Quase-quase – por sérgio da costa ramos – ilha de santa catarina

Houve uma terra, na ficção do realismo fantástico de Gabriel García Márquez, que era quase-tudo. Os homens eram quase honestos, as mulheres quase virgens e os padres quase santos.

Florianópolis não é apenas a “Terra-do-Já-Teve”. É também a do “Quase-Teve”. Ou, como diria um manecrata de raiz, a “terra do quash-quash”.

Quase tivemos três pontes em 20 anos. A Colombo Salles seria dupla, em 1974. A Pedro Ivo, em 1989, seria a terceira.

O governo “quase” reformou a Ponte Hercílio Luz. Falta consertar o principal – os tirantes que sustentam as pistas sobre o vão livre de 340 metros.

Quase tivemos o Grande Hotel da Ponta do Coral. Essa ponta da Ilha continua lá, entregue ao lixo, enquanto o projeto dorme numa gaveta da Câmara Municipal.

Quase tivemos a ligação Ilha-Continente, ao Sul, do Pântano do Sul a Paulo Lopes. E arrisco dizer: quase teremos uma ponte entre a Beira-Mar Norte e a Ponta do Leal.

Quase tivemos vários “Quase”. Como a moderníssima Arena Florianópolis, estádio para 60 mil pessoas, concebido para a nossa quase-participação na Copa do Mundo de 2014.

A Ilha “Quase-Teve”, em outubro de 1994, um transporte coletivo marítimo, embora o seu principal instrumento se revelasse inadequado: os barcos selecionados eram “catamarãs” – e não ferries.

Os terminais que seriam servidos pelas novas linhas – nas baías Sul e Norte, Ponta do Leal e São José – não foram construídos, a não ser um atracadouro “experimental”, às margens do aterro da Prainha, fundos do atual centro de convenções. Tratado com amadorismo, o projeto não “navegou” para fora do papel, revelando-se mais um “factoide”. Ou seja: um quase-terminal, uma quase-linha marítima, uma quase-experiência.

No início do século 20, pré-Ponte Hercílio Luz, as lanchas venciam a distância entre o Miramar e o trapiche da Florestal em 12 minutos, desde que o mar estivesse calmo. Do Estreito para a Ilha, em dias de vento sul, a navegação se baldeava para a Baía Norte, nas enseadas abrigadas do velho vento de Cruz e Sousa.

Os “lanchões” viveram os seus dias de glória em plena belle-époque, de 1878 até a inauguração da ponte, em 13 de maio de 1926, às 13h, quando o governador em exercício, Antônio Vicente Bulcão Vianna, descerrou a fita da grande obra de Hercílio Luz.

O serviço de “travessia” do canal funcionava das sete da manhã até as oito horas da noite durante o inverno. No verão, a última lancha zarpava às nove da noite. Havia um “quê” de romantismo nesse “último ônibus das 9”, os casais iluminados pela luz bruxuleante dos candeeiros da lancha “Zury”, refletindo seu lume nas marolas do Miramar.

O transporte pelo mar, numa época de engarrafamentos selvagens, merece o estudo sério e o empenho dos governantes, à margem dos habituais “tubos de ensaio” pré-eleitoreiros.

Não há cidade marítima que despreze a líquida estrada que o Senhor espalhou pelos sete cantos do mundo. Além de ser belo, o mar é econômico, ajuda a desafogar o trânsito em terra firme – e, o melhor de tudo – não enriquece as empreiteiras de sempre.

Pois é: quase tivemos um transporte marítimo. Quase tivemos uma boa ideia, quase vivemos o sonho de ter vencido o Minotauro dentro do seu labirinto.

 

Uma resposta

  1. Prezado Sérgio da Costa Ramos.
    Não é só em Santa Catarina o quase-quase. No Paraná quase tivemos uma nova estrada de ferro ligando Curitiba a Paranaguá, nosso porto marítimo; idem duplicação de várias estradas de rodagem; idem políticos honestos; idem governos voltados para Educação e Saúde; idem impunidades para foras da lei. Quase-quase também para governadores e prefeitos que continuassem obras iniciadas por seu antecessor de outra filiação partidária. Aliás, tantas coisas e fatos parecem ser uma característica do nosso país. [ ]’s tristonhos. Juca.

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