Arquivos Diários: 7 janeiro, 2011

PANELAS, terra dos cabanos – por josé alexandre saraiva / curitiba


Encravada no brejo de Pernambuco, meio mata, meio agreste, Panelas é cercada de serras majestosas. Os moradores respiram doces aromas de árvores frutíferas e são acalentados por brisas vespertinas que beijam as folhas do mulungu, dos cajazeiros, das mangueiras e dos juazeiros. A temperatura média é a mais acolhedora do mundo: varia entre 17°C  e 25°C..

 

No passado, suas encostas íngremes e os recônditos de matos impenetráveis serviram de palco em tórridas batalhas da Guerra dos Cabanos. Nesse cenário, realçado pelas venerandas Serras da Bica, do Boqueirão e dos Timóteos, forças dos governo registraram incontáveis baixas na Revolta de Panelas, iniciada em 1832. A Cabanada ganhou as páginas da História por sua singularidade. Tinha como objetivo o retorno ao trono do imperador Pedro I. A guerra, como posteriormente ocorreria no Pará e em outras regiões do Brasil, embora com conotações distintas, foi deflagrada por estar em jogo o status quo das elites dominantes, incluindo donos de engenhos apreensivos com a ruptura do modelo político e social promovido pela regência. Abrupto aumento da concorrência comercial, desvalorização da moeda, iminente suspensão de importação de escravos e insegurança jurídica formaram o pano de fundo do levante. Com engodos assistencialistas, sobretudo de fixação do lavrador como titular da terra e o fim do cambão, apoiados pelo clero, burgueses e aristocratas conservadores, dissidentes do núcleo  litorâneo do poder, seduziram a massa rural com o canto da sereia. Além de senhores de engenho, doutrinaram pessoas simples, moradores de cabanas rústicas, fornecendo-lhes armas e munição para cruentas e selvagens lutas. O contingente rebelde, que no auge do conflito correspondia a 10% da população pernambucana, era formado pelos camponeses, índios, negros e caboclos. Ocorreu que a liderança inicial do movimento – composta de pseudo-ideólogos de uma liberdade que nunca iria existir, donos de escravos e paladinos de uma restauração política impossível –  logo recuou. Mas ignoraram que isso já era tarde para deter a marcha do confronto. Ele prosseguiria de modo selvagem nos recessos das matas. Não havia mais tempo para retirar dos cabanos a doutrina de uma suposta injustiça, que teria sido praticada contra o imperador, e da ameaça real de expulsão das pequenas glebas, à época ocupadas graças a benesses ou favores concedidos pelos latifundiários. Na melhor das hipóteses, por esse modelo de fixação do homem à terra, os trabalhadores livres submetiam-se ao cambão, que consistia em entregar ao senhorio metade da suada produção. Os rebeldes, em sua maioria  elementos rudes e de valentia indomável, utilizavam táticas de guerrilha para dificultar as estratégias do inimigo, isto é, da força militar. E assim, à lavagem cerebral de reentronização de Pedro I, inicialmente apregoada, afloraram interesses próprios e legítimos dos cabanos, como o direito claro e objetivo à posse da terra e à sobrevivência digna. Em Panelas, o quartel-general dos cabanos era na Serra dos Timóteos, assim batizada em homenagem aos líderes locais, os irmãos Antônio e João Timóteo. Com o decorrer do tempo, o comando geral dos Cabanos, compreendendo os estados de Pernambuco e Alagoas, foi assumido por Vicente Ferreira de Paula. Com larga experiência militar, ele consolidou e liderou o movimento até o seu epílogo. Recolheu-se, com reduzido grupo de rebeldes (apelidados “papa-méis”), sem aceitar anistia, ao seu recanto predileto, um lugar chamado Riacho do Mato. Mas as forças legais continuaram vendo nele uma ameaça. Anos depois, apunhalado pelas costas numa cilada engendrada covardemente pelo Marquês do Paraná, famoso fazendeiro de café no Rio de Janeiro, foi preso aos 59 anos de idade, cumprindo uma pena de reclusão de 10 anos em Fernando de Noronha. Com a liberdade, setuagenário, teria ido morar em Alagoas, em cuja costa, insistentemente, no passado, tentara tomar de assalto um porto imaginando receber o venerado imperador Pedro I.

 

Certamente morreu sonhando um grande sonho, nunca o sonho daqueles doutrinadores iniciais, de ocasião. Um sonho ainda não convincentemente decifrado pela História oficial. Um sonho para o qual no começo foram conduzidos e que, com os desdobramento, no final, tiveram motivos próprios para, independentemente dos “doutrinadores”, perseguirem genuíno sonho. E isso já era tudo. Um sonho de pouco discurso, movido a cheiro de terra, de liberdade, de coragem e de braços fortes. Claro, de pólvora também. Um papa-mel poderia sonhar mais fundo ou mais largo do que suas braçadas firmes no sagrado solo natal? Eis porque foi um sonho legítimo: nunca esteve além do fruto da terra. Sequer foi mais alto que as lendárias Serra dos Timóteos , da Bica e do Boqueirão. Bastava a flor do mandacaru para demarcar fronteiras…

 

 

O nome Panelas

 

 

Para alguns pesquisadores, a palavra que dá nome à cidade originou-se da tradição dos antigos habitantes, especialmente os índios, na manufatura de panelas de barro. Outros atribuem a denominação à geografia urbana, comprimida entre os sopés de suas serras. Fico com a primeira versão. Ora, a palavra está registrada no plural (“Panelas”), a indicar a existência de provável cultura de artefatos de barro produzidos pelos antepassados. A localização da cidade, vista do topo de uma das três proeminentes serras, pode, quando muito, lembrar uma panela, mas uma só, no singular. Por outro lado, soa desproposital comparar o conjunto geográfico de suas terras a trempes de panelas – a menos que se admita um gigantesco triplé de serras para assentar panelas colossais, com vários quilômetros de diâmetro, vindas de outros planetas! Mesmo assim, e apenas como reforço de argumento final, o nome não poderia ser Panelas. Na melhor das hipóteses, seria Trempe, ou, com mais esforço ainda, “Trempes”.