Arquivos Diários: 17 janeiro, 2011

A cachoeira ( O que farão os poetas quando todas as combinações de palavras tiverem sido usadas?) – por omar de la roca / são paulo

 

Tenho ouvido muito sobre a morte das palavras,de palavras que secaram, de poetas que se perderam ou que perderam as palavras.Não posso falar por todos,cada um tem o seu problema.Mas posso dizer que nem as palavras morreram,nem os poetas se perderam ( mas podem estar confusos ) e nem perderam as palavras ( sentaram-se apenas num canto do caminho esperando uma hora que o sol não esteja tão forte).Pode ser que me perguntem como posso ter certeza.Podem ser que não acreditem,mas encontrei a fonte das palavras.Mais corretamente,uma  cachoeira de palavras.Com certeza não deve ser o único manancial,mas com certeza o encontrei e passo a descrever o lugar em seguida.Depois de três quilômetros montanha acima,cheguei numa pequena fazenda. Havia um pequeno portão que levava a um caminho ladeado por hortênsias azuis e enormes plátanos. Mais para a frente a esquerda um pequeno lago sobre o qual se debruçava um salgueiro , escrevendo com seus dedos preguiçosos poesias na superfície do lago. Quando o vento soprava forte, levantava sua cabeça e sacudia os longos cabelos sorrindo. Passando por ele, um espaço aberto onde se via a entrada do caminho que leva a cachoeira. Era um caminho que precisava cuidado. Era um caminho essencialmente individual. Nada proibia que ajudássemos uns aos outros, já que as pedras estão quase sempre úmidas. Pelo caminho cruzei com alguns poetas que descansavam sentados na grama , sem pressa para seguir ate a cachoeira. Comecei a descer o caminho devagar. Havia curvas encharcadas de água, e pedras traiçoeiras. Poucos apoios havia pelo caminho onde pudesse me segurar. Mas segui em frente que já ouvia o som da cachoeira. Não era um som que eu esperava ouvir. Parecia que mil vozes falavam ao mesmo tempo, mil palavras diferentes, mil línguas de fogo.Continuei descendo pelas pedras animado. Enfim cheguei ate um lugar onde podia observar um trecho da queda d’agua.Não toda, pois o terreno era irregular e ela muito grande.Parei um pouco e fechei os olhos para ouvir melhor.Ouvi palavras doces,agressivas,de desencanto, de esperança, palavras de amor, de ilusão, palavras que cantam,  que desencantam, enganadoras, sinceras,ásperas ( que eram altas ), de fé, palavras de cansaço, de entusiasmo,de exaustão.Palavras de espera, de cansaço de esperar, de ingenuidade, de resignação, de revolta, de inconformismo , de ação, de reação, de choro, de tristeza, de histeria, aflição, de riso , de dissimulação, de surpresa. Palavras de areia e de cinzas de gelo e fogo. De sacrifícios inúteis, de longas preparações para algo que nunca acontecerá. Palavras prolixas,sublimes,eróticas, satíricas.Palavrastodaspalavras . Que davam as mãos ao cair apenas para se separar ao chegar ao solo. Mas não. Era o meio da cachoeira.Ela continuava seu caminho tranqüilo até mergulhar na terra e seguir adiante.Desci mais um pouco até um pequeno remanso onde as palavras boiavam com os bracinhos atrás da cabeça, antes de se precipitarem mais a frente.Ouvi ainda palavras de gozação, de riso dissimulado,de rostos virados, de comentários inconseqüentes. Palavras displicentes, engraçadas , de falta, de abuso, de pena, de como podia ter sido, de solidão , de compaixão.Abri bem os olhos e a cachoeira ainda estava ali.Palavras de ventos e calmarias, de pássaros, folhas, borboletas.De natureza, de terremotos, vendavais.Fartei-me de palavras.Fartei-me.Estão todas dentro de mim esperando para sair.Tomara eu não arrebente,ou arrebente aos poucos,deixando sair toda aquela caudalosa corrente.Enquanto a cachoeira segue seu caminho plácido entre as plantas,pedras,correndo célere para o mar.

 

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