Arquivos Diários: 7 dezembro, 2010

DÉCIO PIGNATARI: ” SOU CONTRA NACIONALISMOS ESTREITOS ” /curitiba


ENTREVISTA COM O PROFESSOR, POETA, ENSAÍSTA E TRADUTOR DÉCIO PIGNATARI:

CORREIO BRASILIENSE – Além da poluição, houve outros motivos para o senhor deixar São Paulo?

DÉCIO PIGNATARI – Achava que o intelectual brasileiro não tinha condições de ser intelectual. Quer dizer, ter um lugar onde pudesse trabalhar e pensar, mesmo. O intelectual sempre mistura tudo, tudo na mesma cidade, casa, família… Eu sempre preferi o modo europeu de ser intelectual. Ou seja, tem-se uma vida cotidiana e, se precisa trabalhar, escolhe-se um lugar, procura-se um lugar. Já nos anos 70, comecei a deixar São Paulo. Tinha agência de publicidade e tinha que tomar decisão: ou me tornava publicitário ou virava escritor. A questão era: como iria sobreviver na vida? Aí, falei: não vou ficar mais correndo atrás de clientes. Fechei a agência e o Antônio Candido aceitou minha orientação para o doutorado. Então, reformei garagem na casa do meu sogro, em Carapicuíba, cidade que fica a 30 quilômetros de São Paulo. Lá montei meu estúdio, para lá levei meus livros. Ficava lá nas férias, nos finais fim de semana, lá concluí minha tese de doutorado, intitulada Semiótica e Literatura. Mas São Paulo então já era insuportável. Começava a ficar feia, caótica.

CORREIO – São Paulo, então, é um projeto esgotado?

Pignatari – Não é que esteja esgotada, vai ter que sofrer cirurgias drásticas. A única coisa nos últimos anos que tentou pôr um pouco de ordem no meio do caos foi o metrô. Era a única coisa organizada. O resto, por desgraça de maus governantes, vai levar algum tempo e custará alguns bilhões de dólares para entrar em ordem. Já não suportava mais a poluição, comecei a fugir. E, graças à universidade – eu lecionava em duas, na Universidade de São Paulo (FAU) e na PUC-SP, no curso de Pós-Graduação – pude fazer o que queria: não ganhava muito dinheiro, mas tinha o suficiente, um ambiente minimamente organizado e um tempo organizado. Então, podia trabalhar no contrafluxo, fugir daquele trânsito pavoroso. Ia e voltava e, nos fins de semana, fugia para meu estúdio. Em seguida, me cansei e resolvi: não queria mais viver numa cidade assim. Tratei de comprar um terreno, longe, achei algo que me agradou em Morongaba, 100 quilômetros a nordeste de São Paulo, às margens do rio Jaguari. Lá ergui a minha casa, o meu estúdio, onde costumava pintar meus quadros, e pude acomodar meus dois mil livros e meus discos. Praticamente, não ficava mais em São Paulo.

CORREIO – O senhor utiliza computador para produzir?

Pignatari – Minha companheira é quem opera com agilidade o computador. Quando preciso de algo, ela faz para mim. Continuo, por enquanto, escrevendo à máquina. O que parece ser grande contradição, afinal sempre preguei esse negócio do computador. A verdade é que não gosto de trabalhar com amadores. E não gosto de ser amador. Trabalho com profissionais. Então tenho amigos que são programadores visuais, que são designers, que operam computadores muito bem. Então, prefiro fazer o layout de meus trabalhos e eles, gente como Chico Homem de Mello, resolvem.

CORREIO – Curitiba, para quem vem de São Paulo, não pode parecer um tanto quanto isolada?

Pignatari – E é mesmo. Mas hoje, não se esqueça, você vive em rede, e Curitiba não é retiro, não é ilha. Depois, digamos assim, para esnobar… eu não tenho interesse em ir a São Paulo ou ao Rio. Ver o quê? Uma orquestra? Meu prazer é ir a Paris. Eu gosto de viajar para o Exterior. Ano passado, fiquei lá em Paris, na Provença, no norte da Itália. E, como os museus de lá compram poesia visual, acabei vendendo certos poemas. Ganhei US$ 3 mil com o trabalho e pude passear em Veneza à vontade.

