Arquivos Mensais: fevereiro \28\UTC 2011

Gal. Jorge Videla: o julgamento do ditador argentino / buenos aires

Começa julgamento de ex-ditador argentino por roubo de bebês

DA FRANCE PRESSE, DE BUENOS AIRES

Um histórico julgamento foi iniciado nesta segunda-feira contra o ex-ditador argentino Jorge Videla e outros ex-militares, acusados de um plano sistemático de roubo e mudança de identidade de cerca de 500 bebês, filhos de desaparecidos, a maioria nascida em cativeiro, nas prisões clandestinas.

Videla, 85, chegou ao tribunal e sentou-se no banco dos réus junto ao último presidente da ditadura (1976-1983), o ex-general Reynaldo Bignone, em um julgamento oral contra um total de oito réus, entre eles dois ex-almirantes, Antonio Vañek e Rubén Franco.

“Fomos a herança de guerra do regime”, disse na porta do tribunal uma das testemunhas e vítimas, Leonardo Fossati, 33. Ele é uma das 102 pessoas que recuperaram a identidade por conta do trabalho da organização Avós da Praça de Maio, candidatas ao Prêmio Nobel da Paz.

Juan Mabromata/AFP
Ex-ditador argentino Jorge Videla participa de início de julgamento por sequestro de bebês em Buenos Aires
Ex-ditador argentino Jorge Videla participa de início de julgamento por sequestro de bebês em Buenos Aires

Os pais de Fossati, ambos desaparecidos, militavam na organização União de Estudantes Secundários e na Juventude Peronista, quando foram sequestrados em 1977, sendo que a mãe estava grávida.

“Nasci em uma delegacia. Uma família de muito boa fé me adotou. Mas graças às Avós da Praça de Maio encontrei minha verdadeira família e minha identidade”, disse Fossati.

O julgamento durará até o fim do ano e tentará provar a existência de um sistema destinado a se apropriar de menores, na presença em uma mesma sala de chefes do Exército terrestre e da Marinha, pela primeira vez desde o julgamento de comandantes em 1985, considerado o “Nüremberg argentino”.

Na porta dos tribunais, manifestantes da organização HIJOS, de presos desaparecidos, entre outras organizações, agitavam bandeiras e entoavam canções pedindo justiça.

Uma das principais maternidades clandestinas funcionou em Campo de Maio, a maior unidade militar do país (periferia oeste de Buenos Aires), e outra na Escola de Mecânica das Forças Armadas (ESMA), onde as grávidas davam à luz encapuzadas.

“Esperamos 30 anos para que houvesse justiça e para vê-los na prisão”, disse Chela Fontana, mãe de Liliana, que foi sequestrada por um comando militar quando estava grávida de dois meses e meio.

O casal continua desaparecido, mas o trabalho da silenciosa busca e investigação das Avós da Praça de Maio conseguiu recuperar em 2006 o filho roubado, Alejandro Sandoval Fontana, de Liliana Fontana e Pedro Sandoval.

Sobre Videla, já pesa uma condenação à prisão perpétua por crimes, sequestros e torturas, enquanto Bignone, 83, está cumprindo pena de 25 anos de prisão.

“De todas as perversões do Estado terrorista, roubar e tirar a identidade foi a mais inacreditável”, afirmou Adelina Alaye, 83, líder das Mães da Praça de Maio “Linha Fundadora”.

Os tradicionais lenços brancos puderam ser vistos na entrada do Tribunal, antes da leitura das acusações, segundo as quais foram selecionados 35 casos emblemáticos de roubo de menores e mudança de identidade, em relação a 500 registrados pelas Avós da Praça de Maio.

Em torno de 30 mil pessoas foram presas ou desapareceram no país durante a ditadura, segundo entidades humanitárias.

MEMÓRIA DA PROPAGANDA BRASILEIRA.


propaganda em 1920.

 

 

propaganda em 1930.

 

 

anos 30.

 

ano 1940.

 

anos 40.

 

anos 40.

 

anos 40.

 

ano 1950.

 

ano 1960.

 

anos 60.

 

o cruzeiro.

ARIJO, O ESCOLHIDO – por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


 

 

ficção caseira

 

 

Três da manhã. Não poderia sair da Fazenda Poema tão tarde, mas o fiz naquele dia. Lembro que desci do carro, nos mil metros da saída, pra atirar na cascavel. A malhada escalava o barranco, entre a estrela africana, quando detonei cinco vezes, acertando três chumbos quentes. A seguir, passei pela sanga do Gervásio, onde dizem, costumam aparecer coisas. Não tava com isso na cabeça. Só lembrava da bela mulher, do caso do Iguaçu daquela vez que tentamos catar um tesouro enterrado. A bela, a esteira e a noite grande.

Pensepensando, elétrico com o assassinato da crotalus terrificus, assim indo ia, até que, outra vertigem, de repente no lado esquerdo da estrada, dois vultos. Uma névoa, aquelas horas, cobrindo tudo. Parecia uma junta de bois, baios, rente ao capinzal. Mas não era. Fundiam-se as imagens, parece, dum homem e uma mulher em claras vestes. A coisa, distendia-se, clareava e escurecia. Parei a camionete quase ao lado, e fixei os vultos. Os seres não poderiam ser desse mundo de nosso Deus. Não se viam os rostos, mas só o gestual e uma voz nasalada. Cobertos com mortalha, ziguezagueavam, na beira da mata. Ziguezagueavam, em círculos, mas sem se afastar. Compreensível a linguagem. A ordem foi: – És o escolhido. Desliguei o motor do carro, nem tentei forçar escape. A coisa, o carro, nada obedecia mais aos meus comandos. Parei por ali, estático, só ouvindo: – Precisamos de alguém aqui. Você é a pessoa ideal. Redargui:

– Calma pessoal, eu não entendo. Não sei do que estão falando… A que um dos germinados me trucou: – Sabe sim, desde aquela lá de Ibirapuitã. Puxei pela memória, terra de meu pai, meus tios no Rio Grande amado. Não sei… não lembro, o espirithado era um primo meu, não o poeta, o parvo de pouca verve, como fui e sou. O espirithato era o outro, que via gente cirandiando a sua frente, pessoas de trajes coloridos em lugares ermos. Meu primo, o Jandir, assombrado, pensei. Devem ter se enganado. Embora, vinha nítida a imagem da visão que tive lá em criança, a grande tela em amarelo e as revelações poéticas. – Não fui eu aquele. Aquela vez… Era o meu primo, argumentei. Ao que sentenciaram que não adiantava blábláblá… que minha índole, minha psique, meu tipo, levava a isso, ao encontro. Pê da vida, tentei mais uma vez a dissuação: – Encontro de quê, tô fora, não sei de nada… Senti o corpo todo pesado e vi um imenso túnel a minha frente. Um túnel que fazia curvas e mostrava lugares, estranhas vias celestes, seres em trânsito, estrelários. Módulos de linguagens, cinéticas aparições. A voz pausada e dupla dos visitantes, me tirou daquilo: – Vai ficar a nossa disposição, sempre que for instado a fazer algo. Isso inclui, contar coisas, relatar em linguagens poéticas ou não… Pá pá pá pá pá pá pá pápápá… Pensei não posso assumir esse compromisso com o além, essas criaturas do espaço, sei lá de onde!? Disse: – Pensem bem, não sou nada, tenho dívidas, problemas, ouço coisas, faço poemas, tô fora daqui, noutra… Peguem alguém daqui mesmo, (da Terra) um cara firme de pés no chão. Uma pessoa centrada, normal. Normalíssima. Até citei, pra enganar os ditos, uns nomes conhecidos de políticos bem sucedidos, mais o padre, uma psicóloga e uns dois ou três vigilantes noturnos. A resposta foi não e não e não. Tinha que ser eu por isso e por aquilo… te te te teteteeeeeeeeeeeeeeeee. Caracas. Que enrosco, pensei, fui me meter. Azar da cobra assassinada. Mal presságio na vinda. O vinho azedo de garrafão, sei lá! Digo pro que restava de mim, melhor partir pro combate. Tentei erguer os braços, naquele golpe de Taekwondo que aprendi em mais de ano e: nada. As pernas então, pareciam de metal e parafusadas ao carro. Só me restou concordar com tudo: de que teria que marcar pessoas interessantes, de bom intelecto, cultura, e vocacionadas ao mistério, e às viagens astrais. No mínimo selecionar seres além do normal, do que é um viver de terráqueo. Cuidar como cuida um filósofo de seus preceitos, temas, vendo o comportamento dos irmãos pés no chão, pra identificar e delatar aos (ora ali) tenebrosos do espaço. Essa era apenas uma parte da esplendorosa e fácil missão que acabavam de me impor. Aos poucos as figuras foram se afastando, mas as vozes, os mandamentos a mim endereçados, vinham claros, claríssimos. Dentro da mata, na pequena clareira, via-se a nave, recheada de luzes intermitentes. Uma figura esguia, de (calculo) uns dois metros e meio com um capacete metálico, e tipo um microfone, onde seria a boca, falava pelos seres assombrosos que me cercavam. –Tem que ser este. Dizia a figura horrenda, provavelmente o chefe da missão. Meus argumentos de haver pessoas mais preparadas do que eu para o que eles queriam, resultava em nada. Nada. Falei:

– O padre Reginaldo, a psicóloga, a repórter Esso, o médico, são pessoas superpreparadas pros vossos objetivos, detém muito mais conhecimento espiritual, mais conhecimento da alma humana do que eu que sou um desastre em conhecer (sequer) sobre mim mesmo…  dos outros então, nem se fala. Etc. etc… Acrescentei ainda: – Sou meio meio-bipolar, sonambulizo as vezes… E mesmo assim a voz do chefão, ecoava como uma serra elétrica, autoritária, alardeante.

– É você que precisamos. E vai ser assim… Falou o dito cujo tremeluzente, que eu deveria especular pessoas, interferir na esfera das relações alheias, freqüentar todos os espaços participados por homens e mulheres e dedurar todos os de seus interesses. Ruim, heim! Ainda mais eu que pouquíssimo me interesso pela vida dos outros. Embora não deixe de ser solidário, na minha prática cristã. O interesse deles era de gente de boa bagagem intelectual, com expansão de consciência, aptas a serem apresentadas nas mais diversas nathuras cósmicas, até como modelos (no campo do ético e do estético), tomadas de conteúdo bom, beirando a sã loucura da criação… algo assim, pelo que entendi. Desesperado, me atirei por nada: – Fiquem com meu carro, minha terrinha, aquelas cabeças de gado e até os cristais de rocha que (nasceram a alguns milhões de anos) e estão enterrados bem fundo ali, perto daquela velha araucária… Mas a resposta era sempre a mesma. – É contigo e mais ninguém. Enloucaram os tranhos que tinha que ser comigo e a madrugada ia passando e nenhuma solução pro debate que se estabeleceu ali. Por derradeiro, apelei pro meu novo livro, em fase de revisão, mil e tantas páginas de ARIJO – O ANJO VINGADOR DOS POETAS RECUSADOS… que estava pra sair logo por uma editora paraguaia… já publiquei um em Assunção, pela nanica YiYi Jambo… que era  importante pra mim, concluir a obra, obsessivamente. Eeeeeeeeehhhhhhhhhhhh… É…  não tenho editor em meu país. Aqui os editores são muito pobres. Querem que o author pague o livro de seu próprio bolso. Ahhhhhhhhhhhhhhh. Um livro (esse meu inédito) grosso, místico, semiótico e subletrado. Um livro maldito, no bendito da invenção. Na enteléquia da proseletílica encontrei você, vestida de branco, envolta num poema úrbico… Deixa pra lá… Um livro que quase deixou um primo meu investido da personagem principal pra sempre, em vingando os não-vingados do planeta. E bastou ele ler apenas três páginas. Perigoso. Muito perigoso esse objeto sígnico. Recebi, quando quase os convencia de não ser a pessoa ideal aos seus intentos, a definitiva sentença.

– Isso, agora tá confirmado, o livro já foi lido, relido por nós e é a chave da sua transferência aos nossos mundos. Não temos mais dúvidas.

Tive um choque, suava frio e tremia. Eu transferido, pra que mundos, meu Deus! Quero só terminar meu livro, cuidar das crianças, tratar aquele gadinho, vitaminar umas éguas de cria, amantes do cavalo Tigre, o Paint Horse, que parece vai me dar bons produtos pra venda. Claro, manter um pequeno sonho de alguns poucos milhares de reais de direitos de author… coisinha de nada… de quem se habilita a criador de casos intelectuais, também serve. Ehhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Curucaca da campina. Pensepensando, astuciei de aceitar tudo, (de mentirinha é lógico) ante o inevitável: – Tá bom eu aceito. Mas minha mesa deve estar sempre farta do melhor alimento, bom vinho, boa cama e sonhos transdeliciosos. A bela do Iguaçu, que correu a esteira da nave aquela vez do tesouro perdido, sempre invadindo nossos espaços terrenos, para o bem da vida, da arte, da literatura, da música, da sensualidade, do desejo e fuga enfim dos problemas.

O poderoso chefão alienígena assentiu que atenderia aos meus pedidos. Lentamente, a nave levantou da clareira, com os seres obscuros da beira estrada e o comandante em chefe, além de outros tripulantes esguios e melancólicos que se encontravam no bólido. Um leve aceno, pairou, suspenso no ar. Aceno de acordo firmado e registrado em cartório do espaço. Coisa de arrepiar…

Ficou pra mim (esse quase-nada) a obrigação, estampada num contrato telepático de alta resolução, de marcar indivíduos, e a cada troca de lua, SINALIZAR AOS CÉUS os caracteres (qualidades) as mais estranhas que sejam com relação aos demais seres terrenos (selecionados).

Como a comunicação se dá telepaticamente, os instrumentos já estão instalados em receptores e emissor (eu no caso) que nunca tive uma dor de cabeça. Agora sofro uma enxaqueca prolongada em certos dias. Sem contar a preguiça, que remete aos orbes mais distantes do espaço infindo, onde o trabalho não existe pra poucos e tudo se resume a transdelírios e viagens interespaciais, após (em regra) ser pago o aluguel, educados os filhos, trabalhado doze horas por dia e enfrentado a fila do SUS, num dos amplos e sem-médicos hospitais da Via Lexyton hidv 5010.

 

 

 

 

 

 

 

MOACYR SCLIAR morre aos 73 anos / porto alegre

Escritor estava internado desde 11 de janeiro e morreu de falência múltipla dos órgãos

27 de fevereiro de 2011 | 4h 04
  • O escritor Moacyr Scliar que havia sofrido um acidente vascular cerebral isquêmico (AVC) e estava internado no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre desde 17 de janeiro, faleceu à 1h deste domingo, 27 de fevereiro. Segundo boletim médico, Sclyar, morreu de falência múltipla de órgãos.
Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE
O escritor gaúcho, Moacyr Scliar

Internado desde 11 de janeiro para uma cirurgia de extração de tumores no intestino, Scliar sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico no dia 16 de janeiro e foi encaminhado à Unidade de Tratamento Intensivo. No dia seguinte, sofreu uma cirurgia para retirada de coágulo decorrente do AVC, passando a ser mantido com um mínimo de sedação necessária. O escritor passava pela retirada gradual da sedação quando, no dia 9 de fevereiro, apresentou um quadro de infecção respiratória, voltando então a ser sedado e a respirar por aparelhos.

O velório acontece neste domingo, a partir das 14h, no salão Júlio de Castilhos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

O sepultamento será na segunda-feira, 28, em local e horário ainda indefinidos. Esta cerimônia será apenas para familiares e amigos.

estadão.com

OAB pede a DILMA que cumpra decisão de Corte sobre ditadura

A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) encaminhou nesta quinta-feira ofício à presidente Dilma Rousseff pedindo que ela cumpra integral e imediatamente a condenação da Corte Interamericana de Direitos Humanos ao Brasil que determinou a investigação de crimes na ditadura.

Em novembro de 2010, o Brasil foi condenado pela falta de investigação sobre o desaparecimento de pessoas na chamada Guerrilha do Araguaia.

Presidente do STF afirma que punição da OEA não anula decisão sobre a Lei da Anistia
Nelson Jobim nega possibilidade de punir envolvidos na Guerrilha do Araguaia
Corte Interamericana condena Brasil por desaparecidos no Araguaia

A entidade pede que a “punição dos perpetradores de torturas, homicídios, desaparecimentos forçados e demais crimes contra a humanidade, a identificação e entrega dos restos mortais dos desaparecidos aos familiares, a instituição da Comissão Nacional da Verdade e demais medidas fixadas na decisão”.

Segundo a decisão da Corte que é ligada à OEA (Organização dos Estados Americanos), o Brasil precisa promover medidas de promoção da verdade e da justiça em relação às violações aos direitos humanos cometidas por agentes públicos durante a ditadura militar.

O presidente da OAB, Ophir Cavalcante, afirma que deixar de investigar vai representar um retrocesso para a história do país.

“Se o Estado brasileiro não cumprir a sentença condenatória nesse caso estará sinalizando que desrespeita a autoridade da Corte e do sistema regional e internacional de proteção aos direitos humanos.”

Cavalcante afirma ainda que a Lei da Anistia, de 1979, e a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de não rever a norma, não pode representar empecilho para a investigação dos abusos ocorridos na ditadura.

O Palácio do Planalto disse que, por enquanto, não irá se manifestar sobre o caso.

PARTICIPAÇÃO

A presidente participou da luta contra o regime militar. Dilma foi integrante do movimento Polop (Política Operária) de Belo Horizonte.

Mais tarde, ela juntou-se ao Colina (Comando de Libertação Nacional), que em 1969 se fundiu com a Vanguarda Popular Revolucionária, dando origem à VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). A petista foi presa pela primeira vez em 1970.

Folha.com

 

TALENTO! viva o povo brasileiro!

