times e a Der Spiegel são antigos e grandes, enquanto a WikiLeaks é ainda jovem e pequena.

Somos os da mó de baixo. O governo de Gillard está a tentar matar o mensageiro porque não quer a verdade revelada, incluindo a informação dos seu próprios feitos diplomáticos e políticos.

Houve alguma resposta do governo australiano às numerosas ameaças públicas de violência contra mim e outro pessoal da WikiLeaks? Poder-se-ia ter pensado que um primeiro-ministro australiano iria defendendo os seus cidadãos contra tais coisas, mas houve apenas reclamações não inteiramente genuínas de ilegalidade. Da Primeira-Ministra, e especialmente do Procurador-Geral, espera-se que tratem os seus deveres com dignidade e acima das querelas. Fiquem descansados, esses dois vão tratar de salvar a sua própria pele. Não o farão.

Sempre que a WikiLeaks publica a verdade sobre abusos cometidos por agências dos Estados Unidos, os políticos australianos entoam um coro provavelmente falso com o Departamento de Estado: “Vai arriscar vidas! Segurança nacional! Vai pôr as tropas em perigo!” Depois dizem que não há nada importante no que a WikiLeaks publica. Não podem ser verdade ambas as coisas. Qual delas é?

Não é nenhuma. A WikiLeaks tem uma história de publicação com quatro anos. Durante esse tempo mudámos governos inteiros, mas nem uma pessoa, que se saiba, foi mal-tratada. Mas os EUA, com a conivência do governo australiano, mataram milhares só nestes últimos meses.

O Secretário da Defesa dos Estados Unidos Robert Gates admitiu numa carta ao Congresso dos EUA que nenhuma fonte de informação ou métodos sensíveis tinham ficado comprometidos pela revelação dos diários de guerra afegãos. O Pentágono afirmou que não houve nenhuma prova de que os relatórios da WikiLeaks tinham levado alguém a ser mal-tratado no Afeganistão. A NATO em Cabul disse à CNN que não pôde encontrar nem uma pessoa que precisasse de protecção. O Departamento Australiano de Defesa disse o mesmo. Nenhuma tropa australiana ou fontes foram prejudicadas por nada que tivéssemos publicado.

Mas as nossas publicações estão longe de não ser importantes. Os telegramas diplomáticos dos Estados Unidos revelam alguns factos alarmantes:

– Os EUA pediram aos seus diplomatas que roubassem material humano pessoal e informação a funcionários da ONU e a grupos de direitos humanos, incluindo ADN, impressões digitais, exames de íris, números de cartão de crédito, senhas de Internet e fotos de identificação numa violação de tratados internacionais. Os diplomatas australianos da ONU presumivelmente podem ser visados também.

– O rei Abdullah da Arábia Saudita pediu que os representantes dos Estados Unidos na Jordânia e no Bahrain exigissem que o programa nuclear do Irão fosse detido por qualquer meio disponível.

– O inquérito britânico sobre o Iraque foi ajustado para proteger os “interesses dos Estados Unidos”.

– A Suécia é um membro encoberto da NATO e a partilha de informação de espionagem é escondida do parlamento.

– Os EUA estão a jogar duro para conseguir que outros países recebam detidos libertados da Baía Guantánamo. Barack Obama aceitou encontrar-se com o Presidente Esloveno apenas se a Eslovénia recebesse um preso. Ao nosso vizinho do Pacífico Kiribati foram oferecidos milhões de dólares para aceitar detidos.

Na sentença que se tornou um marco sobre o caso dos Documentos do Pentágono, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos disse que “só uma imprensa livre e sem restrições pode expor eficazmente as fraudes do governo”. A tempestade que gira hoje em volta da WikiLeaks reforça a necessidade de defender o direito de todos os meios de comunicação a revelar a verdade.

7/12/2010

Julian Assange é redactor-chefe da WikiLeaks.

Tradução de Paula Sequeiros para o Esq.net

 

Arianna Huffington: “Web deu ao público o controle da informação” /usa


ENTREVISTA AO IG POR LEDA BALBINO:

A empresária Arianna Huffington, de 60 anos, inicia em 18 de dezembro uma viagem de quatro dias ao Brasil para “aprender sobre sua economia vibrante” e sobre as medidas adotadas pelo País para “reduzir a desigualdade social”. O tema lhe é caro por causa de seu mais recente livro, “Third World America”, em que alerta que a redução da mobilidade social e o declínio da classe média nos EUA vêm dizimando o chamado “sonho americano” e arriscam transformar o país em uma nação do Terceiro Mundo.

A ateniense radicada nos EUA, autora de outros 12 livros – incluindo biografias de Maria Callas e Picasso e obras de autoajuda -, não limitou a discussão da perda de poder dos EUA ao “Third World America”. Ela a expandiu para o fenômeno do jornalismo online Huffington Post, site de notícias e opinião lançado em 2005 e do qual é editora-chefe e cofundadora. No site, conhecido simplesmente como HuffPost, Arianna batizou uma seção com o nome do livro, com a proposta de que os leitores e internautas mapeiem iniciativas sendo empregadas nos EUA para ajudar na recuperação econômica e social do país.

A seção se encaixa na visão de Arianna de que o público não é mais um receptor passivo da informação, um mero espectador. Com a liberdade dada pela internet de poder comentar, interagir, compartilhar e de buscar qualquer conteúdo, as pessoas agora detêm seu controle. “Com o crescimento explosivo da mídia social, nos engajamos com as informações, reagimos a elas e as compartilhamos. Tornou-se algo que compilamos, conectamos e discutimos. Em resumo, as notícias se tornaram sociais”, disse Arianna ao iG.

Essa ideia, somada a 195 empregados, à colaboração voluntária de 6 mil blogueiros – que atraem 4 milhões de comentários por mês – e a um habilidoso uso do SEO (sigla em inglês para “Otimização da Ferramenta de Busca”, que melhora os resultados no Google), transformou o HuffPost em um sucesso do jornalismo online. Atualmente o site só perde em audiência para o do New York Times.

No Brasil, a 28ª mulher mais poderosa do mundo, segundo a revista Forbes, deve se encontrar com a presidenta eleita Dilma Rousseff e com a senadora Marta Suplicy (PT-SP), e participar de um jantar promovido pelo publicitário Nizan Guanaes em São Paulo. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que concedeu por email ao iG.

iG: A sra. afirma que o Huffington Post é um jornal. Mas algumas pessoas acreditam que seu modelo de colaboradores não remunerados, reduzida equipe editorial e uso do conteúdo de outros canais pode modificar a mídia como negócio. A sra. concorda com essa avaliação?

Arianna: Nosso modelo é unir o melhor da mídia tradicional com a nova mídia. Isso inclui ter dezenas de editores altamente treinados e um crescente número de repórteres produzindo material próprio – incluindo as recentes contratações de Howard Fineman, que antes trabalhava na Newsweek, e Peter Goodman, doNew York Times. Também oferecemos uma ótima plataforma para blogueiros conhecidos ou relativamente desconhecidos para que possam contribuir para o debate público. E, quando agregamos histórias de outras fontes, nos certificamos de fazê-lo respeitando o direito autoral e de direcionar a audiência ao veículo original da história – fluxo que eles podem monitorar. Os leitores do HuffPost amam que o site tenha ao mesmo tempo notícias e opinião – de nossos escritores, blogueiros, repórteres e de todas as partes do mundo – apresentadas com nossa atitude e ponto de vista.

iG: Considerando o sucesso do modelo do HuffPost, qual é o futuro dos jornais tradicionais?

