Arquivos Diários: 24 dezembro, 2010

JULIO SARAIVA e sua poesia / são paulo

elegia a nós dois

não há ossos partidos

não há cinzas

só o frio das palavras expulsas da boca

um solo de adeus que constrange

um olhar escondido em nuvens

chuvas que machucam a memória dos livros

páginas que não lemos

.

não há ossos partidos

não há cinzas

só restos de alegorias   sobras de carnavais

& medos

velhos pierrôs exibindo sorrisos estrangulados

olhares antigos anunciando a cegueira

sei que as malas já estavam prontas

mesmo quando a ideia de partir não havia

urubus rondavam a casa

voos incertos além muito além das asas

coelhos fugiam da cartola

para desespero do mágico

.

não há ossos partidos

não há cinzas

não há nada

além do retrato feito a carvão

de um capitão bêbado

o cachimbo no canto da boca

o olhar sujo de quem há anos não dorme

querendo dizer que o atlântico é bem maior

do que qualquer adeus

.

o capitão está certo

do mar nunca se sabe

: navegar é impreciso


auto-retrato II

sou o silêncio de um navio cansado

poço fundo de tantos pesadelos

se sonho sonhos bons mesmo sem tê-los

sou conde num castelo abandonado

.

mas assim vou vivendo no ora-veja

debaixo das cinzas de quarta-feira

e fazendo da vida brincadeira

dou-me a qualquer mulher – se me deseja

.

se penso frevo canto marcha-rancho

e rio-me de mim  – sinto-me ancho

sabendo enfim que a merda desta vida

.

não me fez quixote fez-me sancho

e mesmo olhando o sangrar desta ferida

valeu-me a vida embora tão fodida