UM clique no centro do vídeo:

NELSON NO VERÃO por amilcar neves / ilha de santa catarina

Esse é o discurso que os políticos adoram, especialmente aqueles que, deputados ou vereadores, veem-se deslocados para o Executivo (estadual ou municipal) e não têm a menor ideia do que fazer com aquilo. Quer dizer, sabem muito bem o que precisam tirar daquilo mas ignoram as funções mais básicas do cargo que passam a ocupar: não há especialização nem vocação para o ofício, apenas partilha e ocupação dos “espaços” públicos em decorrência de cotas partidárias mais ou menos proporcionais ao peso das alianças forjadas durante a campanha eleitoral e mais ou menos condizentes com os compromissos econômicos assumidos para que a “luta” se tornasse vitoriosa. Findas as apurações, restam as contas a pagar.

 

Mas não é isso, e sim o discurso, o motivo desta crônica. O discurso é confortável e conveniente, estabelece com clareza especialmente o que não é preciso fazer, com o que não precisa a autoridade preocupar-se por uns tempos. Diz o seguinte: numa ilha, e por extensão em todo o litoral, os meses de verão são destinados ao ócio total e as pessoas de fora (e mesmo as de dentro) que procuram tais lugares querem apenas sol e praia, durante o dia, e festas e baladas, à noite. É beber, comer e cair no mar. Coisas complicadas e trabalhosas, como visitar um museu ou ler um livro, estão fora de qualquer cogitação, não encontram oportunidade nem espaço nos verões litorâneos – não condizem com as exigências e imposições da estação.

 

Então aparecem uns malucos dizendo que o discurso é falso, que isso é conversa de rei que anda nu, montam A Vida como Ela É… a partir de cinco contos do inesgotável Nelson Rodrigues e lançam temporada – de verão! – no venerável Teatro Álvaro de Carvalho, lá no Centro da cidade, suficientemente longe de qualquer praia frequentável.

 

As pessoas ainda não estão se estapeando na calçada do TAC para conseguir ingresso, mas o que se vê é gente de todo o País acorrendo a uma montagem que, para além do texto, mostra o trabalho de alto nível profissional do grupo local Teatro Sim… Por Que Não?!!!

 

Imagine-se agora se houvesse uma divulgação intensa do espetáculo – e de outros que poderiam simultaneamente subir aos palcos -, com venda de ingressos nos hotéis e sistema de vans para levar e buscar os espectadores. Como fazem Cuzco, Buenos Aires e a Cidade do México, por exemplo, que sabem promover turismo diferenciado.

 

 

PRIMAVERA DIGITAL CHEGA AO FIM por maurício caleiro / são paulo

O debate político brasileiro vive um momento tenso e contraditório. Embora seja inegável o salto qualitativo propiciado por uma maior penetração de blogs não-corporativos nos dois ou três últimos anos, certos vícios que caracterizaram a atuação de setores da blogosfera no período cobram, enfim, o custo de sua incongruência.

Pertence à lógica mais elementar, inescapável, a conclusão de que se o governo Dilma impinge ao país, neste momento, um duríssimo choque anticíclico – como não se viu igual sequer no turbulento início da presidência de Lula, herdeiro da “herança maldita” tucana – o faz porque há um grave problema com as contas deixadas pelo ex-presidente. Negar a evidência de um pronunciado déficit equivale a incorrer em desonestidade intelectual em nome de interesses político-ideológicos [1].

E distorcer os fatos em nome de tal modalidade de interesses é precisamente a acusação que, de forma muito justa, é recorrentemente feita contra a mídia corporativa. Portanto, os blogueiros que apoiam incondicionalmente o governo, não importando quão grave sejam as medidas que este toma, não estão se apercebendo do risco de se igualarem ao “Pig” que tanto criticam.

Dicotomias burras

De minha parte, estou cheio dessas divisões absolutistas e maniqueístas entre nós (os puros) e eles (os corruptos), PT x PSDB, blogosfera independente x mídia corporativa, Lula x FHC, Brasil x EUA. Que me desculpem os fanáticos, mas o mundo não é em preto e branco.

Também me encheu o simplismo fácil com que se usa o termo multiuso PIG (Partido da Mídia Golpista) como explicação para todos os males que nos afligem, como se uma atividade complexa e que envolve milhares de profissionais pudesse ser sempre, inapelavelmente, em qualquer contexto, associada a um rótulo jocoso que não poucas vezes tem servido de bode expiatório e de desculpa para que a esquerda deixe de olhar para seu próprio umbigo e reconhecer seus erros e contradições.

E, por fim, embora considere Lula, disparado, o melhor presidente que o país já teve, não estou disposto a consentir com seu processo de canonização e mitificação, em pleno andamento, e que o presume um ser perfeito, imune a mancadas ou erros e isento de responsabilidades, com uma manada feroz atacando, a la Inquisição Espanhola, quem ousa fazer qualquer restrição ou crítica. Ora, uma das grandezas maiores de Lula, tanto no espectro político quanto humano, é precisamente ter aprendido com seus erros e derrotas e a partir deles se aprimorado para se tornar o excelente presidente que foi e o notável ser humano que é. Santificar Lula, na verdade, o diminui, ao invés de engrandecê-lo.

Cai na real, blogosfera

Não bastasse essa crise ética que se manifesta em setores da blogosfera e os torna similar, em dissimulações interesseiras, à mídia corporativa que tanto critica, Dilma Rousseff, após ter dispensado, por conta do episódio da licença Creative Commons no MinC, um tratamento no mínimo desrespeitoso aos ativistas digitais que tanto a apoiaram, presta-se ao lamentável papel de voar de Brasília para São Paulo para prestigiar, ao lado de toda a fauna tucana, os 90 anos da publicação que mais decaiu eticamente no Brasil na última década, a ponto de dar voz a um aloprado que “denunciou” Lula como estuprador e de estampar ficha policial falsa da pré-candidata Dilma na capa. E compareceu à festa na capital paulista sem um mísero pedido de desculpas em troca.

Ante a reação indignada de setores da blogosfera contra esse autêntico tapa na cara dos que, gratuita e dedicadamente, tanto lutaram pela candidatura Dilma e contra a mídia corporativa que a Folha representa, a reação foi um histérico cala-a-boca, seguido de tentativas grosseiras de desqualificação do interlocutor. Mal posso acreditar que depois de todos os escândalos e absurdos de um jornal que denunciei implacavelmente, vivi para ver alguns petistas igualarem-se a Marcelo Tas e elogiar a Folha por gozar as próprias mancadas. Foi um espetáculo doloroso.

O “argumento” dos que defendem incondicionalmente a presença de Dilma na Barão de Limeira? Não era a pessoa Dilma Rousseff quem lá estava, mas a presidenta. Trata-se de uma premissa duplamente falaciosa: em primeiro lugar, porque não é possível dissociar uma de outra, e foi uma presidenta esquerdista, ex-guerrilheira, de um governo vilipendiado pela imprensa que o povo brasileiro elegeu. Em segundo porque não há razão objetiva nenhuma para um presidente prestigiar a festa de um grupo privado de comunicação, ainda mais sendo este um dos principais responsáveis pela derrocada ética do jornalismo brasileiro. Se Dilma acha que com esse gesto angariará a leniência dos Frias então estamos mesmo perdidos.

Momento é de Desencanto

A nova presidente fez sua opção, e é pela mídia corporativa. Seu desprezo pela militância virtual que a ajudou a eleger-se é evidente e mesmo se algum desagravo vier a público nos próximos dias será meramente reativo, prêmio de consolação. O simbolismo do gesto da presidenta acabou por transferir a crise, da imprensa para a blogosfera.

Foi, como disse, um tapaço na cara da blogosfera – o qual, espero, derrube nossa auréola, faça-nos despertar e sair da bolha de certezas e auto-congratulação em que muitos de nós nos metemos. Aliás, uma das coisas mais assustadoras no maravilhoso mundo não tão novo dos blogs é seu excesso de certezas e escassez de dúvidas, o seu sem-número de opiniões mas sua carência de embasamento.

De minha parte, neste momento de desencanto, sinto o que o momento é de voltar aos livros, buscar na sabedoria de longo prazo que só eles oferecem inspiração e subsídios para entender mais esse tremendo retrocesso da esquerda brasileira.

Eduardo Guimarães afirmou ontem que perdeu muitos negócios por conta da dedicação a seu blog e à militância virtual; eu, para me dedicar a esta e a este espaço bem mais modesto, não perdi dinheiro, mas adiei o lançamento de livros e diminuí minha produção como autor acadêmico. É momento de rever prioridades e de aquietar meu lado militante e minha identificação com movimentos e partidos. Este blog continuará, mas com uma pauta mais diversificada e com textos mais leves, fiel à paixão ao jornalismo, ao cinema e à cultura em geral.

A despeito de seu triste e revoltante final, foi gratificante tomar parte da primavera digital. Mas, como diz a canção, todo carnaval tem seu fim.

[1] No que concerne especificamente a tais problemas de caixa, a minha crítica não é a Lula por tê-la deixado – isso fatalmente aconteceria no bojo de um crescimento expressivo da economia, ainda mais em ano eleitoral -, mas à retomada da ortodoxia neoliberal promovida por Dilma para lidar com a questão, priorizando uma vez mais o mercado e o grande capital – em detrimento de assalariados e desempregados – ao invés de adotar medidas menos traumáticas, alongando o perfil do pagamento da dívida e fazendo valer o poder de barganha que o Brasil, ótimo pagador, angariou nos últimos anos. Porém, o próprio esforço dos que não admitem nenhuma crítica a Lula ou a Dilma para negar o buraco no caixa é sintomático do quão contaminados estão por premissas do ideário neoliberal no que tange à administração da macroeconomia do país. É a prova da presença insidiosa do neoliberalismo em mentes que se crêem de esquerda.

ilustrações do site.

DEIXAI DORMIR AS PALAVRAS – de zénite / portugal



Imaculadas e inócuas
as palavras dormem
no seio do dicionário
o sono profundo dos inocentes.
Não as acordem.
Ouçam simplesmente o seu silêncio:
metódico, alfabético, inquietante.

Úbere semeadura esta
que tanto medra em bons viveiros
como na mais agreste tojeira.

Dentro de um dicionário,
do caos ao verbo,
cabe todo o Universo:
sem eufemismos
sem hipérboles
sem metáforas
sem calendário.

Por vezes é um bom semáforo
o meu dicionário:
sabe soltar o verde da esperança
cuidar do amarelo da temperança
e parar no vermelho, por segurança.

Mas deveria ter mais sinais
o meu dicionário.
Deveria acautelar-me
porquanto nele comungam
vida e morte
respeito e desprezo
nobreza e preconceito
ciúme e remorso.

Nele crescem lado a lado
a iniquidade e a justiça
a bondade e a ferocidade
a irracionalidade e a razão
a fidelidade e a traição.

E, como se tudo isto não bastasse,
o verbo e o caos

vagueiam perdidos pelo meu dicionário,
no particípio e no presente,
como sempre,
desde o princípio.
Tantas são as vezes
em que a dúvida se sobrepõe à certeza
o ódio ao amor
a indignidade à nobreza
a cobardia à coragem
a penúria à riqueza
a guerra à paz.

Ventos oscilantes e incertos
deambulam nas dobras vazias do tempo
sobre as searas incendiadas
que medram no meu dicionário.

Deixai, pois, dormir as palavras!
Deixai-as dormir, deixai!

JAIRO PEREIRA e sua poesia III / quedas do iguaçu.pr

O SIGNO MARGINAL DE 64

 

 

 

um signo chríspte atacou as mulheres

dos militares

um signo espirithado

atacou violent as belas e fugiu de

moto pelo centro da cidade

armado com silepses semas

semantemas

no sétimo sinaleiro

após atropelar uma aporia

resistiu a voz de prisão

e foi morto com três tiros

(oxímoros)

um signo jovem que jamais

deveria ter saído

do signário.

 

 

.

 

Confissões de uma cápsula

 

Te viciei nos meus encantos

de ser polímero digerível

duas por dia

uma pela manhã outra a noite

rosa de cera brilhante

meu corpo

alma em pó concentrada

no empírico de tua sede de amar

Rosasex 500 redesígnia

nunca logo após as refeições

sempre antes do depois

um gole de água embala

minha viagem transdelírica

teu vício de me engolir

tua sede de viver

duas por dia

duas viagens desiguais

tuas entranhas quentes

Rosasex 500 redesígnia

rubor de face

sentidos todos sentidos

no ato de refulgir.

 

AQUI, UM OUTRORA AGORA de ferreira gullar / rio de janeiro

 

É SÁBADO à tarde, cerca das 16 horas. Estou parado na esquina da avenida Rio Branco com a Araújo Porto-Alegre. Às minhas costas, o Museu Nacional de Belas Artes; à frente, à esquerda, a Biblioteca Nacional e, à direita, do outro lado da avenida, o Teatro Municipal.
Diante do teatro está a praça Deodoro, ladeada pelo prédio da Câmara Municipal e pelo bar Amarelinho e os edifícios da antiga Cinelândia. Fora o cine Odeon, os demais fecharam, como o Astória e um outro, o Vitória, que ficava lá atrás, na rua Senador Dantas.
Mas importa é que estou, ali, de pé, às quatro da tarde deste mês de fevereiro de 2011. E o que vejo diante de mim é exatamente igual ao que via em 1954. Passaram-se 57 anos e estou ainda aqui vendo os mesmos prédios, a mesma praça. E o passado inevitavelmente invade o presente e me arrasta com ele.
Estou, agora, num sábado de 1953 e cruzo a praça em direção à Biblioteca Nacional. Vim a pé da rua Carlos Sampaio, onde morava, próximo à praça da Cruz Vermelha. Sábado era um dia vazio. Nos dias comuns da semana, estava na Redação da “Revista do IAPC”, ali perto, na rua Alcino Guanabara, onde passavam amigos que iam ali assinar o ponto, como Lúcio Cardoso ou Breno Acyoli. Lúcio era bom de papo e gostava de um chope; Breno, pirado, mastigava a ponta de um charuto no canto da boca. Além deles, apareciam ali Oliveira Bastos, Décio Victório e Carlinhos de Oliveira, todos entregues à aventura literária.
Mas, no sábado, ninguém aparecia e tampouco vinham, no final da tarde, para o encontro no Vermelhinho, que ficava em frente à ABI. Pior que o sábado só o domingo e dia feriado, quando nem a Biblioteca Nacional abria.
A BN era meu refúgio, meu amparo, minha salvação. Metia-me nela, buscava um livro, uma revista literária e entregava-me aos mais inesperados delírios. Nas revistas francesas, descobri Lautréamont, Antonin Artaud, André Breton, Paul Éluard, René Char. Ou eram seus poemas ou os ensaios sobre eles.
Mas, ao fim da tarde, quando saía de lá e daquele mundo feérico, encontrava-me de novo sozinho e desamparado em plena Cinelândia. Pessoas cruzavam a praça em direção aos pontos de ônibus, que os levariam não sei para onde. Flamengo, Botafogo, Copacabana? Só eu não tinha para onde ir, a não ser para o meu quarto, que dividia com dois desconhecidos e que só apareciam lá para dormir.
Antes perambular pelas ruas do que me deitar naquela cama estreita e ficar olhando, pela janela, a noite cair.
O que me salvava era a poesia, se ocorresse em determinado instante, se me surgisse um verso inesperado. Aí sim, entregava-me àquela viagem, esquecia o quarto, o mundo, a solidão. Pouco me importava, então, se anoitecia ou amanhecia.
Sucede que poema é coisa rara. No meu caso, sempre foi. Quem me dera escrever um poema por dia, alçar voo acima do vazio dos sábados, dos domingos e feriados! Sempre fui cismado com esses dias porque, além de me sentir sozinho, a poesia também preferia ir à praia a me visitar. Já nos dias normais, como disse, metia-me na BN, agarrava-me a uma “Nouvelle Revue Française” e valia-me dos poemas alheios.
Mas houve uma exceção. Foi numa Sexta-Feira da Paixão quando, ao me dar conta de que era dia feriado e por isso o Vermelhinho estava deserto e a Cinelândia também, encaminhei-me sem rumo para a rua do Catete e fui parar no Parque Guinle, entregue ao delírio de um poema louco, cuja erupção teve início exatamente quando cruzava a rua Santo Amaro: “Ô sôflu e luz ta pompa inova orbita”. Naquele momento, em que violentava meu instrumento de expressão, vivia a ilusão de ter chegado ao inalcançável: fazer que a língua nascesse ao mesmo tempo que o poema. Só no dia seguinte, na Redação da “Revista do IAPC”, ao passá-lo a limpo, dei-me conta de que ninguém o compreenderia e que, de fato, havia destruído minha linguagem de poeta… É nisso que dá fazer poema em dia santo.
Essa ocorrência, se não me engano, data de março de 1953. Depois daquele dia, muitas outras vezes me encontrei entre esses mesmos prédios -o teatro, o museu, a biblioteca, a câmara municipal- num sábado ou num domingo, sem ter o que fazer da vida. Exatamente como agora, nesta tarde de 2011.

 

 

MPF: “BBB é um grande desserviço à sociedade”

O Ministério Público Federal apoiou a nota divulgada na última quinta-feira (17) pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em que a entidade condenava o “baixo nível moral” dos reality shows. O subprocurador-geral da República, Aurélio Rios, que está respondendo interinamente pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), informou a Terra Magazine que “há várias iniciativas de procuradores da República em todos os Estados” em relação ao Big Brother Brasil, um dos principais alvos das críticas.

– Achamos que (a atração) é um grande desserviço e serve muito à deseducação. Não estimula a criação, o princípio de solidariedade, os valores éticos da pessoa e da família – afirma o procurador, que acha inapropriada a classificação indicativa do reality show.

