TROPILUZ de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


 

(Ensaio de relação entre o cavalo e o poeta)

 

Esse cavalo continuará correndo pelos caminhos de meus caminhos suas ventas quentes a inalar o cheiro do capim verde da Fazenda Poema na saída das primaveras meu cavalo que já faz parte de mim um equus hígido de luz continuará pastando o pasto fino de minhas visões o ritmo dos poemas longos pousados nos livros inéditos as pernas longas no arremesso do bólido no espaço o bólido muscular em seu  primeiro galope acima do vento a manter o sonho vivo o sonho do sonhar a grande poesia no pasto da campina!? Eu um boi agora a sonhar a grande poesia no pasto da campina um cavalo nunca poderá correr na frente do vento um cavalo nunca poderá correr na frente do pensamento um cavalo correr quando seu pai o homem estiver morto sou pai desse potro exuberante sobre as planícies um potro pasta minhas palavras de aluguel nessas planícies que imagino vertidas de luzes espectros de pensamentos mal conduzidos é de se ficar envolto numa filosofia que não se pode solucionar expor como água na palma da mão aos pobres de espírito aos lerdos aos letargidos um cavalo é de ficar com o homem morto o homem que morre em pé e seu cavalo ao lado do seu pai o cavalo hirto e resolvido do lado do dono que vai o dono que se ausenta um cavalo correndo do outro lado da vida com seu dono sedento de tempo… não! Essa amizade não poderia terminar assim como terminam as amizades entre os homens um cavalo é de ficar sempre com seu dono aprendendo o tempo lendo nos porões da antiga Biblioteca de Alexandria com um louco um poeta e uma criança

era um homem e era um cavalo e era um louco e era uma criancinha e era uma biblioteca crescida pra fora das cavernas e era outra biblioteca edificada dentro da terra e ambos liam e reliam a história da humanidade sobre quatro patas um equus refulgia na noite fúrnica relinchos ecoados no ciberespaço relinchos no temporal relinchos de éguas no cio cavalos crescidos nos embates das idéias cavalos cavalos colagens de equuos nas páginas dos dias ensolarados do futuro projeções de um homem um poeta louco e seu cavalo nas home pages como um hacker dilacerador um hacker que destrói o tempo do mundo do sem-cavalo éguas parindo para o porvir éguas silentes de segredos antigos cavaleiros mortos espadados nos campos do Senhor silêncio de segredos antigos dos mandatários déspotas meu cavalo ergoluz refulge as verdades encobertas quando o conduzo para o sem caminho da criação meu criatório de almas signos a protonathuralização do ímpeto nefertímoro anímoro germe um poema cavalo me desafia a reconstruir o mundo do com-cavalo um poema larva na folha de couve verde clorofilado no desafio das cores recrescidas para dentro tive ímpetos de cavalgar sobre os mares cavalgar sobre chãos de águas cavalgar no espaço sideral tive ímpetos de adentrar nos Tribunais com meu cavalo ébrio de poesia tive ímpetos de freqüentar o Congresso Nacional a Assembléia dos Sábios Consagrados pelo Governo com meu cavalo de óculos lendo poemas de loucura-boa e convicta que toda loucura deve ser convicta e boa no mundo dos com-cavalos meu cavalo lendo para os ignaros legisladores a razão que se desmancha sobre as quatro patas de um loz cavalgado de ventos meu cavalo sábio na tribuna com sua verve cavalar hipocêntrica cancheira com gosto de capim e calor de ventas meu cavalo ébrio de embates no mundo dos com-palavras um cavalo meu cavalo ébrio de poesia pós-graduado em philosophia preleciona verdades

na noite assombrante que virá meu mundo por um cavalo que carregue meus poemas junto às ancas cestos invisíveis de poemas sobre as ancas do loz tropiloz triloz na veloz cavalgada do vento não é preciso te dizer que essa coisa de amor muito amor a cavalos é coisa de poeta que se descobre em um mundo sobre quatro patas meu mundo por um cavalo Dario meu mundo Birão meu mundo Ivanê por um cavalo um loz atirado no tempo quantos povoados por passar?! Estradas além estradas no deserto sobre as montanhas nos vales nos baixos pântanos meu cavalo hígido de sóis e luas transfixado pelas setas espinhos das mais diversas nathuras meu pai deveria estar comigo com seu cavalo eu e meu pai cada qual com seu cavalo atropelado de tempo caças por abater de cima dos cavalos perdizes atiradas nos campos do velho Rio Grande do Sul de onde viemos e nunca mais voltamos o pai arroja o loz branco andaluz triluz de ventos contidos redemoinhos no baixo-ventre arroja sobre os cercados assimétricos dos campos ali deixei poemas espalhados pelos caminhos poemas que nunca foram escritos mas vi deixei-os pendurados como enroscos nativos na paisagem sob as cruzes de cemitérios campeiros abandonados ali a raiz da raça naqueles campos onde o loz triluz na veloz cavalgada do vento um cavalo Birão um cavalo Dario para um poeta abduzido de tudo e todos um cavalo a me levar para o outro lado da razão