Arianna: Acredito em um futuro jornalístico híbrido em que os jornais tradicionais adotem os melhores elementos do jornalismo online e em que os sites de mídia façam cada vez mais a reportagem investigativa usualmente associada somente às empresas tradicionais. E ao contrário do derrotismo relacionado à mídia como negócio, acredito que vivemos a Era Dourada para aqueles que consomem informação, que podem navegar na internet, usar sistemas de buscas, acessar as melhores histórias de todas as partes do mundo e ser capazes de comentar, interagir e formar comunidades. A Web nos deu o controle sobre a informação que consumimos. E agora o crescimento explosivo da mídia social também está mudando fundamentalmente nosso relacionamento com a notícia. Não é mais algo que aceitamos passivamente. Agora nos engajamos com as informações, reagimos a elas e as compartilhamos. Tornou-se algo que compilamos, conectamos e discutimos. Em resumo, as notícias se tornaram sociais.

iG: Quais características do HuffPost a mídia tradicional deveria adotar para sobreviver?

Arianna: Algo que o HuffPost faz bem – e penso que os meios tradicionais de mídia poderiam fazer mais – é cobrir as notícias obsessivamente para lhes possibilitar reverberar fora de nosso universo multimídia. Também temos orgulho de nossa posição editorial: o compromisso com a transparência e a descoberta da verdade – aonde quer que ela nos leve. Frequentemente, a mídia tradicional sente ter de ouvir os dois lados de uma história, mesmo quando a verdade está certamente em um deles.

iG: O HuffiPost tem 6 mil blogueiros. Qual o segredo para fazer essa quantidade enorme de pessoas escrever sem remuneração?

Arianna: Os melhores blogueiros tendem a ser apaixonados por algo. E estamos felizes de lhes oferecer uma plataforma para expressar suas opiniões. Uma das razões originais para começar o HuffPost era minha sensação de que as vozes mais interessantes em nossa cultura não estavam online – e quis lhes facilitar essa transição.

iG: Como a sra. explica o sucesso do HuffPost? Qual papel que o hábil uso da “Otimização da Ferramenta de Busca” (Search Engine Optimization, SEO) desempenha nisso?

Arianna: O site foi lançado em meio a uma tempestade perfeita para um veículo de notícias e opinião. Tivemos uma inédita combinação de três coisas: agregação de notícia com atitude, opinião e comunidade. E sempre estivemos comprometidos com evoluir constantemente. Quanto ao SEO, sim, HuffPost é bom nisso, mas a coisa mais importante é nosso conteúdo grande e variado.

iG: Em seu livro “Third World America” (América do Terceiro Mundo, em tradução livre), a sra. alerta que os EUA não cumprem mais sua promessa do sonho americano. Qual é a relação entre o declínio da classe média dos EUA e fenômenos políticos como o movimento conservador Tea Party liderado pela republicana Sarah Palin?

Arianna: Em um período de dificuldades econômicas, quando grande número de pessoas perde  seus empregos, casas e se sente impotentes, fomenta-se a raiva. A ascensão do Tea Party é, em muitos casos, a ascensão desse sentimento. Mas o que falta nessa explicação é o fato de que todos estão com raiva. E não é difícil entender por quê. Os americanos estão sofrendo: a pobreza está crescendo, e não há previsão para o fim do alto desemprego e das execuções hipotecárias. Mas há mais de uma forma de canalizar a raiva. Em vez de demonizar, dividir e buscar bodes-expiatórios, podemos canalizar a energia para conectar, alcançar o outro, atuar, tornar a vida melhor para sua família e para quem precisa de ajuda. O que mais me surpreendeu durante a pesquisa do livro – e agora enquanto viajo pelo país – é a criatividade extraordinária florescendo em meio aos problemas perante as comunidades em todo o país.

iG: Em que contexto seu livro explica as eleições de novembro e a derrota democrata?

Arianna: Quase dois anos em seu mandato, o presidente Obama tem uma economia que desagrada nove em dez americanos. É realmente surpreendente que os eleitores tenham descontado sua ira nos democratas. Com os índices de “desemprego real” perto de 17% nos EUA, significa que quase todos são atingidos negativamente pela economia – ou conhecem alguém que seja. E eles não serão confortados pela reforma da assistência à saúde que não entrará em vigor até 2014 e pela reforma financeira que não desacelera o ritmo das execuções hipotecárias ou facilita o empréstimo de dinheiro para pequenos negócios. Como resultado, os eleitores não confiam mais nos democratas para consertar as coisas.

iG: Em seu post “Memorando para a Classe Média dos EUA: Obama, simplesmente não estão a fim de você ”, a sra. diz que as pessoas que estão descontentes com o presidente deveriam parar de reclamar e basicamente fazê-lo trabalhar. A sra. é uma das pessoas decepcionadas com Obama? Por quê?

Arianna: O governo Obama enfrentou muitos desafios reais, incluindo uma oposição que foi obstrucionista em um nível sem precedentes e perigoso e uma formidável máquina de ataque da direita que não se importa muito com a verdade.

Também é verdade que (o ex-presidente George W.) Bush realmente deixou o país em ruínas. O presidente Obama fez várias coisas boas, mas também cometeu vários grandes erros. O maior deles foi não priorizar os empregos – ele não dirigiu a mesma urgência em resgatar a classe média e reconstruir nossas comunidades que dirigiu para resgatar Wall Street e os grandes bancos. A escalada militar no Afeganistão foi outro grande erro, assim como tornar o bipartidarismo um objetivo em si mesmo. E realmente acredito que depende das pessoas – e da mídia – manter nossos líderes com os pés no chão com o objetivo de obter uma real mudança.

iG: Como a população pode fazê-lo trabalhar em 2011 com um Congresso quase totalmente republicano?

Arianna: Reivindicar que nossos políticos se atenham ao emprego, e às dificuldades da classe média, vai além do partidarismo, do “direita versus esquerda”. E é importante lembrar que há muitas coisas que o presidente Obama pode fazer sem envolver o Congresso – e, claro, há o poder incrível de seu cargo de autoridade para defender sua posição diretamente para a população americana.

iG: Por que a sra. vem ao Brasil?

Arianna: Nunca estive no País, então estou ansiosa para aprender sobre sua economia vibrante e sobre a forma como os partidos políticos, apesar de suas diferenças ideológicas, têm sido capazes de se unir para reduzir a desigualdade econômica e melhorar os sistemas educacional e de assistência à saúde do país.

 

Arianna Huffington, fundadora do The Huffington Post, vem ao Brasil

Arianna Huffington (Foto: Getty Images)

A fundadora do site The Huffington Post Arianna Huffington está de passagem marcada para o Brasil e chega ao País em dezembro.

Ela, que já foi capa da revista Forbes e é considerada pela revista a 28ª mulher mais poderosa do mundo, é uma das editoras do site norte-americano especializado em política.

 

 

John Lennon, assassinato completa 30 anos, hoje.

Beatle foi morto a tiros em frente ao edíficio Dakota, em Nova York. Mark Chapman, fã que levou idolatria ao limite do insano, segue preso

Cinco tiros disparados num dia frio de dezembro, em Nova York, há 30 anos, iriam causar uma das maiores tragédias da história da música. Um fã, identificado depois como Mark Chapman, matou o ex-beatle John Lennon, na porta de casa, o famoso edifício Dakota. O mundo custou a acreditar naquela notícia – Lennon era, para muitos, o cérebro pensante dos Beatles e, acima de tudo, o rosto mais visível de uma geração.