– Na minha opinião, apenas a minha opinião, não deveria ser para 14, mas para 18 anos.

Na nota, a CNBB exortou “a todos no sentido de se buscar um esforço comum pela superação desse mal na sociedade, sempre no respeito à legítima liberdade de expressão, que não assegura a ninguém o direito de agressão impune aos valores morais que sustentam a Sociedade”. A entidade fez ainda um apelo ao Ministério Público, pedindo “uma atenção mais acurada no acompanhamento e adequadas providências em relação à programação televisiva”.

Em dezembro de 2010, a PDFC encaminhou à diretoria da Rede Globo de Televisão recomendação para que fossem respeitados, na 11ª edição Big Brother Brasil, os direitos constitucionais.

O documento, uma espécie de alerta, foi motivado por reclamações direcionadas a outras edições do reality show. Para se ter uma ideia, só BBB10 foi alvo de 400 denúncias, como homofobia, incitação à violência, apelo sexual, inadequação no horário de exibição e violação da dignidade da pessoa humana.

Na recomendação, a PFDC pedia que a TV Globo adotasse “medidas preventivas necessárias para evitar a veiculação de práticas de violações de direitos humanos, tais como tratamento desumano ou degradante, preconceito, racismo e homofobia”.

De acordo com Rios, a emissora, que tinha prazo de 30 dias para responder à solicitação, ainda não se manifestou.

– Vamos pedir justificativa sobre porque não foi respondido e sobre porque não foi tomada nenhuma providência.

PHA.

POESIA para GEORGE HARRISON / joão de abreu borges

   

Para George Harrison

 

 

Um sorriso que pode fazer chorar…

Uma canção, calar…

Uma foto na parede, olhar…

 

Caminho,

guio as estrelas

perdidas em outros corações

(afastam-se ou se aproximam

apoiando meu caminhar).

 

Caminho…

ao sabê-las sob meus pés,

em algum ponto do universo,

possuídas pelo meu olhar.

 

No ponto mais alto

que a mais alta estrela

me sobressalto…

no canto mais baixo

perco meu eixo…

 

Caminho…

ainda há muita luz

em meu olhar.

 

 

O MARINHEIRO E SEU BARCO de manoel de andrade / curitiba

O Marinheiro e seu barco

 

 

Para: Daniela

 

 

 

 

 

 

 

Lembro-me de um tempo imenso,

de um menino de espumas e areia

do mar que tive em minha infância.

Depois a vida cresceu dentro de mim,

as tardes me acostumaram com os barcos partindo

e no meu pequeno peito nasceu um sonho de marinheiro.

 

Recordo que em mim tudo era barco

e que a existência chamava-me de todos os portos do mundo.

Recordo meus salgados olhos tatuados com invisíveis rotas

navegando errantes sobre o horizonte.

 

Sim, há coisas tristes na vida

como um sonho de criança

quando morre em nosso coração de homem.

E hoje,

quando vejo minha pátria naufragada

e meu povo reconstruir com sangue

seu barco despedaçado,

sinto que em mim renasce transformado

o mesmo sonho antigo;

então meu coração se banha com as águas amargas desses anos

e penso naquele transparente canto de pérolas e algas

que herdei de ondas remotas

em tudo que em mim ficou de verde e de imenso;

e sonho novamente com um visionário caminho para a vida,

com seus barcos de pão e de peixes

com gaivotas jovens

e sua brancura abrindo-se com o amanhecer.

 

E penso o meu tempo

com seus caminhos longos e difíceis

e o sinto com a esperança das águas nas nascentes

e seu deslumbramento da desembocadura.

E mais além

penso em um oceano com novas longitudes,

em uma bússola  de estrelas

guiando meu povo a uma aurora boreal.

E penso nesses povos antigos

que partiram um dia em busca de uma terra longínqua,

em busca de novos campos para suas sementes

e de um berço de sol para seus filhos.

 

Ah irmãos!

quantos mares desconhecidos nos esperam!

Quantos caminhos até chegar à nossa sonhada Canaã!

 

Sim… há coisas belas na vida…

como o homem com seu barco e seu destino

como a alma extraordinária dos camaradas

a ternura escondida em seus punhos

e seus gestos de vida e de amor.

E penso nesse porto ainda distante

no trigo maduro

na doçura das laranjas na próxima estação.

Penso em uma iluminada manhã

quando voltar a pisar o chão da pátria

e  abraçar minha filha bem amada.

 

 

 

Lima, dezembro de 1969

 

 

 

Walter Feldman, secretário municipal de Esportes e Lazer de São Paulo, propõe que alunos aprendam pôquer nas escolas

O secretário municipal de Esportes e Lazer de São Paulo, Walter Feldman, defende a tese de que as escolas deveriam incluir aulas de jogo de pôquer em seus currículos como “esporte que desenvolve a habilidade mental”. Disse ele no evento Latin American Poker Tour, em São Paulo: “Imaginem quantos atletas profissionais de pôquer não poderiam aparecer por aqui.”

INACREDITÁVEL!

.

São Paulo é administrado pelo DEMo!  ninguém se manifesta, a “grande” imprensa se cala! coitados dos paulistanos. qual será o futuro de seus filhos se a sugestão vigorar?

exijam  a demissão desse individuo!

essa é a cara do “JÊNIO” viciado em carteado!

AO PÉ DO TÚMULO – de auta de souza / natal

 

 

 

 

 

Eis o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes e despedaçadas;
Eis o repouso, enfim; e o sono amigo
Já vem cerrar-me as pálpebras cansadas.

Amarguras da terra! eu me desligo
Para sempre de vós… Almas amadas
Que soluças por mim, eu vos bendigo,
Ó almas de minh’alma abençoadas.

Quando eu d’aqui me for, anjos da guarda,
Quando vier a morte que não tarda
Roubar-me a vida para nunca mais…

Em pranto escrevam sobre a minha lousa:
“Longe da mágoa, enfim, no céu repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais”.

.

 

Natal – Março de 1895

REDE GLOBO X LULA: “Um império contra um operário” – por mauricio dias

A mídia, Globo na frente, não dá trégua ao ex-presidente.


 


Nunca foram boas as relações entre a mídia brasileira e o torneiro mecânico Lula, desde que, nos anos 1970, ele emergiu no comando das jornadas sindicais no ABC paulista, onde estão algumas das empresas do moderno, mas ainda incipiente capitalismo brasileiro. Em consequência, quase natural, o operário não foi recebido com entusiasmo quando, após três fracassos, venceu a disputa para a Presidência da República, em 2002.
Os desentendimentos se sucederam entre o novo governo e o chamado “quarto poder” e culminaram com a crise de 2005 quando televisões, jornais, rádios e revistas viraram porta-vozes da oposição que se esforçava para apear Lula do poder. Inicialmente, com a tentativa de impeachment. Posteriormente, após esse processo que não chegou a se consumar, armou-se um “golpe branco” em forma de pressão para o presidente desistir da reeleição, em 2006.

Lula ganhou e, em 2010, fez o sucessor. No caso, sucessora. Dilma Rousseff sofreu quase todos os tipos de constrangimentos políticos. Ela tomou posse e, no dia seguinte, foi saudada por deselegante manchete do jornal O Globo, do Rio de Janeiro: “Lula elege Dilma e aliados preparam sua volta em 2014”.

A reportagem era um blefe político. Uma “cascata” no jargão jornalístico. O jornal O Globo, núcleo do império da família Marinho, tornou-se a ponta de lança da reação conservadora da mídia e adotou, desde a posse de Lula, um jornalismo de combate onde a maior vítima, como sempre ocorre nesses casos, é o fato. Sem o fato abre-se uma avenida para suspeitas versões.
O comportamento inicial da presidenta, mar ca do por discrição e austeridade, foi uma surpresa para todos. O Globo inclusive. Não há sinais de que seja uma capitulação ao poder dos donos da mídia com os quais Dilma tem travado discretos diálogos. Armou-se circunstancialmente um clima de armistício. Na prática, significou um fogo mais brando, a provocar um visível recuo de comentaristas que eram mais agressivos com Lula. Soltam, porém, elogios hesitantes por não saberem até onde poderão seguir.

Esse armistício se sustenta numa visão de que as situações não são iguais. Dilma não é Lula. É claro que há diferenças entre o governo de ontem e o de hoje. No entanto, o carimbo pessoal da presidenta na administração do País faz a imprensa engolir a propaganda de que ela era um “poste”. Essa contradição se aguça na sequência dessa história. Dilma passou a ser elogiada e Lula criticado.

Alguns casos, colhidos da primeira página de O Globo ao longo de uma semana, expressam o que ocorre, em geral, em toda a mídia:
Atos de Dilma afastam governo do estilo Lula (6/2) – críticas ao ex no elogio ao governo Dilma.
Por qué no te callas? (8/2) – crítica atribuída a um sindicalista, mantido no anonimato, sobre apoio de Lula ao salário mínimo proposto por Dilma.

A fatura da gastança eleitoral (10/2) – a respeito de despesas do governo Lula com suposta intenção eleitoral.
Dilma aposenta slogan de Lula (11/2) – sobre a frase “Brasil, um país de todos”.

Herança fiscal de Lula limita o começo do governo Dilma – (13/2) – crítica a Lula ao corte no Orçamento proposto por Dilma.

Ela recebe afagos e ele, pedradas. Procura-se, sem muito disfarce, cavar um fosso entre o ex e a presidenta. Situação que levou Lula, na festa de aniversário do PT, a reagir: “Minha relação com Dilma é indissociável”.

Mauricio Dias

Maurício Dias é jornalista, editor especial e colunista da edição impressa de CartaCapital

3° Encontro da comunidade brasileira em Dortmund – Alemanha

MODELANDO NOSSOS SONHOS – de zuleika dos reis / são paulo


 

 

Parece-me ter passado a vida a modelar meus sonhos a partir da evocação dos traços que compõem teu rosto.

Parece-me teres passado a vida a modelar teus sonhos a partir da evocação dos traços que compõem meu rosto.

As evocações dos traços dos nossos rostos, os do teu, os do meu, foram a argila, a matéria-prima com que modelamos, tu, os teus sonhos; eu, os meus.

Foram, as evocações dos traços dos nossos rostos, os do meu, os do teu, a argila, a matéria-prima com que modelamos, eu, os meus sonhos; tu, os teus.

Nunca vi os sonhos que modelaste com a argila dos traços do meu rosto; nunca viste os sonhos que modelei com a argila dos traços do teu rosto.

Sei apenas, há muito tempo, os traços do meu rosto a se diluirem, cada vez mais, na imagem do espelho. O mesmo vives a dizer e a repetir, ad infinitum, sobre os traços do teu rosto no espelho.

Os traços dos nossos rostos, argila da qual se compuseram o teu e o meu sonho, a desaparecerem dos espelhos.

Hoje, onde os sonhos por nós compostos? Onde a argila de que foram compostos? Onde os traços dos nossos rostos?

É preciso que se recomece tudo, a partir, agora, deste quase ponto zero. Urge recomeçar, no sentido inverso ao do antigo percurso.

Ajudemo-nos, escultor: recomecemos o trabalho. Vamos compor de novo, eu, os traços do teu rosto; tu, os traços do meu rosto.

Recomecemos, escultor, o caminho para o  nosso retorno.

 

Na manhã de 17 de fevereiro de 2011.

 

 

ORAÇÃO À TERRA – letra gaúcha.

UM clique no centro do vídeo:

GÊNESE de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

No início existia apenas Deus, o escultor

e a palavra.

E foi a palavra

a massa que Deus usou para moldar o universo.

Disse Deus: Luz

e o som da palavra luz

se corporificou, iluminou

e se fez sol.

Disse Deus: Terra

e o som da palavra terra

se corporificou,

e se aconchegou perto do sol

Disse Deus: Água

e a palavra água se transformou

em oceanos e nuvens, em rios

e nascentes.

Disse Deus: Ar

e a palavra ar e envolveu e protegeu a terra

como uma pele e se preparou

para ser o mais farto e o mais precioso dos alimentos.

Disse Deus: Vida

e a palavra vida

tomou inúmeras formas e se desenvolveu

e frutificou como uma árvore generosa.

E a vida

se aqueceu ao sol,

habitou a terra

bebeu e respirou.

Só então

pode Deus, o escultor

tocar na terra e na água

e deste barro fazer o homem,

e da mais linda costela, a mulher.

Disse Deus:Bendita e cheia de olor

seja para sempre esta mistura da qual

foi feito Adão.

A chuva será o sêmen

com a qual fecundarei o universo.

 

PALAVRAS de omar de la roca / são paulo


Palavras de água

chegam ate mim deslizando

pela pétala do rosto.

E se transformam em pérolas

caindo na face da concha.

Palavras de orvalho

chegam ate mim evaporando

no rosto do trevo

sob o sol que nasce.

E se transformam em brilhantes  de gelo

eternizadas pelo sol da fotografia.

Palavras de mágoa

chegam apenas ate a garganta,e as sufoco

mostrando o caminho de volta,

engolindo seco.

Palavras amargas

chegam a boca e as saboreio,

mas não deixo sair.

Palavras secas, doces

de disfarce, dissimulação.

Só pela metade.

Palavras de trovão, tempestade,

trancadas estão.

Apenas pálidos reflexos aparecem  entre

as palavras de chuva

 

PEDAÇO DOS DIAS ALEGRES – de luis garcia / tomar.pt


Há em mim uma forte sensação de vazio,
cada pedaço de ser construído,
moldado pelo tempo e pelos sorrisos
encerra muito mais que sonhos arriscados.

Todos os sonhos são uma aventura
tenho medo de ser herói
porque não sei como se fazem discursos.

Podia ser muitas coisas que eu quisesse
mas ainda não descobri como ser eu
e assim é muito mais fácil tomar comprimidos
e ignorar as ressacas dos dias alegres.

Há em mim uma forte sensação de vazio
talvez ser alguém tenha esse preço.
Não sei como se fazem créditos e desconheço as taxas
perdoa-me por tudo aquilo que te devo.

 

 

REDE da LEGALIDADE (contra o golpe em marcha): 50 anos em 2011/ porto alegre

O ex- GOVERNADOR LEONEL BRIZOLA relata como começou a primeira tentativa de golpe pelos generais brasileiros que, àquela época, prestavam obdiência silenciosa aos EUA. 1961.

“Encontrava-me numa solenidade militar que se realizava no Parque Farroupilha. Chovia muito. Num dado momento, observei que um oficial se aproximou do General Machado Lopes, comandante do III Exército, e lhe fez uma comunicação no ouvido. Notei que a fisionomia do General carregou-se.

Dali a instantes o General me informou que, devido às chuvas, iria abreviar a solenidade. Poucos minutos depois, o jornalista Hamilton Chaves, meu assessor de imprensa, transmitiu-me que a “France Press” difundia a notícia da renúncia do Presidente Jânio Quadros. Achei que era mais um boato entre os muitos que nos últimos dias circulavam sobre o governo do ex-Presidente.

Nada comentei com os militares. Retirei-me dali e fui-me instalar no gabinete do presidente da Caixa Econômica Estadual, na esquina da rua Dr. Flores com a Rua da Praia. Foi uma decisão inconsciente e instintiva. Talvez uma influência longínqua do velho guerreiro gaúcho Leonel Rocha, que sempre se localizava a uma distância prudente do acampamento geral.

Poucos minutos depois, o nosso inconfundível Carlos Contursi me oferecia, por telefone, um conjunto de outras informações que circulavam pelos jornais e agências de notícias, confirmando a renúncia.

As comunicações telefônicas com Brasília e o Rio de Janeiro eram, na época, muito precárias e demoradas. Tratei de colocar a Brigada Militar e a Polícia Civil de sobreaviso. Logo a seguir, em face de novas notícias, sempre no sentido da confirmação da renúncia, coloquei a Brigada Militar de prontidão rigorosa e dei ordem para que passasse a ocupar e controlar alguns pontos importantes. Preocupava-me àquela altura com a ordem pública e com o clima de incertezas que envolvia o País e, muito especialmente, com potenciais ameaças sobre o Governo do Rio Grande Sul.

A eventualidade de um golpe de Estado já era comentada naqueles dias, inclusive com muitas pessoas e notícias na imprensa atribuindo essa intenção ao Presidente e alguns círculos políticos e militares.

Foi após essas providências que tratei de comunicar, por telefone, com o General Machado Lopes. Ele me confirmou que o Presidente realmente havia renunciado. Fez até um comentário, dizendo que se ele desembarcasse no aeroporto seria, agora, um cidadão comum e não mais o Presidente (o Presidente Jânio Quadros, justamente naquele dia, deveria vir a Porto Alegre, para instalar simbolicamente o seu governo na capital gaúcha, como era uma de suas práticas administrativas).

Expliquei ao General que tomara as providências que me competiam, visando a resguardar a ordem pública. E mais ainda: afirmei-lhe que, se ocorresse a necessidade, voltaria a me comunicar com ele, para solicitar a colaboração de forças federais, nos termos da Constituição, caso os serviços do Estado viessem a se mostrar insuficientes. Combinamos de nos manter em contato.

Conversas ao telefone

A convicção de todos nós – àquela altura já realizáramos uma intensa troca de impressões entre os quadros do Governo e do partido – era a de que poderia ter ocorrido um golpe contra o Presidente Jânio Quadros. Não se conseguia comunicação com Brasília, a não ser através de um sistema de rádio, também muito precário. A renúncia era um fato. O Presidente já havia se deslocado para São Paulo. Encontrava-se na Base Aérea de Cumbica. As notícias vindas de Brasília já nos davam as primeiras informações sobre um possível veto do Marechal Denys, Ministro da Guerra, ao Vice-Presidente João Goualrt. Nossa primeira atitude pública foi no sentido da preservação da ordem constitucional.