CORREIO – E Curitiba supre todas as suas necessidades? Como o senhor conheceu a cidade?

Pignatari – Eu não podia ir para um lugarejo qualquer, me fechar no mato, quando saí de São Paulo. Não sou bem do tipo. Nem minha mulher. Precisava ir para um lugar que tivesse infra-estrutura escolar, bons serviços de saúde. Vi Curitiba crescer, em 1967. Era uma cidadezinha provinciana. Vinha muito para cá. Fazia conferências. E também tinha o poeta Paulo Leminski. Eu o conhecia desde os 17 anos, quando fizemos uma grande exposição de poesia de vanguarda em Minas Gerais, na Universidade Federal de Minas Gerais, que foi organizada pelo Afonso Ávila. Foram mais de 100 trabalhos, era 1963, 1964. E o Leminski apareceu lá, moleque ainda. Foi em busca da informação. Pegando ônibus, carona. E nos conhecemos. Depois, aparecia em São Paulo, às vezes vestido de judoca, às vezes puxando um fumo. E de vez em quando eu vinha aqui, visitá-lo. A gente era amigo, estávamos sempre juntos. Depois, ele se ligou a outras coisas, começou a fazer sucesso, a compor letras para a música popular. E, quando ele foi a última vez à TV Bandeirantes, ele era produtor de textos e eu participava do Jornal de Vanguarda, que estava começando. Mas ele sumiu e morreu poucos meses depois… bebida, álcool. Ele bebia tudo que era porcaria, bebidas horríveis, drogas.

CORREIO – O senhor vê algum momento na história das duas cidades, São Paulo e Curitiba, que as aproxime?

Pignatari – Há uma momento, sim. O momento durante a última guerra em que, logo depois, comecei a publicar ascoisas. São Paulo tinha então seis jornais, hoje praticamente só tem dois – O Estadão e a Folha. São Paulo tinha um certo jeito ainda europeu e se americanizava aos poucos. Mas havia uma linguagem comum. O viaduto do Chá falava a mesma linguagem arquitetônica do estádio do Pacaembu. E quando a guerra terminou, São Paulo tinha a mesma população que Curitiba tem hoje.

CORREIO – E Curitiba pode ser o que São Paulo foi, neste momento?

Pignatari – Curitiba não tem ainda um elevado público consumidor de arte. O público não tem grande repertório. São Paulo sempre teve uma elite. Logo depois da guerra, havia grandes movimentos de retomada da arte e da liberdade e São Paulo liderou essas movimentações e atraía muita gente. E, apesar disso, a cidade nunca foi favorável à poesia concreta, necessariamente não. Quando se expôs arte concreta pela primeira vez, em dezembro de 1956, não houve grande repercussão. Foi no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1957, em mostra no Ministério da Educação e Cultura, que o concretismo explodiu. Teve grande cobertura do Jornal do Brasil, graças ao Mário Faustino e a uma visão nova que o jornal trazia para Imprensa cultural brasileira. Quanto a Curitiba, acho que está vivendo um momento de boom. Acredito que esta cidade se torne brevemente um grande centro cultural.

CORREIO – Brasília poderia desenvolver-se de forma semelhante?

Pignatari – O problema no Brasil, como sempre, é que o país não sabe crescer bem. As pessoas não percebem que crescimento implica crise. Quem não sabe, se estoura. Veja os casos de Maradona, do Edmundo, casos exemplares de figuras públicas que não souberam lidar com a fama, com o crescimento. E as cidades sabem menos ainda lidar com o crescimento. Brasília ainda preserva o Plano Piloto, mas não conseguiu desenvolver projeto que consiga comportar os 2 milhões de habitantes que tem hoje.

CORREIO – Qual o seu propósito atualmente?