Ao contrário de seus contemporâneos, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim MorrisonJohn Lennon não morreu devido ao abuso de drogas, mas confirmou a “maldição dos J” no rock. John foi viciado em heroína, mas conseguiu se recuperar – livrou-se das drogas, mas não escapou do fanatismo e da doença mental de Chapman. Quando morreu, aos 40 anos, ele estava limpo e havia abandonado a exposição pública, para se transformar em um homem dedicado à família.

Lennon rompeu com os Beatles em 1970 e, durante a década seguinte, desenvolveu um trabalho solo. O casamento com a artista plástica japonesa Yoko Ono marcou essa nova fase, na qual John ganhou visibilidade como ativista político, personificando o idealismo libertário dos anos 60 e 70.

A inquietação do artista diante do comportamento da sociedade e do governo era contestada por meio de intervenções pacifistas, como a “bed-in”, na qual pregou o fim da guerra do Vietnã em uma cama, ao lado da esposa.

Em novembro de 1980, após cinco anos sem lançar um álbum, John retomou sua carreira musical e lançou “Double fantasy”, marcado pela parceria com Yoko.

A morte na porta de casa


No mês seguinte, no dia 8 de dezembro, o músico saiu de casa no edifício Dakota para trabalhar no estúdio Record Plant. Logo em seguida, foi abordado por um fã que lhe pediu um autógrafo no novo LP. John atendeu ao pedido e foi gentil com o homem que, horas mais tarde, iria lhe tirar a vida. Ao voltar para casa, onde iria pôr o filho Sean para dormir, foi assassinado na frente do prédio por Mark Chapman.

Mark tinha fixação por John. Imitava o ídolo constantemente e chegou até mesmo a se casar com uma japonesa mais velha, assim como Yoko. A idolatria afetou sua saúde mental e ele perdeu a noção da realidade: ao pedir demissão, assinou John Lennon, ao invés de escrever seu nome verdadeiro.

O fã planejou o ataque por acreditar que o ídolo era uma farsa e que não merecia viver, pois havia aderido a práticas consumistas e não agia mais conforme pregava em seus atos como militante pacifista. Chapman acreditava que o autor de “Imagine” e “Give peace a chance” não poderia viver em um prédio luxuoso como o Dakota e não merecia mais viver.

O assassino não fugiu do local e ficou parado, sem qualquer reação. Trazia o clássico “O apanhador no campo de centeio”, de J.D. Salinger, um livro que marcou gerações. O homem que matou Lennon foi condenado à prisão perpétua e está preso desde dezembro de 1980.

Arrependimento, sim; perdão, não


Treze anos depois, Chapman disse, em entrevista, que estava arrependido, mas não ousava pedir perdão, pois tinha dimensão do dano que sua atitude gerou. Em 2000, ele recorreu pela primeira vez e pediu a liberdade condicional, mas os argumentos contrários de Yoko Ono convenceram a Justiça a não conceder o benefício. Este ano, o sexto pedido de Chapman teve a mesma reação negativa.

Ao atirar em John Lennon, Mark Chapman também impediu o retorno dos Beatles, que sempre foi aguardado pelos fãs, após o fim do grupo em 70. Mas o interesse pela banda de Liverpool atravessa gerações e serve como uma espécie de elo de ligação entre gerações – avós, pais e netos ainda se encantam com a música dos “Fab Four” .

O recente lançamento do “The Beatles: Rock Band”, do game Guitar Hero, evidencia o fenômeno de vendas que sobrevive ao tempo, quase meio século depois. Finalmente liberados para venda na loja virtual iTunes, os discos dos Beatles voltaram ao topo das paradas do mercado digital.

A sobrevida da beatlemania ficou evidente também nos recentes shows de Paul McCartney no Brasil. Famílias lotaram os estádios e se emocionaram no espetáculo solo do principal parceiro de Lennon. Paul arrancou lágrimas do público ao dedicar a música “Here, Today” ao amigo John: “and if I say I really knew you well/ what would your answer be/ if you were here today…”.

g1.

O BURACO do ESPELHO de arnaldo antunes / são paulo

 

 

o buraco do espelho está fechado

agora eu tenho que ficar aqui

com um olho aberto, outro acordado

no lado de lá onde eu caí


pro lado de cá não tem acesso

mesmo que me chamem pelo nome

mesmo que admitam meu regresso

toda vez que eu vou a porta some


a janela some na parede

a palavra de água se dissolve

na palavra sede, a boca cede

antes de falar, e não se ouve


já tentei dormir a noite inteira

quatro, cinco, seis da madrugada

vou ficar ali nessa cadeira

uma orelha alerta, outra ligada


o buraco do espelho está fechado

agora eu tenho que ficar agora

fui pelo abandono abandonado

aqui dentro do lado de fora

 

JUÍZO FINAL de aristêo seixas / são paulo

Raive o sol, pulse a dor, lateje o grito,

E o fel tragado seja, gole a gole.

Todo o amor, todo o bem seja proscrito,

Todo o perfume deste chão se evole…


Caia de cima o aerólito e, bendito,

Esmigalhando vá prole por prole…

E embaixo, a atroar em chamas o infinito,

Pedra por pedra sobre pedra role..

.

Senhor meu Deus! são vendilhões: matai-os!

Em vão se estorça a humanidade espúria!

E veja cada qual, nessa hora incerta,


O céu, em ódio, desprendendo raios,

O mar cuspindo vagalhões em fúria

E a terra inteira em túmulos aberta!…

Marx nas bancas, quem diria! – por amilcar neves / ilha de santa catarina


Passei segunda-feira numa banca de jornais na Trindade e comprei uma edição encadernada de Marx, O Capital. Simples assim: passar na banca, pegar o livro maldito, pagar R$ 17,90 e sair com ele debaixo do braço, sem embrulhar nem enfiar num saco plástico. Simples e inofensivo.


Mas houve época, neste País, em que Karl Marx era palavrão dos mais horrendos. Dava cadeia. Sem metáfora: dava cana apenas citar Marx. Ou falar do marxismo, discutir o comunismo, defender o socialismo ou, simplesmente, ler O Capital. Ou melhor: ter O Capital em casa. Sair com ele à rua tornava a empreitada uma operação de alto risco, uma temeridade, uma irresponsabilidade, um desafio imprudente à ditadura que campeava por estas terras – e também, depois, por terras vizinhas.


Bananas, por exemplo, o quarto filme dirigido por Woody Allen, coisa lá de 1971, só pude assistir no Uruguai, ainda democrático, porque no Brasil foi proibido pelos militares. Conforme a Wikipédia, “Fielding Mellish (Woody Allen) vai para San Marcos, uma republiqueta na América Central, e lá se une aos rebeldes e, no final das contas, se torna o presidente do país.” O fator subversivo no filme, para a nossa censura oficial, é que Allen usa barba e veste-se como Fidel, Che e o pessoal de Cuba que… derrubou uma ditadura apoiada pelo governo dos Estados Unidos – ou seja, seu personagem é um perigoso marxista em potencial.


Nesse aspecto, livros, filmes, canções, jornais, peças de teatro e quaisquer manifestações culturais que discutissem a realidade eram colocados lado a lado com revistas como Status e Playboy: estas somente poderiam circular se, nas fotos, os mamilos das mocinhas fossem borrados, mostrados sem nitidez – além de não poderem aparecer dois bicos de seio na mesma foto. Tudo para respeitar a tradição de um povo que nunca falava em sexo e, se o praticava, só o fazia no escuro da sua privacidade, e para defender a família brasileira, a “célula-mater da sociedade”, como gostavam de dizer, violentamente ameaçada pelo comunismo internacional.


