AQUI, UM OUTRORA AGORA de ferreira gullar / rio de janeiro

 

É SÁBADO à tarde, cerca das 16 horas. Estou parado na esquina da avenida Rio Branco com a Araújo Porto-Alegre. Às minhas costas, o Museu Nacional de Belas Artes; à frente, à esquerda, a Biblioteca Nacional e, à direita, do outro lado da avenida, o Teatro Municipal.
Diante do teatro está a praça Deodoro, ladeada pelo prédio da Câmara Municipal e pelo bar Amarelinho e os edifícios da antiga Cinelândia. Fora o cine Odeon, os demais fecharam, como o Astória e um outro, o Vitória, que ficava lá atrás, na rua Senador Dantas.
Mas importa é que estou, ali, de pé, às quatro da tarde deste mês de fevereiro de 2011. E o que vejo diante de mim é exatamente igual ao que via em 1954. Passaram-se 57 anos e estou ainda aqui vendo os mesmos prédios, a mesma praça. E o passado inevitavelmente invade o presente e me arrasta com ele.
Estou, agora, num sábado de 1953 e cruzo a praça em direção à Biblioteca Nacional. Vim a pé da rua Carlos Sampaio, onde morava, próximo à praça da Cruz Vermelha. Sábado era um dia vazio. Nos dias comuns da semana, estava na Redação da “Revista do IAPC”, ali perto, na rua Alcino Guanabara, onde passavam amigos que iam ali assinar o ponto, como Lúcio Cardoso ou Breno Acyoli. Lúcio era bom de papo e gostava de um chope; Breno, pirado, mastigava a ponta de um charuto no canto da boca. Além deles, apareciam ali Oliveira Bastos, Décio Victório e Carlinhos de Oliveira, todos entregues à aventura literária.
Mas, no sábado, ninguém aparecia e tampouco vinham, no final da tarde, para o encontro no Vermelhinho, que ficava em frente à ABI. Pior que o sábado só o domingo e dia feriado, quando nem a Biblioteca Nacional abria.
A BN era meu refúgio, meu amparo, minha salvação. Metia-me nela, buscava um livro, uma revista literária e entregava-me aos mais inesperados delírios. Nas revistas francesas, descobri Lautréamont, Antonin Artaud, André Breton, Paul Éluard, René Char. Ou eram seus poemas ou os ensaios sobre eles.
Mas, ao fim da tarde, quando saía de lá e daquele mundo feérico, encontrava-me de novo sozinho e desamparado em plena Cinelândia. Pessoas cruzavam a praça em direção aos pontos de ônibus, que os levariam não sei para onde. Flamengo, Botafogo, Copacabana? Só eu não tinha para onde ir, a não ser para o meu quarto, que dividia com dois desconhecidos e que só apareciam lá para dormir.
Antes perambular pelas ruas do que me deitar naquela cama estreita e ficar olhando, pela janela, a noite cair.
O que me salvava era a poesia, se ocorresse em determinado instante, se me surgisse um verso inesperado. Aí sim, entregava-me àquela viagem, esquecia o quarto, o mundo, a solidão. Pouco me importava, então, se anoitecia ou amanhecia.
Sucede que poema é coisa rara. No meu caso, sempre foi. Quem me dera escrever um poema por dia, alçar voo acima do vazio dos sábados, dos domingos e feriados! Sempre fui cismado com esses dias porque, além de me sentir sozinho, a poesia também preferia ir à praia a me visitar. Já nos dias normais, como disse, metia-me na BN, agarrava-me a uma “Nouvelle Revue Française” e valia-me dos poemas alheios.
Mas houve uma exceção. Foi numa Sexta-Feira da Paixão quando, ao me dar conta de que era dia feriado e por isso o Vermelhinho estava deserto e a Cinelândia também, encaminhei-me sem rumo para a rua do Catete e fui parar no Parque Guinle, entregue ao delírio de um poema louco, cuja erupção teve início exatamente quando cruzava a rua Santo Amaro: “Ô sôflu e luz ta pompa inova orbita”. Naquele momento, em que violentava meu instrumento de expressão, vivia a ilusão de ter chegado ao inalcançável: fazer que a língua nascesse ao mesmo tempo que o poema. Só no dia seguinte, na Redação da “Revista do IAPC”, ao passá-lo a limpo, dei-me conta de que ninguém o compreenderia e que, de fato, havia destruído minha linguagem de poeta… É nisso que dá fazer poema em dia santo.
Essa ocorrência, se não me engano, data de março de 1953. Depois daquele dia, muitas outras vezes me encontrei entre esses mesmos prédios -o teatro, o museu, a biblioteca, a câmara municipal- num sábado ou num domingo, sem ter o que fazer da vida. Exatamente como agora, nesta tarde de 2011.

 

 

Uma resposta

  1. Estávamos eu e o Luiz Alceu Molento (o Lulo); conversando em um bar, sobre produção literária, literatura, poesia… e eis que concordamos em uníssono: Ferreira Gullar é o maior poeta vivo brasileiro. Lendo esta deliciosa crônica do poeta sobre meu Rio de outrora, meu Rio de agora; eu que o abandonei, deixando as hordas de jagunços urbanos o dominarem desde o morro; e as hordas de policialescos bandidos dos mangues intimidarem os escuros dos finais as tardes, fico saudoso do Rio e mais certeza tenho da afirmação feita no bar com meu amigo Lulo. De fato, Ferreira Gullar representa hoje a longevidade da poesia brasileira.

    Esta crônica do Rio e seu centro; do Rio com um passo apenas na Zona Sul; do Rio de 1954, quando lá morava e era criança ainda para ir “à cidade”, como diziam os adultos, quando tinha eu idade infantil; faz me lembrar as tardes. São tardes de poucos anos depois, 1956, 1957, onde quanto mais para a Tijuca e ao Grajaú, mais cedo a noite chegava por força da cortina invencível dos morros. Isto, apesar de hoje termos a ocupação desenfreada de muitas K-45 nas mãos desnutridas e nos olhares vermelhos das infâncias e juventudes perdidas.

    Mas volto a Ferreira Gullar e à sua crônica. Belíssima. Esta crônica-depoimento, não sei de onde Vidal a arrancou. Maravilha. Um poeta se revelando, sem revelar sua poesia – verdadeira delícia. A poesia temos de as ler, sem qualquer tentativa de deslindamento dos seus signos e significâncias diretamente do autor. Tratemos nós de degustá-las como melhor estivermos preparados. Mas a vida do poeta, contada por ele, sem ser narrativa autobiográfica, mas sim com fatos misturados a outros fatos e a outras personagens, representa um presente de alto quilate.

    Neste momento, agradeço aos palavreiros e ao seu editor por receber este presente aqui em minha casa. Já pressinto: a tarde será boa. Caso esfrie um pouco tomarei um vinho em homenagem à tarde, à crônica e ao Gullar. A ele principalmente por estar sempre nos brindando com belezas. Elas, as mais belas que pode desfolhar da eternidade sempre presente em sua velha árvore de autor.

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