ARIJO, O ESCOLHIDO – por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


 

 

ficção caseira

 

 

Três da manhã. Não poderia sair da Fazenda Poema tão tarde, mas o fiz naquele dia. Lembro que desci do carro, nos mil metros da saída, pra atirar na cascavel. A malhada escalava o barranco, entre a estrela africana, quando detonei cinco vezes, acertando três chumbos quentes. A seguir, passei pela sanga do Gervásio, onde dizem, costumam aparecer coisas. Não tava com isso na cabeça. Só lembrava da bela mulher, do caso do Iguaçu daquela vez que tentamos catar um tesouro enterrado. A bela, a esteira e a noite grande.

Pensepensando, elétrico com o assassinato da crotalus terrificus, assim indo ia, até que, outra vertigem, de repente no lado esquerdo da estrada, dois vultos. Uma névoa, aquelas horas, cobrindo tudo. Parecia uma junta de bois, baios, rente ao capinzal. Mas não era. Fundiam-se as imagens, parece, dum homem e uma mulher em claras vestes. A coisa, distendia-se, clareava e escurecia. Parei a camionete quase ao lado, e fixei os vultos. Os seres não poderiam ser desse mundo de nosso Deus. Não se viam os rostos, mas só o gestual e uma voz nasalada. Cobertos com mortalha, ziguezagueavam, na beira da mata. Ziguezagueavam, em círculos, mas sem se afastar. Compreensível a linguagem. A ordem foi: – És o escolhido. Desliguei o motor do carro, nem tentei forçar escape. A coisa, o carro, nada obedecia mais aos meus comandos. Parei por ali, estático, só ouvindo: – Precisamos de alguém aqui. Você é a pessoa ideal. Redargui:

– Calma pessoal, eu não entendo. Não sei do que estão falando… A que um dos germinados me trucou: – Sabe sim, desde aquela lá de Ibirapuitã. Puxei pela memória, terra de meu pai, meus tios no Rio Grande amado. Não sei… não lembro, o espirithado era um primo meu, não o poeta, o parvo de pouca verve, como fui e sou. O espirithato era o outro, que via gente cirandiando a sua frente, pessoas de trajes coloridos em lugares ermos. Meu primo, o Jandir, assombrado, pensei. Devem ter se enganado. Embora, vinha nítida a imagem da visão que tive lá em criança, a grande tela em amarelo e as revelações poéticas. – Não fui eu aquele. Aquela vez… Era o meu primo, argumentei. Ao que sentenciaram que não adiantava blábláblá… que minha índole, minha psique, meu tipo, levava a isso, ao encontro. Pê da vida, tentei mais uma vez a dissuação: – Encontro de quê, tô fora, não sei de nada… Senti o corpo todo pesado e vi um imenso túnel a minha frente. Um túnel que fazia curvas e mostrava lugares, estranhas vias celestes, seres em trânsito, estrelários. Módulos de linguagens, cinéticas aparições. A voz pausada e dupla dos visitantes, me tirou daquilo: – Vai ficar a nossa disposição, sempre que for instado a fazer algo. Isso inclui, contar coisas, relatar em linguagens poéticas ou não… Pá pá pá pá pá pá pá pápápá… Pensei não posso assumir esse compromisso com o além, essas criaturas do espaço, sei lá de onde!? Disse: – Pensem bem, não sou nada, tenho dívidas, problemas, ouço coisas, faço poemas, tô fora daqui, noutra… Peguem alguém daqui mesmo, (da Terra) um cara firme de pés no chão. Uma pessoa centrada, normal. Normalíssima. Até citei, pra enganar os ditos, uns nomes conhecidos de políticos bem sucedidos, mais o padre, uma psicóloga e uns dois ou três vigilantes noturnos. A resposta foi não e não e não. Tinha que ser eu por isso e por aquilo… te te te teteteeeeeeeeeeeeeeeee. Caracas. Que enrosco, pensei, fui me meter. Azar da cobra assassinada. Mal presságio na vinda. O vinho azedo de garrafão, sei lá! Digo pro que restava de mim, melhor partir pro combate. Tentei erguer os braços, naquele golpe de Taekwondo que aprendi em mais de ano e: nada. As pernas então, pareciam de metal e parafusadas ao carro. Só me restou concordar com tudo: de que teria que marcar pessoas interessantes, de bom intelecto, cultura, e vocacionadas ao mistério, e às viagens astrais. No mínimo selecionar seres além do normal, do que é um viver de terráqueo. Cuidar como cuida um filósofo de seus preceitos, temas, vendo o comportamento dos irmãos pés no chão, pra identificar e delatar aos (ora ali) tenebrosos do espaço. Essa era apenas uma parte da esplendorosa e fácil missão que acabavam de me impor. Aos poucos as figuras foram se afastando, mas as vozes, os mandamentos a mim endereçados, vinham claros, claríssimos. Dentro da mata, na pequena clareira, via-se a nave, recheada de luzes intermitentes. Uma figura esguia, de (calculo) uns dois metros e meio com um capacete metálico, e tipo um microfone, onde seria a boca, falava pelos seres assombrosos que me cercavam. –Tem que ser este. Dizia a figura horrenda, provavelmente o chefe da missão. Meus argumentos de haver pessoas mais preparadas do que eu para o que eles queriam, resultava em nada. Nada. Falei:

– O padre Reginaldo, a psicóloga, a repórter Esso, o médico, são pessoas superpreparadas pros vossos objetivos, detém muito mais conhecimento espiritual, mais conhecimento da alma humana do que eu que sou um desastre em conhecer (sequer) sobre mim mesmo…  dos outros então, nem se fala. Etc. etc… Acrescentei ainda: – Sou meio meio-bipolar, sonambulizo as vezes… E mesmo assim a voz do chefão, ecoava como uma serra elétrica, autoritária, alardeante.