Pignatari – Vivo em função da obra e, por destino, ou por propósito, tenho que realizá-la. Então, é um jogo contínuo, que já dura décadas e décadas, entre tentar viver e tentar fazer a obra. Uma obra que eu me proponho a fazer no sentido de inovação. Não é inovar a obra. Meu reinado é o mundo da linguagem, verbal e não-verbal. Quero tentar colocar a literatura e o pensamento do Brasil em nível internacional. Quero o Brasil internacional, como o futebol é. Sem medo de encarar ninguém. Sou contra os nacionalismos estreitos.

Décio Pignatari

ARTE TOTAL – por alexandre freitas / são paulo

Parece pretensioso. E é. Lideradas pela música, todas as artes deveriam se fundir para se tornar a “arte do futuro”, Gesamtkunstwerk (obra de arte total). Uma ideia de Richard Wagner, primeiro aplaudida e depois vaiada por seu maior apreciador e seu maior crítico, Friedrich Nietzsche.

Mas não foi o compositor alemão o primeiro a acreditar e a buscar correspondências entre materiais artísticos diferentes. Desde Isaac Newton persegue-se, por diversos caminhos, a utopia de uma fusão entre cores e sons. Tenta-se encontrar o lugar secreto onde as coisas se assemelham em suas essências, em suas origens e em seus fins. Kandinsky, em Do Espiritual na Arte (Martins Fontes), queria que substituíssemos as correspondências exteriores, materiais e fáceis, por ressonâncias interiores, puras e profundas. As emoções não deveriam ser acústicas, visuais, olfativas etc, e sim “puramente espirituais”.

A Cidade da Música de Paris apresentou na última semana uma série de três concertos ligados pelo tema da Arte Total. Cada apresentação trazia no programa pelo menos uma obra que tentava cruzar ou construir algum elo mais profundo entre as dimensões sonoras e visuais.

A primeira obra foi encomendada e estreada pelo Ensemble Intercontemporain, o célebre grupo especializado em música contemporânea fundado por Pierre Boulez e atualmente dirigido por Bruno Mantovani. Objetos Impossíveis I e II (2010), compostos por DmitriKourliandski, tinham como conceitos norteadores a sobressaturação e a tensão, respectivamente. Não havia propriamente notas, mas efeitos instrumentais de todo tipo: pressão, sopros, atritos nas cordas, nas madeiras e nos metais que constroem os instrumentos. Esses sons eram captados por microfones e se tornavam imagens, depois de convertidos e manipulados em tempo real por dois vídeos artistas: Pedro Mari e Natan Sinigaglia. Nessas imagens, os conceitos gerais das obras se manifestavam em formas abstratas que reagem aos ruídos e sons provocados pelos músicos. Os objetos eram impossíveis, de acordo com o compositor, porque seu objetivo era fazer uma obra em que a subjetividade deveria ser deixada de lado. O forte impacto inicial daqueles efeitos musicais e visuais era substituído por um certo tédio por parte do público que, maldosamente, vaiou a obra. Faltava narratividade, uma historinha imaginária que estamos acostumados (nem sempre nos damos conta) a construir quando escutamos uma música, mesmo as puramente instrumentais. Mas a intenção do artista era somente a de sobressaturar e criar tensões, logo, ela foi muito bem sucedida.

No segundo concerto a obra escutada e vista foi Quadros de uma Exposição (1874), de ModestMussorgsky, acompanhada de animações dos esboços dos quadros que Kandinsky realizou para ilustrar a música de seu conterrâneo russo. Sobre o pianista Mikhail Rudy eram projetados os desenhos geométricos de Kandinsky desmontados e montados com a intenção de uma sincronia que quase nunca acontecia. As imagens e os sons interagiam, é verdade, mas a música parecia sair enfraquecida e não era nunca complementada por todas aquelas imagens.