E como partíamos daquela suposição de um golpe contra o Vice-Presidente João Goulart. Nossa primeira atitude pública foi no sentido da preservação da ordem constitucional. E como partíamos daquela suposição de um golpe contra o Presidente Jânio Quadros, passamos a nos definir em defesa de seu mandato constitucional. A muito custo consegui me comunicar com a Base de Cumbica, em São Paulo, onde se encontrava o avião presidencial. Jânio Quadros não veio ao telefone. Falou comigo, em seu nome, o jornalista Carlos Castello Branco, Secretário de Imprensa da Presidência da República. Primeiro perguntei se o Presidente havia renunciado mesmo, ou se estávamos diante de um golpe contra ele. Castello respondeu-me que o Presidente havia renunciado.

Disse-lhe, então, que mesmo tendo ocorrido a renúncia, desconfiávamos de que o Presdiente avia sido constrangido a esse gesto e que, nesse caso, tratar-se-ia de um golpe. E mais: que nós, do Rio Grande do Sul convidávamos Jânio Quadros para vir ao nosso Estado e, daqui, dirigir-se à Nação em defesa do seu mandato legítimo. O jornalista Castello Branco, depois de consultar o Presidente, transmitiu-me os agradecimentos, informando finalmente que não havia mais nada a fazer.

Como é natural e lógico, os rumos para a defesa da legalidade constitucional apontavam numa só direção, consumada a renúncia do Presidente: a posse do Vice-Presidente da República, seu substituto legal e constitucional, devia ser o procedimento legítimo. Ao nos deparar, naqueles instantes, com a circunstância de que o nosso conterrâneo e chefe de nosso partido, João Goulart, era o Vice-Presidente eleito, sentimos uma espécie de vibração cívica impossível de descrever.

Naqueles momentos tomei a iniciativa de telefonar ao General Machado Lopes, Comandante do III Exército. Relatei-lhe o meu diálogo com o jornalista Castello Branco. E na minha simplicidade referi ao General, também, as notícias, que nos pareciam inconcebíveis, de que o Marechal Denys havia divulgado uma nota opondo “restrições”à investidura do Vice-Presidente João Goulart. Adiantei àquele chefe militar que era para nós inacreditável aquela atitude do Ministro da Guerra. Solicitei, então, ao General Machado Lopes informações a respeito e indaguei qual era o seu pensamento sobre aquele quadro que já se configurava numa verdadeira crise.

Respondeu-me o General: “Bom, bom, Governador, eu não posso me definir assim. Sou soldado e fico com o Exército”. O diálogo, para mim, estava encerrado. Apenas cumpri, ainda, o dever de lealdade de dizer ao General Machado Lopes que, se aquelas notícias se confirmassem, de minha parte e do Governo do Rio Grande do Sul, ficaríamos com a Constituição. Em termos respeitosos, mas com escassas palavras, nós nos despedimos, encerrando aquela breve conferência telefônica. Desde então senti-me impedido de fazer novos contatos pelo telefone com o Comandante do III Exército. Daí por diante, passamos a atuar cada um para seu lado. Suas palavras foram suficientemente claras e peremptórias.

O início da resistência

Ao fim da tarde do dia 25 de agosto de 1961, encontrava-me no Palácio Piratini, que fervilhava de gente. Surgiram as primeiras manifestações nas ruas. Algumas protestando contra o golpe, outras em favor de Jânio Quadros e a maioria delas em defesa da legalidade da posse do Vice-Presidente. Foram aparecendo os primeiros oradores, inclusive na frente do Palácio.

Lembro-me que dirigimos, das janelas térreas do Piratini, nossas primeiras declarações aos manifestantes e aos jornalistas que, sequiosos por informações, perseguiam os acontecimentos. Passamos a noite em vigília. As notícias de Brasília e do Rio eram escassas, mas vinham chegando. Fizemos alguns contatos.

Os inesquecíveis deputados Ruy Ramos e Vítor Issler passaram a nos enviar informações, sistematicamente, via rádio, do escritório do Governo do Estado, na Capital Federal. Pela madrugada, já havíamos definido as nossas posições através de uma ampla troca de idéias com todos os nossos quadros do Governo e dirigentes do partido: defesa intransigente da ordem constitucional e investidura, na Presidência da República, de João Goulart, que deveria retornar imediatamente de sua viagem à China; resistência a todo custo contra qualquer tentativa de golpe de Estado; influir, por todos os modos ao nosso alcance, junto ao III Exército e aos seus altos comandos para que viessem a assumir uma posição em defesa da legalidade constitucional; fazer o máximo de contatos possíveis, com o mesmo propósito a nível nacional, junto aos demais governadores, chefes militares e todas as instituições e líderes políticos e populares.

Com base nestas posições, passamos a fazer declarações, pela imprensa e pelo rádio, e a lançar nossos primeiros manifestos ao povo rio-grandense e, até aonde podíamos chegar, à opinião pública do País.

O dia seguinte amanheceu com o País, virtualmente, sob o estado de sítio. O Deputado Mazzilli, Presidente da Câmara dos Deputados, havia “assumido” a Presidência da República. Teria sido uma iniciativa tomada no âmbito do Congresso, com intenções até pouco esclarecidas. Pois, se de um lado era o mecanismo constitucional, isto é, ausente do País o Vice-Presidente, era o presidente da Câmara dos Deputados quem devia assumir interinamente a Presidência da República, como o segundo na ordem de substituição; por outro lado, corria também – como se verificou depois – um certo oportunismo de políticos conservadores que, naquele instante, jogavam maliciosamente e, sobretudo, nada faziam em oposição ao veto que se levantava contra a investidura do Vice-Presidente constitucional.

Em verdade, o que se verificou mesmo foi o estabelecimento de um governo de fato, uma espécie de junta dos três ministros militares, sob a chefia do Marechal Odílio Denys, que ditava ordens e assumia todas as decisões. O Governador Carlos Lacerda, do Rio de Janeiro, desencadeou a repressão, com prisões e censura à imprensa.

Durante todo o dia procuramos fazer contatos telefônicos fora do Estado. Conseguimos falar com o Governador Carvalho Pinto, de São Paulo. Encontrei-o frio e desinteressado, nenhuma resistência ao golpe. Falei com o Comandante do II Exército, em São Paulo, o qual declarou-me que tudo faria para que a crise não se agravasse. Consegui localizar o General Osvino Ferreira Alves, que se encontrava sem comando de tropa no Rio, e sem condições de se expressar ao telefone.

Com muita dificuldade consegui um contato telefônico com o General Costa e Silva, que comandava o IV Exército, no Recife. Nosso diálogo foi duro e violento. Respondi com a mesma moeda às suas grosserias e agressividade. Localizei no Rio o General Kruel, também sem comando, e convidei-o para vir, de qualquer forma, para o Rio Grande do Sul. Dois ou três dias depois estava chegando e permaneceu incógnito no Palácio Piratini. Era nossa intenção atribuir-lhe o comando militar da resistência, caso o General Machado Lopes não se decidisse a apoiar a Legalidade.

O Manifesto de Lott

Na boca da noite, o querido deputado Ruy Ramos colocou-nos em contato com o Marechal Henrique Teixeira Lott, transmitindo-nos o manifesto que aquele prestigioso chefe militar havia lançado em defesa da ordem e da Constituição. O texto do documento foi recebido e taquigrafado pelo companheiro Hélio Fontoura. Passamos a difundir o manifesto do Marechal Lott pela rádio. As emissoras que fizeram a transmissão eram silenciadas pelas autoridades do III Exército, mediante o confisco dos cristais de seus transmissores.

Permaneceu no ar somente a Rádio Guaíba, porque os seus proprietários declararam que não podiam transmitir o manifesto. Sábado e domingo foram dias de muitas tensões e expectativas. Havia uma multidão em frente ao Palácio do Governo e na Praça da Matriz. Concentramos em Porto Alegre, no curso desses dias, todos os contingentes possíveis da Brigada Militar que se encontravam destacados nos municípios vizinhos. Fomos assumindo, desde logo, todas as posições que o Estado Maior da Brigada entendia conveniente. O Palácio e as áreas adjacentes foram se transformando numa verdadeira cidadela. As torres da Catedral foram ocupadas com ninhos de metralhadoras, pilhas de sacos de areia onde se fizessem necessários. Eram as tarefas do Regimento Bento Gonçalves, reforçados com outros contingentes daq Brigada Militar, sob o comando do Coronel Átila Escobar.

A conselho do Marechal Lott, enviamos, num aviãozinho monomotor, um professor e coronel do Exército para um contato com o General Oromar Osório, comandante de uma divisão sediada em Santiago de Boqueirão.

Mandou-nos dizer que já se encontrava sob rodas e que precisava urgente de 11 trens e 200 caminhões, recomendando que procurássemos entendimento com o General Machado Lopes. Também contatamos, a conselho do Marechal Lott, o General Pery Bevilácqua, em Santa Maria, que se deslocava a Porto Alegre para uma reunião convocada pelo Comandante do III Exército. Os trens e os caminhões foram fornecidos ao General Oromar Osório que, como todos sabem, atingiu nos dias seguintes o Estado do Paraná. Atuou com a mobilidade do General Patton na II Guerra Mundial.

A mobilização popular

A mobilização do povo gaúcho atingia um nível surpreendente. Em Porto Alegre e em todas as cidades, grandes e pequenas, já se formavam comitês de resistência e voluntariado. O espírito cívico do povo gaúcho impregnava todos os espaços e ia atingindo e envolvendo a tudo e a todos. Em frente ao palácio, era permanente uma multidão de dezenas de milhares de homens e mulheres de todas as idades e categorias sociais.

Constituiu-se, nessas horas, uma unidade impressionante do povo rio-grandense, seus quadros e lideranças de todas as atividades. Dos políticos daquela época e que ainda hoje estão em evidência, recordo-me que o senhor Paulo Brossard foi o único que agiu contra o Movimento da Legalidade, discretamente na Cúria Metropolitana.

Havia uma preocupação profunda na alma de todos sobre a posição do III Exército. Nossa resistência poderia heróica, mas não tínhamos condições de enfrentar as forças federais, na hipótese delas decidirem investir contra nós. A nossa deliberação, porém, já era irreversível. Estávamos ao lado da ordem, da lei da Constituição e da moral, dos direitos mais sagrados de nosso povo e da dignidade da própria Nação. O Rio Grande encontrava-se, já então, completamente bloqueado, sem nenhuma comunicação com o País.

O Vice-Presidente João Goulart em viagem de retorno, mas sem nenhum contato conosco. Chegavam muitos correspondentes estrangeiros, via Uruguai. Inúmeras pessoas conseguiam atingir o Rio Grande do Sul procedentes de outros estados para apresentar-se como voluntários.

Nessa noite de domingo para segunda-feira, tivemos os primeiros indícios de que se preparavam operações militares contra o Governo do Rio Grande do Sul. Mas foi nas primeiras horas do dia 28 de agosto, segunda-feira, que um radioamador nos transmitiu o que havia escutado de uma comunicação do General Orlando Geisel com III Exército, por ordem do Marechal Denys, determinando que fosse o Governo do Rio Grande do Sul compelido ao silêncio, com o emprego da força e do bombardeio pela Aviação, se necessário. A princípio, pensei que se tratasse de alguma brincadeira de mau gosto. Mas, logo em seguida, outra comunicação.

Vários rádio-amadores e o companheiro João Carlos Guaragna, dos Correios e Telégrafos, colocavam-nos diante de uma situação que até há poucos momentos parecia inconcebível, Novas mensagens foram captadas retirando e exigindo o imediato cumprimento daquelas ordens.

Pedi, ato contínuo, ao Doutor João Caruso, meu Secretário de Justiça, que redigisse um ato, portaria, decreto, fosse o que fosse, requisitando a Rádio Guaíba – única emissora que se encontrava no ar – sob o fundamento que necessitávamos, de emergência, daquele meio de comunicação para manter a ordem pública.

Determinei à Brigada Militar que ocupasse imediatamente, com o máximo de forças, as torres da rádio e que as lanchas do Corpo de Bombeiros fossem armadas e ajudassem a guarnecer a ilha onde as torres se localizavam. O engenheiro Homero Simon, antigo técnico daquela rádio, foi incumbido de trazer os seus microfones paras os porões do Palácio Piratini. Ocupamos também os estúdios da emissora.

Em pouco mais de uma hora já estávamos irradiando do Palácio Piratini e pedi que, de imediato, anunciassem que o Governador tinha uma importante e urgente comunicação a fazer ao povo gaúcho e à opinião pública do País. As ondas curtas foram direcionadas para o território. Nacional.

Neste momento, o Palácio recebeu um telefonema do Quartel-General do III Exército, pelo qual o General Machado Lopes solicitava ser recebido pelo Governador, com a máxima urgência. Deviam ser 10h30min da manhã. Marquei audiência para às 12h. Minha primeira impressão era a de que o General vinha me apresentar uma espécie de ultimato. Lembrei-me do golpe de 45, quando se procedeu dessa forma com o General Ernesto Dornelles, embora em circunstâncias diferentes. Marquei a audiência para as 12h, porque desejava informar à população o que se passava e, principalmente tendo em conta a nossa decisão de resistir, definitiva e irrevogável.

A Rede da Legalidade

Quando me dirigi para os porões do Palácio, acompanhado do Subchefe da Casa Militar, o então Major Emílio Neme, que permanecia ao meu lado em todos os momentos, onde já se encontravam os microfones e instalações de rádio, alguns jornalistas já me davam conta, embora em observações confusas, de que possivelmente o comando do III Exército se pronunciaria em favor da legalidade. Quando me preparava para falar, o engenheiro Homero Simon mostrou-me uma pequena luz vermelha, com a observação de que enquanto quela luz estivesse acesa, estaríamos no ar.

Falei de improviso e sob grande tensão, medindo, tanto quanto possível, as minhas palavras. Era muito delicada a situação. Precisávamos mobilizar ao máximo. Somar tudo o que pudéssemos, porém, sem criar nenhum tipo de problema ou constrangimento que viesse dificultar a integração do III Exército na defesa da legalidade. Pensamos em definir a nossa posição de resistência.

Denunciamos e levamos ao conhecimento da população as ordens que vinham de Brasília: “Deve o Comando do III Exército impedir a ação que vem desenvolvendo o governador Leonel Brizola. O III Exército deve agir com a máxima urgência e presteza, fazendo convergir contra Porto Alegre toda a tropa do Rio Grande do Sul que julgar conveniente. A Aeronáutica deve realizar o bombardeio, se for necessário. Está a caminho do Rio Grande uma força-tarefa da Marinha de Guerra, e mande dizer qual o reforço de que precisa. Insisto que a gravidade da situação nacional decorre, ainda, da situação do Rio Grande do Sul”.

Demonstramos, perante a população os destinos em que estavam incorrendo as autoridades de Brasília. Fizemos um último apelo ao General Machado Lopes e aos Generais comandantes do III Exército. Recomendamos à população que se afastasse daquela área, especialmente que retirasse dali todas as crianças/ Juntamente com Neusa, minha mulher, lá estavam milhares de mulheres dentro e fora do Palácio, que se recusaram a se afastar. As crianças foram retiradas, mas o povo lá permaneceu. E a cada momento crescia a multidão.

Devia ser mais de cem mil pessoas, naqueles momentos. A nossa sorte estava lançada. Afirmamos que resistiríamos até o fim e, se tivéssemos de sucumbir, ali haveria de permanecer o nosso protesto, lavando a honra e a dignidade do povo brasileiro.

A partir desse momento, começou a funcionar a Rede da Legalidade, com a integração de uma quantidade crescente de pequenas emissoras às transmissões da Rádio Guaíba. Centenas de jornalistas, nacionais e estrangeiros, sob a coordenação de Hamilton Chaves, desenvolveram um admirável trabalho que sensibilizou o povo brasileiro, civis e militares, por dos os quadrantes da Nação

Nunca tive oportunidade de ouvir uma gravação deste pronunciamento. Não sei mesmo se existe, ou se alguma pessoa possui esta gravação. Gostaria de ouvi-la. Somente agora, depois de 25 anos, é que consegui ler uma transcrição da imprensa da época.

A definição do III Exército

Na hora aprazada recebi, em meu gabinete no andar superior do Palácio Piratini, o General Machado Lopes, que se fazia acompanhar de algumas altas patentes do Exército. O General, ao meu lado, na extremidade de uma mesa de reuniões, de imediato tomou a palavra, comunicando-me que o Comando e todos os Generais do III Exército haviam decidido não aceitar nenhuma solução para a crise, fora da Constituição. Levantei-me e apertei a mão do General, dizendo-lhe que daquele momento em diante passava a Brigada Militar ao seu comando. Achavam-se presentes, além do Doutor João Caruso, o professor Francisco Brochado da Rocha e o Coronel Moojen, Comandante da Brigada Militar. Terminada a reunião, fiz questão de acompanhar o General Machado Lopes até à porta do Quartel-General do III Exército.

A partir do momento em que o III Exército assumiu aquela definição, começou a pender a balança em favor da Constituição e da Legalidade. Criou-se uma situação de resistência em todo o País. As mensagens da Rede de Legalidade atingiram as consciências em toda a parte4. Todos procuravam sintonizar as ondas curtas da Rádio Guaíba. Estabeleceram-se novas correlações de força. Criou-se um ambiente de apoio e solidariedade generalizada de parte da população de todo o País. Foi nesse momento que começou a prevalecer a nova investida de ufanismo, envolvendo o próprio Vice-Presidente João Goulart, já então na Europa, a caminho do Brasil, que resultou na adoção de um mal-ajeitado regime parlamentarista, de tão funestas conseqüências. Sempre achei que se deveria evitar o confronto que se apresentava iminente.

