Arquivos Diários: 9 fevereiro, 2011

Cauby Peixoto, 80 anos / são paulo

A vida e a obra de um artista que já nasceu velho como cantor


 

Foto: AE

Cauby Peixoto durante apresentação em 2004

O homem que completa 80 anos nesta quinta-feira (10 de fevereiro) gosta de se resguardar e de poupar ao máximo as energias que armazena. Anda em passos curtos. Prefere ficar sentado que de pé. Responde com frases curtas às perguntas daqueles que se amontoam ao seu redor numa segunda-feira, o único dia da semana em que ele costuma, religiosamente, sair de casa. “Olha, eu gostaria de sair mais se pudesse, se não fizesse mal. Beber, por exemplo, eu não bebo, porque sei que não é bom”, explica o resguardo, no dia da exceção.

Em algum momento da noite ele soltará de vez a voz, conhecida Brasil afora há 60 anos. E provará que ela, a voz, é a única coisa que ele, o cantor, extravasa sem economia de esforço. Niteroiense radicado em São Paulo, Cauby Peixoto mantém-se há oito anos em temporada contínua no igualmente histórico Bar Brahma, de São Paulo. É ali que ele dissipa a energia ainda acumulada no auge de seus 80 anos.

Na noite de 17 de janeiro, o mítico compositor paulista Paulo Vanzolini abrilhanta a plateia do bar, o que confere simbolismo extra à “cena de sangue num bar da avenida São João” de “Ronda”, interpretada por Cauby três vezes durante o show, em português e em espanhol. A voz de trovão, acredite, está em grande medida preservada. Imóvel, Cauby faz ela verter pelo salão como se fosse o sangue do verso de Vanzolini. A plateia retribui acenando-lhe lenços brancos improvisados em guardanapos de papel. Ele devolve o gesto e o afeto, balançando em gestos mínimos seu lenço de linho.

 

Foto: AEAmpliar

Cauby Peixoto em 1969

“Eu não bebo, não me aborreço muito, tenho uma vida tranquila. Cuido muito de mim, sabe?”, Cauby explica o inexplicável, o fato de ele conseguir ser o único artista brasileiro de sua idade que mantém uma rotina intensa de apresentações e de contato direto com o público. O cantor de “Conceição” chega às 21h30 para o show que começará por volta de 22h30. Entra nas dependências do bar pelo anexo conhecido como Brahminha, atualmente desocupado, onde é montado seu camarim, à base do improviso e da simplicidade.

Concede mini-entrevistas antes de iniciar o show – não gosta de desperdiçar saliva fora do palco, a não ser na hora de contar quais músicas pretende selecionar para o disco de releitura de rocks dos Beatles, que lançará na sequência dos recentes álbuns devotados aos repertórios de Frank Sinatra e Roberto Carlos. Em vez de citar títulos como “Help”, “Yesterday” e “Michelle”, prefere fazer charme, entoando trechos das letras em pronúncia, sotaque e entonação 100% Cauby Peixoto.

As gravações mais antigas de Cauby datam de 1951, e sua trajetória resulta espetacular também pela época peculiar em que conseguiu se impor como artista. Eram os anos 1950, provavelmente o mais extenso e intenso período de transição da música brasileira do século passado.

Havia um mundo que envelhecia, dos sambas-canção românticos, derramados e cantados com toda a força do peito por coriscos vocais como Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves e Angela Maria. Ao mesmo tempo, um novo mundo eclodia, nas vozes estranhamente mansas e gentis de Dick Farney, Lúcio Alves, Johnny Alf, Dolores Duran, Tito Madi, Elizeth Cardoso, Maysa. Essa nova categoria de cantores prenunciava a chegada da da bossa nova, que só aconteceria em 1958.

Cauby pertencia à primeira turma, da cabeça aos pés, passando pela garganta em nada precursora da bossa. Quando surgissem João Gilberto e seus seguidores, ao final da transição, o Brasil aprenderia que Cauby, com 20 anos em 1951, já nascera velho como cantor.

  • Até por essa peculiaridade, ele pode entrar no salão do Bar Brahma em 2011, cercado de seguranças rombudos, pairar por sobre as décadas como se não pertencesse a nenhuma delas – e ainda causar tumulto numa plateia em que prevalecem contemporâneos seus, mas em meio à qual despontam uns tantos nas faixas etárias dos 40, dos 30, até dos 20 anos.

“Essas meninas cresceram e não deixaram de ser minhas fãs”, filosofa Cauby, antes mesmo de pousar os olhos no público do dia. “Acho que só quando eu desafinar é que deixarei de ter fãs. Enquanto eu tiver voz, eu terei o aplauso delas.” Resistem nele a confiança na própria afinação e o imaginário forjado pelo maranhense Di Veras, seu empresário, tutor e pai postiço praticamente o tempo inteiro, desde o início do pupilo até a morte, em 2000. Foi Di Veras quem desenvolveu, logo no princípio, a mística do Cauby arrasador de corações, provocador de desmaios entre as fãs adolescentes, galã caboclo quase hollywoodiano.

