Arquivos Diários: 11 dezembro, 2010

FERNANDO PY comenta os “Poemas para a Liberdade” de MANOEL DE ANDRADE / petrópolis.rj

Nos seus Poemas para a liberdade ( São Paulo: Escrituras, 2009; edição bilíngue português/espanhol; tradução do autor), o catarinense Manoel de Andrade tem o desassombro e a temeridade de cantar a luta armada contra a ditadura militar. Pode parecer um anacronismo, já que os militares brasileiros há muito deixaram de comandar os destinos do Brasil. Mas, na verdade, o caso de Manoel de Andrade é bem diverso. Perseguido pela ditadura, em 1969, devido à panfletagem do poema “Saudação a Che Guevara”, refugiou-se na Bolívia, onde se integrou ao movimento guerrilheiro. Em junho de 1970, publicou  na Bolívia, em espanhol, os Poemas para la libertad, cuja 2ª edição saiu na Colômbia, em setembro. Expulso tanto do Peru como da Colômbia, atravessou diversos países da América, publicando livros, promovendo debates, dando palestras e declamando seus poemas em teatros, sindicatos e universidades. Em janeiro de 1971, seu livro Canción de amor a América y otros poemas foi editado na Nicarágua e em El Salvador. Depois de vários êxitos no exterior, Andrade regressou anônimo  ao Brasil (1972), onde se manteve afastado da literatura durante trinta anos. Em 2002, participou da coletânea paranaense Próximas Palavras, e publicou Cantares em 2007. Esta edição dos Poemas para a liberdade é, que eu saiba,  a primeira editada do Brasil.

É claro que a poesia política do autor paga tributo aos grandes poetas latino-americanos que sempre se opuseram às ditaduras fascistas, especialmente Pablo Neruda. O tom dos poemas, sua oralidade intrínseca, o pendor para uma abordagem vívida das condições sociais e humanas da nossa época, são ingredientes básicos do volume. A eles, porém, não  está ausente um toque de lirismo, o lirismo de quem sabe que a poesia dita “engajada” não se sustenta apenas com uma mensagem libertária ou um repúdio incisivo a um estado de coisas intolerável.  O poeta soube dosar muito bem os materiais de que se utilizou, e o resultado é um livro coeso, muito bem realizado dentro do que ele se propôs, e que lhe confere uma posição de relevo em nossas letras. Parabéns.

(Tribuna de Petrópolis, 1º de outubro de 2010)

Fernando Py (Rio de Janeiro, 1935), é poeta, crítico literário e tradutor. Colaborou em vários jornais do país entre eles o Jornal do Brasil, Jornal da Tarde e o O Globo. Traduziu autores como Marcel Proust, Honoré de Balzac, Saul Bellow (Nobel em 1976) e outros. Tem vários livros publicado entre poesia e crítica. Atualmente assina a coluna “Literatura” no jornal Tribuna de Petrópolis, cidade onde vive.