Era necessário encontrar soluções para a crise, mas de nenhuma forma violando a Constituição, como fez o próprio Congresso, numa madrugada, ao instituir aquele regime, retirando poderes legítimos do Presidente. Esse episódio contém, sem nenhuma dúvida, lições e ensinamentos de grande valor e da maior profundidade. Não sou eu, porém, o mais indicado para trazê-los à tona. Tenho feito as minhas reflexões. É possível que mais adiante ainda venha a escrever um texto expondo as minhas observações”.

dê UM clique no centro do vídeo:

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(Texto de Leonel Brizola, extraído do livro “Legalidade, 25 anos – A Resistência que levou Jango ao Poder”, Ed. Rafael Guimarães, A. Porto, Ricardo Stricher e Sérgio Quintana. Porto Alegre, 1986)

LÍBIA, oásis e lagos trazem vida ao Mar de Areia de Ubari

Os últimos dois dias no deserto na Líbia estão reservados para visitar os lagos de Ubari. Meu guia Ali Mahfud é claro e direto. “Deixamos o melhor para o final da viagem, para que você possa sair de nosso país com as mais belas paisagens registradas na sua mente.”

Após um leve almoço no vilarejo Takarkiba, estamos prontos para entrar no mundo das dunas, novamente. Barka está agachado frente ao lado do veículo. Ele monitora um constante ruído de ar comprimido que sai da roda. “Estou esvaziando cada um dos pneus. A pressão deve estar bem baixa, apenas a 1,0 libra. É a única maneira para enfrentar a areia.”

Deixamos Takarkiba e entramos no Mar de Areia de Ubari. Não existe nenhuma estrada, apenas vagas marcas de outros 4×4 que passaram na véspera. Cada vez que vencemos uma duna, encontramos uma nova paisagem nesse oceano de cores pálidas. Essa região é bem diferente daquela que vimos em Akakus. Não existem montanhas e nem pedras. Apenas uma areia que muda de cor constantemente, variando do amarelo claro ao vermelho. Os traços horizontais e ondulados da paisagem são apenas rompidos por elegantes tamareiras.

Grupos de tamareiras brotam da areia, dando um toque de vida ao deserto de Ubari.

Ao chegar ao primeiro lago, chamado Mavo, Ali pede que eu feche os olhos. O motor da Land Cruiser ronca com mais vontade, Barka mantém a aceleração e sinto que vencemos mais uma duna. No final, o motorista dá uma guinada e freia. “Pode abrir os olhos.” Como se eu estivesse à beira de um mirante, dou de cara com um impecável espelho de águas azuis. As margens do lago estão finamente bordadas com vistosas palmeiras verdes. É a imagem paradisíaca de um oásis.

A areia sob meus pés é tão fina e delicada que resolvo caminhar descalço. Além de sentir melhor o solo, minha caminhada sem sapatos torna-se um exercício mais ágil, pois não preciso carregar comigo um quilo de areia em cada tênis. Uma delícia! Subo a duna para ter uma maior visão do espetáculo. O sol de fim da tarde esquenta o tom das areias e – confesso – também minhas emoções.Alguns locais quebram a monotonia das cores com seus cheches chamativos (foto).

Barka conta que existem algumas dezenas de lagos no Mar de Areia de Ubari. Os cientistas calculam que os lagos já existiam no período Holoceno (há 12 mil anos) e muitas ferramentas da época Neolítica, usadas pelos antigos habitantes do local, foram encontradas em lagos que hoje desapareceram. As dunas do Mar de Areia de Ubari estariam na mesma região há mais de 100 mil anos.

As águas dos três importantes lagos de Ubari – Mavo, Gaberun e Umm El Maa – são salgadas. Os habitantes locais insistem que seriam tão salgadas como as do Mar Morto. Mas, na realidade, as águas do Mar Morto possuem duas vezes mais sal que as dos lagos líbios. Faço questão de provar a água e concordo.

Passo pelo lago Gaberun. Hoje ele está azul. Mas os locais dizem que ele sempre muda de cor, colorindo-se de verde ou vermelho, dependendo da época do ano e da quantidade de algas nas águas.

Cedo pela manhã, conheço Umm El Maa (Mãe das Águas). É considerado como o mais belo de todos lagos da região. A luminosidade lateral enriquece formas e sombras. Passo duas horas divagando entre um festival de palmeiras, dunas e água.

O lago Umm El Maa, Mãe das Águas, é de água salgada e sua salinidade é cinco vezes maior que a água do mar.

Do topo de uma duna, o lago Umm El Maa, aparece com um oásis perfeito no Mar de Areia de Ubari.

Antes de terminar a jornada no deserto e regressar ao asfalto, paramos em um último lago, Mandara. Ele está quase seco e contem apenas poças salgadas. “É um lago que desaparece. Cada vez que passo por aqui, fico triste ao ver a água diminuir”, diz Ali Mahfud, emocionado.

Para uma cultura que valoriza a água como símbolo da vida, o desaparecimento de um lago representa uma lenta e triste morte. Ali Mahfud suspira e, com entusiasmo, lança a última palavra “Aqui no deserto estamos acostumados com a impermanência das coisas. Tudo muda, tudo passa. Como o vento e a areia.”

Tamareiras e dunas ao redor do lago Mandara, hoje seco. O desaparecimento de um lago uma é como uma morte.

Meu guia e tradutor Ali Mahfud, vestido com trajes de tuaregue, filosofa à beira do lago Umm El Maa. Ele é nosso filósofo de bordo.


Pinturas rupestres de 14 mil anos tornam Akakus um museu ao ar livre


O guia Ali Mahfud explica que, há milhares de anos, a região de Akakus não era tão desértica como hoje. “Até o ano 2.500 a.C., esse planalto situado a 800 metros de altitude gozava de um clima úmido e possuía florestas mediterrâneas”, diz Ali. Assim, antes dos tuaregues e dos berberes terem povoado as areias do Saara, outros grupos étnicos teriam habitado as montanhas de Akakus e usado suas cavernas naturais como moradia.

Um tuaregue se aproxima com um bule de chá nas mãos para nos oferecer a bebida do deserto. Ele hoje é um dos guardiões das  cavernas que guardam pinturas rupestres.

A presença desses povos antigos é comprovada por uma arte rupestre sem igual. Como uma galeria de arte ao ar livre, as pedras de Akakus contêm uma das maiores densidades de pinturas rupestres do mundo, razão suficiente para o local ter sido considerado, desde 1985, como Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Aproveitando a temperatura amena da manhã, entramos em diversos wadis (vales) para descobrir uma dezena de sítios arqueológicos. Nas últimas décadas, as diversas equipes de arqueólogos recensearam cerca de 1.300 grupos de pinturas diferentes. As mais antigas datariam de 12.000 a.C. e ilustram a fauna selvagem que habitava a região, como elefantes, girafas e búfalos.

Pintura rupestre em uma caverna mostra uma cena de batalha. Os guerreiros usam lanças e arcos e flechas.

Pintura no deserto de Akakus ilustra uma figura humana segurando – ou tentando subir – em uma palmeira, possivelmente uma tamareira.

Mais tarde, a partir de 5.500 a.C., apareceram as figuras humanas realizando rituais ou acompanhadas por animais domésticos.

Acredita-se que os cavalos só começaram a fazer parte das pinturas a partir de 1.000 a.C., enquanto que os dromedários seriam os últimos a serem ilustrados, por volta de 200 a.C.. O vermelho da maioria das pinturas veio do pó de pedras contendo óxido de ferro, enquanto que a cor branca teria sido elaborada com produtos como ovo e leite.

As figuras de animais, como elefantes, teriam sido realizadas pelos artistas antigos entre 3.000 e 2.000 atrás.

A triste notícia é que a busca frenética por novas reservas de petróleo tem provocado alguns danos nas rochas de Akakus. As ondas sísmicas enviadas ao subsolo para localizar depósitos petrolíferos também impactaram a superfície e algumas das rochas mais frágeis – incluindo aquelas sobre as quais estão gravadas pinturas milenares – sofreram pequenas trincas.

Depois de fotografar uma grande variedade de pinturas e ter analisado detalhes de cada obra, noto que outro grande problema foi a intrusão de pinturas mais recentes ao lado das imagens originais. De fato, a arte rupestre parece ter inspirado alguns nômades de passagem a liberarem seus “artistas interiores”. Durante os últimos séculos, várias figuras foram adicionadas nas rochas, assim como palavras escritas no alfabeto tuaregue. A diferença entre as pinturas originais e as cópias é óbvia, mas é espantoso observar que alguns grafitis tuaregues chegaram a ser desenhados sobre imagens milenares.

Em um dos sítios arquelógicos, pedaços de cerâmica comprovam que a região é habitada há milênios. Os cacos de vasilhas, potes e pratos são finamente decorados com pontos e marcas geométricas.

por HAROLDO CASTRO

WONKA BAR, reabre em alto estilo / curitiba

GERTRUDE STEIN, um poema


from Before the Flowers of Friendship Faded Faded

 

I love my love with a v
Because it is like that
I love my love with a b
Because I am beside that
A king.
I love my love with an a
Because she is a queen
I love my love and a a is the best of them
Think well and be a king,
Think more and think again
I love my love with a dress and a hat
I love my love and not with this or with that
I love my love with a y because she is my bride
I love her with a d because she is my love beside
Thank you for being there
Nobody has to care
Thank you for being here
Because you are not there

 

 

Mãeeeeee, foi assim que a moça do BBB fez?

Rede Globo: Educação você encontra aqui

HOMEM SENTADO – por ronie von martins / pedro osório.rs


 

 

Engolia todas as dores. E já se acostumara. Não havia dor que não estivesse acostumado a engolir. Todas. Friamente às engolia. Às vezes mastigava-as. Lentamente. Tudo ao seu redor era lento. Denso. Tudo era denso. Densidades estratificantes que lhe cobriam, envolviam em camadas. Como uma cebola. Não comia cebolas.

Os movimentos eram raros, da cama ao assento frente a parede que não se abria em janela, mas que se fechava em parede. E mesmo assim, seus olhos paravam ali. No espaço que só o olho do homem sentado conseguia ver. Ver? Seria uma frincha? Existiria a possibilidade de o olho buscar e se esgueirar pelos interstícios invisíveis e “impossíveis” da parede?

Comia dores e bebia chimarrão. Amargo e quente. E não escuta o rádio. Mas sempre ligava o aparelho. Uma estação além das vozes chiava dialetos singulares e vetustos. E seus olhos por breves instantes pareciam brilhar.

O tempo era impreciso, já não era possível determinar se era presa de Kronos ou Aion, ou se decidira deixar o corpo para um e o resto para o outro. Mas parecia que já havia preenchido seu quinhão de real com várias toneladas de memória e delírio.

Pelo substantivo louco, era definido pela família. Nunca apareciam, mas pagavam uma funcionária para limpara o pequeno apartamento. Ela chegava lépida, faceira, pequenas e infames piadinhas nos lábios, barriga volumosa e satisfeita, espantando fantasmas e poeira com seu espanador encantado.

Ele ordenava a sua máscara que forçasse um sorriso. Cordialidade. E o que saia era uma careta engraçada que fazia a mulher sorrir e dizer mais besteiras.

A funcionária era um vento. E soprava  com força todo o silêncio e a solidão do espaço do homem, mas quando saia, a gravidade puxava-os para baixo. E ele realmente não sabia se gostava do agora ou do antes.

“O que estás vendo?” às vezes a mulher perguntava e ele respondia que via a cidade da memória. E ela ria. Aquecia mais água para a térmica, perguntava se ele não queria trocar a erva. “Uma carteira de cigarro” ele dizia, mais que pedia. “Eles disseram que você não pode fumar” e ele sorria. E ela trazia a carteira e ele incendiava o lugar. O fósforo incandescente por segundos frente aos olhos e em seguida a fumaça se esvaindo e abraçando o ar em valsa erótica. Lascívia. “Eles se amam.” Ele dizia. “Quem?” perguntava a mulher. “A fumaça e o ar.” A gargalhada era dela, o silêncio dele. “Você é esquisito mesmo, hein?” “É.”, dizia o verbo pensando na conjunção “e”. Este era o problema. A finitude das coisas e de si mesmo começavam a lhe causar estranhamentos. Gostaria de se ligar a outra oração, acrescentar eternamente. O meio das coisas. O verbo ser. A palavra “é” definia, estagnava e prendia tudo que não deveria ser nas estruturas  sedimentares do “é”. O ser.

Ria desta suposta unidade. E se esvaia em fumaça. E dissolvido em nevoa, qual vampiro, perdia-se inteiramente pelas frestas do seu corpo real e organizado.

 

VOLTAS de vera lucia kalaari / portugal

Acaso é esta a casa formosa

Onde brinquei em tarde ditosa?

É este o monte onde saltei?

É esta a fonte onde água busquei?

São estes…São estes…São estes os sítios….

Só eu, a mesma não sou.

Saudade: Tu chamas? Espera…Eu vou.

Naquele outeiro com feno quente

Às vezes dormia.

A serra escarpada, subia correndo

E ouvia encantada o vento morrendo.

São estes…São estes…São estes os sítios…

Só eu, a mesma não sou.

Saudade: Tu chamas? Espera…Eu vou.

Aqui se erguia um tosco telhado

E ali crescia um bosque cerrado.

Do mundo passado, já nada diviso.

São estes…São estes…São estes os sítios.

Só eu, a mesma não sou.

Saudade: Tu chamas>? Espera…Eu vou.

Já nada m’encanta, nem flores nem prados,

Nem ramos copados que a brisa quebranta.

Não corro pelos montes, nem bebo nas fontes.

Minh’alma que tinha ingénua alegria

Agora caminha envolta em saudade.

De mim nada resta, já nada ficou.

São estes…São estes…São estes os sítios…

Só eu, a mesma não sou.

Saudade: Tu chamas? Espera…Eu vou.

Dono da RBS (TV GLOBO) foi indiciado por crime do colarinho branco


Sirotsky assina documento diante do (ex) Ministro Hélio Costa 

O dono da RBS, canal que retransmite o sinal da TV Globo no sul, foi indiciado na “Lei do Colarinho Branco –  Lei no 7.492, de 16 de junho de 1986″:

CARTA PRECATÓRIA Nº 5027955-60.2010.404.7100/

AUTOR : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

RÉU : NELSON PACHECO SIROTSKY

: CARLOS EDUARDO SCHNEIDER MELZER

DESPACHO/DECISÃO

– Compulsando os autos, verifico que a presente deprecata foi expedida em Ação Penal na qual os réus foram denunciados como incursos no artigo 21, § único, da Lei 7492/86. Considerando que a Resolução n.º 20, de 26.05.03, do Presidente do Egrégio Tribunal Regional Federal da 4ª Região, especializa a 1ª Vara Federal Criminal para processar e julgar, na Justiça Federal, na Seção Judiciário do Rio Grande do Sul, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e de lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, caso no qual incide a denúncia constante desta Carta, reputo a 1ª Vara Federal Criminal desta Subseção Judiciária, como competente, portanto, para processar o feito. Conseqüentemente, remetam-se os presentes autos à SRIP para que os redistribua ao Juízo acima mencionado.

Porto Alegre, 16 de novembro de 2010.

Salise Monteiro Sanchotene
Juíza Federal

SONHO DE CONSUMO: “robô que não come nem faz greve” – por alceu sperança / cascavel.pr


 

A frase que os tucanos mais gostam de dizer agora, sob o governo petista, é a mesma dos petistas nos tempos de FHC. A velha máxima atribuída a Charles de Gaulle de que o Brasil “não é um país sério”.

Enquanto eles brincam, fazendo de conta que são diferentes uns dos outros, vão repetindo a frase, que fica mais robusta na boca de de Gaulle, mas na verdade foi cunhada pelo embaixador brasileiro Carlos Alves de Souza Filho, em 1963, na Guerra da Lagosta.

Com a crise da comida, pensar em lagosta faz até salivar.

Enfim, ao menos nesse caso, todos têm razão: o Brasil nunca pôde ser um país sério porque seu povo sempre foi dominado por interesses imperiais gananciosos. Porque o que não é sério, de fato, é este mundo da malandragem globalizada.

Se você investigar bem, 90% do que chega à sua caixa postal de e-mail é mentira ou golpe. E boa parte repassada, ingenuamente, por boas pessoas, incapazes de avaliar que a coisa não é séria (vide www.quatrocantos.com).

A enésima comprovação de que não se trata de um mundo sério se dá nas reuniões de Roma sobre a crise da comida.

Depois de muito blábláblá sobre a “falta” de alimentos, mais uma dentre as milhares de crises criadas pelo deus Capital, o representante cubano, embaixador Juan Antonio Fernández, apresentou em 2008 a proposta de considerar mundialmente a alimentação como um direito humano fundamental. Pois a proposta foi rejeitada!

Naquela reunião foram aprovadas as mais diversas moções sobre deveres, responsabilidades e “desejos sinceros” dos países do Primeiro Mundo de resolver o problema de preços da comida, mas o que era mais importante − o simples reconhecimento da alimentação como um direito humano fundamental − foi rejeitado.

É evidente o motivo da rejeição: se admitissem que todo ser humano tem o direito fundamental de comer, teriam que baratear de fato o preço da comida e isso representaria uma tragédia para todos aqueles que adoram uma crizezinha para sacudir a pasmaceira de suas vidas monótonas.

O desprezo dessas potências e seus lideres pelos pobres do mundo é tão cínico e descarado que eles já não mascaram mais suas imposições com palavras ardilosas tais como “liberdade”, “direito”, “humanismo”.

O que vai rolando agora nos EUA, em Guantânamo e na Europa é algo que sequer esconde o rancor que essa gente tem aos moreninhos do mundo. Eles marcham para anular o ser humano como agente econômico, tornando o trabalhador um elemento supérfluo. Seu sonho de consumo é um robô que não come nem faz greve.