Depois, como a situação política foi se deteriorando (do ponto de vista da ditadura), as revistas de mulher pelada foram sendo liberadas até o inimaginável nu frontal – para distrair as massas, ocupando-as a fim de não criticarem o governo.


Marx e as manifestações artísticas hostis, entretanto, continuaram censurados.


DÉCIO PIGNATARI: ” SOU CONTRA NACIONALISMOS ESTREITOS ” /curitiba


ENTREVISTA COM O PROFESSOR, POETA, ENSAÍSTA E TRADUTOR DÉCIO PIGNATARI:

CORREIO BRASILIENSE – Além da poluição, houve outros motivos para o senhor deixar São Paulo?

DÉCIO PIGNATARI – Achava que o intelectual brasileiro não tinha condições de ser intelectual. Quer dizer, ter um lugar onde pudesse trabalhar e pensar, mesmo. O intelectual sempre mistura tudo, tudo na mesma cidade, casa, família… Eu sempre preferi o modo europeu de ser intelectual. Ou seja, tem-se uma vida cotidiana e, se precisa trabalhar, escolhe-se um lugar, procura-se um lugar. Já nos anos 70, comecei a deixar São Paulo. Tinha agência de publicidade e tinha que tomar decisão: ou me tornava publicitário ou virava escritor. A questão era: como iria sobreviver na vida? Aí, falei: não vou ficar mais correndo atrás de clientes. Fechei a agência e o Antônio Candido aceitou minha orientação para o doutorado. Então, reformei garagem na casa do meu sogro, em Carapicuíba, cidade que fica a 30 quilômetros de São Paulo. Lá montei meu estúdio, para lá levei meus livros. Ficava lá nas férias, nos finais fim de semana, lá concluí minha tese de doutorado, intitulada Semiótica e Literatura. Mas São Paulo então já era insuportável. Começava a ficar feia, caótica.

CORREIO – São Paulo, então, é um projeto esgotado?

Pignatari – Não é que esteja esgotada, vai ter que sofrer cirurgias drásticas. A única coisa nos últimos anos que tentou pôr um pouco de ordem no meio do caos foi o metrô. Era a única coisa organizada. O resto, por desgraça de maus governantes, vai levar algum tempo e custará alguns bilhões de dólares para entrar em ordem. Já não suportava mais a poluição, comecei a fugir. E, graças à universidade – eu lecionava em duas, na Universidade de São Paulo (FAU) e na PUC-SP, no curso de Pós-Graduação – pude fazer o que queria: não ganhava muito dinheiro, mas tinha o suficiente, um ambiente minimamente organizado e um tempo organizado. Então, podia trabalhar no contrafluxo, fugir daquele trânsito pavoroso. Ia e voltava e, nos fins de semana, fugia para meu estúdio. Em seguida, me cansei e resolvi: não queria mais viver numa cidade assim. Tratei de comprar um terreno, longe, achei algo que me agradou em Morongaba, 100 quilômetros a nordeste de São Paulo, às margens do rio Jaguari. Lá ergui a minha casa, o meu estúdio, onde costumava pintar meus quadros, e pude acomodar meus dois mil livros e meus discos. Praticamente, não ficava mais em São Paulo.

CORREIO – O senhor utiliza computador para produzir?

Pignatari – Minha companheira é quem opera com agilidade o computador. Quando preciso de algo, ela faz para mim. Continuo, por enquanto, escrevendo à máquina. O que parece ser grande contradição, afinal sempre preguei esse negócio do computador. A verdade é que não gosto de trabalhar com amadores. E não gosto de ser amador. Trabalho com profissionais. Então tenho amigos que são programadores visuais, que são designers, que operam computadores muito bem. Então, prefiro fazer o layout de meus trabalhos e eles, gente como Chico Homem de Mello, resolvem.

CORREIO – Curitiba, para quem vem de São Paulo, não pode parecer um tanto quanto isolada?

Pignatari – E é mesmo. Mas hoje, não se esqueça, você vive em rede, e Curitiba não é retiro, não é ilha. Depois, digamos assim, para esnobar… eu não tenho interesse em ir a São Paulo ou ao Rio. Ver o quê? Uma orquestra? Meu prazer é ir a Paris. Eu gosto de viajar para o Exterior. Ano passado, fiquei lá em Paris, na Provença, no norte da Itália. E, como os museus de lá compram poesia visual, acabei vendendo certos poemas. Ganhei US$ 3 mil com o trabalho e pude passear em Veneza à vontade.

CORREIO – E Curitiba supre todas as suas necessidades? Como o senhor conheceu a cidade?

Pignatari – Eu não podia ir para um lugarejo qualquer, me fechar no mato, quando saí de São Paulo. Não sou bem do tipo. Nem minha mulher. Precisava ir para um lugar que tivesse infra-estrutura escolar, bons serviços de saúde. Vi Curitiba crescer, em 1967. Era uma cidadezinha provinciana. Vinha muito para cá. Fazia conferências. E também tinha o poeta Paulo Leminski. Eu o conhecia desde os 17 anos, quando fizemos uma grande exposição de poesia de vanguarda em Minas Gerais, na Universidade Federal de Minas Gerais, que foi organizada pelo Afonso Ávila. Foram mais de 100 trabalhos, era 1963, 1964. E o Leminski apareceu lá, moleque ainda. Foi em busca da informação. Pegando ônibus, carona. E nos conhecemos. Depois, aparecia em São Paulo, às vezes vestido de judoca, às vezes puxando um fumo. E de vez em quando eu vinha aqui, visitá-lo. A gente era amigo, estávamos sempre juntos. Depois, ele se ligou a outras coisas, começou a fazer sucesso, a compor letras para a música popular. E, quando ele foi a última vez à TV Bandeirantes, ele era produtor de textos e eu participava do Jornal de Vanguarda, que estava começando. Mas ele sumiu e morreu poucos meses depois… bebida, álcool. Ele bebia tudo que era porcaria, bebidas horríveis, drogas.

CORREIO – O senhor vê algum momento na história das duas cidades, São Paulo e Curitiba, que as aproxime?

Pignatari – Há uma momento, sim. O momento durante a última guerra em que, logo depois, comecei a publicar ascoisas. São Paulo tinha então seis jornais, hoje praticamente só tem dois – O Estadão e a Folha. São Paulo tinha um certo jeito ainda europeu e se americanizava aos poucos. Mas havia uma linguagem comum. O viaduto do Chá falava a mesma linguagem arquitetônica do estádio do Pacaembu. E quando a guerra terminou, São Paulo tinha a mesma população que Curitiba tem hoje.

CORREIO – E Curitiba pode ser o que São Paulo foi, neste momento?

Pignatari – Curitiba não tem ainda um elevado público consumidor de arte. O público não tem grande repertório. São Paulo sempre teve uma elite. Logo depois da guerra, havia grandes movimentos de retomada da arte e da liberdade e São Paulo liderou essas movimentações e atraía muita gente. E, apesar disso, a cidade nunca foi favorável à poesia concreta, necessariamente não. Quando se expôs arte concreta pela primeira vez, em dezembro de 1956, não houve grande repercussão. Foi no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1957, em mostra no Ministério da Educação e Cultura, que o concretismo explodiu. Teve grande cobertura do Jornal do Brasil, graças ao Mário Faustino e a uma visão nova que o jornal trazia para Imprensa cultural brasileira. Quanto a Curitiba, acho que está vivendo um momento de boom. Acredito que esta cidade se torne brevemente um grande centro cultural.

