Arquivos Diários: 8 janeiro, 2011

O escritor AMILCAR NEVES, o poeta MANOEL de ANDRADE, MARIA VITÓRIA e NEIVA ANDRADE foram celebrar a chegada de 2011 com J B VIDAL e RÔ STAVIS na Praia dos Ingleses/Ilha de Santa Catarina


o escritor AMILCAR NEVES da Ilha de Santa Catarina, o poeta MANOEL de ANDRADE de CURITIBA e o poeta e editor do PALAVRAS TODAS PALAVRAS J B VIDAL comemorando a virada do ano (2011) na residência de J B na Praia dos Ingleses / Ilha de Santa Catarina.

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MARIA VITÓRIA, ROSANGELA STAVIS e NEIVA ANDRADE senhoras do escritor e poetas acima.

Uma noite muito agradável e rica no temário que acabou por estender-se até as 4:00 do dia 1/1/11.

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o escritor e poeta JAIRO PEREIRA de Quedas do Iguaçu/PR esteve visitando o amigo e colega J B VIDAL horas antes da virada do ano. seis horas de conversa, mesmo assim faltaram algumas abordagens.

SOB O SIGNO DO DESCASO – por amilcar neves / ilha de santa catarina


 

O atual governo do Estado inicia exatamente como terminou o anterior: sem um presidente na Fundação Catarinense de Cultura.

 

Escrevo esta crônica na noite de 3 de janeiro. Até o final da tarde não havia na FCC qualquer informação sobre comando da casa: nem presidente, nem diretores, nem gerentes, chefia nenhuma, tudo absurdamente olhado como cargos de confiança a serem preenchidos por afilhados políticos de acordo com questionáveis cotas partidárias: nada de profissionalismo, nada de valorização do pessoal de carreira, nada de continuidade administrativa e de projetos. Tudo parado no Centro Integrado de Cultura, complexo cultural que é forçado a ceder quase metade do seu espaço para abrigar a Fundação.

 

A data em que este texto é escrito mostra duas coisas: passados já três dias de governo, não há sequer nome escolhido para conduzir as atividades culturais em Santa Catarina – um dos poucos estados da Federação que, de modo também absurdo, não conta com uma Secretaria da Cultura. Como se o Estado não precisasse disso, como se não houvesse necessidades urgentes na área.

 

A segunda coisa: nesta data, completam-se três meses que o governador foi eleito em primeiro turno. Como não teve tempo, disposição ou vontade de definir o comando da FCC, certamente há de fazê-lo agora de improviso, às pressas, porque o tempo urge – e a possibilidade de fazer uma má escolha só aumenta com o tempo.

 

O governador anterior, um vice que assumiu porque o governador eleito que tanto quis acabar com a Biblioteca estadual saiu para ser senador, exonerou o presidente da Fundação no dia 16 de dezembro e ninguém fala por que Antonio Ubiratan de Alencastro, do mesmo PSDB do vice efetivado, foi assim subitamente descartado. Sempre ressalvando que mais tarde contarão direito a história, as pessoas dizem que “o Bira vacilou e foi exonerado” ou “queriam que o Bira fizesse coisas com as quais ele não concordou”.

 

Só há dois motivos para exonerar alguém do segundo escalão a 15 dias do fim do mandato: ou porque fez algo muito feio e errado ou porque recusou-se a fazer algo muito feio e errado. Pelo pouco que conheço do Bira, ele é o tipo do católico ativo, convicto dos Dez Mandamentos e incapaz de meter-se em aventuras condenáveis, feias e erradas.

 

Assim se dá a continuidade no governo do Estado: sob o signo do descaso. A Biblioteca Pública que se cuide.

 

 

EU TE COMPREENDO… de joão de abreu borges

 

 

Eu te compreendo…

Porque sei que estás vivendo da melhor maneira possível, apesar de todas as dificuldades financeiras que tens encontrado… e sorri para as conseqüências disto, principalmente a falta dos amigos que deixam minutos no chão para marcar o caminho mas se perdem, pois o tempo passa…

 

Eu te compreendo…

Porque sei que as suas intenções são as melhores possíveis e que estás procurando enxergar aquilo que poucos têm a coragem de procurar entender… e sorri para as consequências disto, principalmente a falta do que fazer quando muitos estão ocupados com tantas coisas…

 

Eu te compreendo…

Porque sei que a tua história se confunde com a história da maioria das pessoas que está ao seu redor, achando até mesmo graça no fato de às vezes se perderes no meio delas, encontrando-se como Um no organismo social que, nessas horas, faz sentido… e sorri para as consequências disto, principalmente quando tropeças por não conseguir acompanhar tanta pressa, tanta ânsia, tanto nervosismo…

 

Eu te compreendo…

Porque sei que quando dizes “sim”, talvez devesses dizer “não”, mas prefere a mentira quando esta se torna necessária para o bem estar do próximo… e sorri para as conseqüências disto, principalmente se quem recebeu esta tua gentileza seguiu em frente sem nem olhar para trás… e você nem reparou…

 

Eu te compreendo…

Porque sei que tu queres o melhor para ti, a partir do momento em que ensinas tudo aquilo que queres aprender e reflete a luz daquele que não consegue brilhar… e sorri para as consequências disto, principalmente o esgotamento que muitas vezes o deixa em dúvida, com o olhar perdido no céu… mas isto não o impede de caminhar.