– É você que precisamos. E vai ser assim… Falou o dito cujo tremeluzente, que eu deveria especular pessoas, interferir na esfera das relações alheias, freqüentar todos os espaços participados por homens e mulheres e dedurar todos os de seus interesses. Ruim, heim! Ainda mais eu que pouquíssimo me interesso pela vida dos outros. Embora não deixe de ser solidário, na minha prática cristã. O interesse deles era de gente de boa bagagem intelectual, com expansão de consciência, aptas a serem apresentadas nas mais diversas nathuras cósmicas, até como modelos (no campo do ético e do estético), tomadas de conteúdo bom, beirando a sã loucura da criação… algo assim, pelo que entendi. Desesperado, me atirei por nada: – Fiquem com meu carro, minha terrinha, aquelas cabeças de gado e até os cristais de rocha que (nasceram a alguns milhões de anos) e estão enterrados bem fundo ali, perto daquela velha araucária… Mas a resposta era sempre a mesma. – É contigo e mais ninguém. Enloucaram os tranhos que tinha que ser comigo e a madrugada ia passando e nenhuma solução pro debate que se estabeleceu ali. Por derradeiro, apelei pro meu novo livro, em fase de revisão, mil e tantas páginas de ARIJO – O ANJO VINGADOR DOS POETAS RECUSADOS… que estava pra sair logo por uma editora paraguaia… já publiquei um em Assunção, pela nanica YiYi Jambo… que era  importante pra mim, concluir a obra, obsessivamente. Eeeeeeeeehhhhhhhhhhhh… É…  não tenho editor em meu país. Aqui os editores são muito pobres. Querem que o author pague o livro de seu próprio bolso. Ahhhhhhhhhhhhhhh. Um livro (esse meu inédito) grosso, místico, semiótico e subletrado. Um livro maldito, no bendito da invenção. Na enteléquia da proseletílica encontrei você, vestida de branco, envolta num poema úrbico… Deixa pra lá… Um livro que quase deixou um primo meu investido da personagem principal pra sempre, em vingando os não-vingados do planeta. E bastou ele ler apenas três páginas. Perigoso. Muito perigoso esse objeto sígnico. Recebi, quando quase os convencia de não ser a pessoa ideal aos seus intentos, a definitiva sentença.

– Isso, agora tá confirmado, o livro já foi lido, relido por nós e é a chave da sua transferência aos nossos mundos. Não temos mais dúvidas.

Tive um choque, suava frio e tremia. Eu transferido, pra que mundos, meu Deus! Quero só terminar meu livro, cuidar das crianças, tratar aquele gadinho, vitaminar umas éguas de cria, amantes do cavalo Tigre, o Paint Horse, que parece vai me dar bons produtos pra venda. Claro, manter um pequeno sonho de alguns poucos milhares de reais de direitos de author… coisinha de nada… de quem se habilita a criador de casos intelectuais, também serve. Ehhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Curucaca da campina. Pensepensando, astuciei de aceitar tudo, (de mentirinha é lógico) ante o inevitável: – Tá bom eu aceito. Mas minha mesa deve estar sempre farta do melhor alimento, bom vinho, boa cama e sonhos transdeliciosos. A bela do Iguaçu, que correu a esteira da nave aquela vez do tesouro perdido, sempre invadindo nossos espaços terrenos, para o bem da vida, da arte, da literatura, da música, da sensualidade, do desejo e fuga enfim dos problemas.

O poderoso chefão alienígena assentiu que atenderia aos meus pedidos. Lentamente, a nave levantou da clareira, com os seres obscuros da beira estrada e o comandante em chefe, além de outros tripulantes esguios e melancólicos que se encontravam no bólido. Um leve aceno, pairou, suspenso no ar. Aceno de acordo firmado e registrado em cartório do espaço. Coisa de arrepiar…

Ficou pra mim (esse quase-nada) a obrigação, estampada num contrato telepático de alta resolução, de marcar indivíduos, e a cada troca de lua, SINALIZAR AOS CÉUS os caracteres (qualidades) as mais estranhas que sejam com relação aos demais seres terrenos (selecionados).

Como a comunicação se dá telepaticamente, os instrumentos já estão instalados em receptores e emissor (eu no caso) que nunca tive uma dor de cabeça. Agora sofro uma enxaqueca prolongada em certos dias. Sem contar a preguiça, que remete aos orbes mais distantes do espaço infindo, onde o trabalho não existe pra poucos e tudo se resume a transdelírios e viagens interespaciais, após (em regra) ser pago o aluguel, educados os filhos, trabalhado doze horas por dia e enfrentado a fila do SUS, num dos amplos e sem-médicos hospitais da Via Lexyton hidv 5010.

 

 

 

 

 

 

 

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