Arquivos Diários: 23 janeiro, 2011

A ESMOLA DE DULCE – de augusto dos anjos / sapé.pb

 

Ao Alfredo A.

E todo o dia eu vou como um perdido
De dor, por entre a dolorosa estrada,
Pedir a Dulce, a minha bem amada
A esmola dum carinho apetecido.

E ela fita-me, o olhar enlanguescido,
E eu balbucio trêmula balada:
– Senhora dai-me u’a esmola – e estertorada
A minha voz soluça num gemido.

Morre-me a voz, e eu gemo o último harpejo,
Estendendo à Dulce a mão, a fé perdida,
E dos lábios de Dulce cai um beijo.

Depois, como este beijo me consola!
Bendita seja a Dulce! A minha vida
Estava unicamente nessa esmola.

 

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Tentativa número 3 – de “sofista pirateado”


Tentem os homens de forte fé

Ou tantos incrédulos da ciência

Explicarem a mim isso o que é

Desculpa para tédio ou doença:

 

Já não sou mais o mesmo menino

Se sou pensei ter crescido homem

Enganou me o tempo e o destino

E à noite os meus sonhos somem

Como tivesse todas as moléstias

Fraco dos nervos, até da cabeça

Coitado que não vai mais às festas

Quer mais que o mundo o esqueça

Como, com que força, que vontade

Meus sentidos transmudam, tremem

Vou falar, frases saem pela metade

Mudo minha cara, não me entendem

Como entenderiam minhas lágrimas

Esse tormento que aflige meu estar

Essa febre que não passa, trágicas

Sinfonias frias que teimo em escutar

Perdi a fome mesmo, pareço fraco,

Pareço pedaços, sou feito de vidro

Feito cacos do velho espelho opaco

Que os meus sonhos têm refletido.

Ainda te amo mesmo partindo

Esta estrada não tem distância

Amarei-te longe por lembrança

E será meu lembrar mais lindo.