Arquivos Diários: 12 janeiro, 2011

SEM TITULO – por vera lucia kalahari / portugal

No deserto onde nasci, nesse Namibe das mil miragens, aprendi a falar
sem precisar das palavras, porque elas, muitas vezes, são pobres e
inúteis…Sim, significam as coisas banais e insignificantes da vida:
o camelo, o oásis, as tâmaras, o albornoz….
Quando sentimos alguma coisa profunda em nosso coração ,só o coração
saberia dizer o que as palavras não podem… Mas o coração só sabe as
sílabas da sua pulsação… Repousa a cabeça no meu peito, na solidão
da minha tenda, e ouve-o pulsar… Ouvirás o vento varrendo as areias,
curvando as palmeiras, secando as fontes, sepultando as caravanas.
E nas suas curtas sílabas, compreenderás todas as palavras que não
vale a pena serem ditas.
Esta é uma pequena alegoria que faço à mudança que tem que ser feita,
no deserto que é a vida…Quando aprenderes a encostar a cabeça num
ombro acolhedor e sentires que amas esse amigo, com a mesma ternura
que amarás uma árvore em cuja sombra, depois de longa caminhada ao sol
ardente pelas dunas solitárias, te dará a doçura da sua sombra
benfazeja, aí residirá a mudança. Saberás que ele não te poderá dar
senão a mesma frescura dos ramos dessa árvore acolhedora, nada mais…
Que somos na natureza seres diferentes, separados em mundos
diferentes, mas o amor junta-nos ali… E o amor é isso mesmo: Que
importa que linguas diferentes não nos nos deixem comunicar que as
mãos estejam distantes para uma carícia…Basta essa sombra da árvore
que acolhe um momento nossos destinos obscuros, errando pelos sóis do
deserto…
É aí que residirá o futuro da humanidade, nestes tempos de mudança.
Por isso, resta-nos ajoelhar e beijar a sombra silenciosa e
acolhedora, que, sem saber, aqueles que sabem amar trouxeram também
aos sois do nosso deserto.

P.S.  Dedicado ao meu amigo e grande poeta, João Batista do Lago

A VISÃO

Eu vi,

Corpos negros dançando

Num bailado sem fim…

Vi corpos requebrando ao vento

Como coqueiros  arqueados.

Era algo de profundo e magnífico…

Vi panos coloridos

Desnudando corpos,

Esvoaçando e brilhando,

Azuis, roxos, negros…

Vi  risos e cantos e tambores

Ressoando ao sol

Numa sinfonia sem fim…

Ran…Tan…Tan…

E vi a minha terra toda,

Meus avós, num bater frágil de asas,

Num canto inesquecível, superior à poesia,

Surgindo, surgindo,

De milhões de palmas, das fontes do eterno frio…

Deus… Que futuro imenso para esta terra,

Onde o lodo se tornará cristal,

E onde a liberdade há-de chegar…

Glória a todos os que morreram por ti,

Orgulhosos do seu fim,

Acreditando num mundo melhor…

Quem somos nós para duvidar

Que esse tempo tem que chegar?

 

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JÁ É UM COMEÇO DE GOLPE – por rui martins / suiça

Rui Martins*

Se você faz parte dos 87% que apoiavam o governo Lula, fique alerta – no mais escondido covil de serpentes e escorpiões trama-se um golpe institucional contra o governo de Dilma, mesmo se esse governo começou com 62% de aprovação popular.

Desta vez, ao contrário do golpe de 1964 não se trama nos quartéis com o apoio declarado dos Estados Unidos. A trama é bem mais sutil – não se acena com a paranóia do perigo vermelho, mas com base em pretensos arrazoados jurídicos se quer desmoralizar e desautorizar o ex-presidente Lula e se colocar no ridículo a presidenta Dilma, que será destituída do poder de decisão.

O golpe não parece financiado só por dólares americanos, como no passado, mas igualmente por euros vindos da Itália. Aparentemente trata-se da extradição ou não extradição de um antigo militante italiano, Cesare Battisti, condenado num processo italiano fajuto à prisão perpétua, mas a verdade submersa do iceberg é bem outra.
Quem leu as revelações do Wikileaks quanto as opiniões dos EUA sobre Lula, considerado suspeito, e Celso Amorim, considerado antiamericano, e que acompanhou a campanha contra a eleição de Dilma, sabe muito bem haver interesses de grupos internacionais em provocar uma crise institucional no Brasil.