O ciclo Arte Total se encerrou ontem com o Prometeu (1911) de Alexander Scriabin, poema sinfônico para piano, grande orquestra e luce, um órgão que projeta cores. Com Roger Muraro no piano e a orquestra de Lyon dirigida por JunMärkl, os feixes de luz que cortavam o fundo do palco interferiam na nossa percepção, colorindo e ampliando os efeitos de uma música. Embalado pelos ideais teosóficos e por uma suposta sinestesia do autor, Prometeu estabelece relações diretas entre as notas, as cores e estados de espírito. O interessante é que, independente dessas relações serem captadas ou não, o interesse da obra musical e os efeitos visuais é mantido na sua quase meia hora de duração. A obra terminou com uma luz violeta projetada em parte do público. Violeta representa a força criativa, acabei de ver na contracapa da partitura…

E assim a arte musical vai flertando com as artes vizinhas e revelando, por vezes, suas semelhanças secretas. A realidade da utopia da arte total se instaura. Mesmo que fugidiamente.

Alexandre Freitas

Alexandre Freitas é pianista e musicólogo graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre pela Universidade de Toulouse. Alexandre Freitas faz doutorado em Música na Universidade de São Paulo e na Sorbonne, em regime de dupla titulação. Sua tese gira em torno das convergências entre estéticas musicais e visuais. A coluna Visões Musicais é um espaço de reflexões livres sobre músicas, músicos e arte, de maneira geral.

 

DILMA ROUSSEFF, entrevista ao WASHINGTON POST / brasilia

No Brasil, de prisioneira a Presidente

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Por Lally Weymouth – segunda-feira, 06 de dezembro 2010
Tradução de Paula Marcondes e Josi Paz, revisão de Idelber Avelar.
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dilma-3.jpgTer sido uma presa política lhe dá mais empatia com outros presos políticos?
Sem dúvida. Por ter experimentado a condição de presa política, tenho um compromisso histórico com todos aqueles que foram ou são prisioneiros somente por expressarem suas visões, sua opinião pública, suas próprias opiniões. 

Então, isso afetará sua política em relação ao Irã, por exemplo? Por que o Brasil apóia um país que permite o apedrejamento de pessoas, que prende jornalistas?
Acredito que é necessário fazermos uma diferenciação no [que queremos dizer quando nos referimos ao Irã]. Eu considero [importante] a estratégia de construir a paz no Oriente Médio. O que vemos no Oriente Médio é a falência de uma política – de uma política de guerra. Estamos falando do Afeganistão e do desastre que foi a invasão ao Iraque. Não conseguimos construir a paz, nem resolver os problemas do Iraque. Hoje, o Iraque está em guerra civil. Todos os dias, morrem soldados dos dois lados. Tentar trazer a paz e não entrar em guerra é o melhor caminho.
[Mas] eu não endosso o apedrejamento. Eu não concordo com práticas que possuem características medievais [quando se trata de] mulheres. Não há nuances; não faço concessões nesse assunto.

O Brasil se absteve em votar na recente resolução sobre os direitos humanos na ONU .
Eu não sou Presidente do Brasil [hoje], mas eu me sentiria desconfortável, como mulher eleita Presidente, não dizendo nada contra o apedrejamento. Minha posição não vai mudar quando eu assumir o cargo. Eu não concordo com a forma em que o Brasil votou. Não é minha posição.

Muitos norte-americanos sentiram empatia pelo povo iraquiano que se rebelou nas ruas. Por isso me pergunto se sua posição sobre o Irã seria diferente daquela do seu atual Presidente, que possui boa relação com o regime iraquiano.
O Presidente Lula tem seu próprio histórico. Ele é um presidente que defendeu os direitos humanos, um presidente que sempre apoiou a construção da paz.

Como a Sra. vê a relação do Brasil com os EUA? Como gostaria de vê-la evoluir?
Considero a relação com os EUA muito importante para o Brasil. Tentarei estreitar os laços. Eu admirei muito a eleição do Presidente Obama. Acredito que os EUA revelaram uma grande capacidade de mostrar que são uma grande nação, e isso surpreendeu o mundo. Pode ser muito difícil ser capaz de eleger um Presidente negro nos os EUA – como era muito difícil eleger uma mulher Presidente do Brasil.