 

Eu te compreendo…

Porque sei que teus princípios são os mais nobres possíveis… que tua voz é a mais elegante possível… que as tuas idéias tem um valor inestimável… que o teu amor surpreende até mesmo ao teu próprio coração… e sorri para as consequências disto, principalmente pela roupa simples que usas, pelo tênis apertado que ganhastes e pelo cabelo desmanchado que ainda não aparastes…

 

Eu te compreendo…

Porque sei, enfim, que tu compreendes a ti mesmo como um filho da natureza que está em evolução e em perfeita sintonia com os fenômenos do Universo e, assim, teu sorriso se expande entre árvores e estrelas, e nada disso tem conseqüência porque tudo está interligado.

 

Então, eu te compreendo!

 

LÍBIA e sua beleza natural – por haroldo castro / são paulo

Areias e montanhas pontiagudas do deserto de Akakus, Líbia


Começo 2011 com uma série de crônicas sobre a Líbia, um país tão enigmático como fotogênico. Escolho como ponto de partida o deserto, uma das mais paisagens mais belas do planeta.

Ali Mahfud é meu guia e tradutor durante essa jornada. Logo no primeiro dia, descubro que ele adora uma discussão filosófica, usando um francês que ele domina bem. “Aqui no deserto, a areia é a mãe e as rochas são suas filhas, pois as pedras foram feitas de areia”, afirma ele. Para manter a tensão do diálogo, rebato com uma visão mais geológica, dizendo que “as areias também são filhas das pedras, pois representam o resultado da erosão dos arenitos.”

As paisagens inspiram discussões filosóficas. A areia é a mãe das rochas? Ou, pelo resultado da erosão, a areia é filha das pedras?

Nossa conversa é uma viagem que se confunde com o próprio cenário. Rodeados por dunas gigantescas e formações rochosas pontiagudas, que nos transportam a outro mundo, estamos no deserto de Akakus, parte do infinito Saara.

O Akakus é a continuação do Parque Nacional Tassili N’ajjer, situado na Argélia. É bem diferente dos outros desertos que conheci até então. Hospeda dunas altas – algumas com mais de 100 metros de altura – e suas areias variam do branco ao ocre, passando pelo amarelo ouro e pelo quase-vermelho. Mas é o jogo entre as dunas dinâmicas e as formações rochosas que fazem de Akakus um lugar excepcional. Para os tuaregues, nômades da região e guardiões do deserto, é um “lugar” (aka)“tórrido” (kus), mas para a viajante parisiense Françoise Dubeau é simplesmente “o deserto de meus sonhos de criança.”

No deserto de Akakus, existe um jogo contínuo e dinâmico entre as dunas de areias coloridas e as formações rochosas.

Não é fácil chegar a esse recanto perdido do globo. Demanda muita logística para adentrar o deserto: duas Toyotas Land Cruiser 4×4, com tanques extra de 200 litros de combustível; equipamento de cozinha e comida de sobra; barracas, sacos de dormir, colchões e cobertores. E muita, muita água.

Sebha é a porta de ingresso ao Saara. É a principal cidade do Fezzan, nome da região situada ao sudoeste do país. Qualquer visitante estrangeiro que queira conhecer o deserto na Líbia deve passar obrigatoriamente por Sebha. Para os imigrantes ilegais vindos do Sudão, do Chade e do Niger, essa cidade de 130 mil habitantes é também um marco importante antes que eles possam viajar, como clandestinos, de Trípoli para a Europa. Sheba, com suas largas avenidas asfaltadas, seu aeroporto moderno e seus ricos mercados, é uma encruzilhada de cores e culturas.

Mais de 400 km separam Sebha das montanhas do Akakus. Durante o trajeto observo uma prova do poder da água e da vontade política. Poços artesianos que chegam a 450 metros de profundidade trazem água à superfície. O sagrado líquido transforma o solo árido em um tapete verde de trigo, milho e outras plantações.

O asfalto acaba em Sardalas. Agora é rumar para o leste e enfrentar a poeira, o calor e as pistas de areia e pedras. As montanhas negras que definem o Akakus, que se confundiam com a linha do horizonte, ganham mais presença. Quarenta quilômetros e duas horas depois alcançamos as primeiras pedras que brincam com nossa imaginação. Moldados pela erosão do vento (e, algumas raras vezes, da água) e pelas diferenças de temperaturas extremas entre as noites de inverno e os dias de verão, os arenitos de Akakus tomam as formas mais bizarras.

O monolito Ad’ad (significa, em idioma berbere, “dedo”) é o marco de entrada nesse mundo de objetos e pessoas que viraram pedra. “Parece que estamos na Lua”, diz Ali Mahfud. Para alimentar nossa peleja semântica, respondo que “a comparação com Marte seria melhor, pois a areia daqui é toda vermelha.” Ambos somos do mesmo signo de Áries e a viagem está apenas começando…

O monólito Ad’ad marca o ingresso no mundo insólito e imaginativo das pedras. Em idioma berbere, Ad’ad significa dedo.

RE.