Arquivos Diários: 5 janeiro, 2011

O Sofá – por omar de la roca / são paulo

É meu costume deixar o despertador adiantado quinze minutos.Podia deixar na hora certa também e colocar para despertar quinze minutos antes.Mas é o meu jeito. Hoje de manhã acordei, depois de um sonho meio agitado.Esfreguei os olhos e comecei a lembrar do sonho.Me lembro que fazia referencia a um sofá.Sacudi a cabeça e sorri.Apenas um sonho.Peguei meu anel que estava no criado mudo e só então me lembrei do folheto.Estava debaixo do anel. Alguém colocara em minha mão na saída do metro Brigadeiro e eu distraído,coloquei no bolso de trás das calças. Mais tarde ao pendurá-las, encontrei o folheto.Então o sonho todo fez sentido.Reli o texto. Falava de um sofá que apagava as memórias. O texto não era muito longo, não dava maiores explicações. Era um sofá que você sentava, após assinar um contrato,que apagava as memórias que você havia escolhido previamente.Dizia que haviam se esmerado para decorar cada instalação ( que é como chamavam as lojas de esquecimento ). A que ficava nos Jardins era minimalista. Uma sala branca , um sofá branco de couro ( falso ,ecologistas ), um tapete branco e uma televisão de LCD de 52 polegadas. No centro antigo, era uma sala menor, de paredes amarelas, tapete azul e quadros escuros. A TV era de LCD, mas de 32 pol. Na Berrini era uma sala toda preta, com um sofá escuro.Parecia um confessionário do BBB. Tudo era pensado para garantir o conforto. Três outras lojas estavam em fase de acabamento no Rio de Janeiro. Havia ainda uma pequena descrição do método usado. Colhia-se um pouco de sangue para verificar a coagulação e outros itens.Media-se a pressão sanguínea. De cara desconfiei que era armação. Colocavam musica New Age em seus ouvidos,na TV vídeos de animais da Nat Geo ( a sua escolha ), incenso indiano  e colocavam sob a língua do requisitante uma suspeita pastilha de hortelã. Ah, detalhe , funcionava vinte e quatro horas. Mas não informava os preços. Como ainda era cedo, não me contive. Peguei no telefone e liguei para o primeiro numero da lista ( cada instalação tinha seis números diferentes ! ).Pensei que era um negocio em expansão que exigia  que os contatos fossem  imediatos. Uma voz eficiente atendeu antes do segundo toque. Dei meu nome e solicitei algumas informações. A voz que amavelmente se identificou como Maria ( Hum ! ) disse que estava as minhas ordens. Comecei perguntando sobre os preços.

– Depende da distancia que a memória escolhida esta do presente, senhor. Quanto mais distante, mais cara.

– Porque ?

– Porque dispende maior quantidade de energia para obter o efeito do relaxamento  (esquecimento ).

– E posso fazer um pacote de memórias a serem esquecidas ?

– Sim senhor,numa única sessão podemos relaxar ate quatro memórias, desde que de épocas próximas.Não podemos por exemplo relaxar uma memória sua aos sete anos e outra aos dezessete. Tem um arco máximo de três anos.

– E posso apagar, digo relaxar longos períodos ?

– Infelizmente ainda não temos autorização para relaxar longos momentos.Usamos o método americano que ainda é o mais seguro. Estão desenvolvendo relaxamentos de períodos mais longos, mas ainda não temos tecnologia segura e nosso presidente ainda não autorizou.

– Da empresa ?

– Não senhor, da republica. Os russos estão em fase adiantada de testes para relaxamentos longos. Comenta-se na Internet que conseguiram relaxar a infância de uma senhora que viveu esta época de sua vida durante  a ultima grande  guerra.Só não comentam o resultado,mas parece que ela ficou mais alegrinha.

– E é caro ?

– Não senhor, a relação custo benefício é excelente.

– E quanto seria para uma memoriazinha de infância ?

– Desculpe me senhor, só informamos preços pessoalmente.

– E o governo brasileiro, não faz nada para tentar abaixar os preços ?

– Os preços não são altos senhor. No momento os parlamentares estão mais preocupados com aumentos do que com descontos. Não devia comentar com o senhor mas os preços das memórias de guerra estão entre os mais altos.É que normalmente estas pessoas podem pagar mais.

– E o que vocês fazem com as memórias ?

– Depende do senhor. As memórias podem ficar armazenadas conosco por ate dez anos.Ou por um extra podem ser irreversivelmente destruídas.

– Destruídas ?

– Sim, se for uma coisa que o senhor tem certeza de que não quer mesmo mais saber…

– Pensei um pouco,memórias . Mas Maria ainda estava na linha e batia o lápis no caderno.

– Pode me explicar um pouco do procedimento ?

– Não sei muitos detalhes. Já fiz uma vez para esquecer uma coisa de que não gostava. Mas não dói. Não é como tatuagem.

– E o que você queria esquecer ? Existe devolução ?