visionário meu cavalo antropocênico no espaço verde da campina um cavalo testa sua imagem na tez cristalina das águas do açude um cavalo narcísico mira-se no esplendor da água parada com gosto de limo também já tive horas de ficar olhando no espelho da superfície de poços parados meu destino enliado de pequenos nós que a vida vai desamarrando

um cavalo um poema uma verve uma montanha uma lagoa um pântano tudo encrestado de finos cipós do tempo minha mãe lia todos os livros inescritos nas folhas de ervas do campo minha mãe analfabeta lia nas folhas das ervas meu destino cego doido pra tudo quanto é lado um dia um cavalo me levará pra bem longe daqui um cavalo no mundo do sem-cavalo um cavalo álgido florescente na noite fúrnica com seu cavaleiro poeta tropiprolixo atirado de poemas pelos caminhos um poeta e um cavalo um cavalo e um poeta um loz e um poeta tropiprolixo na noite infinda do sem fim a esmo um cavaleiro e seu cavalo por todos os caminhos sem dor de dentes inchaços nas virilhas um cavalo e seu cavaleiro amplos de céus e ventos soprados ao deus dará tinha que carregar meus livros no dorso do meu cavalo meus livros simples que o tempo foi fazendo e fez para mim com seus signos calculados previsíveis que qualquer um entende e critica

quem quiser se habilitar a Homero que o faça neste mundo do sem-cavalo um cavalo e um cavalo e um cavalo e muitos poemas cavalgados de noite fria cavalgados de estrelas guias cavalgados de pós dos tempos transtempos finistempos um cavalo sou eu a vagar na noite azeviche a noite que faz a poesia dos outros invadir minha morada e a minha saltar em galope para rumos desconhecidos um poeta galopa com seu cavalo as estações irresolvidas um cavalo busca solução no tempo um cavalo e seu poeta vertidos de luz no vento cuidavam cavalo e cavaleiro os vagalumes atirados no chão haviam pedras que brilhavam à noite lêmptas esferas cintilantes estremecidas com o vento nos barrancos onde o loz passava na veloz cavalgada

um loz branco andaluz na noite fúrnica línguas de muitas palavras jogadas no vento do meio daquelas palavras que envolviam o loz tropiloz na veloz cavalgada do vento pude aferir do tempo da poesia perdida na nathureza das coisas uma coisa que se sobressai sobre outra coisa e outra coisa e outras coisas e tudo retertrançado de outras coisas é assim que o olho que vê revê desvê entrevê tropivê deve saltar de cima do cavalo e adentrar as matérias agora um poeta penetra o vegético depois o minérico matéria sobre matéria ali dentro de átomos comprimidos a transforça energética do vento vento dentro da madeira viva em árvore vento dentro dos minérios atirados na terra vento dentro das pedras dos protopólipos das cartilagens escondidas vento redemoinhos força sobre força energia trúsbita de veios subterrâneos meu cavalo loz luz ergoluz tropiluz calçado de matérias aderentes metempsicado dos pós dos tempos meu cavalo aéreo na ventania meu cavalo e um poeta corrido de ventos soprado pra longe do tempo era de se possuir muitos cavalos neste tempo do sem-cavalo muitos cavalos lâmptos ergoluzes retemperados nas tempestades era de se ter cavalos muitos cavalos em frente à casa cavalos prontos para ergofulgir pelos caminhos um cavalo pronto me aguarda para a futuridade um cavalo lâmpio experimentado nas canchas do indecifrável tempo um cavalo ferrado de ventos libertinos um cavalo convidativo na frente da casa pronto para o serviço do sem-serviço

me oprime uma palavra vertida de voz uma palavra que fala na noite que me sopra conceitos no dia uma palavra espiritada de poesia só com meu cavalo devo correr na noite o meu tempo do sem-cavalo quando fulgurava só pra dentro as coisas guardadas que a poesia palavra vertente de sons significantes significados não dizia não era pra dizer mas tenho que dizer e digo um cavalo me leva pra fora de mim um cavalo álgido como uma bola de neve no tempo um cavalo descido das montanhas um cavalo vaticinado nos porões por bruxos desconhecidos um cavalo alçado no vento um cavalo e um poeta um cavalo e a irresponsabilidade do gesto um cavalo e a insensatez do espírito que conhece um cavalo e um poeta um cavalo e a palavra marginal corrida na frente do pensamento eu um cavalo repercutido no tempo um cavalo andaluzirano rústico espectral na noite brasantina eu um cavalo sob os próprios pés de cavalos repentidos um cavalo com o mundo virado pra baixo nas patas irresolvidas um cavalo sem-mundo

no mundo do sem-cavalo ¿∑Ψθ∏߀ÕΔ o poeta.

 

 

 

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