JULIO SARAIVA e sua poesia / são paulo


agnus dei

agnus dei

dai-me asas

asas leves

para voos

sempre breves

.

agnus dei

dai-me a moça

da janela

não me importo

se ela é pura

ou cadela

 

agnus dei

dai-me a infância

que perdi

vendo coisas

que eu menino

não devia ver

mas vi

 

agnus dei

dai-me um porre

sem ressaca

que eu tenho

alguma idade

e a cabeça

me vai fraca

 

agnus dei

fazei de mim

vilão da história

que eu nasci

já torto assim

e me sinto bem

co’a escória

 

 

 

 

 

agnus dei

dai-me a paz

mas não a paz

do homem sério

esta eu dispenso

pois se bem penso

hei de te-la

no cemitério

 

 


poema da difamação do poema

 

o poema deixa-se esparramar

na poltrona rasgada

imprestável

destinada ao lixo

 

última flor do lixo                o poema

 

a merda sente nojo do poema

embora o poema seja a alma podre da merda

 

o poema faz um tour pela cracolândia de sampa

o poema desaba

na sarjeta

o poema grita pela boca

dos que

desabam

na sarjeta

 

o poema respira o hálito que sai

da buceta da puta mais fodida do parque dom pedro

 

o poema atravessa a zona do mercado municipal

o poema vai desaparecer

de-fi-ni-ti-va-men-te

nas águas do tamanduateí

numa sexta-feira à tarde

debaixo

de um temporal

 

 


 

 

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