PROF. SERGIO NOGUEIRA: “Temas Polêmicos”

1. O alcoólatra e o alcoólico

A palavra álcool é de origem árabe e “latra” vem do grego. A raiz grega “latria” significa “adoração” (idolatria = adoração de ídolos; egolatria = adoração de si mesmo, do próprio “eu”). Assim sendo, alcoólatra é “quem adora álcool”, é o “viciado em bebidas alcoólicas”.
A Associação dos Alcoólicos Anônimos (AAA) deveria ser chamada de “Associação dos Alcoólatras Anônimos”. A troca de alcoólatra por alcoólico se deve, provavelmente, à carga negativa que a palavra alcoólatra apresenta: é como se fosse sinônimo de “doente irrecuperável, viciado sem salvação”. O uso de alcoólico por alcoólatra é praticamente um eufemismo, ou seja, uma forma mais suave de dizer a mesma coisa.
De eufemismos a nossa linguagem está cheia: “faltar com a verdade ou dizer inverdades” por mentir; “enriquecer por meios ilícitos” por roubar; “descansar, entregar a alma ao Criador e bater as botas” por morrer; “tumor maligno” por câncer; “portador do vírus da Aids” por aidético…
É interessante observar que o uso de eufemismos se dá por vários motivos: ironia, medo de ser grosseiro, atenuar o fato, ridicularizar o caso… O aspecto psicológico está sempre presente.
Alcoólico, na sua origem, é um adjetivo e significa “relativo ao álcool ou o que contém álcool”. Daí as bebidas alcoólicas, ou seja, bebidas que contêm álcool. Entretanto é importante observar que os dicionários Aurélio e Houaiss consideram alcoólico como sinônimo de alcoólatra também.
Portanto, no caso dos “Alcoólicos Anônimos”, a opção por alcoólico não está errada. É uma questão eufêmica, ou seja, a preferência por uma palavra de carga mais leve, mais suave.
Outra curiosidade é a palavra alcoolista, também registrada em nossos dicionários como uma forma menos usada. Seria uma alternativa para alcoólico, pois me parece que alcoolista não tem a carga negativa de alcoólatra.
Por fim, a ortografia. Em álcool, o acento agudo se deve ao fato de a palavra ser proparoxítona. Alcoólico e alcoólatra também são palavras proparoxítonas. O detalhe é o acento agudo no segundo “ó”.
Certa vez, ao entrar numa pequena cidade do interior de São Paulo, encontrei uma placa: “Aqui tem Alcóolicos Anônimos”. O acento agudo no primeiro “ó” indica a possibilidade de que o autor da placa estivesse de porre.

2. Elipse ou eclipse

O eclipse é aquele fenômeno em que há o ocultamento do Sol ou da Lua. Nós sabemos que eles estão lá, mas não os vemos.
A elipse é uma figura de estilo semelhante. Ocorre quando um termo fica oculto, mas nós sabemos qual é. A elipse mais conhecida é a do sujeito. É o famoso sujeito oculto. Não é necessário dizermos que “nós solicitamos aos senhores que…” Basta “solicitamos”. Pela desinência do verbo (-mos), já sabemos que o sujeito da oração só pode ser “nós”.
Outra elipse interessante é aquela em que usamos uma pausa (=vírgula) para marcar a supressão do verbo, para evitar a repetição: “Ele não nos entende nem nós, a ele”. Nesse caso, também chamada de zeugma, a vírgula substitui a forma verbal: “nem nós entendemos a ele”.
A elipse também ocorre em várias expressões do dia a dia, como: “querem cassar o senador”; “ele só nadou a prova dos 100 metros livre”.
No primeiro caso, subentende-se “cassar o mandato do senador”; e no último, “100 metros nado (ou estilo) livre”.
É importante observar que a boa elipse é aquela que não prejudica a clareza da frase.
Leitor reclama e quer saber a minha opinião a respeito do que ele julga ser um péssimo hábito: o de agradecer dizendo “obrigado eu”.
É como eu costumo afirmar: não devemos reduzir tudo à simplista discussão de certo ou errado.
Num agradecimento, o uso da palavra “obrigado” já caracteriza uma abreviação, pois se origina da frase “estou obrigado a retribuir-lhe o favor”. Em razão disso, a mulher deve dizer “obrigada”.
Assim sendo, a expressão “obrigado eu” não está errada. É apenas uma forma popular, abreviada e até certo ponto carinhosa, de dizer que “quem está obrigado a agradecer sou eu”.