A escritora Viviane Forrester, no livro O Horror Econômico, afirma que, para as grandes as corporações (elas sequer lidam com coisas superadas como “departamento de pessoal”), a maioria dos assalariados “não é digna nem de ser explorada”.

Cabe parar um pouco mais em Viviane Forrester, porque ela também sacou qual é a verdadeira jogada do racismo que hoje volta com tudo à Europa:

− O racismo e a xenofobia exercidos contra os jovens (ou contra os adultos) de origem estrangeira podem servir para desviar do verdadeiro problema, da miséria e da penúria. (…) são pobres, como sempre e desde sempre, que são excluídos. Em massa. Os pobres e a pobreza.

Já são vistos nazistas skinheads fazendo manifestação de rua na Rússia. Como por aqui é mania de macaquito copiar a Europa, logo as alegres suásticas estarão desfilando seu odioso rancor numa cavalata ou tratorata.

 

AGONIA DE UM FILÓSOFO – de augusto dos anjos / sapé.pb


Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo…
O Inconsciente me assombra e eu nêle tolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

Assisto agora à morte de um inseto!…
Ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!

No hierático areopago heterogêneo
Das idéas, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!…

Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!

 

À toa na vida – por martha Medeiros / porto alegre

Tudo é mais fácil quando a gente não se sente responsável por ninguém, quando levamos a vida na flauta, curtindo o momento, em total carpe diem. Uma conhecida minha é assim, passou a vida sem levar nada a sério, sem assumir coisa alguma, só reverenciando o próprio prazer. Aí teve câncer. Este seu temperamento desencanado ajudou-a a passar pela crise. Ela encarou o câncer como uma chateação, como se fosse uma dor-de-dente, não fez drama, sofreu com muito comedimento.

Por outro lado, agora curada, ela segue no oba-oba, não aprendeu nada, não amadureceu, não está dando maior valor à vida, continua naquele clima easy going. Tirou lição nenhuma.

Existem pessoas que passam batido por tudo, sem esquentar com nada. E existem pessoas extremamente sensíveis que a tudo dão atenção, que se envolvem profundamente com o que lhes acontece, seja uma doença, seja uma paixão. No fundo, elas desejariam ser menos compenetradas, mais leves, porém, quando tentam, metem os pés pelas mãos, fazem besteira. Por que? Porque é muito difícil mudar nossa própria natureza. É preciso aceitá-la e respeitá-la. E tentar ser feliz do jeito que se é.

Muitas vezes dizemos “eu queria ser mais solta” ou “eu queria ser mais maluco”, pois tudo isso sugere uma certa modernidade, ao contrário da introspecção, do conservadorismo e de outros comportamentos que se desenvolvem mais para dentro do que para fora. Moderno é liberar. Careta é reter. E é tanta pressão para sermos menos claustrofóbicos com nossa própria vida que acabamos nos confundindo e não raro inventando um personagem que nada tem a ver com a gente.

Ou se é naturalmente easy going, ou seja, alguém que se deixa levar pela vida, ou se faz parte do time dos conectados com as ansiedades, desejos e traumas. Eu sou assim, ligada na tomada. Sempre querendo encontrar uma razão pra tudo. Pessoas como eu sofrem mais. Se decepcionam mais. Por outro lado, crescemos. Evoluimos. Amadurecemos. Nada é estático em nossas vidas. Nada é à toa. Tudo ganha uma compreensão, tudo é degrau, tudo eleva.

É ótimo ser relax, mas é preciso ter vocação. Não tendo, melhor aceitar que somos estressadinhos por natureza. Mas há suas compensações.

Cauby Peixoto, 80 anos / são paulo

A vida e a obra de um artista que já nasceu velho como cantor


 

Foto: AE

Cauby Peixoto durante apresentação em 2004

O homem que completa 80 anos nesta quinta-feira (10 de fevereiro) gosta de se resguardar e de poupar ao máximo as energias que armazena. Anda em passos curtos. Prefere ficar sentado que de pé. Responde com frases curtas às perguntas daqueles que se amontoam ao seu redor numa segunda-feira, o único dia da semana em que ele costuma, religiosamente, sair de casa. “Olha, eu gostaria de sair mais se pudesse, se não fizesse mal. Beber, por exemplo, eu não bebo, porque sei que não é bom”, explica o resguardo, no dia da exceção.

Em algum momento da noite ele soltará de vez a voz, conhecida Brasil afora há 60 anos. E provará que ela, a voz, é a única coisa que ele, o cantor, extravasa sem economia de esforço. Niteroiense radicado em São Paulo, Cauby Peixoto mantém-se há oito anos em temporada contínua no igualmente histórico Bar Brahma, de São Paulo. É ali que ele dissipa a energia ainda acumulada no auge de seus 80 anos.

Na noite de 17 de janeiro, o mítico compositor paulista Paulo Vanzolini abrilhanta a plateia do bar, o que confere simbolismo extra à “cena de sangue num bar da avenida São João” de “Ronda”, interpretada por Cauby três vezes durante o show, em português e em espanhol. A voz de trovão, acredite, está em grande medida preservada. Imóvel, Cauby faz ela verter pelo salão como se fosse o sangue do verso de Vanzolini. A plateia retribui acenando-lhe lenços brancos improvisados em guardanapos de papel. Ele devolve o gesto e o afeto, balançando em gestos mínimos seu lenço de linho.

 

Foto: AEAmpliar

Cauby Peixoto em 1969

“Eu não bebo, não me aborreço muito, tenho uma vida tranquila. Cuido muito de mim, sabe?”, Cauby explica o inexplicável, o fato de ele conseguir ser o único artista brasileiro de sua idade que mantém uma rotina intensa de apresentações e de contato direto com o público. O cantor de “Conceição” chega às 21h30 para o show que começará por volta de 22h30. Entra nas dependências do bar pelo anexo conhecido como Brahminha, atualmente desocupado, onde é montado seu camarim, à base do improviso e da simplicidade.

Concede mini-entrevistas antes de iniciar o show – não gosta de desperdiçar saliva fora do palco, a não ser na hora de contar quais músicas pretende selecionar para o disco de releitura de rocks dos Beatles, que lançará na sequência dos recentes álbuns devotados aos repertórios de Frank Sinatra e Roberto Carlos. Em vez de citar títulos como “Help”, “Yesterday” e “Michelle”, prefere fazer charme, entoando trechos das letras em pronúncia, sotaque e entonação 100% Cauby Peixoto.

As gravações mais antigas de Cauby datam de 1951, e sua trajetória resulta espetacular também pela época peculiar em que conseguiu se impor como artista. Eram os anos 1950, provavelmente o mais extenso e intenso período de transição da música brasileira do século passado.

Havia um mundo que envelhecia, dos sambas-canção românticos, derramados e cantados com toda a força do peito por coriscos vocais como Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves e Angela Maria. Ao mesmo tempo, um novo mundo eclodia, nas vozes estranhamente mansas e gentis de Dick Farney, Lúcio Alves, Johnny Alf, Dolores Duran, Tito Madi, Elizeth Cardoso, Maysa. Essa nova categoria de cantores prenunciava a chegada da da bossa nova, que só aconteceria em 1958.

Cauby pertencia à primeira turma, da cabeça aos pés, passando pela garganta em nada precursora da bossa. Quando surgissem João Gilberto e seus seguidores, ao final da transição, o Brasil aprenderia que Cauby, com 20 anos em 1951, já nascera velho como cantor.

  • Até por essa peculiaridade, ele pode entrar no salão do Bar Brahma em 2011, cercado de seguranças rombudos, pairar por sobre as décadas como se não pertencesse a nenhuma delas – e ainda causar tumulto numa plateia em que prevalecem contemporâneos seus, mas em meio à qual despontam uns tantos nas faixas etárias dos 40, dos 30, até dos 20 anos.

“Essas meninas cresceram e não deixaram de ser minhas fãs”, filosofa Cauby, antes mesmo de pousar os olhos no público do dia. “Acho que só quando eu desafinar é que deixarei de ter fãs. Enquanto eu tiver voz, eu terei o aplauso delas.” Resistem nele a confiança na própria afinação e o imaginário forjado pelo maranhense Di Veras, seu empresário, tutor e pai postiço praticamente o tempo inteiro, desde o início do pupilo até a morte, em 2000. Foi Di Veras quem desenvolveu, logo no princípio, a mística do Cauby arrasador de corações, provocador de desmaios entre as fãs adolescentes, galã caboclo quase hollywoodiano.

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Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura

WOODY ALLEN…- eua

SOU UMA MODA ANTIGA de tonicato miranda / curitiba


para a mulher antiga e àquela passando ali

John Coltrane já se achou moda antiga

também me incluo no mesmo navegar

sou barco solitário longe da vista, vou no ar

terra distante, mapa antigo, amor sem liga

.

Nada sou da moda “fashion”, muito embora

aprecie as sandálias novas contornando

pés de moças e até de charmosa senhora

mas me deixem estar no vinho, a um canto

.

Ou podem deixar-me grudado na moldura

quadro desses antigos, de época barroca

eu ali, junto à garrafa numa expressão louca

realçando mais o Ó esgarçado em sua boca

.

A moda não é para mim, mas é como se fosse

ela apenas existe na liberdade do meu olhar

bom de te ver, te degustar como caju doce

na beira do mar, em qualquer beira a te amar

.

Ah, John disto sabia e no seu sax sexy de prata

servia seus sons em bandejas também de prata

dentro delas pernas e poucos panos em realces

gazelas caminhando para o prazer dos alces

.

Mas sou mesmo uma moda das mais antigas

ainda trago flores ao amor com bilhete perfumado

me encanto com as saias soltas singelas, calado

digo sim, mil vezes sim, às meias e às cintas ligas

.

O esconder mais do que o mostrar, John sabia

é o que espeta com agulhas finas nosso desejo

não importa qualquer nome serve, todas são Maria

todas merecem as notas do sax e de mim um beijo

 

Espaço Cultural BRDE abre inscrições para propostas de exposições de artes visuais / curitiba

BANCO REGIONAL DE DESENVOLVIMENTO DO EXTREMO SUL 


Interessados em participar das exposições do Espaço Cultural BRDE a partir de julho de 2011 já podem inscrever seus trabalhos. As propostas poderão ser encaminhadas até o dia 31 de março. Para inscrever um projeto, o primeiro passo é entrar no site do BRDE (www.brde.com.br) e clicar no banner “Espaço Cultural”. Lá o candidato terá acesso ao regulamento no qual poderá obter todas as informações necessárias sobre a apresentação das propostas.

Uma equipe de funcionários do BRDE, assessorada por um profissional ligado às artes visuais, fará a seleção dos trabalhos. Os projetos escolhidos devem ser divulgados num prazo de 30 dias após o encerramento das inscrições. Mais informações podem ser obtidas através do telefone (41) 3219-8056, das 12:30 às 18:30 h.

Espaço Cultural BRDE – Mantido e coordenado pelo BRDE – Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, o Espaço Cultural já entrou efetivamente no calendário cultural da capital paranaense. O Casarão, como é conhecido, iniciou suas atividades em junho de 2005, no Palacete dos Leões, construção histórica de Curitiba, e desde então já recebeu mostras das mais variadas técnicas e linguagens, tanto de artistas consagrados quanto de iniciantes. Além das exposições de artes visuais, também possibilitou apresentações de grupos musicais e lançamentos de livros. Contabilizando todos os eventos, o Espaço Cultural recebeu um número estimado de 1.500 visitantes em 2010. Considerado pelos artistas como um espaço nobre, o casarão da Rua João Gualberto, no Bairro Alto da Glória, por si só é uma obra de arte. Foi concluído em 1902, para ser residência da família de Ermelino de Leão Júnior, é tombado pelo patrimônio histórico e é testemunho do ciclo da erva mate, um dos períodos mais prósperos da economia paranaense.

Poliana Dal Bosco
ASCOM
Fone: 41 3219.8035
Fax: 41 3219.8153

www.brde.com.br

A POESIA DE EDU HOFFMANN /curitiba

Medusa

 

você não fica confusa ao sabor

de saber que a semibreve

tem o valor de duas mínimas ?

 

pensando bem, minha musa

de que nos adianta saber

se a soma do quadrado dos catetos

é igual ao quadrado da hipotenusa ?

 

você não dá a mínima

que as medusas são animais hidrozoários

em forma de campainha ou sino

e se as medusas tocam em alguma banda

de samba ou de tango argentino

se as gravadoras as recusam, não interessa

nada disso minha diva é divino

nenhuma voz tão bem professa

 

o que quero ouvir, de verdade

de maneira clara, conclusa

é se o coração que me ama

bate debaixo da sua blusa

 

 

 

 

.

 

Swing

 

 

 

 

tonto, um tanto bambo,

minha vida era um bolero

você quem temperou

e botou salsa, mambo,

rock em roll.

 

minha vida então virou

uma febre que só

eu dancei hula, forró

caí no frevo e no carimbó

 

quantos ritmos menina

faxinaram  minh’alma

você foi a vitamina

que sacudiu minha calma

 

aí deu breque no samba

você me assanhou e vazou

e eu que já me achava um bamba

caí no choro, ah que enfado

ando blue

 

ah a falta que você me faz

perdi o rumo, zerou o gás

no fundo, minha música jaz

 

 

 

 

 

 

.

Poema Bugre

 

 

 

 

 

 

o desejo e as carícias

das minhas mãos vaqueiras

aboiando seu perfume

de flor orvalhada do maracujá

 

eu me arranjo

em qualquer rancho

a vida me escreve

t  o  r  t  o

com o seu garrancho

umas rimas tortas

 

mi amore minha amora

em seu regaço em seu rego

deslizam minhas margens

 

 

apaga o lampião

 

uma estrela na ponta-da-língua

a constelação na ponta-dos-dedos

uma serenata de lonjuras

 

 

JULIO SARAIVA e sua poesia / são paulo


agnus dei

agnus dei

dai-me asas

asas leves

para voos

sempre breves

.

agnus dei

dai-me a moça

da janela

não me importo

se ela é pura

ou cadela

 

agnus dei

dai-me a infância

que perdi

vendo coisas

que eu menino

não devia ver

mas vi

 

agnus dei

dai-me um porre

sem ressaca

que eu tenho

alguma idade

e a cabeça

me vai fraca

 

agnus dei

fazei de mim

vilão da história

que eu nasci

já torto assim

e me sinto bem

co’a escória

 

 

 

 

 

agnus dei

dai-me a paz

mas não a paz

do homem sério

esta eu dispenso

pois se bem penso

hei de te-la

no cemitério

 

 


poema da difamação do poema

 

o poema deixa-se esparramar

na poltrona rasgada

imprestável

destinada ao lixo

 

última flor do lixo                o poema

 

a merda sente nojo do poema

embora o poema seja a alma podre da merda

 

o poema faz um tour pela cracolândia de sampa

o poema desaba

na sarjeta

o poema grita pela boca

dos que

desabam

na sarjeta

 

o poema respira o hálito que sai

da buceta da puta mais fodida do parque dom pedro

 

o poema atravessa a zona do mercado municipal

o poema vai desaparecer

de-fi-ni-ti-va-men-te

nas águas do tamanduateí

numa sexta-feira à tarde

debaixo

de um temporal

 

 


 

 

CARNES AMARGAS de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Carnes amargas

Mãos com palmas e afagos
Amputados
Carnes amargas
Que amarga os poemas
E mesmo pêssegos em calda
E eu distraído
Com o porquê que a língua não sente o gosto da língua?
E o ouvido não escuta o ouvido?
Não ouvi o mar rosnar, o vento uivar
E agora só me resta
Este léxico de náufrago
E beber num só gole um copo de guimbas
E gemer
Ai ,antítese anda tão parecida com a tese
E gemer
Ao ver no seu prato principal
Galetos com minhas asas
Tudo, tudo
Deixaram meus braços pensos
E os braços de minha alma mutilados
Como uma estátua grega
E gritei
Uma canção de protesto
Tentou calar-me com uma espingarda
Em minha boca
Mas com alguns furos
Fiz dela minha flauta
E o amor?
E a suavidade?
Está no interior da serpente.

TODA MULHER É MARIA de zuleika dos reis / são paulo


 

Li em mais de um Poeta

– tomo o Sol e a Lua testemunhas –

que toda mulher é Maria

ou queria tê-la sido.

Também eu sou Maria

– por que seria diversa?

Também sei que em todo homem

– ou em quase todos eles–

de ocidental estirpe

há um sultão saudoso

e disfarçado

mal-e-mal

– basta um arranhão no verniz

e lá vem ele, em triunfo.

 

A Maria em mim, tadinha,

leva  tanto tranco… tanto…

A Maria em mim, tadinha,

sempre tentou-se viver

também uma outra

com liberdade nos olhos

com liberdade nos gestos

e deve ter sido este

seu pecado ou mesmo crime

que  a História

por trás das máscaras

muda nada dos papéis

muda nunca, nadinha.

 

Ei-la, maria-vai-com-as-outras,

assim, diante de tribunal

sem rosto

diante de júri

sem rosto

diante de testemunhas

sem rosto

diante de juiz

sem rosto

mas já com a sentença pronta

desde antes do julgamento.

 

Ei-la, a maria sem cara

de Maria

sem cara

de maria-vai-com-as-outras

sem cara

de maria-sem-as-outras

ei-la

tadinhas

tadinhas

delas todas.

 

MAZZA, o Luis Geraldo, é convidado: / curitiba

de noviski.

 

de solda.

A MORTE DE PLATÃO – por jorge lescano / são paulo


“Platão, pai dos filósofos, morreu com a idade de 81 anos em 7 de novembro, dia do aniversário do seu nascimento, na saída de um banquete do qual ele havia participado. Esse banquete, comemorativo de seu nascimento e de sua morte, foi cada ano repetido pelos primeiros discípulos de Platão até a época de Plotino e de Porfírio. Mas depois que Porfírio morreu, esses ágapes solenes foram esquecidos durante mil e duzentos anos, e foi somente em nosso tempo que o famoso Lorenzo de Médici, querendo restabelecer esse costume, designou como anfitrião Francesco Bandini que, para celebrar esse 7 de…”.