– Desculpe me mas não me lembro.Fiz o pacote econômico, que guarda a memória por dois anos. Ao fim deste período poderei optar por lembrar a memória ou ela será destruída. Mas o nosso índice de desistência de esquecimento é mínimo. Depois que a pessoa esquece, dificilmente se lembra de pedir devolução do produto.

– E onde as memórias ficam guardadas  ? Não existe perigo de roubo ?

– Não senhor. As memórias são codificadas duas vezes antes de serem enviadas ao cofre em Brasilia. As senhas de acesso a cada uma delas ficam em poder de nosso presidente.

– Da república ?

– Não senhor, de nossa empresa. Nomeado pelos conselheiros americanos.

– Fingi que alguém falava comigo, pedi um minuto,cobri o fone com a mão e pensei.Será que é verdade? Que memórias, por mais difíceis, deveríamos esquecer ? A vida já não se encarregar de faze-lo ? Mas não. Existem coisas que nem a vida consegue varrer de nossa memória.

– Senhor Omar ?

– Desculpe me Maria, já retorno. Memórias tristes, que se agarravam a meus pés. Memórias que gostaria de deletar por definitivo. Mágoas, incompreensões, abusos.Poderia deleta-los todos, com uma só sessão. Só para começar. Depois estudaria as outras mais recentes.

– Maria, e quando vocês tem hora ?

– Só um momento senhor Omar,vou consultar em todas as lojas.

Ouvi o som to teclado sendo tocado rapidamente.  De novo.

– Só mais um momento senhor Omar.Me parece que a loja dos Jardins, esta com uma desistência para Novembro do ano que vem.

– Novembro ? Mas estamos em Dezembro !

– Nosso procedimento exige um período mínimo de seis meses durante o qual o paciente é acompanhado por psicólogos para ter certeza de que quer mesmo esquecer.

– E não existem exceções ?

– Sim senhor Omar, mas só são autorizadas pela presidente.

– Da república ?

– Sim senhor. Agora no final do ano damos entrada dos processos urgentíssimos, que serão julgados em no máximo três meses.Mas adianto que apenas alguns privilegiados conseguem. Ca entre nós, custa muito caro. Apenas alguns políticos conseguem.

– E a tecnologia é segura? Não corro o risco da memória voltar expontâneamente ?

– Olha senhor Omar, temos ordens de não dizer nada sobre isso. Mas gostei do senhor . Alguns de nossos pacientes esqueceram-se  de  mais do que deveriam. Mais do que constava no pacote. Estão com amnésia . Não conseguimos fazer as memórias voltarem. Nunca mais serão os mesmos. Mas se o senhor disser que eu contei , nego ate a morte. Para sua segurança as ligações não são gravadas.

– E nesse caso que você ( não ) me contou,o dinheiro é devolvido ?

– Não senhor. Após o procedimento realizado não há devolução. É feito apenas acompanhamento do paciente e da família.Esta é uma das cláusulas do contrato.

– E ninguém reclamou ?

– Achamos que algumas reclamações serão enviadas a nossa presidente no ano que vem.

– E como pretendem lidar com elas ?

– Isso fica a cargo da gerencia senhor Omar, sou apenas uma atendente.

– Desculpe me Maria, mas este emprego é bem pago? Você ganha comissão ?

– Esta acima da média do mercado,senhor Omar.Temos um adicional de contratos firmados. Deu para reformar nosso apartamento no Guarujá, no ano passado.

– Ah, entendi.Tem plano de saúde? Cartão alimentação ?

– Senhor Omar, o senhor não é repórter , não é ?

– Não, não, escritor.

– Então ta. Nossos benefícios incluem  os melhores hospitais e os melhores restaurantes.Podemos ate optar por esquecer algumas memórias por preço promocional.Mas depois que fiquei sabendo dos problemas, não me arrisquei mais.

– E a igreja, não é contra ?

– No começo o papa quis impor restrições no relaxamento. Memórias religiosas não poderiam ser incluídas. Mas somos contra o sofrimento e conseguimos passar por cima das imposições.Tudo que o paciente quiser,podemos relaxar.

– Ta bom Maria, não vou te perturbar mais.Obrigado.

– Não tem problema senhor Omar, venha tomar um café conosco quando estiver por perto. O senhor será sempre bem vindo. Diga que falou comigo, que o segurança o deixará passar.

– Esta bem Maria. Prometo passar por ai qualquer dia destes.Obrigado pelas informações.As guardarei sempre em minha memória.

– O senhor é quem sabe. Qualquer coisa podemos dar um jeitinho pro senhor. É o nosso negócio.

– Ok Maria, agradeço novamente, bom ano novo.

Coloquei o folheto dentro da gaveta do criado mudo. Preciso pensar. Será que algum dia vou me arriscar a deletar algumas memórias? Como irei me sentir ? Irei sentir falta delas ? Se me arriscar, não ficará um buraco em meu passado ? Será confortável ? Ou será como uma coceira que não se consegue coçar ? Por enquanto acho que vou ficar com elas. Boas ou más, a elas estou acostumado.Criei couraças. Mas de vez em quando as defesas caem. Só ai então irei me decidir a tomar um café com Maria e quem sabe agendar um relaxamento.