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Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura

WOODY ALLEN…- eua

SOU UMA MODA ANTIGA de tonicato miranda / curitiba


para a mulher antiga e àquela passando ali

John Coltrane já se achou moda antiga

também me incluo no mesmo navegar

sou barco solitário longe da vista, vou no ar

terra distante, mapa antigo, amor sem liga

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Nada sou da moda “fashion”, muito embora

aprecie as sandálias novas contornando

pés de moças e até de charmosa senhora

mas me deixem estar no vinho, a um canto

.

Ou podem deixar-me grudado na moldura

quadro desses antigos, de época barroca

eu ali, junto à garrafa numa expressão louca

realçando mais o Ó esgarçado em sua boca

.

A moda não é para mim, mas é como se fosse

ela apenas existe na liberdade do meu olhar

bom de te ver, te degustar como caju doce

na beira do mar, em qualquer beira a te amar

.

Ah, John disto sabia e no seu sax sexy de prata

servia seus sons em bandejas também de prata

dentro delas pernas e poucos panos em realces

gazelas caminhando para o prazer dos alces

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Mas sou mesmo uma moda das mais antigas

ainda trago flores ao amor com bilhete perfumado

me encanto com as saias soltas singelas, calado

digo sim, mil vezes sim, às meias e às cintas ligas

.

O esconder mais do que o mostrar, John sabia

é o que espeta com agulhas finas nosso desejo

não importa qualquer nome serve, todas são Maria

todas merecem as notas do sax e de mim um beijo

 

Espaço Cultural BRDE abre inscrições para propostas de exposições de artes visuais / curitiba

BANCO REGIONAL DE DESENVOLVIMENTO DO EXTREMO SUL 


Interessados em participar das exposições do Espaço Cultural BRDE a partir de julho de 2011 já podem inscrever seus trabalhos. As propostas poderão ser encaminhadas até o dia 31 de março. Para inscrever um projeto, o primeiro passo é entrar no site do BRDE (www.brde.com.br) e clicar no banner “Espaço Cultural”. Lá o candidato terá acesso ao regulamento no qual poderá obter todas as informações necessárias sobre a apresentação das propostas.

Uma equipe de funcionários do BRDE, assessorada por um profissional ligado às artes visuais, fará a seleção dos trabalhos. Os projetos escolhidos devem ser divulgados num prazo de 30 dias após o encerramento das inscrições. Mais informações podem ser obtidas através do telefone (41) 3219-8056, das 12:30 às 18:30 h.

Espaço Cultural BRDE – Mantido e coordenado pelo BRDE – Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, o Espaço Cultural já entrou efetivamente no calendário cultural da capital paranaense. O Casarão, como é conhecido, iniciou suas atividades em junho de 2005, no Palacete dos Leões, construção histórica de Curitiba, e desde então já recebeu mostras das mais variadas técnicas e linguagens, tanto de artistas consagrados quanto de iniciantes. Além das exposições de artes visuais, também possibilitou apresentações de grupos musicais e lançamentos de livros. Contabilizando todos os eventos, o Espaço Cultural recebeu um número estimado de 1.500 visitantes em 2010. Considerado pelos artistas como um espaço nobre, o casarão da Rua João Gualberto, no Bairro Alto da Glória, por si só é uma obra de arte. Foi concluído em 1902, para ser residência da família de Ermelino de Leão Júnior, é tombado pelo patrimônio histórico e é testemunho do ciclo da erva mate, um dos períodos mais prósperos da economia paranaense.

Poliana Dal Bosco
ASCOM
Fone: 41 3219.8035
Fax: 41 3219.8153

www.brde.com.br

A POESIA DE EDU HOFFMANN /curitiba

Medusa

 

você não fica confusa ao sabor

de saber que a semibreve

tem o valor de duas mínimas ?

 

pensando bem, minha musa

de que nos adianta saber

se a soma do quadrado dos catetos

é igual ao quadrado da hipotenusa ?

 

você não dá a mínima

que as medusas são animais hidrozoários

em forma de campainha ou sino

e se as medusas tocam em alguma banda

de samba ou de tango argentino

se as gravadoras as recusam, não interessa

nada disso minha diva é divino

nenhuma voz tão bem professa

 

o que quero ouvir, de verdade

de maneira clara, conclusa

é se o coração que me ama

bate debaixo da sua blusa

 

 

 

 

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Swing

 

 

 

 

tonto, um tanto bambo,

minha vida era um bolero

você quem temperou

e botou salsa, mambo,

rock em roll.

 

minha vida então virou

uma febre que só

eu dancei hula, forró

caí no frevo e no carimbó

 

quantos ritmos menina

faxinaram  minh’alma

você foi a vitamina

que sacudiu minha calma

 

aí deu breque no samba

você me assanhou e vazou

e eu que já me achava um bamba

caí no choro, ah que enfado

ando blue

 

ah a falta que você me faz

perdi o rumo, zerou o gás

no fundo, minha música jaz

 

 

 

 

 

 

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Poema Bugre

 

 

 

 

 

 

o desejo e as carícias

das minhas mãos vaqueiras

aboiando seu perfume

de flor orvalhada do maracujá

 

eu me arranjo

em qualquer rancho

a vida me escreve

t  o  r  t  o

com o seu garrancho

umas rimas tortas

 

mi amore minha amora

em seu regaço em seu rego

deslizam minhas margens

 

 

apaga o lampião

 

uma estrela na ponta-da-língua

a constelação na ponta-dos-dedos

uma serenata de lonjuras