Assim começa a quarta parte da palestra do Professor Benedito Nunes reproduzida neste volume. Longe de mim a intenção de imitar Ficino e replicar o ilustre palestrante, antes, desejo reverenciá-lo. Porém (sempre há um porém, diz o ditado popular), quero registrar algumas dúvidas a fim de ocupar meu ócio.

Eis a primeira: diferentemente de Ficino, Will Durant (A história da Filosofia; Nova Cultural, 1996; pág. 68) diz:

Um de seus discípulos, enfrentando esse grande abismo chamado casamento, convidou o Mestre para a festa de suas bodas, Platão foi, rico com seus oitenta anos, e uniu-se prazerosamente aos foliões. Mas à medida que as horas passavam em meio à alegria, o velho filósofo retirou-se para um canto tranqüilo da casa e sentou-se numa cadeira para tirar uma soneca. Pela manhã, quando a festa havia terminado, os exaustos convivas foram acordá-lo. Verificaram que, durante a noite, tranquilamente, sem agitação, ele passara de um sono curto para um sono interminável.

A quem dar crédito?Se a versão de Durant é a correta (?), os banquetes realizados pelos primeiros discípulos de Platão, até o século III d.C., perdem a dramaticidade, e a reedição proposta por Lorenzo, o Magnífico, assume o tom de paródia, enquanto o jogo de reflexos sugerido pelo Prof. Nunes se assemelha a uma miragem.

A segunda dúvida: 80 ou 81 anos? Depois de 25 séculos, um ano a mais ou a menos não altera grande coisa, pode disser o leitor apressado, mas se se menciona a idade é porque se pressupõe que faz diferença, ou não? Em todo caso, o texto não é mais o mesmo.

A terceira questão diz respeito à data de nascimento. 7 de novembro, precisa Ficino. Estranha precisão! No verão da 87º Olimpíada (cinco anos antes do nascimento de Platão, aproximadamente), baseados em estudos do matemático Metão (432 a.C.), que procurava adaptar os meses lunares ao ano solar, os helênicos adotaram um novo calendário, apesar da opinião de Sólon, um dos sete sábios da Grécia (640-558 a.C.) que no dizer de Diógenes Laércio (séc. III d.C.), recomendava se contassem os dias segundo o calendário lunar. É de crer que ao tempo da morte de Platão (108º, 2 Olimpíada, aproximadamente), esta diferença tivesse sido dirimida, prevalecendo o calendário solar. (Já veremos que os gregos são lerdos na adoção de reformas)

Jota César, Imperador Romano, em cuja homenagem o calendário patrocinado por ele recebeu o nome de Juliano, ordenou, em 708 ab Urbe condita (“desde a fundação da cidade”), que a partir do ano seguinte (45 a.C.; e ele nada sabia deste a.C., como nada sabia do idus de março de 710 a.U.c. –  44 a.C.), o dia 1º de janeiro marcasse o inicio dos anos.

O monge cita Dionysius Exiguus, “que vivia em Roma e era amigo de Cassiodor” (Flávio Magno ou Magno Aurélio Cassiodoro Senador, 477 ou 490-562 ou 580; ou mais ou menos 580; Jota van den Basselaar; Introdução aos Estudos Históricos, São Paulo, EPU; EDUSP, 1974; pág. 18, 209; e outras fontes), e que, ironicamente (?), não é citado no filme A Vida de Bryant (é assim que se escreve?), estabelece, no século VI d.C., a cronologia cristã, a partir de uma provável data de nascimento do famigerado Jota Cristo. Contudo, esta mesma data é imprecisa, pois entre a.C. e d.C., falta o Ano Zero (A.C. ou A.Z.), correspondente ao nascimento do titular. Inda mais: o exíguo Dionísio se entrega à magna tarefa de situar a Era Cristã no tempo histórico, no entanto, seu próprio feito flutua no interior de um lustro (alguma data entre os anos 527-532 de sua –nossa- cronologia; 1100 anos após o nascimento de Platão, aproximadamente).

O livro de Marsilio Ficino foi publicado em 1469, A.D., ou seja: 113 anos antes de entrar em vigor o calendário gregoriano, fato este que se deu em outubro de 1582, numa noite na qual, no decorrer de algumas horas, passou-se de 4 para 15 de outubro, ou, para atualizar os dados, de 25 de outubro para 7 de novembro (datas que serão um marco no século XX). Quando Ficino diz 7 de novembro, alude a essa data no calendário Juliano (25 de outubro), que não foi abolido simultaneamente por toda a cristandade. Os russos adotaram o calendário gregoriano após a Revolução de (25) de Outubro (7 de novembro a partir de então.Não me escapa a diferença de 3 (três) dias entre aquela noite de 1582 e as datas de 1917, porém, esta a cronologia  vigente). Os gregos só admitiram este calendário entre as duas guerras mundiais (1923, A.D.).

Depois de toda esta prestidigitação numérica, como estabelecer com precisão a data de 7 de novembro de 427-346 a.C., como aniversário de nascimento e morte, respectivamente, do inventor do Amor Platônico? Contudo, se esta for confirmada, teremos que, no decorrer de 2500 anos, na mesma data, primeiro morre o Pai dos Filósofos Idealistas e, depois, a plebe ignara, tão detestada pelo autor d’A República, toma o lugar da aristocracia (ainda que russa, não importa, o que vale é o conceito).

Isto não é fundamental, desde logo. Mera coincidência (?), poderá dizer um ficcionista pouco rigoroso, não fosse a pretendida exatidão histórica de Ficino e seus asseclas, vítimas da superstição documental.

O século XX é o século da revisão, da releitura, da documentação e da informação. A fotografia, o rádio, a televisão, o cinema, o computador, são os atuais instrumentos do oráculo. A fé cega na tecnologia áudio-visual não permite ver que a democratização do (pelo) consumo, faz com que toda pessoa que tenha acesso àquela está apta para forjar qualquer “documento”. Deste modo, a precisão histórica poderia ser uma questão de oportunidade. Ou então ela não é a confluência de datas, locais, personagens e circunstâncias.

No caso de Ficino há atenuantes. Se pensarmos que a renascença entende por humanizar criar e aplicar medidas a todos os fenômenos, a cultura grega, redescoberta – inventada? – pelo renascimento italiano, não podia – nem devia – ficar imune à nova corrente do pensamento. Tudo devia se ajustar à Divina Proporção e ter uma aparência cientifica, sugere a historiografia atual. Se não existem provas, tanto pior, urge criá-las. Também é conhecida a atitude bajuladora dos poetas em relação aos seus patrocinadores, e nada podia ser mais agradável ao espírito maneirista do que esse espelhamento proposto por Lorenzo, encenado por Bandini, registrado por Ficinoi e festejado pelo professor Nunes.

A precisão deste consiste em reproduzir, ipsis verbis, o trecho correspondente do florentino. Um jeito de lavar as mãos com sabonete de luxe numa bacia de prata de Benvenuto Cellini poderíamos dizer se fôssemos dados a preciosismos. Não dizê-lo demonstra nosso extremado bom gosto e imensa modéstia. Prova, outrossim, a enorme distância que medeia entre o ismo renascentista e nosso sóbrio credo estético.

No que diz respeito às circunstâncias da morte do filósofo, devemos acreditar mais na segunda versão do que na primeira? Nada o impede, mas tampouco nada o autoriza. A troca de uma data, do motivo do banquete, não faz diferença a esta altura das olimpíadas. É como trocar a letra inicial ou esquecer o acento de um nome, quando o portador deste é conhecido: uma questão de somenos importância, em suma.

A exígua superfície do guardanapo foi preenchida, interrompendo o fluxo destas digressões pra lá de acadêmicas.

(Jota L. – jan. ’97)

Jota L., que comete o mesmo pecado que condena (a menos que seja uma armadilha), incorporou a anotação acima ao livro O Renascimento (R.J., Agir Editora, 1978; vol. Nº 3072) respeitando a paginação e o colofão, como se desejasse deixar constância de sua leitura. O fato tem algo de Trem Fantasma (brinquedo maneirista?).

Parece-me que o discurso que se inicia no último banquete de Platão, interrompido pela morte de Porfírio, recuperado por Lorenzo, reproduzido por Bandini, citado por Ficino e mencionado pelo professor Nunes na palestra comentada por Jota L. vinte anos mais tarde, ilustra um mecanismo que alguém já atribuiu ao Espírito. Nos espelhos não é a superfície do vidro a que produz o reflexo, mas uma virtude do azougue do reverso.

Penso em Jota L. a partir de sua nota: como se (me) acenasse do espelho; e há algo de inquietante em seu gesto “anônimo”. Este gesto é realizado do vazio para o vazio. Jota L. não podia ter certeza de que seu texto fosse recolhido por alguém (talvez seja esta incerteza o verdadeiro motivo do meu próprio texto. Também, talvez, algo como solidariedade com a voz solitária. Seu discurso, que tem prefácio preâmbulo prólogo prelúdio polifônico, termina num solilóquio.).

Duvido quanto à inclusão numa certa pasta vermelha (futuro “livro” xerocado). Não deveria anexá-lo a outro volume do livro em questão, em continuidade ao enxerto de Jota L., individualizando-o, como o meu volume foi individualizado pelo texto dele? E depois? Sub-repticiamente deveria abandonar o livro numa prateleira poeirenta de algum sebo crepuscular, para que outro leitor…

Embora pudesse – por que não? – citar o fato no meu “livro” (que não terá circulação comercial) e que talvez, por uma desejável e imprevisível confluência de circunstâncias, chegue às mãos desse outro leitor (ou às mãos de Jota L.), e este, apenas este…

Cada vez há menos material disponível para os arqueólogos uma vez que diariamente há novas descobertas arqueológicas. Vivemos a era da Realidade Virtual, em outras palavras: do simulacro, então, por que não contribuir para a manutenção daquela sadia atividade esportivo-cultural?

Naturalmente, não poderá ser meu exemplar o achado arqueológico. Ele já está identificado pelo meu ex-libris (e pelo texto de Jota L.).

Procurar outro volume de O Renascimento, tal a tarefa que me impõe o texto. Tarefa difícil para quem sempre alimentou sua leitura com refugos dos alfarrabistas – o que alguma vez lhe deparou o raro prazer de adquirir um livro fora de circulação há muito tempo –, porém imprescindível, e sem cuja execução todo o precedente é letra morta. (J. Ele – fev. ’97)

Missão cumprida, o volume Nº 1479 já está novamente em circulação. Fim das peripécias de um leitor de raridades bibliográficas (que fatigados e vulgares os conceitos “livro inédito”, “livro encalhado”!).*

*Esta nota não figura no livro-objeto. Encontrei o exemplar citado num sebo de São Paulo, todavia, para não interromper o fluxo de leitura proposto pelos textos, deixei-o na prateleira crepuscular de outro sebo depois de xerocado, segundo o ilustre leitor pode conferir (esta é uma versão gráfica atualizada do texto xerocado.).

Como tomei conhecimento da nota? É uma longa história que contarei em outra ocasião. (J.L.)

O ESTADO FALIU – por moacir pereira / ilha de santa catarina

  • O cidadão brasileiro nasce, cresce, estuda e continua o estudo para obter um emprego decente. Mata-se no trabalho para constituir família em busca de paz, segurança e felicidade. Mas o governo abocanha mais de 40% do que ele ganha só em impostos diretos e indiretos. A arrecadação do governo federal, dos estados e municípios bate recorde todos os meses. O contribuinte vai conferir o retorno e vê que os serviços públicos minguam. O balanço é um desastre. Se desejar algum futuro digno para os filhos tem que ignorar a escola pública, que raramente tem qualidade, e vai pagar matrícula na escola particular. Começa o desembolso já nos primeiros anos de vida.

    Pretendendo alguma proteção para a família, corre o risco de morrer na primeira consulta se recorrer a um posto de saúde ou a um hospital público. Para garantir assistência médico-hospitalar reserva parte da poupança para o plano privado de saúde.

    A segurança pública é outra lástima. Em passado recente, o cidadão procurava proteger-se e à família, murando a casa. Fragilizado com o aumento da criminalidade, partiu para grades pontiagudas. Constatando insuficiência, partiu para o alarme eletrônico. Depois, contratou empresas de segurança. Agora, tenta se proteger da bandidagem com câmeras, cachorros. Tem muita gente que mantém guaritas com segurança privada 24 horas.

    Com o avanço da especulação imobiliária e as construções predatórias, sem mínimo planejamento que humanize a convivência social, nas cidades litorâneas o cidadão parte para outra alternativa privada ao verificar que o poder público omite-se criminosamente na poluição das praias, das lagoas e dos rios. Surgem os modernos condomínios com múltiplas piscinas. O cidadão vai à praia, mas não pode mergulhar, porque o Estado não cuidou de preservar as águas do oceano.

  • INCENTIVOS

    Assim, o contribuinte paga os impostos mas não tem o retorno fixado pela Constituição. Tem mais. O poder público não garante educação elementar para as famílias mais pobres, com uma campanha escancarada de planejamento familiar. Resultado: repetem-se nos meios de comunicação cenas tristes de meninas com 15 ou 16 anos, grávidas e agarradas por três a quatro outros filhos menores. Muitas vezes, vivendo em condições miseráveis, sem que se vislumbre um futuro para estas crianças.

    As migrações continuam de forma assustadora. Em Florianópolis, o cenário de deterioração não acontece apenas com as construções que se multiplicam sem um plano diretor que mantenha as belezas, o espaço verde, até o ar que se respira. Em bairros próximos do Centro e, em especial, no Norte da Ilha, o crescimento desordenado, com casebres e ranchos em servidões estreitas improvisadas que se consolidam com o asfalto da prefeitura, agredindo qualquer conceito de vida urbana.

    Famílias inteiras, sem mínimas condições de trabalho, chegam todos os dias na Ilha, vindas de diferentes estados. Invadem áreas de risco, ocupam beira de rios, constroem nos morros desprotegidos – tudo sem qualquer controle do poder público.

    Problema que não é de hoje, mas que continua se agravando. E quando estes grupos periféricos são atingidos por calamidades, outra vez o contribuinte é que paga a conta. Como ocorreu agora na favela do Papaquara, os invasores que poluíam o rio vão para a televisão “exigir seus direitos” . E, ao invés de financiar a compra do terreno e da casa, proibindo a venda futura, mediante prestação de serviços, a prefeitura doa R$ 10 mil e um aluguel permanente. Um incentivo para novas invasões.

    Omisso, falido e incapaz de planejar e conter as migrações, o poder público cria e estimula o bolsa-invasão.

Justiça chilena investigará pela primeira vez a morte de Salvador Allende


Ex-presidente morreu em 11 de setembro de 1973 no Palácio de La Moneda, durante golpe que levou Augusto Pinochet ao poder

 

 

Como parte de ação requerida por uma promotora, a Justiça chilena investigará pela primeira vez as circunstâncias da morte do ex-presidente Salvador Allende durante o golpe militar de Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973.

“Allende não tem uma causa dentro do poder judicial”, disse a promotora da Corte de Apelações, Beatriz Pedrals, que deu entrada na ação pelas mortes do presidente e de outras 725 pessoas, incluídas em casos de violações dos direitos humanos durante a ditadura (1973-1990) e nunca investigadas.

Foto: AFP

Foto não datada do ex-presidente chileno Salvador Allende (1908-1973) o mostra discursando durante o 5º aniversário do Partido Comunista do Chile

As ações foram iniciadas depois da constatação, pelo magistrado encarregado de coordenar os casos de violações dos direitos humanos, Sergio Muñoz, de que existiam muitos casos de vítimas que não haviam apresentado nenhuma queixa.

O ex-presidente Salvador Allende morreu em 11 de setembro de 1973 no Palácio de La Moneda – a sede presidencial – durante o golpe de Estado que levou ao poder Pinochet.

Uma necropsia determinou que Allende se suicidou, apesar de os resultados continuarem sendo questionados por alguns setores políticos e de direitos humanos.

“O que não se investigou, a Justiça investigará”, afirmou Pedrals, expressando a vontade da justiça de “averiguar tudo o que aconteceu, com uniformidade de critério”.

As novas ações referentes aos 726 casos sem investigação têm origem numa gestão realizada pelo poder público em 2010.

“No ano passado, foram revistas as listas de vítimas do Informe Rettig, e cruzamos essa informação com as ações abertas até o momento, verificando que existiam muitos casos sem representação”, explicou uma fonte do Poder Judiciário.

 

O juiz Muñoz determinou que os processos desse tipo sobre as vítimas devam ter um prazo final de investigação, pois, segundo ele, não é aceitável que se perpetuem no tempo. Por isso, a Justiça se encarregará de que sejam realizadas as diligências necessárias.

A notícia foi bem recebida pelo Grupo de Familiares de Presos Desaparecidos. Sua presidente, Lorena Pizarro, classificou de “potente sinal por parte dos outros poderes do Estado”.

“Nenhum crime pode ficar sem investigação. Estamos falando de mais de 700 casos que nunca foram investigados, incluindo o de Allende, o que torna necessário uma resposta com uma força maior”, declarou.

Segundo Pizarro, muitas famílias entraram com ações judiciais, mas a Justiça não chegou a investigar todas. Pedrals explicou que as ações compreendem casos de presos desaparecidos e mortos “por quaisquer razões”, como, por exemplo, pessoas que morreram vítimas de balas perdidas em manifestações.

Cerca de 3 mil morreram ou desapareceram nas mãos da ditadura de Pinochet. Até a presente, 560 militares são processados por esses crimes.