Eu acredito que os EUA têm uma grande contribuição a dar ao mundo. E, acima de tudo, acredito que o Brasil e os EUA têm um papel a cumprir juntos no mundo. Por exemplo, temos um grande potencial para trabalhar juntos na África, porque na África podemos construir uma parceria para disponibilizar tecnologias agrícolas, produção de biocombustíveis e ajuda humanitária em todos os campos.

Também acredito que, neste momento de grande instabilidade por causa da crise global, é fundamental que encontremos formas que garantam a recuperação das economias dos países desenvolvidos, porque isso é fundamental para a estabilidade do mundo. Nenhum de nós no Brasil ficará confortável se os EUA mantiverem altos índices de desemprego. A recuperação dos EUA é importante para o Brasil porque os EUA têm um mercado consumidor fantástico. Hoje, o maior superávit comercial dos EUA é com o Brasil. 

A Sra. culpa o afrouxamento monetário [quantitative easing] por isso?
O afrouxamento monetário é um fato que nos preocupa muito, porque significa uma política de desvalorização do dólar que tem efeitos sobre o nosso comércio exterior e também na desvalorização da nossas reservas de divisas, que são em dólares. Para nós, uma política de dólar fraco não é compatível com o papel que os EUA têm, já que a moeda dos EUA serve como reserva internacional. E uma política sistemática de desvalorização do dólar pode provocar reações de protecionismo, que nunca é uma boa política a ser seguida.

Quando a Sra. planeja visitar os EUA? Sei que foi convidada para antes de sua posse, em 1º de janeiro, mas não podia ir.
Eu não estou aceitando os convites que recebo. Não estou visitando países estrangeiros. Tenho que montar o meu governo. Tenho 37 ministros para nomear. Estou planejando visitar o Presidente Barack Obama nos primeiros dias após minha posse, se ele me receber.

Então a Sra. convidará o Presidente Obama para vir ao Brasil?
Nós já o convidamos informalmente, durante a reunião do G-20.

Há preocupações na comunidade empresarial dos EUA sobre se o Brasil continuará o caminho econômico definido pelo Presidente Lula.
Não há dúvida sobre isso. Por quê? Porque para nós foi uma grande conquista do nosso país. Não é uma conquista de uma única administração – é uma conquista do Estado brasileiro, do povo de nosso país. O fato de que conseguimos controlar a inflação, ter um regime de câmbio flexível e ter a consolidação fiscal de forma que, hoje, estamos entre os países com a menor relação dívida / PIB do mundo. Além disso, temos um déficit não muito significativo. Não quero me gabar, mas temos um déficit de 2,2 por cento. Pretendemos, nos próximos quatro anos, reduzir a proporção dívida / PIB para garantir essa estabilidade inflacionária.

A Sra. disse publicamente que gostaria de ver as taxas de juro caírem. A Sra. irá cortar o orçamento ou reduzir o aumento anual de gastos do governo?
Não há como cortar as taxas de juros a menos que você reduza seu déficit fiscal. Somos muito cautelosos. Temos um objetivo em mente: que as nossas taxas de juros sejam convergentes com as taxas de juros internacionais. Para conseguir chegar lá, um dos pontos mais importantes é a redução da dívida pública. Outra questão importante é melhorar a competitividade de nossos setores agrícola e de manufatura. Também é muito importante que o Brasil racionalize seu sistema fiscal.

Se a Sra. quer baixar as taxas de juros, a Sra. tem que cortar os gastos ou aumentar a economia doméstica.
Você não pode se esquecer do crescimento econômico. Você tem que combinar muitas coisas.

Qual é seu plano?Meu plano é continuar a trajetória que seguimos até aqui. Conseguimos reduzir nossa dívida de 60% para 42%. Nosso objetivo é atingir 30% do PIB. Eu preciso racionalizar os meus gastos e, ao mesmo tempo, ter um aumento do PIB, que leve o país adiante.

