CABO VERDE – Vista além mar / por jair rattner / cabo verde

 

Separados pelo azul do Atlântico, Brasil e Cabo Verde se unem no passado colonial, na generosidade de seu povo e no animado ritmo que se ouve nas ruas

Um pedaço da história do Brasil repousa, esquecido, do outro lado do Atlântico. Durante quase 150 anos, desde a época dos grandes descobrimentos portugueses, Cabo Verde foi o centro por onde passava o comércio entre as colônias lusas nas Américas, na África e na Ásia.

O núcleo da vida então era Ribeira Grande, na Ilha de Santiago, hoje conhecida como Cidade Velha. Criada em 1462, tornou-se ponto de parada obrigatório na rota entre Brasil e Europa. Tamanha sua importância, a capitania hereditária foi elevada oficialmente à cidade em 1533, quando virou também sede do bispado.

A memória dos tempos áureos segue de pé. A Cidade Velha, hoje com menos de 3 mil habitantes, tem status de Patrimônio da Humanidade da Unesco. Caminhando pelas ruas centenárias, nas quais muitas casas começam a ser reconstruídas, a mente imagina como seria a rotina na antiga Ribeira Grande. Sempre movimentada, a ilha era o centro do tráfico de escravos entre África e Américas e também de prata, das Américas para a Europa.

As terras férteis do vale eram usadas pelos portugueses como laboratório de plantas, antes que fossem transferidas para as colônias. Pela Ilha de Santiago – uma das nove que compõem o arquipélago de Cabo Verde – passaram coqueiros, mangueiras e tamarindos vindos das Índias, hoje espalhados pelo Brasil. Lá foram plantados mandioca, milho e inhame antes de seguirem para a África e a Europa. E os primeiros bois, cavalos e cabras que chegaram ao Nordeste brasileiro passaram antes por Cabo Verde.

Cidade de Praia – Cabo Verde – Praia de São FranciscoJair Rattner/AE

Piratas. Tanta riqueza próxima ao porto atraiu piratas. Um dos maiores ataques foi protagonizado pelo legendário corsário inglês Francis Drake, em 1578. Depois disso, decidiu-se que era preciso reforçar a segurança.

Em 1587, começou a ser erguida a Fortaleza de São Felipe, ponto alto do passeio pela Cidade Velha. A obra estava pronta em 1593 e acabou batizada em homenagem a Felipe II, rei da Espanha. A vida na cidade, então, ficou guardada pelas muralhas.

Cidade de Praia – Cabo Verde – Praia de Quebra CanelaJair Rattner/AE

No entanto, em 1612, outro porto, mais protegido, foi inaugurado em Praia, a 15 quilômetros dali. A data marcou o começo da decadência de Ribeira Grande. Hoje, Praia é a capital do país e reúne um quinto da população cabo-verdiana.

Extraoficialmente, a cidade pode ser considerada também capital da vida noturna na ilha. Em casas como Fogo di África e Quintal da Música imperam os ritmos locais: mornas, coladeiras, funanás e batuques – batukus, em crioulo. Se a pedida for passar um tempo na praia, a melhor da cidade é a de Quebra Canela, de areia escura. Há um único bar ali – com música local nas noites de sexta-feira.

Ilha de São Vicente – Cabo Verde – Barcos de pescadores na praia da Baía das GatasJair Rattner/AE

Extremos. Uma viagem de 70 quilômetros, percorridos em pouco mais de uma hora, leva até Tarrafal, do outro lado da ilha, Ali está o campo de concentração de mesmo nome, criado na década de 1930. Inicialmente, tinha como propósito abrigar presos políticos durante o período da ditadura portuguesa.

Mas a partir de 1954, por pressão de movimentos em defesa dos direitos humanos, passou a receber apenas presos vindo das colônias africanas. Apesar de ser considerado um museu de memória da resistência antifascista e anticolonial, encontra-se bastante degradado.

Depois, deixe as memórias tristes para trás e siga para a praia da Baía Verde, ali perto, considerada a melhor de toda a ilha.

Ilha de Santo Antão – Cabo Verde – Vista das montanhas a partir da foz da Missa Ribeira GrandeJair Rattner/AE

Antes de embarcar

Como ir: O trecho ida e volta entre São Paulo e a capital, Praia, custa desde US$ 1.265 pela TAP. A empresa local TACV tem voo diário saindo de Fortaleza, normalmente usado por sacoleiros cabo-verdianos.

Transporte: Há voos entre as principais ilhas, exceto Santo Antão, onde só se chega de barco. Um serviço de balsas rápidas está em fase de instalação. Nas ilhas, negocie o valor da corrida com o taxista antes da viagem.

Idioma: os cabo-verdianos entendem o português, mas a resposta vem quase sempre em crioulo.

Moeda: o escudo cabo-verdiano é atrelado ao euro, com câmbio fixo. No oficial, 110 escudos equivalem a 1. Mas todos aceitam euros.

OE.

 

 

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