UMA CARTA – por Z / são paulo


Zuleika dos Reis (na carteira de identidade, no título de eleitor (?) na carteirinha da UBE… em outros “documentos” que tais.)

 

Ah, eu te entendo, como te entendo! Queria entender menos. Eu, no entanto, tento, desesperadamente, o mínimo do movimento inverso: ao invés de me dispersar totalmente em outro(s), como tu, tento ainda uma Z. mínima, um centro mínimo a partir do qual a(s) outra(s) saiam pelo mundo.

Tenho um amigo pessoal que todos os dias manda-me e-mails, com dois pseudônimos que se revezam. Hoje, eu lhe pedi que me escreva com seu próprio nome, S., para que eu possa, em algum lugar da vida, me sentir real, um pouco que seja.

Ele respondeu: “Mas, nós somos tantos! Como vai ser?” Eu retorqui: Apesar disso, de sermos tantos, escreva-me com o seu nome, que eu respondo como Z.,a Z. mínima que me for possível.

Isto escrevemos hoje, meu amigo e eu, esses dois cheios de labirintos, esses nós, que pertencemos, efetivamente, à estirpe dos labirínticos.

Se eu pudesse, me seria cigana, assim como tu gostarias de ser o palhaço de um desses circos de periferia; como não o posso, preciso me vestir o possível de uma Z. qualquer, que não pode, esta Z., pretender a ajuda de uma fé específica ( embora reconheça o poder de todas), nem de psicanalistas, não que os menospreze, longe disso, e ainda menos de livros ou de palavras de auto ajuda ???  (também nada tenho contra elas, fique claro).

Cigana, não das que leem mãos e adivinham futuros, mas porque as ciganas perambulam pelas ruas, o que deve ser mais suave do que se poder perambular apenas por dentro de si mesmo.

Por isso tudo te entendo, ah, como te entendo! Quisera entender menos. Só devo te dizer que desses, como nós, há uma legião, todos espalhados pelo mundo, num país chamado APÁTRIA, título de  conto que escrevi há muitos, muitos anos.

Abraço fraterno de

Z. uma desconhecida.

 

2 Respostas

  1. Ah, Omar! Por que quase todos os seres que amo, incluindo a mim ( que deveria amar-me) têm que viver lidando com essa Dor de se saberem sempre não pertencidos a nada, nem a si mesmos, nem a ninguém? Por que, para que, Omar? E não há, mesmo, como nem para onde escapar, a não ser por instantes, por momentos de anestesia. Ah, meu amigo, como disse certo poeta:” Por que não nasci eu um simples vaga-lume?”
    O pior é que gente como nós é tão fora deste tempo… Hoje o negócio, a regra da maioria é viver simplesmente se utilizando das pessoas e das coisas sem preocupações como ser ou não ser e coisas que tais.
    A gente, quando fere, junto com o ferimento infringido ao outro,sente a ferida arder dentro de nós mesmos.
    Zu.

  2. Me lembro do conto Apatria.
    Seria muito bom que dispusessemos de um espaço físico onde a gente pudesse se concentrar e comentar nossas semelhanças. MAs ai me pergunto,não ia ser como qualquer pais ? Não acabaríamos por nos separar,cada um em seu mundinho ? Pode ser que seja melhor que continuemos dispersos,nós e os outros muitos,nos comunicando apenas de vez em quando.Aspirando por um espaço, que nunca virá, mas que acreditamos que sim,que será só nosso e que será bom. Como ciganos e palhaços, livres, soltos. Pulando e girando, dando cambalhotas,como se só isso importasse,como se só isso fosse real, como se a vida se resumisse neste minúsculo instante no qual nossa cabeça voa e nos sentimos felizes. Joguei a corda fora. Melhor me perder no labirinto, onde me encontro bem, do que seguir a corda até a saída e perceber que o que vou encontrar não faz mais parte de mim.Que pertence ao mundo de S. Onde ele anda com todo o cuidado para não quebrar a ( remendada ) porcelana fina e não se ferir nos cristais partidos.

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