Arquivos Diários: 12 dezembro, 2010

FESTIM DE CARGOS por heródoto barbeiro / são paulo

Estamos em plena temporada do festival de distribuição de cargos nos governos estaduais e federal. Os barões da política, donos de partido, financiadores de candidatos, pseudo líderes de categorias e outros estão sentados nas mesas reservadas para a divisão do botim. Para quem conseguiu um convite é uma oportunidade única de dar uma bocada na administração

dos recursos dos cofres públicos abarrotados com os impostos pagos por todos. Penetra nessa festa, que não é pobre como dizia o Cazuza, só com muita malandragem. A segurança é rígida e os leões de chácara e os lambe-botas estão de plantão para impedir que bagrinhos aproveitem festa de tubarão. Ainda assim, aventureiros de toda espécie, vigaristas, adesistas de undécima hora, vendedores de moralidade e ética tentam participar da razzia nos cargos públicos. Um espetáculo que certamente suplanta A Comilança, de Marco Ferreri.

A ascensão de partidos políticos ao poder faz parte da essência do processo democrático, uma vez que tem o aval da maioria para implantar o programa de governo que expôs durante a campanha eleitoral e foi escolhido como o melhor para o país. Alianças de partidos também fazem parte do processo, especialmente nos regimes parlamentares, quando um único partido não consegue ter maioria no Parlamento. Não é necessário em regime republicano, e o presidente pode muito bem governar com maioria oposicionista na Câmara e no Senado. O exemplo de Barak Obama é o mais recente, mas Bill Clinton e outros também governaram com minoria. Não se sabe de que cabeça diabólica surgiu a ideia que é necessário ter maioria no Congresso, para se governar. Para se conseguir essa maioria vale tudo, da cooptação a divisão de cargos e a ambicionada gestão das verbas públicas. As oligarquias tradicionais estão até o pescoço empenhadas na divisão. Vive-se por aqui um republicanismo parlamentarista mal costurado e que apresenta amplas brechas para a malandragem geral. Começa eleição, acaba eleição, tudo se repete e ao cidadão se promete uma reforma política que não chega nunca, como uma cenoura amarrada na frente do nariz de um burro. Um dia tudo isso vai mudar, talvez no sine die, ou no Dia de São Nunca…

Na hora de servir o prato principal, ministérios com mais ou menos verbas públicas, há um frisson geral. Fica com o partido majoritário no Congresso, com o partido da presidente, do vice, dos aliados, ou dos cooptados? Há cotas. Nessa hora os grupos armados puxam suas armas e cada um mostra o poder de fogo que possui. É o momento do ranger de dentes, de heresias políticas e ideológicas, blasfêmias, xingos, ameaças, enfim do vale tudo. Ninguém atira, ninguém quer estragar a festa, apenas conquistar a parte do botim que julga ter direito legítimo. E assim nascem os secretariados e o ministério. Atento o cidadão/eleitor/contribuinte acompanha atônito o noticiário sobre a dança das cadeiras, um espetáculo politicamente macabro, com um ou outro lance de humor negro, quando alguém dorme ministro e acorda sem ministério. As promessas da campanha que os cargos seriam preenchidos por técnicos competentes, honestos, éticos, comprometidos com o interesse público e não por políticos oportunistas foram esquecidas. Nem mesmo o eleitor se lembra. O ponto alto da festa é o início das concorrências públicas.

Heródoto Barbeiro é jornalista, apresentador do Jornal da CBN

 

DESESPERANÇA de vera lucia kalahari / portugal

O mundo não vale o nosso pranto…

Não vale sequer a nossa pena…

Não vale um grito,

Uma gota de sangue jorrada

Ao pisar de rudes espinhos.

Não vale um suspiro,  um amoroso encontro,

Uma simples palavra.

Não vale nada…

Porque o mundo não tem sentido.

Não ouve o choro dos famintos,

O gemido dos soldados,

As preces esperançosas

Das freiras em clausura,

O choro soluçante

Das mães chamando filhos…

Porque o mundo é fechado, vazio,

Cego aos sonhos dos que ainda sonham…

Por isso, assim acordados,

Sem imagens ilusórias,

Sem promessas e sem mentiras,

Saibamos compreender, entender,

E esquecer o mundo.