CORREIO – Brasília poderia desenvolver-se de forma semelhante?

Pignatari – O problema no Brasil, como sempre, é que o país não sabe crescer bem. As pessoas não percebem que crescimento implica crise. Quem não sabe, se estoura. Veja os casos de Maradona, do Edmundo, casos exemplares de figuras públicas que não souberam lidar com a fama, com o crescimento. E as cidades sabem menos ainda lidar com o crescimento. Brasília ainda preserva o Plano Piloto, mas não conseguiu desenvolver projeto que consiga comportar os 2 milhões de habitantes que tem hoje.

CORREIO – Qual o seu propósito atualmente?

Pignatari – Vivo em função da obra e, por destino, ou por propósito, tenho que realizá-la. Então, é um jogo contínuo, que já dura décadas e décadas, entre tentar viver e tentar fazer a obra. Uma obra que eu me proponho a fazer no sentido de inovação. Não é inovar a obra. Meu reinado é o mundo da linguagem, verbal e não-verbal. Quero tentar colocar a literatura e o pensamento do Brasil em nível internacional. Quero o Brasil internacional, como o futebol é. Sem medo de encarar ninguém. Sou contra os nacionalismos estreitos.

Décio Pignatari

ARTE TOTAL – por alexandre freitas / são paulo

Parece pretensioso. E é. Lideradas pela música, todas as artes deveriam se fundir para se tornar a “arte do futuro”, Gesamtkunstwerk (obra de arte total). Uma ideia de Richard Wagner, primeiro aplaudida e depois vaiada por seu maior apreciador e seu maior crítico, Friedrich Nietzsche.

Mas não foi o compositor alemão o primeiro a acreditar e a buscar correspondências entre materiais artísticos diferentes. Desde Isaac Newton persegue-se, por diversos caminhos, a utopia de uma fusão entre cores e sons. Tenta-se encontrar o lugar secreto onde as coisas se assemelham em suas essências, em suas origens e em seus fins. Kandinsky, em Do Espiritual na Arte (Martins Fontes), queria que substituíssemos as correspondências exteriores, materiais e fáceis, por ressonâncias interiores, puras e profundas. As emoções não deveriam ser acústicas, visuais, olfativas etc, e sim “puramente espirituais”.

A Cidade da Música de Paris apresentou na última semana uma série de três concertos ligados pelo tema da Arte Total. Cada apresentação trazia no programa pelo menos uma obra que tentava cruzar ou construir algum elo mais profundo entre as dimensões sonoras e visuais.

A primeira obra foi encomendada e estreada pelo Ensemble Intercontemporain, o célebre grupo especializado em música contemporânea fundado por Pierre Boulez e atualmente dirigido por Bruno Mantovani. Objetos Impossíveis I e II (2010), compostos por DmitriKourliandski, tinham como conceitos norteadores a sobressaturação e a tensão, respectivamente. Não havia propriamente notas, mas efeitos instrumentais de todo tipo: pressão, sopros, atritos nas cordas, nas madeiras e nos metais que constroem os instrumentos. Esses sons eram captados por microfones e se tornavam imagens, depois de convertidos e manipulados em tempo real por dois vídeos artistas: Pedro Mari e Natan Sinigaglia. Nessas imagens, os conceitos gerais das obras se manifestavam em formas abstratas que reagem aos ruídos e sons provocados pelos músicos. Os objetos eram impossíveis, de acordo com o compositor, porque seu objetivo era fazer uma obra em que a subjetividade deveria ser deixada de lado. O forte impacto inicial daqueles efeitos musicais e visuais era substituído por um certo tédio por parte do público que, maldosamente, vaiou a obra. Faltava narratividade, uma historinha imaginária que estamos acostumados (nem sempre nos damos conta) a construir quando escutamos uma música, mesmo as puramente instrumentais. Mas a intenção do artista era somente a de sobressaturar e criar tensões, logo, ela foi muito bem sucedida.

No segundo concerto a obra escutada e vista foi Quadros de uma Exposição (1874), de ModestMussorgsky, acompanhada de animações dos esboços dos quadros que Kandinsky realizou para ilustrar a música de seu conterrâneo russo. Sobre o pianista Mikhail Rudy eram projetados os desenhos geométricos de Kandinsky desmontados e montados com a intenção de uma sincronia que quase nunca acontecia. As imagens e os sons interagiam, é verdade, mas a música parecia sair enfraquecida e não era nunca complementada por todas aquelas imagens.

O ciclo Arte Total se encerrou ontem com o Prometeu (1911) de Alexander Scriabin, poema sinfônico para piano, grande orquestra e luce, um órgão que projeta cores. Com Roger Muraro no piano e a orquestra de Lyon dirigida por JunMärkl, os feixes de luz que cortavam o fundo do palco interferiam na nossa percepção, colorindo e ampliando os efeitos de uma música. Embalado pelos ideais teosóficos e por uma suposta sinestesia do autor, Prometeu estabelece relações diretas entre as notas, as cores e estados de espírito. O interessante é que, independente dessas relações serem captadas ou não, o interesse da obra musical e os efeitos visuais é mantido na sua quase meia hora de duração. A obra terminou com uma luz violeta projetada em parte do público. Violeta representa a força criativa, acabei de ver na contracapa da partitura…

E assim a arte musical vai flertando com as artes vizinhas e revelando, por vezes, suas semelhanças secretas. A realidade da utopia da arte total se instaura. Mesmo que fugidiamente.

Alexandre Freitas

Alexandre Freitas é pianista e musicólogo graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre pela Universidade de Toulouse. Alexandre Freitas faz doutorado em Música na Universidade de São Paulo e na Sorbonne, em regime de dupla titulação. Sua tese gira em torno das convergências entre estéticas musicais e visuais. A coluna Visões Musicais é um espaço de reflexões livres sobre músicas, músicos e arte, de maneira geral.

 

DILMA ROUSSEFF, entrevista ao WASHINGTON POST / brasilia

No Brasil, de prisioneira a Presidente

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Por Lally Weymouth – segunda-feira, 06 de dezembro 2010
Tradução de Paula Marcondes e Josi Paz, revisão de Idelber Avelar.
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dilma-3.jpgTer sido uma presa política lhe dá mais empatia com outros presos políticos?
Sem dúvida. Por ter experimentado a condição de presa política, tenho um compromisso histórico com todos aqueles que foram ou são prisioneiros somente por expressarem suas visões, sua opinião pública, suas próprias opiniões. 

Então, isso afetará sua política em relação ao Irã, por exemplo? Por que o Brasil apóia um país que permite o apedrejamento de pessoas, que prende jornalistas?
Acredito que é necessário fazermos uma diferenciação no [que queremos dizer quando nos referimos ao Irã]. Eu considero [importante] a estratégia de construir a paz no Oriente Médio. O que vemos no Oriente Médio é a falência de uma política – de uma política de guerra. Estamos falando do Afeganistão e do desastre que foi a invasão ao Iraque. Não conseguimos construir a paz, nem resolver os problemas do Iraque. Hoje, o Iraque está em guerra civil. Todos os dias, morrem soldados dos dois lados. Tentar trazer a paz e não entrar em guerra é o melhor caminho.
[Mas] eu não endosso o apedrejamento. Eu não concordo com práticas que possuem características medievais [quando se trata de] mulheres. Não há nuances; não faço concessões nesse assunto.

O Brasil se absteve em votar na recente resolução sobre os direitos humanos na ONU .
Eu não sou Presidente do Brasil [hoje], mas eu me sentiria desconfortável, como mulher eleita Presidente, não dizendo nada contra o apedrejamento. Minha posição não vai mudar quando eu assumir o cargo. Eu não concordo com a forma em que o Brasil votou. Não é minha posição.

