O MARINHEIRO E SEU BARCO de manoel de andrade / curitiba

O Marinheiro e seu barco

 

 

Para: Daniela

 

 

 

 

 

 

 

Lembro-me de um tempo imenso,

de um menino de espumas e areia

do mar que tive em minha infância.

Depois a vida cresceu dentro de mim,

as tardes me acostumaram com os barcos partindo

e no meu pequeno peito nasceu um sonho de marinheiro.

 

Recordo que em mim tudo era barco

e que a existência chamava-me de todos os portos do mundo.

Recordo meus salgados olhos tatuados com invisíveis rotas

navegando errantes sobre o horizonte.

 

Sim, há coisas tristes na vida

como um sonho de criança

quando morre em nosso coração de homem.

E hoje,

quando vejo minha pátria naufragada

e meu povo reconstruir com sangue

seu barco despedaçado,

sinto que em mim renasce transformado

o mesmo sonho antigo;

então meu coração se banha com as águas amargas desses anos

e penso naquele transparente canto de pérolas e algas

que herdei de ondas remotas

em tudo que em mim ficou de verde e de imenso;

e sonho novamente com um visionário caminho para a vida,

com seus barcos de pão e de peixes

com gaivotas jovens

e sua brancura abrindo-se com o amanhecer.

 

E penso o meu tempo

com seus caminhos longos e difíceis

e o sinto com a esperança das águas nas nascentes

e seu deslumbramento da desembocadura.

E mais além

penso em um oceano com novas longitudes,

em uma bússola  de estrelas

guiando meu povo a uma aurora boreal.

E penso nesses povos antigos

que partiram um dia em busca de uma terra longínqua,

em busca de novos campos para suas sementes

e de um berço de sol para seus filhos.

 

Ah irmãos!

quantos mares desconhecidos nos esperam!

Quantos caminhos até chegar à nossa sonhada Canaã!

 

Sim… há coisas belas na vida…

como o homem com seu barco e seu destino

como a alma extraordinária dos camaradas

a ternura escondida em seus punhos

e seus gestos de vida e de amor.

E penso nesse porto ainda distante

no trigo maduro

na doçura das laranjas na próxima estação.

Penso em uma iluminada manhã

quando voltar a pisar o chão da pátria

e  abraçar minha filha bem amada.

 

 

 

Lima, dezembro de 1969

 

 

 

Uma resposta

  1. é isto que eu chamo de belo poema.
    obrigado Manuel.

    solivan

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