AE

 

WALMOR MARCELLINO, poeta e pensador, faria 81 anos hoje! continuamos sentindo sua ausência.

UM VERSO

O verso, ai
eu e tu, ai
nos cruzamos
bailando ao vento
O verso escreve
não fala, ai
que nos amamos
Um verso vive só
o que pensamos
O verso vem depois
que nós vivemos

Walmor Marcellino

o poeta MANOEL DE ANDRADE e o poeta e pensador WALMOR MARCELLINO no lançamento do livro CANTARES do MANOEL.

QUE SE CUIDEM OS MANIPULADORES – por rodolfo costa lima / rio de janeiro



A história do desenvolvimento da comunidade humana certamente se confunde com a evolução dos mecanismos de comunicação e informação que, ao longo do tempo, o homem foi estabelecendo. Primeiro prevaleceu  a oralidade, e houve um tempo em  que era em torno da fogueira que aconteciam  as narrativas dos mais velhos, que  buscavam perpetuar  o conhecimento de fatos passados e sobre eles apresentavam sua visão de mundo , transmitida para os atentos ouvintes de então.

De lá para cá, muitos momentos construíram a evolução  desse  processo informativo , com as primitivas formas  de escrita passando pelas marcas nas cavernas, pelo papiro e o pergaminho. Mas o marco divisório surgiu com o advento da imprensa, pela óbvia ampliação das possibilidades de acesso múltiplo ao conhecimento.

Entre os dias da invenção de Gutenberg e o nosso tempo, muita notícia aconteceu, veiculada pel o telégrafo, o telefone, o rádio. O rádio, aliás, ainda hoje imbatível quando se trata de atingir a todos os rincões, mantém, para os saudosistas como eu, a possibilidade de nos fazer , de alguma forma, participantes daquilo que nos é transmitido , pois a  imaginação  complementa o que é captado pelos ouvidos . Quem viu “A Era do Rádio”, sabe como Woody Allen trata do tema com maestria insuperável. E quem ouviu,  por anos,  o “Repórter  Esso”,  quem viveu emocionado os seriados dos heróis  da Rádio Nacional e as quase pioneiras e não menos heroicas transmissões esportivas dos jogos da seleção brasileira no exterior, sabe bem onde, pel o rádio,  nos levava a imaginação.

Não morreu o rádio, mas é inegável a supremacia que sobre ele  a televisão acabou por exercer, com a sedução da imagem, da cor, dos efeitos especiais, dos avanços tecnológicos. A televisão é um dos ícones do planeta globalizado, abrindo com imagem e som o mundo aos nossos olhos e ouvidos. Com sua magia, vem sendo, ao longo das últimas décadas, o principal veículo de informação das grandes  massas , assumindo, em muitos lugares – e o Brasil é um exemplo  – uma posição   de tal hegemonia que o seu noticiário acaba determinando comportamentos e fundamentando posicionamentos por parte dos espectadores.

Por isso, não é um assunto menor – e que apenas deva ser tratado à luz de superficiais afirmações de liberdade – a discussão sobre um efetivo controle da informação prestada pela grande mídia (a TV em particular). É fácil perceber que, ao longo do tempo, ela foi assumindo status de poder, introduzindo  visão ideológica parcial  e postura de partido político quando da veiculação de notícias e, nesse sentido, manipulando a informação , nela inflacionando alguns aspectos e minimizando outros ao sabor de suas conveniências. Vimos isso nas eleições, com a hipocrisia de um comportamento partidário que procurava afirmar-se imparcial. Vemos isso no aproveitamento sensacionalista e não raro tendencioso com que alguns jornalistas tratam as grandes desgraças nacionais (em algum lugar, li a expressão “showrnalismo”), nelas vendo a mórbida oportunidade de fazer proselitismo político. Não se nega a função social da mídia, mas é preciso repudiar sempre a manipulação da notícia, o tratamento comprometido dos fatos.

Aqui, duas menções a artigos do DR. O primeiro, do Urariano Mota, que fala dos profissionais assessores (ou serão “assessores profissionais”?) dos governos militares e mostra com clareza os seus comprometimentos – não muito diferentes dos da atualidade – com ideias que sabotam a notícia a serviço de outros interesses. O segundo, da Leila Cordeiro (“O que acontece com o JN?”),  que revela como funciona (ou não funciona)  o Jornal Nacional e aponta caminhos para a informação qualificada e democrática.

Na caminhada da Humanidade, não há lugar para pessimismos e, apesar de tudo, há fortes sinais de que, no campo da informação, os ventos estão começando a soprar em outra direção, que não a da desfaçatez  que “ideologiza”, “comercializa” ou “espetaculariza”  a notícia.  Está aí a internet, que não faz milagres, mas, mesmo com certos desvios éticos indesejáveis, experimenta crescimento exponencial como instrumento que tem o saudável e avassalador poder de privilegiar a pluralidade e a diversidade no campo da informação.  Ela permite que o até então ingênuo ouvinte ou espectador se transforme em autor da própria notícia, fazendo dele o informante e o informado, pela aberta e democrática possibilidade de filtrar o que interessa, comparar posicionamentos, exercitar juízo crítico, construir (ou reconstruir) a notícia. Ela enseja, além disso, (ou por isso), uma alteração de rumos e de tráfego da notícia, não mais em um caminho de mão única típico de quem manda e quem  obedece, próprio de estruturas midiáticas tradicionais. Ela vem obrigando os Governos a um exercício de transparência capaz de, aí sim, agregar valor às informações governamentais.

Nesse sentido, volto a um artigo do DR, desta vez do Eliakim Araújo, que apresenta dados estatísticos relativos à crescente “perda de audiência” que se vem registrando na TV aberta em relação a outras mídias, o que inclui, obviamente, os programas jornalísticos.

A verdade, já se disse, é que informação é poder e democratizá-la é diluir esse poder, estendendo-o socialmente e fortalecendo os princípios da cidadania. Esse é um imperativo da sociedade do nosso tempo.  Que se cuidem, portanto,  os manipuladores…

A VISÃO – de vera lucia kalahari / portugal

 

 

Eu vi,

 

Corpos negros dançando

 

Num bailado sem fim…

 

Vi corpos requebrando ao vento

 

Como coqueiros  arqueados.

 

Era algo de profundo e magnífico…

 

Vi panos coloridos

 

Desnudando corpos,

 

Esvoaçando e brilhando,

 

Azuis, roxos, negros…

 

Vi  risos e cantos e tambores

 

Ressoando ao sol

 

Numa sinfonia sem fim…

 

Ran…Tan…Tan…

 

E vi a minha terra toda,

 

Meus avós, num bater frágil de asas,

 

Num canto inesquecível, superior à poesia,

 

Surgindo, surgindo,

 

De milhões de palmas, das fontes do eterno frio…

 

Deus… Que futuro imenso para esta terra,

 

Onde o lodo se tornará cristal,

 

E onde a liberdade há-de chegar…

 

Glória a todos os que morreram por ti,

 

Orgulhosos do seu fim,

 

Acreditando num mundo melhor…

 

Quem somos nós para duvidar

 

Que esse tempo tem que chegar?

 

AS SARDINHAS – de julio saraiva / são paulo



as sardinhas
romperam
a tampa
da lata
não estão mais
empilhadas
uma na outra
como
homens mortos
num
campo de batalha
tudo tem cheiro de
mau pressentimento
um frio
na espinha fica
boiando em óleo
comestível

LAÍS MANN no KAPELLE PUB dia 05.02.11 / curitiba

Jurerê Internacional: a elite educadíssima, culta e correta / ilha de santa catarina

Pintou sujeira até no pau da bandeira

Foto Consuelo Rodrigues/ www.mafiadolixo.com
Uma vistoria realizada na quinta-feira em Jurerê Internacional, em Florianópolis, levou à retirada permanente do selo internacional de qualidade Bandeira Azul. O cancelamento foi decidido pelo coordenador do programa no Brasil depois de verificado o não-cumprimento, por três vezes seguida, de critérios estabelecidos para a certificação.
Segundo o comunicado do Instituto Ambiental Ratones (IAR), responsável pela fiscalização dos balneários brasileiros com a bandeira, problemas de gestão, fiscalização e comunicação estão entre os apontados para retirada da certificação. A prefeitura, que é responsável pela manutenção da praia, havia sido notificada em outras vistorias.
tainhanarede.

REYNALDO JARDIM entregou, ontem, as moedas para o barqueiro em Brasilia

Morre em Brasília o jornalista e poeta Reynaldo Jardim

Morreu em Brasília, na noite de 1º de fevereiro o jornalista e poeta Reinaldo Jardim. Com 84 anos, ele foi submetido a uma cirurgia de aneurisma no abdômen, mas não resistiu. Jardim, que viveu em Curitiba durante 12 anos nas décadas de 1970 e 1980, foi editor dos cadernos de cultura dos jornais Diário do Paraná e Correio de Notícias. Criou, junto com a jornalista Marilu Silveira, o suplemento Pólo Cultural, uma publicação revolucionária de arte e cultura no Paraná. Revolucionário também foi o Anexo, suplemento cultural do extinto Diário do Paraná.

Nos seus 84 anos nunca parou de criar. Ficou famoso quando foi convidado, nos anos 1950, a reformular o caderno cultural do Jornal do Brasil, que marcou época na imprensa nacional. O documentário “O Sol” lançado em todo o Brasil em 2005, inclusive em Curitiba, relata a importância do jornal – escola, uma produção alternativa que lançou poetas e jornalistas que depois ficaram famosos, também aí Jardim teve um papel fundamental.

Premio Jabuti

O livro de poemas, “Sangradas Escrituras”, recebeu o premio Jabuti de Poesia no ano passado, edição princeps, patrocinada pelo BB Seguro Auto. Com apenas 300 exemplares,  inédito em Curitiba, tem mil páginas e registra toda a sua obra poética, com ilustrações do próprio artista. Duas pessoas em Curitiba receberam o livro, as jornalistas Dinah Ribas Pinheiro e Marilu Silveira. Em maio de 2010 editou mais poemas na obra “Intima Grafite”.

Uma de suas  últimas vindas a Curitiba foi em 2007 para o lançamento do livro “Jornalismo Cultural, Um Resgate” uma publicação de autoria  de Selma Sueli Teixeira, sobre o jornalismo Cultural em Curitiba, na década de 70. Neste trabalho, a pesquisadora enfoca a trajetória de sete jornalistas culturais daquela geração : Aramis Millarch, Zeca Correia Leite, Reynaldo Jardim , Marilu Silveira, Rosirene Gemael, Adélia Maria Lopes, e Dinah Ribas Pinheiro. Era casado com a jornalista Elaina Daher Jardim com quem teve os filhos Gabriel, Rafael e Micael.  Tereza e Joaquim (este já falecido) são filhos do seu primeiro casamento. Deixa muitos amigos em Curitiba.

enviado por dinah ribas pinheiro.

CABO VERDE – Vista além mar / por jair rattner / cabo verde

 

Separados pelo azul do Atlântico, Brasil e Cabo Verde se unem no passado colonial, na generosidade de seu povo e no animado ritmo que se ouve nas ruas

Um pedaço da história do Brasil repousa, esquecido, do outro lado do Atlântico. Durante quase 150 anos, desde a época dos grandes descobrimentos portugueses, Cabo Verde foi o centro por onde passava o comércio entre as colônias lusas nas Américas, na África e na Ásia.

O núcleo da vida então era Ribeira Grande, na Ilha de Santiago, hoje conhecida como Cidade Velha. Criada em 1462, tornou-se ponto de parada obrigatório na rota entre Brasil e Europa. Tamanha sua importância, a capitania hereditária foi elevada oficialmente à cidade em 1533, quando virou também sede do bispado.

A memória dos tempos áureos segue de pé. A Cidade Velha, hoje com menos de 3 mil habitantes, tem status de Patrimônio da Humanidade da Unesco. Caminhando pelas ruas centenárias, nas quais muitas casas começam a ser reconstruídas, a mente imagina como seria a rotina na antiga Ribeira Grande. Sempre movimentada, a ilha era o centro do tráfico de escravos entre África e Américas e também de prata, das Américas para a Europa.

As terras férteis do vale eram usadas pelos portugueses como laboratório de plantas, antes que fossem transferidas para as colônias. Pela Ilha de Santiago – uma das nove que compõem o arquipélago de Cabo Verde – passaram coqueiros, mangueiras e tamarindos vindos das Índias, hoje espalhados pelo Brasil. Lá foram plantados mandioca, milho e inhame antes de seguirem para a África e a Europa. E os primeiros bois, cavalos e cabras que chegaram ao Nordeste brasileiro passaram antes por Cabo Verde.

Cidade de Praia – Cabo Verde – Praia de São FranciscoJair Rattner/AE

Piratas. Tanta riqueza próxima ao porto atraiu piratas. Um dos maiores ataques foi protagonizado pelo legendário corsário inglês Francis Drake, em 1578. Depois disso, decidiu-se que era preciso reforçar a segurança.

Em 1587, começou a ser erguida a Fortaleza de São Felipe, ponto alto do passeio pela Cidade Velha. A obra estava pronta em 1593 e acabou batizada em homenagem a Felipe II, rei da Espanha. A vida na cidade, então, ficou guardada pelas muralhas.

Cidade de Praia – Cabo Verde – Praia de Quebra CanelaJair Rattner/AE

No entanto, em 1612, outro porto, mais protegido, foi inaugurado em Praia, a 15 quilômetros dali. A data marcou o começo da decadência de Ribeira Grande. Hoje, Praia é a capital do país e reúne um quinto da população cabo-verdiana.

Extraoficialmente, a cidade pode ser considerada também capital da vida noturna na ilha. Em casas como Fogo di África e Quintal da Música imperam os ritmos locais: mornas, coladeiras, funanás e batuques – batukus, em crioulo. Se a pedida for passar um tempo na praia, a melhor da cidade é a de Quebra Canela, de areia escura. Há um único bar ali – com música local nas noites de sexta-feira.

Ilha de São Vicente – Cabo Verde – Barcos de pescadores na praia da Baía das GatasJair Rattner/AE

Extremos. Uma viagem de 70 quilômetros, percorridos em pouco mais de uma hora, leva até Tarrafal, do outro lado da ilha, Ali está o campo de concentração de mesmo nome, criado na década de 1930. Inicialmente, tinha como propósito abrigar presos políticos durante o período da ditadura portuguesa.

Mas a partir de 1954, por pressão de movimentos em defesa dos direitos humanos, passou a receber apenas presos vindo das colônias africanas. Apesar de ser considerado um museu de memória da resistência antifascista e anticolonial, encontra-se bastante degradado.

Depois, deixe as memórias tristes para trás e siga para a praia da Baía Verde, ali perto, considerada a melhor de toda a ilha.

Ilha de Santo Antão – Cabo Verde – Vista das montanhas a partir da foz da Missa Ribeira GrandeJair Rattner/AE

Antes de embarcar

Como ir: O trecho ida e volta entre São Paulo e a capital, Praia, custa desde US$ 1.265 pela TAP. A empresa local TACV tem voo diário saindo de Fortaleza, normalmente usado por sacoleiros cabo-verdianos.

Transporte: Há voos entre as principais ilhas, exceto Santo Antão, onde só se chega de barco. Um serviço de balsas rápidas está em fase de instalação. Nas ilhas, negocie o valor da corrida com o taxista antes da viagem.

Idioma: os cabo-verdianos entendem o português, mas a resposta vem quase sempre em crioulo.

Moeda: o escudo cabo-verdiano é atrelado ao euro, com câmbio fixo. No oficial, 110 escudos equivalem a 1. Mas todos aceitam euros.

OE.

 

 

ORAÇÃO DOS QUE SOFREM DE MEDO – de liberato vieira da cunha / porto alegre



Da sombra incerta que nos ronda, livrai-nos, Senhor.
Do vulto que nos espreita, um brilho de aço na mão, livrai-nos, Senhor.
Do cano frio da arma, dos dedos trêmulos no gatilho, livrai-nos, Senhor.

Das trevas dessa antecipação do túmulo que é a cela acanhada e funda do seqüestro, livrai-nos, Senhor.
Do invasor que rompe as grades de nosso voluntário cárcere e nos arranca do sonho para arrojar-nos no pesadelo, livrai-nos, Senhor.

Do assaltante oculto que nos embarga o caminho de troncos e de pedras, livrai-nos, Senhor.
Do foragido errante, a quem não deram ofício nem emenda,
livrai-nos, Senhor.
Do salteador homicida, clandestino passageiro do ônibus, livrai-nos, Senhor.

Do que devia guardar-nos, mas não se guarda de si mesmo, livrai-nos, Senhor.
Do violador, escravo e cúmplice de sua torpeza, livrai-nos, Senhor.
Do transtornado pela droga, do refém de sua própria, alerta inconsciência, livrai-nos, Senhor.
Do que nos detém no semáforo, do que surge intruso no parque de estacionamento, do que emerge da escuridão da garagem, livrai-nos, Senhor.

Do que semeia ao acaso balas perdidas, livrai-nos, Senhor.
Dos celerados, dos assassinos, dos que cultuam a violência e a crueldade e o ódio, livrai-nos, Senhor.

E dai, Senhor, infância a quem a perdeu;
e pão a quem padece de fome;
e água aos sedentos;
e amor aos que jamais dele provaram;
e um lar aos enjeitados;
e esperança aos deserdados;
e fé aos que penam de dúvida;
e reparação aos injustiçados;
e um norte aos extraviados;
e alívio aos enfermos;
e consolação aos angustiados;
e lenimento aos feridos na carne;
e conforto aos atingidos na alma;

Para que o mundo seja não o Jardim do Éden que talvez não mereçamos; mas para que se converta, Senhor, no sereno abrigo de criaturas que se ousaram crer concebidas à Vossa imagem e semelhança.

Amém.