Muitos norte-americanos sentiram empatia pelo povo iraquiano que se rebelou nas ruas. Por isso me pergunto se sua posição sobre o Irã seria diferente daquela do seu atual Presidente, que possui boa relação com o regime iraquiano.
O Presidente Lula tem seu próprio histórico. Ele é um presidente que defendeu os direitos humanos, um presidente que sempre apoiou a construção da paz.

Como a Sra. vê a relação do Brasil com os EUA? Como gostaria de vê-la evoluir?
Considero a relação com os EUA muito importante para o Brasil. Tentarei estreitar os laços. Eu admirei muito a eleição do Presidente Obama. Acredito que os EUA revelaram uma grande capacidade de mostrar que são uma grande nação, e isso surpreendeu o mundo. Pode ser muito difícil ser capaz de eleger um Presidente negro nos os EUA – como era muito difícil eleger uma mulher Presidente do Brasil.

Eu acredito que os EUA têm uma grande contribuição a dar ao mundo. E, acima de tudo, acredito que o Brasil e os EUA têm um papel a cumprir juntos no mundo. Por exemplo, temos um grande potencial para trabalhar juntos na África, porque na África podemos construir uma parceria para disponibilizar tecnologias agrícolas, produção de biocombustíveis e ajuda humanitária em todos os campos.

Também acredito que, neste momento de grande instabilidade por causa da crise global, é fundamental que encontremos formas que garantam a recuperação das economias dos países desenvolvidos, porque isso é fundamental para a estabilidade do mundo. Nenhum de nós no Brasil ficará confortável se os EUA mantiverem altos índices de desemprego. A recuperação dos EUA é importante para o Brasil porque os EUA têm um mercado consumidor fantástico. Hoje, o maior superávit comercial dos EUA é com o Brasil. 

A Sra. culpa o afrouxamento monetário [quantitative easing] por isso?
O afrouxamento monetário é um fato que nos preocupa muito, porque significa uma política de desvalorização do dólar que tem efeitos sobre o nosso comércio exterior e também na desvalorização da nossas reservas de divisas, que são em dólares. Para nós, uma política de dólar fraco não é compatível com o papel que os EUA têm, já que a moeda dos EUA serve como reserva internacional. E uma política sistemática de desvalorização do dólar pode provocar reações de protecionismo, que nunca é uma boa política a ser seguida.

Quando a Sra. planeja visitar os EUA? Sei que foi convidada para antes de sua posse, em 1º de janeiro, mas não podia ir.
Eu não estou aceitando os convites que recebo. Não estou visitando países estrangeiros. Tenho que montar o meu governo. Tenho 37 ministros para nomear. Estou planejando visitar o Presidente Barack Obama nos primeiros dias após minha posse, se ele me receber.

Então a Sra. convidará o Presidente Obama para vir ao Brasil?
Nós já o convidamos informalmente, durante a reunião do G-20.

Há preocupações na comunidade empresarial dos EUA sobre se o Brasil continuará o caminho econômico definido pelo Presidente Lula.
Não há dúvida sobre isso. Por quê? Porque para nós foi uma grande conquista do nosso país. Não é uma conquista de uma única administração – é uma conquista do Estado brasileiro, do povo de nosso país. O fato de que conseguimos controlar a inflação, ter um regime de câmbio flexível e ter a consolidação fiscal de forma que, hoje, estamos entre os países com a menor relação dívida / PIB do mundo. Além disso, temos um déficit não muito significativo. Não quero me gabar, mas temos um déficit de 2,2 por cento. Pretendemos, nos próximos quatro anos, reduzir a proporção dívida / PIB para garantir essa estabilidade inflacionária.

A Sra. disse publicamente que gostaria de ver as taxas de juro caírem. A Sra. irá cortar o orçamento ou reduzir o aumento anual de gastos do governo?
Não há como cortar as taxas de juros a menos que você reduza seu déficit fiscal. Somos muito cautelosos. Temos um objetivo em mente: que as nossas taxas de juros sejam convergentes com as taxas de juros internacionais. Para conseguir chegar lá, um dos pontos mais importantes é a redução da dívida pública. Outra questão importante é melhorar a competitividade de nossos setores agrícola e de manufatura. Também é muito importante que o Brasil racionalize seu sistema fiscal.

Se a Sra. quer baixar as taxas de juros, a Sra. tem que cortar os gastos ou aumentar a economia doméstica.
Você não pode se esquecer do crescimento econômico. Você tem que combinar muitas coisas.

Qual é seu plano?Meu plano é continuar a trajetória que seguimos até aqui. Conseguimos reduzir nossa dívida de 60% para 42%. Nosso objetivo é atingir 30% do PIB. Eu preciso racionalizar os meus gastos e, ao mesmo tempo, ter um aumento do PIB, que leve o país adiante.

Então o que a Sra. quer dizer com “racionalizar gastos”?
Não estamos em uma recessão aqui. Nós não temos que cortar os gastos do governo. Nós vamos cortar despesas, mas vamos continuar a crescer.
Estamos seguindo um caminho muito especial. Este é um momento no qual o país está crescendo. Temos estabilidade macroeconômica e, ao mesmo tempo, muito orgulho do fato de que conseguimos reduzir a extrema pobreza no Brasil.
Trouxemos 36 milhões de pessoas para a classe média. Tiramos 28 milhões da pobreza extrema. Como conseguimos isso? Políticas de transferência de renda. O Bolsa Família é um dos maiores exemplos.

Explique como funciona o Bolsa Família.
Pagamos um estipêndio, que é uma renda para os pobres. Eles recebem um cartão e sacam o dinheiro, mas têm duas obrigações a cumprir: colocar seus filhos na escola e provar que eles comparecem a 80% das aulas. Ao mesmo tempo, as crianças também devem receber todas as vacinas e passar por uma avaliação médica quando recebem as vacinas. Esse foi um fator, mas não foi o único.
Criamos 15 milhões de novos empregos durante a administração do Presidente Lula. Este ano, já criamos 2 milhões de novos empregos.

A Sra. é tão próxima do Presidente Lula. Será mesmo diferente ou apenas uma continuação da administração dele?
Eu acredito que minha administração será diferente da do Presidente Lula. O governo do Presidente Lula, do qual fiz parte, construiu uma base a partir da qual vou avançar. Não vou repetir a administração dele porque a situação no país hoje é muito melhor do que era em 2002.

Eu tenho os programas governamentais em andamento, que ajudei a desenvolver, como o chamado Minha Casa, Minha Vida, que é um programa de habitação.

Meus desafios são outros. Vou ter que solucionar questões como a qualidade da saúde pública no Brasil. Vou ter que criar soluções para problemas de segurança pública.
O Brasil passou por mais de 30 anos sem investir em infra-estrutura em uma quantidade suficiente. O governo do Presidente Lula começou a mudar isso. Eu tenho que resolver as questões rodoviárias no Brasil, as ferrovias, as estradas, os portos e os aeroportos.
Mas há uma boa notícia: descobrimos petróleo em águas profundas. 

A Sra. está sugerindo que essa descoberta irá financiar a infra-estrutura?
Criamos um Fundo Social [no qual] alguns dos recursos do governo oriundos da descoberta do petróleo serão investidos em educação, saúde, ciência e tecnologia.

A Sra. tem que preparar o pais para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas.
Sim, mas eu também tenho outro compromisso, que é acabar com a pobreza absoluta no Brasil. Nós ainda temos 14 milhões na pobreza. Esse é meu maior desafio.

