DA TELA PARA A PLATEIA – por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Nunca vi um personagem das telas sair da projeção e invadir a vida, como o garoto Totó (Salvatore Cascio), em Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore.

Outro ser vindo do celuloide para a vida foi Mia Farrow, em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen. Mas, de tanto ir ao cinema, assisti, no Ritz , em 1954, talvez, ao primeiro filme em Cinemascope – tela alongada, um espanto para a época. Em cartaz, The Robe, ou O Manto Sagrado, com Richard Burton, Jean Simmons e Victor Mature.

Fosse um épico, um bíblico ou uma chanchada, lá estava o eterno “Totó” – eu mesmo – assistindo a dois Sansão e Dalila, o drama e a comédia. O hollywoodiano, com o mesmo Victor Mature e Hedy Lamarr, e o seu pastiche tupiniquim, com Oscarito no papel do forçudo herói.

Pelos nomes dos cinemas que frequentou, cada espectador ilhéu pode contar a sua própria história de vida. Não peguei o Odeon, que até o final dos anos 1940 aproveitava a plateia do Teatro Álvaro de Carvalho para albergar uma tela da sétima arte.

Em compensação, acompanhei todos os épicos do Ritz, em meados dos anos 1950: O Manto Sagrado, Os Dez Mandamentos, Sansão e Dalila, O Rei dos Reis, Spartacus, Demétrio e o Gladiador, Ben-Hur.

E houve o Cine São José – joia do tempo em que os cinemas se chamavam “Palace” e justificavam o nome, sem imaginar que um dia acabariam servindo de sacristia para bispos e bispas da Igreja Renascer. Do cinema da Rua Padre Miguelinho, inaugurado em 1956, muito me marcaram comédias como Gigi (Audrey Hepburn e Louis Jourdan) e Quanto Mais Quente Melhor – talvez a melhor comédia do mundo, dirigida por Billy Wilder, com geniais atuações dos astros Marilyn Monroe, Jack Lemmon, Tony Curtis – e do coadjuvante Joe E. Brown, o milionário que diz a Lemmon estar “apaixonado”, mesmo ao ser informado de que “ela”, na verdade, é “ele”:

– Ninguém é perfeito! – conforma-se Brown, espalhando pela tela o seu bocão, depois de dançar com Lemmon para uma orquestra de olhos vendados.

Do Cine Imperial, que me fascinava pela iluminação indireta, vinda de nichos avermelhados, lembro-me de uma mistura de “soap-ópera” e musical – chatinho, para um garoto afeito aos bangue-bangues: Hey Lilli, com a “órfã” Leslie Caron, contracenando com Mel Ferrer, Jean-Pierre Aumont e Zsa-Zsa Gabor.

Mas ali na Rua João Pinto tive a ventura de assistir a clássicos importantes, como O Salário do Medo, de Henri-Georges Clouzot, com Yves Montand no papel do motorista cujo caminhão transporta nitroglicerina pelas escarpas dos Andes.

O Cine Imperial funcionou com este nome até 28 de fevereiro de 1958 – está fazendo 50 anos! Reabriu somente em 12 de abril de 1969, como informa o “sabe-tudo” de cinemas, seriados e cartazes, o catedrático Osni Machado. O Cine Coral, então inaugurado, durou até 2 de janeiro de 1986. Seis meses depois, o velho “Imperial” reabriria mais uma vez, teimoso, com o nome de Cine Carlitos. Até morrer, definitivamente, em 9 de setembro de 1992, já atropelado pelos cinemas dos shoppings, o Itaguaçu e o prestes a ser inaugurado, Beiramar.

Nada como as salas climatizadas, o som Dolby Stereo, as imagens digitalizadas. Mas o glamour das velhas salas remete à infância dos cinquentões e sessentões. E a profissões extintas, como a de “lanterninha”.

O acendedor de lanternas no escurinho do cinema ganhava gorjetas e gozava da regalia de trabalhar no ar-condicionado, durante os meses quentes do verão.

E ainda assistia a um interessante espetáculo paralelo: o “filme” fora das telas. Os namorados se beijando com ardor, enquanto o filme servia apenas de “inspiração”.

Os tempos são outros, os filmes são outros – até o namoro ficou diferente. Já não há personagens da “tela” se mudando para a plateia, trazendo “personagens” – ou beijos.

 

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