3. Ele corre risco de vida ou de morte?

Temos agora uma seleção de casos incoerentes ou absurdos. São situações semelhantes ao do famoso “correr atrás do prejuízo”. Só louco corre atrás do prejuízo. Do prejuízo eu fujo. Eu corro “atrás do lucro”.
Outro caso curioso é o “correr risco de vida”. Rigorosamente, nós corremos “risco de morte”. Nós não corremos “o risco de viver”, e sim “o risco de morrer”. Nós sempre corremos o risco de alguma coisa ruim. Ninguém “corre o risco de ser promovido”, mas corre o risco de ser demitido. Ninguém “corre o risco de ganhar na loteria”, mas corre o risco de perder todo o dinheiro no jogo, de ser roubado, de ir à falência…
Não é uma questão de certo ou errado. É apenas curioso. Trata-se de mais uma elipse. Eu sei que está subentendido: “correr o risco de perder a vida”. Portanto, as duas formas são corretas.
Parecidíssimo com o caso anterior é a tal da “crise do desemprego”. Ora, na verdade, quem está em crise é o EMPREGO. Infelizmente, o desemprego vai bem. Creio que hoje nós vivemos uma “crise de emprego”.
Também merece destaque a tal mania de “tirar a pressão”. Se eu “tirar a pressão”, morro. É melhor medir ou verificar a pressão.
O assunto é muito interessante e ainda haveria muitos outros casos para analisar. Vou deixar mais alguns para você “quebrar sua cabeça”:
“Dividiu o bolo em três metades”;
“O anexo segue em separado”;
“Eram dois homossexuais e uma lésbica”;
“Estou preso do lado de fora”;
“Por favor, me inclua fora disso”…

 

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68 Respostas

  1. Boa Tarde Professor!
    O Senhor pode me tirar uma dúvida sobre a frase “Boa romaria faz, quem em casa fica em paz”?
    Desde já, obrigada.

    1. Retificando…
      Boa Tarde Professor!
      O Senhor pode me tirar uma dúvida sobre a frase “Boa romaria faz, quem em casa fica em paz”, como ficaria ela em ordem direta?
      Desde já, obrigada.

  2. Professor, quando devo usar Sua Senhoria e Vossa Senhoria?

  3. Gostaria de convida-lo para conhecer a nossa escola e desenvolvermos uma homenagem ao nobre professor, aqui estamos realizando uma gincana de soletração, meu nome é Ricardo César, estou coordenador de projetos na EMEF EGIDIO COSTA em Barueri.
    Nosso telefone é (11) 4163-6063 ou (11) 99174-1788.
    Nossos alunos estão ansiosos por conhece-lo.
    Aguardando sua confirmação, agradeço.

  4. Mestre, vi uma questão escrita assim:

    A) Vossa Senhoria ESTUDASTES em uma notória instituição. (Erro da pessoa verbal, não se tem dúvidas quanto a isso)

    E) Sua Senhoria deveria acreditar nos funcionários, afirmou o operário ao gerente. (Nesse caso, não seria VOSSA?)
    O que leva as duas a estarem ERRADAS?

  5. Boa noite, professor!
    Na formação da palavra mochirroda derivado de mochila com roda (neologismo, talvez) o “r” deve ser dobrado? Colocar-se-ia o hífen (mochi-roda) ou ficaria mochila roda?

  6. Prof.Sérgio, tenho ouvido repórteres na TV falarem, por ex: :- ” Qual que foi a pauta do governo hoje?” Por que usar o “que”? É uso coloquial? Regional? Fica muito estranho, tanto quanto o uso do gerúndio assim, por ex: -Estão ” falanu” , “discutinu”… Acho que cabe uma reflexão e melhor cuidado na preservação da unidade do uso da nossa língua, já tão modificada nas conversas via Internet.Cordialmente, da leitora Ma.Lúcia Gutierrez.RJ.

  7. Luciana de Souza Aguiar Zanardi | Responder

    Professor, gostaria de esclarecer algumas dúvidas a respeito de morfologia:
    – a diferença entre vogal temática nominal e vogal de ligação é que a primeira prepara o radical para receber uma desinência, enquanto a segunda prepara o radical para receber sufixos ou outro radical?
    – a vogal temática nominal precisa estar grudada ao radical ou pode vir depois de um sufixo (cabel+eir+vogal temática A = cabeleira)
    – por que as vogais tônicas não podem ser classificadas como vogais temáticas (saci, maracujá) e o I e o U também não (caju, biquíni)?

  8. Professor Sérgio, para dar um ponto de referência sobre um lugar, o correto seria falar: Ex. Antiga rua da Rede TV ou Rua da antiga Rede TV?

  9. Boa noite Prof. Sérgio Nogueira. Gostaria que o senhor respondesse se existe algum erro de português nesta frase:

    Art. 22 Esta seleção terá validade de 01 (um) ano e 06 (seis) meses podendo ser
    prorrogada por igual período.

    Esta frase esta em um edital de uma seleção interna, onde gerou muitas dúvidas e discussões.

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