Todos os empresários que conheci em São Paulo disseram que precisam estar muito preparados para as reuniões com a Sra., porque a Sra. conhece bem a maioria dos projetos.
Sim, é verdade. Eu acho que é uma característica feminina. Nós apreciamos os detalhes. Eles, não.

O que significa, para a Sra., ser a primeira mulher Presidente do Brasil?
Até eu acho incrível.

Quando a Sra. decidiu que queria ser Presidente?
Foi um processo. Não há uma data. Comecei a trabalhar com o Presidente Lula e ele começou a dar algumas dicas sobre eu vir a ser indicada à presidência, mas ele não foi claro no começo. Foi uma grande honra para mim, mas eu não estava esperando.

A partir do momento que ficou claro para mim que eu seria indicada, dois anos atrás, eu sabia que tínhamos criado as condições adequadas para tornar possível a vitória nas eleições. O Presidente Lula teve uma excelente administração e o povo brasileiro reconheceu e admitiu isso. Somos uma administração diferente – nós ouvimos o povo. 

A Sra. recentemente lutou contra o câncer.
Sim, mas acredito que consegui lidar bem com isso. As pessoas têm que saber que o câncer pode ser curado. Quanto mais cedo você descobre, melhores suas possibilidades de cura. É por isso que a prevenção é importante. . . Acredito que o Brasil estava preparado para eleger uma mulher. Por quê? Porque as mulheres brasileiras conquistaram isso. Eu não cheguei aqui sozinha, só pelos meus méritos. Somos a maioria neste país.

A BICICLETA – por ronie von rosa martins

 

 

 

Não. O tempo não estava no movimento. Ele pensava. O tempo estava na bicicleta. Imóvel encostada ao muro.

Sim. O movimento era apenas ilusório, o tempo era além dele. Era imobilidade. Sim.

O muro estático e a bicicleta plantada em suas costas. Sustentação tácita. Amparo. O verbo já não existia. O verbo era distância. De fundo o azul chumbo de um céu imóvel como o tempo. Assim como ele. Estático.

Os aros da roda já não deliravam pelas estradas, mas uma massa de tempo enlouquecida se embrenhava imperceptível por eles. Silencioso enroscava-se no metal da bicicleta, retorcia-o. E ele percebia.

O tempo estava. Antes do movimento. Antes do verbo. Antes da representação do movimento. Antes da representação da fala. Ele.

Os pensamentos tentavam se constituir, mas a densidade temporal era anti-constitucional, e os pensamentos e também os sentimentos mesclavam-se em mechas de tempo e no metal da bicicleta e no barro do muro e na carne que era dele.

Então chorou. Silenciosa a lágrima percorreu pele e carne e porosidades e espaços e lembranças. E fez-se memória e apagou-se-extinguindo-se no silêncio da terra. E não houve outra.

Só a bicicleta muda. E dizia tanto. E gritava tão alto. E o muro permanecia além do próprio muro,visto que agora era lembrança. E também a bicicleta. Verde. Não o muro. Este cinza e velho. Como ele.

Cinza e velho ele percebia o tempo, e a bicicleta e o muro. E se tudo era símbolo. Era ele símbolo. Fechou a mão lentamente e pode sentir o tempo pulsando dentro, e afundar-se na carne e mergulhar pra dentro do corpo. E tudo pulsava e tudo era quente.

Tudo era quente no silêncio da bicicleta.

O movimento já não era necessário. Assim como o muro resolvera ficar. Coisificar-se no tempo. Plantar-se.

Achava que os outros viam por janelas. Ele via fora de casa. Via tudo. E tudo era a bicicleta e o muro. Não havia ilusão, não havia ângulos, só a bicicleta e o muro pendurados no tempo, emoldurados no tempo. De onde estava ainda via os rostos pálidos das gentes que passavam pelas janelas. Viam a delimitação da janela, o limite do olhar e a ilusão do movimento. Não viam nada.

E foi tudo o que viram. Todos eles: Um velho sentado em frente a uma antiga bicicleta escorada a um muro ainda mais antigo que o velho. E só.

 

Vocação para divertir e refletir – por orlando margarido / argentina


Filho de artistas, o argentino Ricardo Darín quer dignificar o ator popular.

Com as gargalhadas da mãe em público, Ricardo Darín perdeu o medo do ridículo. Com a contrariedade do pai ao saber da pretensão artística do filho, a face mais reconhecida do cinema atual argentino quase perdeu a vocação para o estudo das leis. Mas parecia fadado à câmera o rosto desse herdeiro de intérpretes, não propriamente pelos traços finos, mas pelos vincos profundos, ainda talhado por certa rudeza que hoje lhe garante os papéis de um amante à antiga, viril e charmoso.

Darín ri desajeitado quando lhe pedem para comentar a fama de beleza inesperada e faz jus ao humor materno. “Tive muita sorte”, diz. “Com esse nariz e esses dentes, não seria o que sou sem esses olhos azuis.” Viria a calhar aqui um trocadilho com o filme que definitivamente o celebrizou para o mundo, ao menos aquela porção que ainda toma Hollywood como referência de excelência cinematográfica. O Segredo dos Seus Olhos arrematou o Oscar de produção estrangeira deste ano. Darín torceu a distância e deu apenas o peso necessário à celebração.

Antes que tomem a atitude por desprezo ou arrogância, o ator de 53 anos apressa-se em justificar não ser seduzido pelas homenagens. Abre exceções quando a causa lhe parece válida. Foi o caso da Mostra Cinema e Direitos Humanos, evento que em sua quinta edição na capital paulista elegeu Darín como homenageado. Não apenas porque no mais recente filme, Abutres, de Pablo Trapero, ele interpreta um advogado que perdeu a licença e sobrevive de extorquir indenizações das famílias de vítimas do trânsito. Ao revelar, durante um encontro com a imprensa em São Paulo, que a fita, já vista por 700 mil espectadores na Argentina e representante do país no Oscar, provocou uma revisão desse universo escuso e ilegal por parte do governo, Darín também projetou o objetivo de sua presença no festival.

“Trapero mostra seres anônimos em sua luta de vida, em ofícios nem sempre conhecidos. São temas que precisam ser abordados no cinema com naturalidade, pois, quanto mais naturais, mais perto estamos do público.” E completa: “Quando se fala de direitos humanos, parece que se está enviando uma mensagem aos que não compartilham das mesmas ideias. Se somos demais incisivos, o que pode acontecer é uma divisão, e o que queremos é ser compreendidos”.

Articulado e generoso no modo como expõe seu pensamento, em longas explanações, ele é reconhecido internacionalmente por seu perfil popular. Desde os 10 anos de idade, frequentou os estúdios de tevê e de rádio, além do palco, universo do Ricardo Darín pai e da mãe Renée Roxana. “Conheci com eles a cozinha do ofício, como se diz, mas também alguns ensinamentos que acredito responsáveis por uma visão mais clara das coisas. Da minha mãe, muito divertida, veio o humor que acho essencial na vida. Do meu pai, uma postura de que essa mesma vida nunca seria fácil.” Uma das razões da oposição paterna à carreira artística era a pouca estabilidade financeira da família, que não deveria ser perpetuada. Mas foi justamente a falta que lhe fez superar tabus. “Por saber o que é não ter dinheiro, não recusava trabalhos nem me preocupava com prestígio.”

