A COMILANÇA, traça a fisiologia da decadência



É o preço da polêmica de uma época. Passados os anos, um filme pode se firmar como obra além das fronteiras do incômodo ou simplesmente desaparecer como referência. A Comilança é um raro título que cabe nos dois casos. Em 1973, ganhou fama pelo gosto duvidoso, pela escatologia e por outros excessos a mexer com os sentidos. Mas isso talvez seja coisa do passado, a não ser que nunca tivessem surgido realizadores como David Cronenberg. Melhor assim.

A distância e com surpresas escatológicas superadas, vem à tona o melhor da obra de Marco Ferreri, o diretor italiano que adorava embrulhar olhos e estômagos. Morreu em 1997. É bem verdade que sua vaga dificilmente será preenchida. Até porque se mostrou um arguto crítico de sua era, como se verá no filme que volta hoje às telas. Um crítico de recursos bem menos refinados que Buñuel, por exemplo, mas de inspiração nobre e objetivos afiados como o mestre espanhol. Também preocupado como ele com um elenco magistral, sabendo que sua obra poderia ruir sem intérpretes de valor. E não fez por menos.

Marcello Mastroianni, Michel Piccoli, Ugo Tognazi e Philipe Noiret respondem por seus próprios nomes nos personagens que interpretam. Nunca mais houve tal reunião de feras da arte. Um comandante de avião, um produtor de TV, um chefe de cozinha e um juiz. É tudo que se sabe desses homens de vida aparentemente estabilizada, bem-sucedida, que se encerram na mansão de um deles para um fim de semana orgiástico. Orgia sexual, como a situação é mais empregada, mas fundamentalmente gastronômica. Querem comer até morrer.

Antes de expressão popular, um objetivo literal. De cara, remete-se ao clássicoO Anjo Exterminador. Mas há a diferença básica entre a cena buñueliana e a proposta de Ferreri. Lá, os convivas de um jantar são deixados trancados a fenecer sem razão aparente, mas se angustiam e buscam a saída. Em La Grande Bouffe, os anfitriões se obrigam ao cárcere. Tem a intenção do fim iminente. Aceitam convidadas, sim, quando o piloto Mastroianni protesta por não ter direito ao último ato sexual. Prostitutas são contratadas para logo se descobrir que o homem é um garanhão. Mas elas são acessórios da cena, regalos para moribundos. A única figura feminina importante é a gordinha Andréa (Andréa Ferreol), professora que se sintoniza com o regime de engorda do grupo e talvez seu movimento final.

Ferreri é refinado, ainda que o grotesco de assistir Mastroianni em suas perversões sexuais ou Noiret em demonstrações infindáveis de prisão de ventre e conseqüentes gases possam sugerir o contrário. Sofisticação que está num cenário histórico que mais lembra um museu, na reprodução de cenas pictóricas do Renascimento, na citação literária de um poeta como o neoclássico Boileau ou de Brillat-Savarin, o estudioso que uniu gastronomia e filosofia no tratado A Fisiologia do Gosto. Também nas homenagens cinematográficas, de Raoul Walsh à torre da Pathé esculpida. Mas refinado, antes de tudo, por criar tal fachada e assim ser mais contundente na demonstração de decadência de seus burgueses, dos cavalheiros que representam a face brilhante da sociedade ocidental orientada para o sucesso e o dinheiro. Não por acaso, o mais lascivo de todos, Mastroianni, escolhe o quarto de decoração oriental, para onde mais cedo ou mais tarde irão todos, numa quebra até do clássico “ménage à trois”.

Não menos significativo, há um juiz e um homem da mídia, medalhões recorrentes onde grassa a corrupção, num caso, e as banalidades imperam, no outro. Pois bem. O juiz guarda em seu lar tentações libidinosas com a ama que o criou. E o produtor de TV surpreende ao expor inesperadas ambigüidades em sua opção sexual. Por fim, claro, a maior representação possível da degradação humana. É quase insuportável assistir à comilança a que se dedicam os protagonistas. Até pela inversão da regra básica do alimento como gerador da sobrevivência.

Os quatro cavaleiros do ocaso buscam justamente o contrário e não poupam esforços. É irônico, quase uma piada, o crédito para a casa Fauchon, o templo parisiense das iguarias, no início do filme. Come-se e bebe-se do melhor, e uma das maiores bandeiras do orgulho francês passa subitamente a ser repudiada. Ferreri, vale relembrar, é um italiano. Sua pátria também tem muito a dizer sobre o ato de comer. Mas essas são alusões, digamos, imediatas e até fáceis para olhares mais atentos. Ferreri as adora. Está em outros filmes, comoA Carne, em que o amante congela o cadáver de sua amada para devorá-lo aos poucos. Também na castração com uma faca por Gérard Depardieu emL’Ultima Donna. Mas é um realizador também capaz de maior elaboração.

Em certo momento, alguns cachorros começam a cercar a casa do quarteto. Surgem aos poucos, talvez atraídos pelo cheiro da morte ou mesmo da cozinha. Mas ao final é que se dá com mais clareza. Estão ali como espectadores do triste espetáculo. Melhor representação das baixezas humanas impossível.

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