Será também a maneira de grupos econômicos estrangeiros impedirem a atual emergência do país como potência mundial. A Itália neofascista de Berlusconi com seu desejo de recuperar um antigo militante esquerdista é apenas uma providencial pretexto para os grupos políticos e econômicos internacionais incomodados com o Brasil líder do G-20 e vitorioso contra os EUA na OMC.

O que se quer agora, com o caso Battisti, é subverter as instituições brasileiras, mergulhar-se o país numa confusão entre o poder do Executivo e o poder do Judiciário, anular-se uma decisão do ex-presidente Lula para se abrir o caminho a que governança do Brasil seja sujeita à aprovação do STF. Para isso conta-se, como em 1964, com os vendilhões da nossa soberania e com os golpistas da grande imprensa.

Simples e prático, para se evitar que a presidente Dilma governe, vai se tentar lhe por um cabresto e toda decisão sua que desagrade grupos internacionais deverá ser anulada pelo STF. Por exemplo, a questão da exploração petrolífera do pré-sal poderá ser uma das próximas ações confiadas ao STF.

Se Dilma quiser renacionalizar as comunicações, já que a telefonia é questão estratégica, o STF poderá dizer Não e também optar pela privatização da Petrobras. Delírio ? Não, os neoliberais inimigos de Lula e da política nacionalista, derrotados nas eleições, poderão subrepticiamente retirar, pouco a pouco, os poderes da presidenta e do Legislativo, para que fique apenas com o STF o governo ou o desgoverno do Brasil.

O próprio advogado de Cesare Battisti, acostumado com leis e recursos, nunca viu uma decisão presidencial ser posta em dúvida por um ministro do STF, e por isso falou em « golpe » tal como havíamos alertado.

Por sua vez, o atual governador do Rio Grande do Sul, que aceitou o pedido de refúgio de Battisti quando ministro da Justiça, não aguentou a decisão do ministro Cezar Peluso do STF de colocar em, questão a validade da decisão do presidente Lula e declarou como « ilegal » e « ditatorial » o ato do ministro Peluso, do qual decorre um « prejuízo institucional grave » para o país e um « abalo à soberania nacional ».

Faz dois anos, Tarso Genro concedeu refúgio a Battisti, que deveria estar em liberdade desde essa época. Mas o ato liberatório foi sustado pelo ministro Gilmar Mendes, que submeteu a questão ao STF, o que já consistia um ato arbitrario. Embora os ministros tenham decidido por 5 a 4 pela extradição, competia ao presidente a decisão final, o que foi reconhecido, depois de uma tentativa de reabertura do julgamento.

O presidente Lula justificando seu ato, dentro do permitido pelo Tratado mútuo de Extradição entre Brasil e Itália, com base num documento da Advocacía Geral da União, negou a extradição e a própria Itália entendeu o ato como definitivo. Ora, a decisão do ministro Cezar Peluso de pôr em dúvida a decisão do presidente Lula e reabrir a questão vai além de sua competência e fere uma decisão soberana.
É tentativa ou já é golpe, no entender do advogado Luiz Roberto Barroso, é ilegal e ditatorial segundo o ex-ministro da Justiça Tarso Genro, opiniões que vão no mesmo sentido de Dalmo Dallari e de outros juristas.

O que iremos viver, quando o ministro Gilmar Mendes se dignar a colocar na agenda do STF o « julgamento da decisão do presidente Lula », se a maioria, por um voto que seja, decidir anular a decisão de Lula ? Será que a presidenta Dilma aceitará essa intromissão do STF no poder do Executivo ? Em todo caso, será o caos.

É hora de reagir, antes que seja tarde demais.

*RUI NARTINS – Ex-correspondente do Estadão e da CBN, após exílio na França. Autor do livro “O Dinheiro Sujo da Corrupção”, criou os Brasileirinhos Apátridas e propõe o Estado dos Emigrantes. Vive na Suíça, colabora com os jornais portugueses Público e Expresso, é colunista do site Direto da Redação. Colabora com o Correio do Brasil e com esta nossa Agência Assaz Atroz.