A postura o levou primeiro à teledramaturgia, nas novelas assinadas pelo veterano Alberto Migré. Enquanto se sucediam as peças teatrais, o cinema o capturou de séries de tevê populares, a exemplo de Mi Cuñado, de 1993, mesmo ano do primeiro filme relevante, Perdido por Perdido, embora circunscrito ao sucesso local. Para Darín, contudo, são dois os longas-metragens determinantes de um respeito público e crítico. O primeiro, o bem-sucedido Nove Rainhas (2000), atraiu os olhares argentinos e internacionais sobre ele, incluindo aí a fama inicial no Brasil, status confirmado pela refilmagem por Hollywood, que o intérprete, aliás, deplora. O ano seguinte foi igualmente celebrado com O Filho da Noiva, segunda de uma duradoura e afinada parceria com o diretor Juan José Campanella, que teve início com O Mesmo Amor, a Mesma Chuva (1999) e se seguiu em Clube da Lua (2004) e O Segredo dos Seus Olhos. Naquele momento, a fita foi responsável por colar em definitivo o nome Darín à nova produção comercial argentina.

Para o grupo de produções de Campanella, Darín reserva o elogio do romantismo que tanto lhe agrada no cinema. A ponto de considerar Abutres, com estreia prevista para o dia 3, uma história de amor, antes de tudo. Cinzenta, diríamos nós, mas não ele, que prefere um ponto final assertivo. Sosa, seu personagem, é um golpista de outra maneira do que aquele em Nove Rainhas, e vê a redenção possível ao conhecer a médica de pronto-socorro interpretada por Martina Gusman, mulher de Trapero. O romance de ambos está longe do conto de fadas, com a ética duvidosa de um, os vícios pouco recomendáveis à profissão no caso dela. Darín apenas receia que a proposta do filme se desloque demais para a denúncia social. “É bastante o projeto de Trapero provocar uma discussão em nível nacional, no Congresso, mas não devemos descuidar da escala emocional, do humano.” Para quem ainda duvidar do caráter romântico, e de modo mais amplo, de gênero, na sua visão de cinema, Darín responde com o longa-metragem dirigido por ele em companhia de Martin Hodara. O Sinal é um autêntico noir levado na Buenos Aires de Eva Perón, quando esta agoniza, em que o próprio veste a capa de detetive para se deixar levar pelo mistério da mulher fatal.

Curiosa essa mescla de homem de opiniões formadas, e dignas, ligado a um casamento de duas décadas e pai presente de dois filhos, com o ator que projeta na tela um tipo durão fragilizado por certa carência. Ele não sabe por que o veem assim, mas dá pistas do seu temperamento quando revela as aspirações dos cineastas ideais. Pensa em Woody Allen, embora não esteja certo da regra deste de que metade do sucesso de um filme está na escolha do elenco. Mas recusa Pedro Almodóvar, apesar de ter bom trânsito na Espanha, onde já trabalha. “Eu discuto muito e ele é briguento. Não nos daríamos bem.”

Entre os brasileiros, sua admiração por Walter Salles encontra reciprocidade, pois há projeto de filmarem juntos, talvez contando com o ator Gael García Bernal, uma história de irmãos na Patagônia. Essa colaboração entre vizinhos não foge à apreciação. “Há uma identidade comum na forma como se contam histórias no nosso continente e penso que esse aspecto tem conquistado fama mundial.” Ele fala de uma mistura de sensibilidade e bom humor que, acredita, fez a diferença e foi decisivo para o Oscar de O Segredo dos Seus Olhos. “Quem sabe se pela ingenuidade de países jovens em termos democráticos, temos a vocação de rir de nós mesmos.” Por certo, em sua passagem pelo Brasil, ele próprio foi o melhor intérprete da constatação.

 

Banho de Sol – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Numa manhã fria

tomando sol

num pedaço de quintal

entre uma jabuticabeira

e um resto de horta abandonada,

velhas roseiras

e entulhos.

Fechei meus olhos

fiquei ali,

o ardente amarelo

transpassando

minhas pálpebras fechadas,

inerte,

só sentindo

o calor agradável,

sem pensar em nada,

sem ser nada.

Não existir

foi delicioso.

Quando abri meus olhos,

pensei:

Talvez

a jabuticabeira

seja feliz.

 

 

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA-Secretaria de Direitos Humanos e Maurice Politi, CONVIDAM:

 

 

“POEMINHA DO CONTRA” de mário quintana / porto alegre

O fato de não ter ocupado uma vaga na Academia Brasileira de Letras só fez o poeta Mário Quintana ( 1906-1994) aguçar seu conhecido humor e sarcasmo. Perdida a terceira indicação para aquele sodalício, compôs o conhecido “Poeminha do Contra”, onde mostra que acreditava que enquanto os imortais da Academia serão esquecidos, seus versos são simplesmente livres…

 

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Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

 

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MIRIAM SANTOS convida para “SVEGLIA” / ilha de santa catarina

MILLÔR FERNANDES, pensando…

CHICO BUARQUE vale mais como escritor do que EDNEY SILVESTRE – por euler de frança belem / são paulo

 

Quem deveria ter ido para a Academia Brasileira de Letras: o político Juscelino Kubitschek, que não sabia escrever e tinha alguns ghost-writers, ou o escritor Bernardo Élis, que, ao contrário do concorrente, escrevia seus próprios livros? Bernardo Élis, é claro, mereceu ser eleito para a ABL. Porque era o escritor de fato e de direito. Uma vitória de JK teria a ver apenas com política, com um ataque inútil à ditadura civil-militar. Se a ditadura ajudou Élis, palmas para a ditadura: fez a coisa certa.

O mesmo ocorre agora. Chico Buarque ou Edney Silvestre: quem deveria ter faturado o Prêmio Jabuti/Livro do Ano de Ficção? Pela lógica, por ter levado o Prêmio Jabuti de Melhor Romance (Chico ficou em segundo lugar), Edney, autor de um único romance, “Se Eu Fechar os Olhos Agora”, e recém-chegado ao “clube” dos escritores, deveria ter sido o premiado. Mas, comparando romance com romance, não há dúvida de que Chico Buarque é muito mais escritor e “Leite Derramado”, que levou o Jabuti de Livro do Ano de Ficção, tem mais qualidades literárias. Edney pode até ser uma promessa, mas seu livro é frágil como romance, mesmo se visto tão-somente como romance policial. Chico, que não me agrada muito como escritor (filho tardio do nouveau roman), é muito mais senhor da forma-romance do que o ótimo repórter global. Então, mesmo errando, o Jabuti premiou o melhor escritor. Houve ingerência político-editorial? É possível. Tanto que, em Portugal, Chico levou o Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010, com o mesmo romance, “Leite Derramado”. Mas quem vai faturar mesmo com a história, depois de tudo, será Edney. Apesar de trabalhar na Globo e de ter arrancado resenhas elogiosas, talvez de críticos que nem leram o livro mas quiseram agradar o simpático global, que sempre entrevista escritores e críticos literários, Edney é um prosador desconhecido, de qualidade discutível, e sua obra certamente seria ignorada. Agora, pelo barulho que fizeram, vai ser lida e o autor vai se tornar tão conhecido quanto Chico. Ele pegou uma boa carona na garupa do escritor-compositor.

Depois de ter declarado voto em Dilma Rousseff, não será surpresa se o governo brasileiro apresentar o nome de Chico como candidato ao Prêmio Nobel de Literatura nos próximos quatro anos.

Como escritor, Chico continua excelente compositor, superado, talvez, apenas por Noel Rosa. É o gênio mais refinado da música popular brasileira, acima, duas notas, de João Gilberto e Tom Jobim.