Então o que a Sra. quer dizer com “racionalizar gastos”?
Não estamos em uma recessão aqui. Nós não temos que cortar os gastos do governo. Nós vamos cortar despesas, mas vamos continuar a crescer.
Estamos seguindo um caminho muito especial. Este é um momento no qual o país está crescendo. Temos estabilidade macroeconômica e, ao mesmo tempo, muito orgulho do fato de que conseguimos reduzir a extrema pobreza no Brasil.
Trouxemos 36 milhões de pessoas para a classe média. Tiramos 28 milhões da pobreza extrema. Como conseguimos isso? Políticas de transferência de renda. O Bolsa Família é um dos maiores exemplos.

Explique como funciona o Bolsa Família.
Pagamos um estipêndio, que é uma renda para os pobres. Eles recebem um cartão e sacam o dinheiro, mas têm duas obrigações a cumprir: colocar seus filhos na escola e provar que eles comparecem a 80% das aulas. Ao mesmo tempo, as crianças também devem receber todas as vacinas e passar por uma avaliação médica quando recebem as vacinas. Esse foi um fator, mas não foi o único.
Criamos 15 milhões de novos empregos durante a administração do Presidente Lula. Este ano, já criamos 2 milhões de novos empregos.

A Sra. é tão próxima do Presidente Lula. Será mesmo diferente ou apenas uma continuação da administração dele?
Eu acredito que minha administração será diferente da do Presidente Lula. O governo do Presidente Lula, do qual fiz parte, construiu uma base a partir da qual vou avançar. Não vou repetir a administração dele porque a situação no país hoje é muito melhor do que era em 2002.

Eu tenho os programas governamentais em andamento, que ajudei a desenvolver, como o chamado Minha Casa, Minha Vida, que é um programa de habitação.

Meus desafios são outros. Vou ter que solucionar questões como a qualidade da saúde pública no Brasil. Vou ter que criar soluções para problemas de segurança pública.
O Brasil passou por mais de 30 anos sem investir em infra-estrutura em uma quantidade suficiente. O governo do Presidente Lula começou a mudar isso. Eu tenho que resolver as questões rodoviárias no Brasil, as ferrovias, as estradas, os portos e os aeroportos.
Mas há uma boa notícia: descobrimos petróleo em águas profundas. 

A Sra. está sugerindo que essa descoberta irá financiar a infra-estrutura?
Criamos um Fundo Social [no qual] alguns dos recursos do governo oriundos da descoberta do petróleo serão investidos em educação, saúde, ciência e tecnologia.

A Sra. tem que preparar o pais para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas.
Sim, mas eu também tenho outro compromisso, que é acabar com a pobreza absoluta no Brasil. Nós ainda temos 14 milhões na pobreza. Esse é meu maior desafio.

Todos os empresários que conheci em São Paulo disseram que precisam estar muito preparados para as reuniões com a Sra., porque a Sra. conhece bem a maioria dos projetos.
Sim, é verdade. Eu acho que é uma característica feminina. Nós apreciamos os detalhes. Eles, não.

O que significa, para a Sra., ser a primeira mulher Presidente do Brasil?
Até eu acho incrível.

Quando a Sra. decidiu que queria ser Presidente?
Foi um processo. Não há uma data. Comecei a trabalhar com o Presidente Lula e ele começou a dar algumas dicas sobre eu vir a ser indicada à presidência, mas ele não foi claro no começo. Foi uma grande honra para mim, mas eu não estava esperando.

A partir do momento que ficou claro para mim que eu seria indicada, dois anos atrás, eu sabia que tínhamos criado as condições adequadas para tornar possível a vitória nas eleições. O Presidente Lula teve uma excelente administração e o povo brasileiro reconheceu e admitiu isso. Somos uma administração diferente – nós ouvimos o povo. 

A Sra. recentemente lutou contra o câncer.
Sim, mas acredito que consegui lidar bem com isso. As pessoas têm que saber que o câncer pode ser curado. Quanto mais cedo você descobre, melhores suas possibilidades de cura. É por isso que a prevenção é importante. . . Acredito que o Brasil estava preparado para eleger uma mulher. Por quê? Porque as mulheres brasileiras conquistaram isso. Eu não cheguei aqui sozinha, só pelos meus méritos. Somos a maioria neste país.